Mostrando postagens com marcador Intervenção. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Intervenção. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Líbia: Ilegalidades da "Intervenção Humanitária"

Especialistas divergem sobre a legalidade da intervenção dos EUA e "aliados" na Líbia, sem, porém, sequer chegarem ao fundo da questão, que está além das ações do ditador (até então "presidente" para as potências ocidentais e para a mídia), mas recai sobre a hipocrisia internacional em selecionar a dedo as violações de direitos humanos que lhes interessa punir e criticar.

Paralelos Internacionais?

Uma das razões pela qual as Nações Unidas, através de seu conselho de Segurança, permitiram e apoiaram a intervenção na Líbia está na crise humanitária e na possibilidade de uma resposta armada do governo Líbio "desproporcional" e com exemplar violência contra os rebeldes.

O perigo futuro de uma resposta Líbia (futuro, não imediato) motivou a intervenção. A tentativa de evitar uma crise humanitária que poderia, então, fazer necessária uma ação da ONU para proteger os civis.
O problema em si não se encontra nesta futurologia e na suposta boa vontade da dita comunidade internacional em evitar uma crise humanitária, mas na seletividade desta boa vontade, desta preocupação em defender populações civis de seus ditadores.

Crises humanitárias acontecem todos os dias, sem que nenhuma potência ocidental se prontifique a intervir. A mais recente guerra de Israel contra o Líbano ou mesmo contra Gaza custou a vida de milhares de pessoas, não contou com o apoio de nenhum organismo internacional (ONU nem pensar) e não foi tampouco condenado pelos mesmos países que, hoje, demonstram tanta preocupação com os civis líbios.

Ao mesmo tempo em que ocorre a invasão sobre a Líbia, forças da Arábia Saudita invadem o vizinho Bahrein, mas ao invés da proteção de civis, o objetivo é o de garantir a sobrevivência do regime e protegê-lo da população raivosa. O Bahrein é aliado estratégico dos EUA e do "ocidente" na região. A Líbia, governada ha 40 anos por Khadafi, é inconstante, tende a rompantes de nacionalismo, apoiou o terrorismo internacional de esquerda e hoje é um aliado incômodo da Europa e dos EUA.

Não é preciso ir muito longe para entender que as motivações "humanitárias" na Líbia não se aplicam a países aliados, como o Bahrein, a Arábia Saudita ou Israel.

Intervenção e Guerra Civil

O conflito entre o governo Khadafi e os rebeldes, no início, se desenhava como uma guerra civil e, como tal, não cabia a intervenção de potências estrangeiras.

Conflitos internos entre grupos beligerantes não são passíveis de intervenção, devem ser resolvidos internamente, especialmente quando as potências já haviam escolhido que lado tomar, ao invés de, se as razões fossem mesmo humanitárias, apenas buscar a proteção de civis e no máximo equilibrar o conflito, garantindo o respeito à leis mínimas de guerra.

A noção de "intervenção humanitária", em si, é um contra-senso. Não só por uma intervenção necessariamente levar à morte centenas e milhares de civis, além de destruir boa parte da infra-estrutura de um país, mas também por esta responder apenas a interesses econômicos dos invasores, interessados em se apossar das riquezas do país ou de azeitar sua indústria bélica.

A este último, o pensador marxista Istvan Meszarós deu o nome de Crescimento Canceroso, quando o capitalismo precisa de uma guerra para fazer a economia voltar aos eixos. É preciso não só investir na economia de guerra (indústria bélica e todo o setor que dele depende), mas também aquecer a economia numa posterior reconstrução do país arrasado pelos ataques.

É uma política de ganhos exclusivos para as potências invasoras, em que o país atacado serve como laboratório e ficar a mercê de interesses estrangeiros.

Não se trata de defender Khadafi, mas de denunciar as intenções por detrás da intervenção.

Precedente

Ao intervir na Líbia, os EUA garantem que, ao menos, terão algum papel na transição e podem ditar algumas regras. Com o país destruído, com a infra-estrutura prejudicada, os EUA surgiriam rapidamente como fonte de financiamento e apoio ao país necessitando de investimentos e rumo.

O petróleo viria como bônus.

A intenção dos EUA era a de intervir de qualquer maneira, e já existia um precedente: o Kosovo.

Durante o conflito do Kosovo com a Sérvia os EUA intervieram ilegalmente, junto com a OTAN, para defender o lado Kosovar. A ONU foi forçada a fingir que não via nada e a apoiar posteriormente, constrangida, se responsabilizando pela pacificação posterior e pelo processo de reconstrução do país.

A ilegalidade ficou patente com a falta de reconhecimento posterior por parte mesmo de tradicionais aliados dos EUA, como a Espanha - temerosa de que o reconhecimento pudesse incitar ainda mais o nacionalismo Basco e Catalão (e em menor parte, o Galego), que constantemente ameaçam a unidade do país.

A Ilegalidade da Resolução 1973 e a no-fly zone

Em 17 de março foi aprovada no Conselho de Segurança a Resolução 1973, que aprofundava o embargo econômico e de armas à Líbia e introduzia duas novidades:

A imposição de uma no-fly zone (área de exclusão aérea) e a necessidade por parte dos países membros da ONU de garantir a proteção aos civis, a todo custo. Uma no-fly zone significa uma área em que nenhum avião pode deixar o solo sem a permissão das Nações Unidas, impedindo desta forma ataques com aviões e bombardeios contra os rebeldes e alvos civis no leste da Líbia, região não mais sob controle governamental.

A Resolução 1973 foi aprovada por 10 a 0, com 5 abstenções, deixa clara a permissão aos Estados-membro da ONU não só de proibir o vôo de qualquer aeronave líbia, mas também pode também ser interpretada como permissão para o bombardeio de aeroportos e de infra-estrutura usada para guardar aviões ou pistas usadas para pouso e decolagem.

A resolução, em momento algum, permite às forças dos EUA e aliados atacar palácios de Khadafi ou buscar derrubá-lo, assim como não permite o bombardeio de caminhões, carros e tanques militares em trânsito em qualquer parte da Líbia.

Os ataques "seletivos" que EUA e aliados vem fazendo contra instalações militares sem qualquer relação com a imposição de uma no-fly zone são, enfim, totalmente ilegais. Assim como são os ataques com o objetivo de derrubar Khadafi ou de atacá-lo diretamente.

A intenção da resolução é clara, a de impedir a morte de civis e a de tentar equilibrar o conflito, mas não dá qualquer permissão ao "ocidente" de impor um resultado a este.

Havia a certeza de que os EUA iriam intervir de uma forma ou de outra, logo, melhor que fosse sob os auspícios e limites da ONU, mas, mais uma vez, a ONU demonstrou sua inutilidade e em momento algum nem o secretário geral, nem qualquer outro oficial, repudiou a ilegalidade dos ataques dos EUA contra alvos sem qualquer relação com a resolução 1973.

Resolução a fundo

Resolução aprovada e regras mínimas assinaladas, iniciou-se a intervenção. De início, vimos o uso desproporcional de mísseis contra alvos que, nem de longe, foram os designados pela resolução. Instalações militares aleatórias e mesmo um prédio do complexo onde vive Khadafi foram alvos de bombardeios.

É possível interpretar que, por "defesa da vida de civis", importante ponto da Resolução 1973, entenda-se tomar medidas para garantir sua segurança, mesmo militares, logo, seria legítimo o bombardeio de tropas em vias de atacar áreas civis. Mas isto de forma alguma justifica o ataque a forças militares em Trípole ou em áreas que estão sendo defendidas contra os rebeldes, áreas sob controle governamental e distantes das reais zonas de conflito.

A diferença pode parecer tênue, mas militarmente faz muito sentido. Uma coisa é o ataque justificado a tropas no leste do país, região sob controle ou maior controle rebelde, que se preparam para atacar civis ou mesmo tropas rebeldes, outra bem diferente é atacar tropas estacionadas no oeste do país, região majoritariamente sob controle de Khadafi, logo, tropas que visam defendem o governo.

Não a toa, a China, através de sua imprensa oficial, demonstrou mal estar com os ataques, assim como o Brasil criticou a intervenção e a Rússia não se furtou em criticar as ações.

A decisão de depor Khadafi não está nas mãos da coalizão que agora intervém na Líbia, logo, a destruição de toda a estrutura militar e da infra-estrutura Líbia não está na ordem do dia, ou ao menos não deveria. A destruição das defesas do governo significariam abrir caminho para os rebeldes tomarem o poder, isto se os EUA não tomarem a iniciativa de, eles próprios, derrubarem Khadafi - intenção declarada pelo ministro da defesa inglês em declaração À mídia internacional.

Segundo a resolução, os aliados devem "tomar todas as medidas necessárias (...) para proteger civis e áreas povoadas por civis sob ameaça de ataque". De fato, é extremamente amplo, mas à medida em que se analisa coletivamente todos os demais pontos da resolução, podemos pintar um quadro completo em que a mudança de regime não está na ordem do dia e que, por mera observação, entendemos que matar Khadafi teria exatamente o resultado não-previsto na resolução.

Se por um lado, pode-se interpretar que, a fim de evitar a morte de civis, Khadafi deva ser eliminado - afinal, é o alegado responsável -, por outro não há qualquer permissão para que a decisão de mudar o regime seja tomado por qualquer um a não ser o povo líbio.

Aliás, vale ainda lembrar que não cabe ao Presidente Obama, mas ao Congresso dos EUA aprovar ações militares, o que, desde o início, coloca a intervenção na ilegalidade. Deputados Democratas contra a intervenção consideram até pedir o impeachment de Obama.

Como se vê, a intervenção na Líbia, mesmo com o respaldo da ONU, é um show de erros e ilegalidade, de todos os lados e em todas as direções.

Artigo publicado originalmente na Brasil de Fato, em 18/04.
------

quarta-feira, 23 de março de 2011

Ilegalidade: Os dois momentos-chave da Intervenção na Líbia

Podemos dividir em dois momentos-chaves a intervenção dos EUA e aliados sobre a Líbia. Em primeiro lugar, o período imediatamente anterior à resolução 1973 e, depois a intervenção em si e a ilegalidade das ações "aliadas". Vale também explicar brevemente os pontos centrais da resolução, a título de interregno.

Pré-Resolução

Num primeiro momento, era clara a intenção dos EUA em intervir, mesmo invadir a Líbia. Os interesses são inúmeros, vão desde o petróleo até o interesse em garantir que mais um Estado Árabe não caia nas mãos de um governo não tão alinhado aos interesses Yankees.

Tunísia e Egito, com governos "aliados" caíram e agora os EUA esperam para ver o quanto irão perder em termos de apoio, que não será mais incondicional. O governo do Iêmen periga cair, e o Bahrein está em um clima de quase guerra civil. Marrocos e Arábia Saudita vem enfrentando protestos esparsos e, de todos, apenas os protestos na Síria interessam ao Império, ainda que, da mesma forma, não saibam que governo poderia emergir com a queda de Assad.

Ao intervir na Líbia, os EUA garantem que, ao menos, terão algum papel na transição e podem ditar algumas regras. Com o país destruído, com a infra-estrutura prejudicada, os EUA surgiriam rapidamente como fonte de financiamento e apoio ao país necessitando de investimentos e rumo.

O petróleo viria como bônus.

A intenção dos EUA era a de intervir de qualquer maneira, e já existia um precedente: O Kosovo.

Durante o conflito do Kosovo com a Sérvia os EUA interviram ilegalmente, junto com a OTAN, para defender o lado Kosovar. A ONU foi forçada a fingir que não via nada e a apoiar posteriormente, constrangida, se responsabilizando pela pacificação posterior e pelo processo de reconstrução do país.

A ilegalidade ficou patente com a falta de reconhecimento posterior por parte mesmo de tradicionais aliados dos EUA, como a Espanha - temerosa de que o reconhecimento pudesse incitar ainda mais o nacionalismo Basco e Catalão (e em menor parte, o Galego).

Enfim, em um cenário em que a intervenção parecia certa, a ONU entrou como um possível mediador, via Resolução 1973.

A Resolução

Como explicado em post anterior, a Resolução 1973 visava criar ou impor regras mínimas para a intervenção, proibindo ou ao menos dificultando um novo Iraque ou Afeganistão, ou seja, uma ocupação de fato.

Como estava claro na Resolução, os "aliados" deveriam, antes de mais nada, prestar contas não só a ONU, mas também à Liga Árabe (que vem repetidamente criticando a ação, apesar de ter apoiado inicialmente a intervenção) e o ponto focal das ações era a proteção de civis e, finalmente, a garantia da imposição de uma no-fly zone, ou seja, impedir que as forças de Khadafi usassem aviação para atacar os rebeldes e civis.

Ou seja, a idéia central era a de equilibrar o conflito, garantindo o respeito mínimo aos direitos humanos dos civis e restringindo as ações armadas aos grupos beligerantes devidamente identificados.
Os pontos seguintes dão espaço para intervenção militar, mas deixam claros os limites. Do ponto 6 ao 12, a descrição das atividades permitidas para garantir a no-fly zone (em tradução não-literal e parcial):

6. Decide estabelecer o banimento a todos os vôos no espaço aéreo da Líbia, com o objetivo de proteger os civis;
7. Decide que o parágrafo 6 não se aplica a vôos humantários ou que facilitem assistência, nem se aplica a Estados que atuem na garantia desta resolução ou que sejam necessários à proteção de civis;
8. Autoriza os Estados-Membro a agir nacionalmente ou através de organizações e acordos a tomar todas as medidas necessárias para garantir o cumprimento do banimento de vôos imposto pelo parágrafo 6;
9. Convoca todos os Estados-Membro a apoiar e prover toda assistência necessária ao cumprimento da resolução;
10. Pede aos Estados-Membro que que coordenem ações em conjunto com o Secretário-Geral;
11. Decide que os Estados-Membro envolvidos devem informar ao Secretário Geral (da ONU) e ao Secretário Geral da Liga Árabe todas as medidas tomadas;
12. Requisita ao Secretário Geral que informe ao Conselho imediatamente sobre todas as ações tomadas pelos Estados-Membro.
Como se vê, não cabe aos EUA e aliados a solução final ou mesmo dar um fim ao conflito, "vencendo" um dos lados, no caso, derrotando ou mesmo matando Khadafi. Sempre é bom lembrar, qualquer tipo de ação por terra está descartada e proibida pela resolução (até o momento, pelo menos).

Ilegalidade

Resolução aprovada e regras mínimas assinaladas, iniciou-se a intervenção. De início, vimos o uso desproporcional de mísseis contra alvos que, nem de longe, foram os designados pela resolução. Instalações militares aleatórias e mesmo um prédio do complexo onde vive Khadafi foram alvos de bombardeios.

É possível interpretar que, por "defesa da vida de civis", entenda-se tomar medidas para garantir sua segurança, mesmo militares, logo, seria legítimo o bombardeio de tropas em  vias de atacar áreas civis. Mas isto de forma alguma justifica o ataque a forças militares em Trípole ou em áreas que estão sendo defendidas contra os rebeldes.

A diferença pode parecer tênue, mas militarmente faz muito sentido. Uma coisa é o ataque justificado a tropas no leste do país, região sob controle ou maior controle rebelde, que se preparam para atacar civis ou mesmo tropas rebeldes, outra bem diferente é atacar tropas estacionadas no oeste do país, região majoritariamente sob controle de Khadafi, logo, tropas que visam defendem o governo.

Não a toa, a China, através de sua imprensa oficial, demonstrou mal estar com os ataques.

A decisão de depor Khadafi não está nas mãos da coalizão que agora intervém na Líbia, logo, a destruição de toda a estrutura militar e da infra-estrutura Líbia não está na ordem do dia, ou ao menos não deveria. Isto - a destruição das defesas do governo - significariam abrir caminho para os rebeldes tomarem o poder, isto se os EUA não tomarem a iniciativa de, eles próprios, derrubarem Khadafi, intenção declarada pelo ministro da defesa inglês.

Segundo a resolução, os aliados devem "tomar todas as medidas necessárias (...) para proteger civis e áreas povoadas por civis sob ameaça de ataque". De fato, é extremamente amplo, mas à medida em que se analisa coletivamente todos os demais pontos da resolução, podemos pintar um quadro completo em que a mudança de regime não está na ordem do dia e que, por mera observação, entendemos que matar Khadafi teria exatamente o resultado não-previsto na resolução.

Se por um lado, pode-se interpretar que, a fim de evitar a morte de civis, Khadafi deva ser eliminado - afinal, é o alegado responsável -, por outro não há qualquer permissão para que a decisão de mudar o regime seja tomado por qualquer um a não ser o povo líbio.

Aliás, cabe ainda lembrar que não cabe ao Presidente, mas ao Congresso dos EU aprovar ações militares, o que, desde o início, coloca a intervenção na ilegalidade. Deputados Democratas contra a intervenção consideram até pedir o impeachment de Obama.
“Apesar de a ação ser considerada como a suposta proteção dos civis da Líbia, a proibição dos voos na zona de exclusão começou com um ataque à defesa aérea líbia e às forças de Kadafi. É um ato de guerra. O presidente fez declarações que tentam minimizar a ação dos EUA, mas aviões norte-americanos lançaram bombas e mísseis dos EUA. O país pode estar se envolvendo em um conflito com outra nação soberana. Nosso país não pode permitir outra guerra, econômica e diplomática.”
Como se vê, um show de erros e ilegalidade, de todos os lados e em todas as direções.

Leitura recomendada:
O império enquadra a revolução, de Bruno Cava 
Os perigos da intervenção humanitária na Líbia, de Robert Fisk
------

sexta-feira, 18 de março de 2011

ONU, Líbia e a política do "Não tem tu, vai tu mesmo, esperando que não dê m*"

As Nações Unidas, através do seu antidemocrático Conselho de Segurança, por 10 votos a zero, com 5 abstenções (dentre as abstenções a do Brasil, que valerá post a parte)aprovou uma intervenção no conflito Líbio, mas o que isto significa?

De início, lembro que há alguns dias comentei sobre a possibilidade de intervenção e como esta deveria se dar, caso fosse inevitável. Passado isto, podemos apenas comemorar que, ao menos, talvez tenhamos a imposição de regras mínimas sob supervisão coletiva internacional.

Como eu havia comentado antes, a intervenção em si talvez não fosse a melhor saída, mas sem dúvida chegaria um momento em que esta se tornaria uma realidade seja pela base do acordo ou na base da imposição. Melhor por acordo.

Os interesses internacionaiss por detrás da intervenção eram por demais fortes, e nem um pouco humanitários.

EUA (e outras potências) com claros interesses não só no petróleo, mas na pacificação da região através do controle direto dos recursos do país, além da possibilidade de intervir na deposição de um líder que, apesar de aliado, é inconstante e perigoso e, para a França, a chance de sufocar as denúncias de que seria leniente demais com a Líbia (especialmente depois dos vazamentos de que a Líbia teria fiinanciado a campanha de Sarkozy).

A mídia informava ha todo tempo que os rebeldes vinham pedindo a intervenção estrangeira, enquanto Khadafi retomava as áreas previamente conquistadas e acuava os rebeldes à sua praça forte de Benghazi.

A veracidade ou o alcance de tais apelos não é sabida. A enxurrada de informações vindas da Líbia, inicialmente, durante o sucesso dos rebeldes, diziam que uma intervenção não era bem vinda, e mesmo importantes intelectuais de todo o mundo repudiaram em nota a possibilidade de intervenção. Durante os recuos mais recentes, a mídia passou a informar que os rebeldes pediam intervenção.

Não podemos descartar a manipulação midiática ligada aos interesses ocidentais, mas temos, enfim, de lidar com o fato consumado.

Sem dúvida sobressai a cobertura da Telesur, tão criticada inicialmente, mas que se mostrou correta ao apontar que Khadafi não era nem louco e nem estava perdido. Acusados de apoiar Khadafai, no fim apenas mostravam a realidade nua e crua, sem o tratamento sensacionalista das demais cadeias de TV internacional.

Mas, em se tratando da intervenção em si, a Resolução 1973 do Conselho de Segurança foi aprovada e, se é verdade que intervenções tem normalmente o objetivo de garantir a sobrevivência do Império, por outro é saudável e bem vindo que, ao menos, com supervisão da ONU, haja o respeito a regras mínimas e dispositivos legais consolidados.

Os EUA, ao invadirem o Kosovo, com apoio da OTAN, abriram um precedente negativo ao intervirem em um conflito sem o apoio da ONU, o que foi repetido no Iraque, resultando em uma ocupação assassina e prejudicial ao país. Agora, as regras impostas pela resolução - como a permissão apenas para ações aéreas, sem intervenção por solo - dão a esperança de que a crise possa ser mais facilmente contornável e que não termine em ocupação.

Muitos interlocutores compararam a situação da Líbia com os protestos e revoluções no Egito e Tunísia, mas a situação não poderia ser diferente. Trata-se, na Líbia, de uma Guerra Civil em formação (ou já consolidada), em que protestos pacíficos foram deixados de lado por uma confrontação armada e a possibilidade de um desequilíbrio regional com características próprias e que pode influenciar negativamente a região.

Podemos especular as intenções reais das potências nisso tudo, mas não podemos descartar a realidade, devemos, pois, analisar em cima dos fatos. Se a realidade é de intervenção, que a pressão seja feita para que as regras aprovadas pela ONU sejam seguidas e para que não seja uma ação unilateral dos EUA ou de qualquer potência européia, mas algo consensuado e discutido em foros internacionais.

A pposição de Rússia e China, de se absterem, foi coerente com suas últimas declarações e posições consagradas. A China tem amplos interesses e investimentos na região e costuma evitar o confronto direto e criar animosidades que considera desnecessárias, já a Rússia vem ha tempos anunciando que não apoiaria uma resolução que contivesse qualquer idéia de intervenção. Não é do interesse russo ser espectador implicado de mais uma demonstração bélica dos EUA, muito menos tomar parte e estar sob controle de algum general estadunidense.

Trata-se, talvez, de uma invasão branca, em que a ocupação está inicialmente descartada e apenas ações aéreas podem ser tomadas. À longo prazo devemos observar e fiscalizar.

Em um primeiro momento, podemos esperar, talvez, um cessar-fogo líbio, um recuo das forças de Khadafi, agora efetivamente ameaçadas. Difícil, porém, será prever as ações futuras do governo líbio, pois coloca-se um impasse: O governo dificilmente aceitará recuar e permitir a existência de focos rebeldes, mas se avançar, poderá ser vítima de ataques e desmoronar.

Os próximos dias serão cruciais.
------
A resolução 1973 aprovada ontem, em inglês.
------

terça-feira, 15 de março de 2011

Líbia, intervenção e a ideologia dos direitos humanos


Assunto atual e da maior relevância em todas as discussões sobre os conflitos ou revoluções no Oriente Médio é a da possível intervenção militar e no-fly zone na Líbia. De um lado aqueles que acusam as manobras pela intervenção uma tentativa dos EUA assegurarem o escoamento de petróleo do país e de novamente azeitarem sua indústria bélica, do outro, aqueles com intenções humanitárias, que defendem uma intervenção sem pensar nas consequências a longo prazo.

De certa maneira ambos os lados estão corretos. Sim, estamos diante de um avanço significativo das tropas do ditador Khadafi, mas sabemos que uma intervenção dos EUA jamais será feita por respeito aos direitos humanos e pela democracia e sim pela chance de conquistar.

O foco dos questionamentos, ao meu ver, está totalmente errado.

Nem adianta chorar pelos direitos humanos alheios, esperando que uma intervenção - que causará milhares de mortes e poderá destruir a infra-estrutura do país e deixar cicatrizes profundas - e muito menos adianta espernear dizendo que o melhor é deixar que os Líbios resolvam seus problemas, como se a comunidade internacional não tivesse qualquer responsabilidade pela situação (a mesma comunidade que enxotou a Líbia do cenário internacional e depois a recebeu de braços abertos de olho no petróleo e dinheiro líbios, nada mais hipócrita).

Sobre este ponto, o professor Reginaldo Nasser foi certeiro:
Na verdade, a chamada comunidade internacional não é uma comunidade: são os Estados Unidos, a Inglaterra, a França, tal.  O Mubarak foi aceito por eles há muito tempo e o Gadaffi adotaram recentemente, desde 2003.  Essa reintrodução do Gadaffi na comunidade internacional foi feita num acordo muito bom para as duas partes. As reservas de petróleo da Líbia tornaram-se cada vez mais exploradas, pela Shell, BP, Exxon, etc. O Gadaffi declarou que estava suspendendo toda e qualquer forma de produção de armas de destruição em massa, que é uma obsessão dos Estados Unidos. O Huffington Post mostrou o lobby pró-Líbia dentro do Congresso americano, um lobby que já existia antes da suspensão. Um lobby que envolve petróleo, indústria de armas e universidades.
Do lado dos defensores dos Direitos Humanos acima de tudo temos a defesa da intervenção a qualquer custo, como se ela fosse a tábua de salvação da Líbia e do lado dos não-intervencionistas o longo prazo de uma ação dos EUA seria muito pior quantitativa e qualitativamente para a Líbia e para toda a região.

Diz Daniel Lopes, do Amálgama:
Rebeldes batendo em retirada de Ras Lanuf também pedem para a ONU impôr a zona de exclusão aérea. E a Liga Árabe, que se reuniu neste final de semana no Cairo, aderiu à ideia. Por fim, confiram as esperanças das mulheres de Benghazi, nesse vídeo da Al Jazeera. O que aconteceria com essas pessoas se os bandidos de Kadafi chegassem até a cidade?
De fato, os líbios pedem ajuda. Mas é preciso ter em mente: Que ajuda? O bombardeio da infra-estrutura líbia ajudaria, em longo prazo, o povo, ou apenas os tornaria reféns de investimentos estrangeiros e das potências ocidentais? Trocariam um ditador por outro?

Mas, ao mesmo tempo, como discordar de Antônio Costa?

O maior risco – que não tem paralelo na situação europeia de 1848 – é o de uma intervenção direta dos Estados Unidos. É uma loucura, mas crises de abstinência provocam loucuras e o país não se mostra disposto a se livrar de sua dependência do petróleo, nem sequer a admitir ser ela um problema. E é perfeitamente possível, dados o histórico do Iraque e a movimentação de navios e marines em torno da Líbia, que indica, no mínimo, que o dedo no gatilho está coçando. Seguramente seria desastrosa, graças à absoluta incapacidade dos EUA de entender o ponto de vista dos países muçulmanos e atuar de maneira politicamente consequente no longo prazo, seja no Afeganistão, seja no Iraque, no Paquistão, na Líbia ou na Arábia Saudita.
E também temos líbios que rechaçam a intervenção.

Mas, o discurso sobre a intervenção está deslocado. A questão em si não é discutir se haverá intervenção, mas QUAL intervenção. está claro que aqueles que vão contra a invasão dos EUA vão contra a ação deste único país, investido ou não de poder pela ONU, de se apoderar do petróleo Líbio.

O problema não está na intervenção, que a cada dia se prova mais necessária, mas em quem liderará ou mesmo em quem agirá sozinho em uma possível investida armada contra Khadafi.

O discurso ideologizado desta forma não serve a ninguém, apenas aos EUA que se impõem como salvadores frente à crise humanitária que se desenha, enquanto seus detratores não apresentam propostas viáveis, como uma ação coletiva das Nações Unidas com comando compartilhado.

Artigo completo no Amálgama.
------