domingo, 7 de junho de 2009

O Discurso de Obama: Opiniões

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De Mauro Santayana, do JB:

O DISCURSO DO CAIRO

por Mauro Santayana

Pouco importa o que virá depois, porque nenhum homem, nenhum povo, tem em suas mãos as rédeas da História. A rota do homem na Eternidade é semelhante às estradas nos mapas antigos, nos quais as cidades eram marcadas sucessivamente em uma linha reta, com os dias de jornada entre uma e outra. Não podemos retificar o caminho da civilização, fazendo-o derivar para mais ao Norte ou mais ao Sul do tempo transcorrido. Só podemos nos situar no ponto em que nos encontramos, neste dia, nesta hora, neste minuto. O discurso de Obama, no Cairo, foi para este dia, esta hora, este minuto. Mas este dia é a soma dos milhões de dias passados.

Em razão disso, o presidente foi lá, nas marcas da rota do mapa antigo, para explicar que somos caminhantes de inúteis e ilusórias intolerâncias.

Obama falou aos muçulmanos, na Universidade do Cairo, que segue a tradição de um dos centros de cultura mais antigos do mundo, a universidade islâmica de Al Azhar, criada no século 10. O discurso de Obama foi importante para mostrar o que tem sido a banalidade da insensatez na história dos povos, e o seu interesse político legítimo se situou no falso confronto entre o islã e a cultura judaico-cristã. Ele poderia ter sido mais claro, na contrição que nos cabe, e se ter referido às Cruzadas e à expedição de Juan de Áustria contra os otomanos, vencidos em Lepanto (1571) pelas forças aliadas da Espanha de Filipe II, da República de Veneza e do papa Pio V.

O exame da História – e nisso Obama foi preciso – mostra que os muçulmanos sempre foram muito mais tolerantes diante de outras crenças do que os cristãos. Ele se referiu à Andaluzia, sob o Califato de Córdoba, que, durante sete séculos, não conheceu perseguição contra os cristãos, nem contra os judeus. As três culturas conviveram bem, como atesta, entre outros documentos, as conversações interreligiosas (Libre del Gentil e dels três Savis, de Ramon Lull, no século 13) entre muçulmanos, cristãos e judeus, quando concluem que têm o mesmo Deus.

As palavras do presidente, não obstante as necessárias e fundadas referências históricas, são ditadas pelos desafios da atualidade. Ele foi corajoso, ao dizer que a guerra contra o Iraque não nasceu da necessidade, mas foi escolha política equivocada. Foi ainda mais firme, quando assegurou que "nenhum sistema de governo pode ou deve ser imposto sobre uma nação, por qualquer outra". Mesmo amenizando o discurso – ao afirmar que os americanos têm relações mais fáceis com os países democráticos de modelo ocidental – trata-se de virada histórica na política externa dos Estados Unidos.

Embora cercado de todos os cuidados, Obama deixou claro que, sob seu governo, o Estado de Israel não contará com a carta branca de Washington para fazer o que desejar. Defendeu, de forma destacada, o direito do povo palestino à autodeterminação, dentro de fronteiras estatais seguras. Condenou, sem qualquer concessão, a existência dos assentamentos judaicos nos territórios atribuídos aos palestinos em 1948, bem como outras formas de violência sobre as populações da Cisjordânia e de Gaza. Não poderia deixar de reclamar também o reconhecimento do Estado de Israel pelos palestinos, mas não conseguiu ocultar a sua simpatia pelos menos poderosos, massacrados periodicamente pelo Exército de Israel.

Outro ponto importante foi o reconhecimento de que Washington derrubara um governo eleito democraticamente no Irã. Ele se referia ao golpe patrocinado pela CIA e pelos serviços britânicos, em 1953, contra Mohammed Mossadegh, que nacionalizara o petróleo e obrigara o xá Reza Pahlevi, aliado das empresas estrangeiras, a buscar o exílio.

Ontem mesmo, a direita norte-americana, acampada no Partido Republicano, insurgiu-se violentamente contra o discurso do presidente. O deputado republicano John Boehner, líder da minoria, disse que o pronunciamento do presidente revelava "fraqueza" dos Estados Unidos. Ao contrário: Obama confirmou velho adágio político, o de que só os fortes podem parecer fracos.

O discurso do Cairo foi o mais importante pronunciamento de um presidente dos Estados Unidos no exterior. A História, se ele conseguir torná-lo realidade, poderá registrá-lo como registrou o de Lincoln, em Gettysburg, em 19 de novembro de 1863, em que o estadista curvou-se diante de todos os mortos de uma guerra que a política não conseguira evitar. O Cairo está na linha histórica da velha cidade da Pensilvânia.

A opinião de Khaled Meshall, do Hamás (via Vi o Mundo):

Khaled Meshall, do Hamás, sobre 'recomeço' de Obama

4/6/2009, Joe Klein, Blog The New Republic - http://blogs.tnr.com/tnr/blogs/the_plank/archive/2009/06/04/insta-meshal.aspx

Joe Klein, 63, é jornalista. É autor de Primary Colors, roman à clef, publicado sob pseudônimo, no qual narra a primeira campanha eleitoral de Bill Clinton. Atualmente é membro do Council on Foreign Relations. Desde 2003 é colunista do grupo Time. Em abril de 2006, publicou Politics Lost, ensaio sobre o que denomina "o completo industrial das consultorias e empresas de pesquisa".

Publica regularmente em The New Republic, The New York Times, The Washington Post, LIFE e Rolling Stone

Wikipedia, http://en.wikipedia.org/wiki/Joe_Klein

Joe Klein entrevistou o líder do Hamás, uma hora depois do discurso de Obama no Cairo. Meshal não deu sinais de ter ficado muito impressionado:

"Não há dúvidas de que Obama fala outra linguagem" – disse Meshall. "Foi discurso cuidadosamente construído. O discurso visou, principalmente, a melhorar a imagem dos EUA e a aplacar os muçulmanos. Não nos preocupam os objetivos dos EUA, mas esperamos mais do que palavras. Se os EUA desejam abrir nova página, nós sem dúvida consideramos bem-vinda essa intenção. Estamos prontos para contribuir nesse esforço. Mas não acreditamos que alguma coisa aconteça só com palavras. É preciso que todos vejam atos, ações. Que os EUA mudem o que fazem, não só o que dizem.

Um palestino que tenha ouvido esse discurso só terá uma pergunta a fazer: e por que não falou sobre o que realmente torna nossa vida impossível? Os palestinos 'ouviram', do discurso, que não houve qualquer menção nem à guerra em Gaza nem aos crimes de guerra praticados por Israel." [Mencionou o uso de bombas de urânio e de fósforo.] "Por mais belo discurso que tenha sido, perdeu credibilidade, porque não fez referência à questão de Gaza."

Meshall recusou-se a fazer qualquer concessão ao discurso. Acha que não cabe a Obama opinar sobre o que o Hamás deva fazer (embora tenha dito que o Hamás está disposto a discutir um cessar-fogo formal), sobre ter de reconhecer o Estado de Israel ou sobre os compromissos assumidos pela Autoridade Palestina, em relação a um processo de paz.

Stein perguntou-lhe sobre essa parte do discurso: "Não é sinal nem de coragem nem de poder, disparar foguetes em quartos onde dormem crianças, ou explodir idosas em ônibus. Assim, nenhuma autoridade moral pode impor-se; assim, de fato, a autoridade moral rende-se." Disse Meshall:

"As ações dos palestinos são reações. Os palestinos só fazem resistir à ocupação. São ações de defesa, de autodefesa. Por que os norte-americanos apoiaram os Mujaheddin contra os soviéticos, no Afeganistão? Por que os ingleses apoiaram os franceses, contra os nazistas? Por que os EUA fizeram uma revolução contra os ingleses? Todos esses são movimentos de defesa. De autodefesa."

Stein respondeu que há diferença entre autodefesa e matar civis. "Em todas as guerras sempre morrem civis" – um dos assessores de Meshall intrometeu-se na entrevista. "Os EUA chamam de "dano colateral".


A opinião de Craig Roberts, do Counterpunch (via Vi o Mundo):

Craig Roberts: E agora?

Mas... e fazemos o quê, do discurso dele?

5-7/6/2009, Paul Craig Roberts, Counterpunch - http://www.counterpunch.org/roberts06052009.html

Paul Craig Roberts foi Secretário-assistente do Tesouro no governo Reagan.

É coautor de The Tyranny of Good Intentions. Recebe e-mails em PaulCraigRoberts@yahoo.com

O que fazemos, do discurso de Obama na Universidade do Cairo, no Egito?

Obama disse "Vim ao Cairo em busca de um recomeço, entre os EUA e os muçulmanos de todo o mundo; recomeço baseado em interesse mútuo e mútuo respeito."

Cairo é a capital do Egito, Estado-fantoche dos EUA, cujo governo reprime todas as aspirações dos muçulmanos egípcios e coopera com Israel no bloqueio de Gaza. Ao contrário da Universidade Islâmica de Al-Azhar, a Universidade do Cairo foi criada como universidade laica. A plateia que ouviu Obama na Universidade do Cairo foi plateia secular.

Seja como for, Obama disse palavras surpreendentes que soaram como palavras de esperança para muitos muçulmanos. Disse que o colonialismo e a Guerra Fria negaram direitos e oportunidades aos muçulmanos e resultaram em Estados muçulmanos serem tratados como fantoches, sem atenção às suas aspirações. Disso surgiram "extremistas violentos" que semearam medo e desconfiança entre os mundos ocidental e muçulmano. Falou do Corão, lembrou seu segundo nome e falou de conexões familiares com o Islam. Elogiou as contribuições do Islam para a civilização.

Também declarou sua "responsabilidade como presidente dos EUA, de lutar contra os estereótipos negativos do Islam, onde quer que apareçam.” Reconheceu a "responsabilidade que temos uns com os outros como seres humanos." Reconheceu o direito do Iran "de construir capacidade nuclear para fins pacíficos". Declarou que "nenhum sistema de governo pode ou deve ser imposto por uma nação a outra".

As palavras mais explosivas tiveram a ver com Israel e Palestina: "Os israelenses têm de reconhecer que, assim como não se pode negar o direito à existência de Israel, tampouco se pode negar o direito dos palestinos. Os EUA não aceitam a legitimidade da continuada construção de colônias israelenses."

Obama declarou que "a única solução possível para atender às aspirações dos dois lados é criarem-se dois Estados, nos quais israelenses e palestinos possam viver em paz e em segurança. Atende aos interesses de Israel e atende aos interesses dos palestinos; atende aos interesses dos EUA e atende aos interesses do mundo. Por isso me aplicarei pessoalmente para chegar a esse resultado, com a paciência que a tarefa exige. Os deveres acordados pelas duas partes no "Mapa do Caminho" são claros. Para que se faça a paz, é tempo de eles – e todos nós – fazermos o que é de nossa responsabilidade."

Para que se faça o que Obama se aplicará pessoalmente para que seja feito, Israel terá de devolver a terra roubada na Cisjordânia, derrubar o muro, aceitar o direito de retorno dos refugiados palestinos e libertar o 1,5 milhão de palestinos que vivem confinados no Ghetto de Gaza. Dado que essa é uma coleção de eventos todos altamente improváveis, a "Solução dos Dois Estados" que Obama endossa é solução que teremos de esperar para saber se algum dia acontecerá.

Depois que amainar a atenção eufórica à retórica idealista, Obama será criticado pelas palavras extravagantes que criam expectativas inalcançáveis.

Mas as palavras extravagantes terão sido alguma coisa além de um primeiro ato para engambelar os muçulmanos, para aquietar a Fraternidade Muçulmana no Egito, Estado-fantoche dos EUA, e para fazê-los engolir sem reclamar a agressão dos EUA ao Iraque, ao Afeganistão e ao Paquistão?

Obama prega mudança, mas continua a praticar o que diz que muda; invoca direitos humanos para ganhar a simpatia dos árabes seculares. Admite que o Iraque foi "guerra escolhida", mas que o 11/9 converteu o Afeganistão em guerra necessária.

Obama disse que "os eventos do 11/9" e a responsabilidade da Al Qaeda, não o desejo dos EUA de ter bases militares e de ser hegemônicos, são as razões pelas quais não diminuirá o empenho com que os EUA combatem o extremismo violento no Afeganistão.

Será que os muçulmanos não verão o quanto há de hipocrisia na defesa que Obama fez do extremismo violento dos EUA no Afeganistão e, agora, também no Paquistão?

Al Qaeda, diz Obama, "escolheu matar cruelmente" cerca de 3.000 pessoas no 11/9 "e mesmo hoje reafirma sua determinação para matar em escala massiva." Essas mortes são uma gota, no mar de sangue que as invasões norte-americanas criaram no mundo muçulmano. Mais: a esmagadora maioria dos muçulmanos que os EUA massacraram são civis, como são civis, também, os palestinos massacrados pelos israelenses que massacram com armas norte-americanas.

Contra a Al Qaeda, cujas "ações são irreconciliáveis com os direitos dos seres humanos", Obama invoca a proibição, no Corão, de matar um único inocente.

Obama não vê que as escrituras aplicam-se também aos EUA e à sua "coalizão de 46 países" em armas?

Todas as guerras dos EUA são guerras escolhidas. O mais de um milhão de mortos no Iraque não foram mortos pela Al Qaeda. Nem os quatro milhões de refugiados iraqueanos são refugiados por obra da Al Qaeda. Pois, para Obama, os iraqueanos estão em melhor situação hoje, com o país reduzido a ruínas e um quinto da população extraviada ou morta, porque se livraram de Saddam Hussein, governo secular.

Ninguém conhece o número exato dos mortos e refugiados produzidos pelos EUA no Afeganistão. Apesar disso, disse Obama, "a situação no Afeganistão comprova os objetivos dos EUA e a necessidade de trabalharmos juntos".

Nos 100 primeiros dias de governo, Obama já criou um milhão de refugiados paquistaneses. Israel precisou de 60 anos para criar 3,5 milhões de refugiados palestinos.

O que Obama realmente fez com seu discurso foi aceitar a responsabilidade por implantar a agenda dos neoconservadores, de ampliar a hegemonia ocidental mediante o extermínio dos "extremistas muçulmanos", quer dizer, muçulmanos que querem governar-se eles mesmos, seguindo o Islam como o entendem, não como alguma espécie secularizada e ocidentalizada de falso Islam.

Muçulmanos extremistas são criaturas criadas por décadas de colonização e secularização ocidentalizantes que criaram uma elite que só é muçulmana no nome, para governar povos religiosos e suprimir os saberes islâmicos. Todos os especialistas sabem disso, e a maioria deles saúda o projeto como meio para levar progresso e desenvolvimento ao mundo muçulmano.

Obama disse que "o progresso humano não pode ser negado", mas "não precisa haver contradição entre desenvolvimento e tradição.” Mas é o ocidente quem define desenvolvimento e educação. Essas palavras significam o que nelas lemos, só no ocidente. As mesmas palavras, para os muçulmanos extremistas, significam ameaça de extermínio do Islam.

De modo tipicamente norte-americano, Obama ofereceu dinheiro aos muçulmanos, "desenvolvimento tecnológico" e "centros de excelência científica".

Basta que os muçulmanos cooperem com os EUA e sejam pacíficos... e, então... os EUA respeitarão "a dignidade de todos os seres humanos".

A opinião de Uri Avnery (via Vi o Mundo):

Uri Avnery sobre o discurso de Obama

Discurso de Obama: o tom e a música*

Uri Avnery, 6/6/2009

Um homem falou ao mundo, e o mundo ouviu.

Subiu ao palco no Cairo, só, sem quem o recebesse e sem assessores, e pregou um sermão a uma platéia de bilhões. Egípcios e norte-americanos, israelenses e palestinos, judeus e árabes, sunitas e xiitas, coptas e maronitas – e todos o ouviram atentamente.

Desdobrou à frente de todos o mapa de um novo mundo, mundo diferente, sobre cujos valores e leis falou fala simples e clara – uma mistura de idealismo e política prática, visão e pragmatismo.

Barack Hussein Obama – como cuidou de dar-se nome, ele mesmo – é o homem de mais poder em toda a Terra. Cada palavra que diga é um fato político.

“Um discurso histórico", declararam comentadores, em uma centena de idiomas. Prefiro outro adjetivo.

O discurso foi correto.

Cada palavra em seu lugar, cada sentença, precisa; todos os tons em harmonia. A obra-prima de um homem trazendo nova mensagem ao mundo.

Desde a primeira palavra, todos os presentes na Universidade do Cairo e o resto do mundo sentiram a honestidade do homem; que coração e fala estavam em harmonia; que não é político à moda antiga – hipócrita, solene, calculista. A linguagem corporal e suas expressões faciais falavam claras.

Por isso o discurso foi tão importante. Uma nova integridade moral e um novo senso de honestidade aumentaram o impacto do conteúdo revolucionário. E não há dúvidas de que foi discurso revolucionário.

Em 55 minutos, não só varreu os oito anos de George W. Bush, mas também varreu boa parte de décadas anteriores, desde a II Guerra Mundial.

A nave norte-americana mudou de rota – não com o peso e a lentidão que se espera de um cargueiro, mas ágil como lancha a motor.

Isso implica muito mais que uma mudança política. Chega às raízes da consciência nacional norte-americana. O presidente falou a centenas de milhões de cidadãos norte-americanos, tanto quanto a um bilhão de muçulmanos.

A cultura norte-americana carrega o mito do Oeste Selvagem, com seus 'mocinhos' e seus 'bandidos', com justiça pela violência e duelos ao sol do meio-dia. Dado que a nação norte-americana é feita de imigrantes de todo o mundo, sua unidade parece sempre exigir um inimigo ameaçador que venha do mundo exterior – como os nazistas, os japoneses ou os comunistas. Depois do colapso do império soviético, o Islam assumiu o papel.

Cruel, fanático, sedento de sangue, aquele Islam; Islam como religião de morte e destruição; um Islam que quer o sangue de mulheres e crianças. Esse inimigo capturou a imaginação das massas e ofereceu material para a televisão e o cinema. Ofereceu temas para conferências e palestras de professores e letrados e inspiração renovada para autores mais populares. A Casa Branca foi ocupada por um néscio que declarou uma "Guerra ao Terror" em todo o planeta.

Agora, quando Obama destroi pela raiz esse mito, revoluciona a cultura norte-americana. Varre para o lixo o quadro do inimigo único, sem inventar outro inimigo que o substitua. Prega contra a própria atitude de adversário violento e trabalha para substituí-lo por uma cultura de parceria entre nações, civilizações e religiões.

Vejo Obama como o primeiro grande mensageiro do século 21. Filho de uma nova era, na qual a economia é global e toda a humanidade enfrenta risco de não sobreviver no planeta Terra. Uma era na qual a Internet conecta um rapaz na Nova Zelândia e uma moça na Namíbia, em tempo real; quando uma doença que surja numa vila mexicana espalha-se para todo o mundo em poucos dias.

Esse mundo exige uma lei mundial, uma ordem mundial, uma democracia mundial. Por isso o discurso foi realmente histórico: Obama traçou os contornos básicos de uma constituição mundial.

E enquanto Obama proclama o nascimento do século 21… o governo de Israel está voltando ao século 19.

O século 19 foi o século em que os nacionalismos mais estreitos, autocêntricos, agressivos, enraizaram-se em muitos países. Século que santificou a nação beligerante que oprime minorias e subjuga vizinhos. Século que fez nascer o moderno antissemitismo e a reação a ele: o moderno sionismo.

A visão de Obama não é antinacional. Ele fala com orgulho, da sua nação norte-americana. Mas o nacionalismo de Obama é de outro tipo: é nacionalismo inclusivo, multicultural e não-sexista; inclui todos os cidadãos de um país e respeita os demais países.

Esse é o nacionalismo do século 21, que inexoravelmente buscará estruturas supranacionais, regionais e mundiais.

Comparado a isso, como é miserável o mundo mental da direita israelense! Como é miserável o mundo violento, religioso-fanático dos colonizadores dos "assentamentos" – que são "colônias", não são "assentamentos" –, o ghetto chovinista de Netanyahu, Lieberman e Barak, o mundo racista-fascista fechado nele mesmo, de seus aliados Kahanistas!

É preciso entender a dimensão moral e espiritual do discurso de Obama, antes de considerar suas implicações políticas. Obama e Netanyahu estão em rota de colisão, sim, mas não só na esfera política. A colisão que está em processo é colisão entre dois mundos mentais, tão diferentes um do outro como o sol e a lua.

No mundo mental de Obama, não há lugar para a direita israelense, nem para seus equivalentes em outras partes do mundo. Nem para a terminologia da direita, nem para os "valores" da direita, nem, muito menos, para as ações da direita israelense.

Na esfera política, também, há uma ravina aberta a separar os governos de Israel e dos EUA.

Durante os últimos anos, sucessivos governos israelenses surfaram a onda da islamofobia que se espalhou pelo ocidente. O mundo islâmico foi posto como inimigo mortal, os EUA galopavam sombriamente rumo ao Choque de Civilizações; em cada muçulmano viu-se um terrorista potencial.

Os líderes da direita em Israel rejubilaram. Afinal, os palestinos são árabes; os árabes são muçulmanos; os muçulmanos são terroristas – e assim Israel garantia lugar de protagonista na guerra entre os Filhos da Luz contra os Filhos das Sombras.

Foi o Jardim do Éden dos demagogos racistas. Avigdor Lieberman pôde defender a expulsão dos árabes, de Israel; Ellie Yishai pôde propor leis para revogar a cidadania dos não-judeus. Membros obscuros do Parlamento chegaram às manchetes dos jornais, com leis que pareciam paridas em Nuremberg.

Esse Jardim do Éden acabou. As implicações disso apareçam logo, ou demorem mais para aparecer – têm direção óbvia. Se insistir no caminho em que está, Israel será convertida em colônia de leprosos.

O tom faz a música – o que se aplica também às palavras do presidente sobre Israel e Palestina. Falou longamente sobre o Holocausto – palavras sinceras e corajosas, cheias de empatia e compaixão, recebidas em silêncio pelos egípcios, mas com respeito. Destacou o direito de Israel à existência. E, sem pausa, falou sobre o sofrimento dos refugiados palestinos, a situação intolerável em que vivem os palestinos em Gaza, as aspirações dos palestinos, por um Estado deles.

Falou com respeito sobre o Hamás. Não mais uma "organização terrorista", mas parte do povo palestino. Exigiu que reconheçam Israel e parem a violência, mas também deixou claro que considerará bem-vindo um governo palestino de unidade nacional.

A mensagem política foi clara e inequívoca: a Solução dos Dois Estados tem de ser implantada. Obama pessoalmente se empenhará para que aconteça. A construção nas colônias tem de parar. Diferente dos antecessores, Obama não calou e pronunciou a palavra decisiva: "Palestina", nome de um território e de um Estado.

E não menos importante: a guerra do Iran foi excluída da agenda. O diálogo com Teeran, parte do novo mundo, não tem limite de tempo. De agora em diante, que ninguém, nem em sonho, espere algum "OK" dos EUA, para que Israel ataque o Iran.

COMO o governo de Israel respondeu? Primeiro, a reação foi de negação: "foi discurso sem importância". "Nada de novidade". Os comentaristas do establishment israelense selecionaram algumas poucas frases pró-Israel e ignoraram as demais. Afinal, "são só palavras. Ele fala. Nada acontecerá, de diferente."

Isso é nonsense. Palavras do presidente dos EUA jamais são "só palavras". São fatos políticos. Fazem mudar as percepções de centenas de milhões. O público muçulmano ouviu-as atentamente. O público norte-americano, também. É possível que a mensagem precise de algum tempo para reverberar.

Mas, depois desse discurso, o lobby pró-Israel jamais será o que foi antes do discurso. A era dos “foile shtik” (hídiche, "truques sujos") acabou. A desonestidade matreira de um Shimon Peres, o fingimento traiçoeiro de um Ehud Olmert, a conversa falsa de um Bibi Netanyahu – tudo isso é passado.

O povo de Israel, agora, tem de decidir: ou segue o governo de direita até a inevitável colisão com Washington – como os judeus fizeram há 1940 anos, quando seguiram os zelotes em guerra suicida contra Roma –, ou juntam-se à marcha de Obama rumo a um novo mundo.

* URI AVNERY, 6/6/2009, "The Tone and the Music", Gush Shalom [Grupo da Paz], Telavive, em http://zope.gush-shalom.org/home/en/channels/avnery/1244289868.

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