terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Reconhecer a Palestina

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Excelente artigo do professor Vladimir Safatle na folha - algo raro, aliás, em tal folheto medonho.

Há alguns dias escrevi sobre esta mania que alguns tem de querer relativizar o conflito, de colocar pesos desiguais para igualar a situação - de um lado Israelenses com armas nucleares e do outro Palestinos com paus, pedras e bombas que tomam inclusive suas vidas.

De um lado um Estado moderno, mas genocida. Racial, segregador, enfim, um Estado que nos dias de hoje aplica com maestria os princípios do Apartheid. Do outro, um território - não um Estado em sua capacidade - oprimido, dividido, "bantustanizado", violentado.

E tem quem queira igualar as situações. "Todos cometeram erros". Claro, mas o de Israel foi o de ter "nascido", foi o de existir, banhado no sangue de milhares, quiçá milhões de árabes.

Aqueles que tentam posar de acadêmicos apaziguadores, que tentam contemporizar, acabam caindo no erro - grotesco - de igualar desiguais, de referendar a mera existência de um Estado que, desde antes de sua fundação, já era ilegal, ilegítimo.

Israel desrespeitou e desrespeita todas e absolutamente TODAS as resoluções da ONU sobre a forma como trata os Palestinos, sobre fronteiras, sobre Direitos Humanos, mas alguns dizem que "todos cometeram erros", porque Arafat não aceitou um acordo desigual que o poria de joelhos para sempre.

Os Palestinos erraram, porque não capitularam e aceitaram a humilhação calados em Camp David, ou nas negociações com Tzipi Livni (como cita Safatli em sue artigo), ou nos Acordos de Oslo... Todos acordos feitos sob medida pelos Sionistas e seus aliados para por os palestinos de joelhos, submissos, prontos a aceitar uma tutela criminosa e legalizar décadas de crimes e abusos.

A Palestina resiste, e nenhum erro se compara ao Genocídio.

PS: Recomendo a leitura do artigo do Global Voices sobre o reconhecimento do Estado da Palestina por parte do Brasil, que é citado e tema central do artigo abaixo.
Reconhecer a Palestina

Em agosto de 2008, militantes judeus sul-africanos engajados na luta antiapartheid foram à Cisjordânia. Andrew Feinstein, antigo parlamentar judeu do Congresso Nacional Africano, sintetizou o que todos pensavam: "Isto é como o apartheid". Dois anos depois, o primeiro-ministro britânico, David Cameron, um conservador insuspeito de abraçar causas terceiro-mundistas, declarou, a respeito dos bloqueios de Gaza: "Isto é como um campo de prisioneiros".
Foi tendo em vista o caráter intolerável desse tipo de situação que a diplomacia brasileira, em um ato louvável, reconheceu o Estado Palestino nas fronteiras definidas pela ONU.
Críticos afirmaram que tal decisão em nada ajuda o processo de paz e poderia mostrar engajamento do Brasil em um dos lados do conflito. As duas afirmações são equivocadas.
Primeiro, o processo de paz nunca esteve tão bloqueado como agora. Mesmo aliados tradicionais do governo de Israel, como os EUA, demonstraram várias vezes sua exasperação contra Netanyahu e sua incapacidade de sequer congelar, de maneira efetiva, novos assentamentos na Cisjordânia e construções nos bairros árabes de Jerusalém.
Nada estranho para o líder de um partido (Likud) cuja carta não reconhece um Estado Palestino a oeste do rio Jordão. Nada estranho para um governo cujo ministro das Relações Exteriores, Avigdor Lieberman, tem por objetivo simplesmente criar um Estado etnicamente homogêneo. Algo impensável no interior da noção moderna de Estado.
Nesse sentido, ações como a brasileira servem para demonstrar que a comunidade internacional está cada vez menos disposta a admitir a aberração e a afronta ao direito internacional a que os palestinos estão submetidos cotidianamente. Ela demonstra aos palestinos que a comunidade internacional não é indiferente à sua sorte.
Por outro lado, a posição brasileira não é partidária porque ela é legalista. Há uma lei internacional sustentada pela ONU, o mesmo órgão que criou o Estado de Israel, e ela é clara a respeito do direito dos palestinos a um território e a respeito de suas fronteiras.
Diga-se, de passagem, que a última proposta posta na mesa por Israel (no governo Tzipi Livin) equivalia à construção de um bantustão medonho, e não de um Estado com condições mínimas de autonomia.
Ou seja, ela não era fruto de uma negociação, mas uma proposta de capitulação.
É inegável que os israelenses têm direito a um Estado livre do terrorismo islâmico e reconhecido pelo mundo árabe, mas isso não será conseguido institucionalizando a humilhação contra os palestinos. Melhor seria dar provas efetivas de que a via da negociação pode produzir uma solução global e digna.


VLADIMIR SAFATLE escreve às terças-feiras nesta coluna.
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