O ataque ao #CharlieHebdo é terrível e lamentável e pode ter consequências assustadoras. Independentemente de ter a ISIS como autora, se descobrirem que dentre os terroristas há emigrados, gente com cidadania francesa/europeia ou que tenham nascido na França/Europa, a pressão sobre os imigrantes de origem muçulmana será imensa (e já é).
É de se pensar que haverá reação violenta, com muito ódio, por parte da extrema-direita e, cada vez mais, de quem antes era moderado, mas foi se radicalizando sob o sentimento de "invasão", de que estão sendo invadidos por imigrantes, em especial muçulmanos, que muitas vezes não se integram e não adotam um estilo de vida "europeu".
Por outro lado, não podemos negar a existência de fanáticos perigosos dentro das comunidades de imigrantes muçulmanos. Sharia4Belgium é apenas um exemplo. O uso de burkas é outro. Se é verdade que muitas vezes a dificuldade de se integrar parte da negativa dos hospedeiros de aceitar algumas diferenças culturais e ter paciência e vontade, também é verdade que muitos chegam sem a menor intenção de se integrar, mas vivem em guetos autoimpostos professando versão radicais de sua religião.
No fim a intransigência de ambos os lados leva a que os moderados, os laicos, os humanistas, os integrados e integradores sejam alvos.
Veremos possivelmente políticas ainda mais restritivas aos muçulmanos na França e em toda a Europa, assim como mais ódio popular e, claro, mais ódio reativo da comunidade muçulmana, acuada. Cada vez mais os moderados perdem a batalha para os fanáticos.
E não vamos nos esquecer dos grandes responsáveis por criar e financiar grupos que posteriormente se tornam seus maiores algozes: EUA e aliados europeus - França inclusive.
Al Qaeda e agora ISIS são nada mais que crias desse grupo de países, financiados para derrotar inimigos pontuais (URSS antes e Assad hoje) que, dizem, saíram do controle. Outros, porém, duvidam que o controle tenha se perdido e que tudo não passa de cortina de fumaça para sustentar a indústria da guerra e do vigilantismo, impondo controles e dificuldades maiores à população mundial baseado no medo do terrorismo.
Ataques anteriores, como ao metrô de Londres ou de Madri levaram apenas à escalada de violência no Oriente Médio, África e à maior repressão na Europa. Quanto mais violência um lado pratica, com mais força o outro lado responde em um ciclo interminável.
Ciclo este que nubla reais problemas ideológicos, religiosos e de integração, criando um monstro impossível de lidar e anulando posições não-alinhadas ao fanatismo vigente.
Trata-se de um jogo baseado no medo para impor o controle. Os governos europeus irão dar declarações beligerantes, a população irá se voltar contra seus vizinhos, as comunidades atacaras irão se fechar ainda mais e veremos possíveis "respostas" contra o terrorismo que nada mais são que atos de terrorismo estatal, e estará criada a situação para a perpetuação do fanatismo e da violência.
É preciso deixar claro que não se trata de demonizar o islamismo ou os muçulmanos, e sim entender o jogo e o uso que as potências fazem. O dito islamismo radical não nasce do nada, mas de agressões claras do "ocidente", como a imposição do Xá no Irã, levando à Revolução Islâmica, a imposição de ditadores sanguinários laicos aliados aos EUA e Europa, como Mubarak, Saddam e tantos outros, o uso indiscriminado de Drones, como no Iêmen, ou mesmo a deposição violenta ou tentativa de ditadores como Kaddafi ou Assad.
Nasce ainda da negação da integração aos emigrados, pese ser uma via de mão dupla. Ódio cria ódio, é uma regra básica.
Enfim, devemos ter cuidado para analisar o cenário mais amplo, sem demonizações e sem nos deixar levar pelo fanatismo de qualquer dos lados.
Sobre a questão dos muçulmanos na Europa, recomendo: "A 'invasão muçulmana' da Europa"
Blog de comentários sobre política, relações internacionais, direitos humanos, nacionalismo basco e divagações em geral... Nome descaradamente baseado no The Angry Arab
Mostrando postagens com marcador EUA. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador EUA. Mostrar todas as postagens
quarta-feira, 7 de janeiro de 2015
Ataque ao #CharliHebdo e o jogo do medo
------
Postado por
Raphael Tsavkko Garcia
às
12:16
Ataque ao #CharliHebdo e o jogo do medo
2015-01-07T12:16:00-02:00
Raphael Tsavkko Garcia
#CharlieHebdo|Al Qaeda|Charlie Hebdo|EUA|Fanatismo|França|ISIS|Islamismo|Política|religião|Terrorismo|Violência|
Comments
Marcadores:
#CharlieHebdo,
Al Qaeda,
Charlie Hebdo,
EUA,
Fanatismo,
França,
ISIS,
Islamismo,
Política,
religião,
Terrorismo,
Violência
sexta-feira, 19 de dezembro de 2014
Vazamento de dados da Sony: No fim das contas tudo se centra no controle e na censura da internet
O interessante desse vazamento/ataque Hacker na Sony é que a indústria do cinema está sendo desmascarada de todas as formas possíveis. De um lado é inaceitável se acovardar frente à Coreia do Norte (supostamente) e ao grupo de hackers, por outro descobrimos cada podre...
Hollywood é podre, a indústria do cinema é podre e tem sérios planos para foder com a liberdade na rede. Não podemos aceitar. A ideia da máfia do copyright era bloquear sites de pirataria via DNS! Mano, é loucura e canalhice demais!
Mas como quem tem cu tem medo e os caras provavelmente tem muita merda pra ser vazada, preferiram cooperar com o (suposto Estado) terrorista. Se é que é o Gordinho, vulgo Nhonho do Leste, o responsável.
Por um lado todo esse caso é uma invasão de privacidade absurda que vai além da privacidade de gente dos estúdios, mas coloca toda a rede na reta, como potencial alvo de grupos hackers e crackers (nesse caso específico a ação é mais cracker que hacker), por outro acabou desvelando o que muitos suspeitavam: Planos bem macabros de controle da internet e censura.
Ou seja, pra mim o filme "A Entrevista" e o vazamento de scripts de outros filmes e tal não é o foco, não é a questão - ao menos para os estúdios, Hollywood e EUA. Perder alguns milhões não mata ou matará Hollywood. O drama mesmo e o medo dos caras é o vazamento de mais planos para ferrar de vez com a internet na surdina. Daí o recuo vergonhoso.
Não faz o menor sentido o vazamento de scripts e mesmo ameaças sem qualquer comprovação efetiva de se estourar bombas em cinemas exibindo o tal filme fazerem com que tal pânico tome conta da poderosa indústria de filmes, ao ponto da Paramount proibir até a exibição em forma de protesto de Team America, filme antigo, batido na TV a cabo, cujo "plot" também é a Coréia do Norte.
Um recuo covarde desses sem dúvida esconde algo mais e aos poucos vamos vendo que o medo de Hollywood é que seus planos de controle/censura da internet saiam à luz. Bem, estão saindo. E parece ter coisa pior por aí. Para além de questões de moral e ética - pouco me interessam ou deveriam interessam a alguém e-mails privados de diretores, empresários e celebridades se ofendendo ou lambendo as bolas dos outros - fica a questão gravíssima do ataque à liberdade na rede.
Por tudo que tenho lido e visto, não se justifica tamanho recuo e um medo tão primitivo apenas baseado no vazamento de roteiros de meia dúzia de filmes, dados pessoais, dados financeiros... Enfim, parece uma forma de se proteger contra futuros ataques que possam revelar mais do que os hackers tem em mãos ou mesmo para tentar evitar a divulgação de mais dados sigilosos e sensíveis à indústria como um todo. Tem algo mais por trás.
------
Postado por
Raphael Tsavkko Garcia
às
20:30
Vazamento de dados da Sony: No fim das contas tudo se centra no controle e na censura da internet
2014-12-19T20:30:00-02:00
Raphael Tsavkko Garcia
Copyright|Coréia do Norte|Cracker|EUA|Fail|Filmes|Hacker|Hollywood|Indústria|Internet|Política|Sony|
Comments
sábado, 1 de março de 2014
EUA versus Rússia: O ativismo de sofá e a perdição da Ucrânia
Algo que começa a encher o saco é gente que não entende NADA do que acontece na Ucrânia querer dar aula ou lição. Pior ainda é quando querem impor uma dicotomia que nos lembra os anos 60, de "imperialismo malvado" dos EUA versus "bom comunismo" da Rússia, levando em conta que Putin é nada além de fascista;
Não, o inimigo do meu inimigo não é meu amigo.
A Rússia tão somente age na Ucrânia para manter sua área de influência e acima de tudo sua importantíssima base militar na Criméia. E, claro, tenta evitar que a Ucrânia entre para a área de influência da UE/EUA, ou ao menos parte dela.
Nada além de jogo de interesses. Realpolitik de potências.
Relembrem o papel da Rússia na Chechênia e no resto do Cáucaso. Se temos um imenso crescimento do fundamentalismo por lá dê graças às políticas russas contra o separatismo local que era originalmente laico e foi se radicalizando à medida que era reprimido e após duas guerras. Mas para defender o "nacionalismo" dentro do seio de nações inimigas a Rússia é uma mãe, vide Abkhazia e Ossétia do Sul. A Geórgia se aproximou do "ocidente", logo, teve de ser castigada.
O mesmo está acontecendo na Ucrânia. Se aproximam do ocidente, logo, é castigada.
É lógico que os EUA e a UE tem interesse e mesmo podem financiar/apoiar alguns grupos revoltosos, mas não nos esqueçamos, este é o argumento de muitos petistas para atacar os protestos nas ruas do Brasil. Argumentos que viraram capa de jornais, aliás. Não acreditem em tudo que lhes chega pelo jornal.
Forçar a escolha entre o imperialismo americano e o imperialismo russo é uma estupidez inominável.
Os EUA são o câncer do mundo, assim como a China o é para os países que vivem em sua órbita ou a Rússia o é para os países em mesma situação. Experimentem defender a Rússia na região Báltica. Ou a China no Tibete, em Taiwan... Não há "Estado bonzinho", há realpolitik e estratégia.
Em tempo, não há sequer consenso sobre o papel e importância de grupos fascistas entre aqueles que derrubaram o governo.
Sobre o papel da extrema-direita nos protestos, recomendo a leitura deste post do Global Voices.
Em tempo 2: Você pode sim "escolher" a Rússia e, do seu sofá, achar que é o melhor pra Ucrânia - assim como pode fazer o mesmo escolhendo os EUA -, pois no fim quem vai sofrer é a Ucrânia, não quem está na frente do computador fazendo as vezes de oráculo da revolução. Se você NÃO entender do assunto, não parou um segundo para ler e entender, só pensa com o fígado ou vive nos anos 60 da Guerra Fria, melhor ficar calado.
Mas, se escolher um lado, esteja preparado para depois defender as consequências. A luta das esquerdas não deve ser contra um imperialismo para que outro assuma e sim contra todas as formas de imperialismo.
Não, o inimigo do meu inimigo não é meu amigo.
A Rússia tão somente age na Ucrânia para manter sua área de influência e acima de tudo sua importantíssima base militar na Criméia. E, claro, tenta evitar que a Ucrânia entre para a área de influência da UE/EUA, ou ao menos parte dela.
Nada além de jogo de interesses. Realpolitik de potências.
Relembrem o papel da Rússia na Chechênia e no resto do Cáucaso. Se temos um imenso crescimento do fundamentalismo por lá dê graças às políticas russas contra o separatismo local que era originalmente laico e foi se radicalizando à medida que era reprimido e após duas guerras. Mas para defender o "nacionalismo" dentro do seio de nações inimigas a Rússia é uma mãe, vide Abkhazia e Ossétia do Sul. A Geórgia se aproximou do "ocidente", logo, teve de ser castigada.
O mesmo está acontecendo na Ucrânia. Se aproximam do ocidente, logo, é castigada.
É lógico que os EUA e a UE tem interesse e mesmo podem financiar/apoiar alguns grupos revoltosos, mas não nos esqueçamos, este é o argumento de muitos petistas para atacar os protestos nas ruas do Brasil. Argumentos que viraram capa de jornais, aliás. Não acreditem em tudo que lhes chega pelo jornal.
Forçar a escolha entre o imperialismo americano e o imperialismo russo é uma estupidez inominável.
Os EUA são o câncer do mundo, assim como a China o é para os países que vivem em sua órbita ou a Rússia o é para os países em mesma situação. Experimentem defender a Rússia na região Báltica. Ou a China no Tibete, em Taiwan... Não há "Estado bonzinho", há realpolitik e estratégia.
Em tempo, não há sequer consenso sobre o papel e importância de grupos fascistas entre aqueles que derrubaram o governo.
Sobre o papel da extrema-direita nos protestos, recomendo a leitura deste post do Global Voices.
Em tempo 2: Você pode sim "escolher" a Rússia e, do seu sofá, achar que é o melhor pra Ucrânia - assim como pode fazer o mesmo escolhendo os EUA -, pois no fim quem vai sofrer é a Ucrânia, não quem está na frente do computador fazendo as vezes de oráculo da revolução. Se você NÃO entender do assunto, não parou um segundo para ler e entender, só pensa com o fígado ou vive nos anos 60 da Guerra Fria, melhor ficar calado.
Mas, se escolher um lado, esteja preparado para depois defender as consequências. A luta das esquerdas não deve ser contra um imperialismo para que outro assuma e sim contra todas as formas de imperialismo.
------
Postado por
Raphael Tsavkko Garcia
às
21:55
EUA versus Rússia: O ativismo de sofá e a perdição da Ucrânia
2014-03-01T21:55:00-03:00
Raphael Tsavkko Garcia
Conflito|EUA|Europa|Geopolítica|Política|Realpolitik|Rússia|Ucrânia|
Comments
Marcadores:
Conflito,
EUA,
Europa,
Geopolítica,
Política,
Realpolitik,
Rússia,
Ucrânia
quarta-feira, 9 de outubro de 2013
Em defesa de Peter Cenarrusa. In Memorian (1917-2013)
![]() |
| Pete Cenarussa. Crédito da foto: Glenn Oakley, 2009 |
Pete Cenarrusa morreu semana passada aos 95 anos. Para começar, é difícil falar em "defender" Pete de qualquer coisa. Ele era uma pessoa maravilhosa, alguém que muitos de nós admirávamos e respeitávamos. Seus pais eram imigrantes que cresceram em cidades bascas vizinhas, mas que se conheceram a milhares de quilômetros, no meio do estado americano de Idaho. A primeira língua de Pete era o basco, e ele continua a falá-la pelo resto da vida, algumas vezes jogando termos em inglês pelo caminho.
Pete estudou na Universidade de Idaho, onde ele participou do clube de boxe e se formou em agricultura e pecuária (aos 92 anos, ele blogou que seus cursos favoritos eram nutrição, química orgânica e bacteriologia -"Eu recomendaria esses cursos a qualquer um no colégio"). Ele se juntou aos Marines em 1942 e se tornou um instrutor de aviação. Ele voou por 59 anos, mais de 15 mil horas de vôo sem nenhum acidente.
Pete foi eleito como Republicano para a Câmara dos Deputados (House of Representatives) de Idaho em 1950 e serviu por nove mandatos, incluindo três como porta-voz da Casa. Em 1967, quando o secretário de estado de Idaho faleceu, o governador o indicou para o cargo, que ele serviu até 2003. Ele não era um político do elenco central. Como disse seu amigo e sucessor em seu funeral, Pete não era um bom orador; mas diferente de muitos políticos, Pete sabia disso. Ainda assim, é difícil argumentar com o sucesso: Pete nunca perdeu uma eleição e permaneceu no cargo por 52 anos, o maior tempo no cargo de um servidor público na história de Idaho.
Então, o jornal espanhol ABC publicou um "obituário" escrito por Javier Rupérez, o ex-embaixador espanhol nos EUA. Rupérez chama Pete de "Basco separatista", um homem cheio de "obstinação cega" contra a Espanha "até o dia de sua morte". Foi uma peça escrita com veneno guardado desde um evento que aconteceu há mais de uma década, expelido apenas um par de dias depois de Pete morrer. Pete não pode levantar-se e se defender. É por isso que sentimos uma forte obrigação de fazê-lo em seu lugar.
Então, o jornal espanhol ABC publicou um "obituário" escrito por Javier Rupérez, o ex-embaixador espanhol nos EUA. Rupérez chama Pete de "Basco separatista", um homem cheio de "obstinação cega" contra a Espanha "até o dia de sua morte". Foi uma peça escrita com veneno guardado desde um evento que aconteceu há mais de uma década, expelido apenas um par de dias depois de Pete morrer. Pete não pode levantar-se e se defender. É por isso que sentimos uma forte obrigação de fazê-lo em seu lugar.
E um pouco de contexto: Rupérez, o autor, foi sequestrado pelo grupo terrorista basco ETA em 1979. Ele foi mantido prisioneiro por um mês. Após ser solto, 26 prisioneiros bascos foram libertados da prisão, e o parlamento espanhol concordou em criar uma comissão especial para investigar as acusações de tortura contra prisioneiros bascos. Não podemos imaginar pelo que Rupérez passou, e gostaríamos que nunca tivesse acontecido. É um evento que certamente muda uma visão de mundo. Mas Pete não teve nenhuma relação com o horrível evento, e sabemos que ele o teria condenado. E é ai que Rupérez erra terrivelmente em relação a Pete e aos bascos em geral.
Perto do fim de sua carreira, Pete anunciou a introdução no legislativo Idaho de uma declaração que dirigiu uma série de críticas a eventos no País Basco e na Espanha. A declaração, oficialmente conhecida como um "memorial", pediu aos líderes dos Estados Unidos e da Espanha para realizar um processo de paz. Em 2002, Rupérez soube do memorial e imediatamente voou para Idaho, [ele] aertou o primeiro-ministro espanhol, o Departamento de Estado e a Casa Branca. De repente, uma declaração do legislador de um pequeno estado do Oeste americano explodiu e tornou-se notícia internacional.
À medida que se aproximava a data da votação do memorial, havia um monte de idas e vindas entre muitas partes que, de repente, se envolveram. Mas a reação de Pete foi perfeita, parafraseando-o: Desde quando os EUA decidem sua política externa baseada em governos estrangeiros? No final, o legislativo de Idaho aprovou por unanimidade o memorial. Ele descrevia a história dos bascos em Idaho, as primeiras ações do legislativo de Idaho em condenar a repressão da Ditadura de Franco, os esforços dos bascos em manter sua cultura e a condenação de todos "menos uma parcela marginalizada fração" de bascos da violência.
Perfeito ou não, foi uma declaração unânime de um governo democraticamente eleito. Mas [a decisão] parece ter assombrado Rupérez por todos esses anos. Mal completadas 72 horas da morte de Pete, Rupérez o condenou como "o inspirador e líder visível" de um esforço que fez vista grossa à violência, um esforço que um líder do Senado de Idaho mais tarde teria supostamente lhe dito que era o resultado de "extrema ignorância por parte de representantes locais" sobre assuntos espanhóis e da "vontade generalizada de agradar Cenarrusa em sua última iniciativa antes de se aposentar". Rupérez sugere que Pete não era típico da comunidade basca de Idaho, que havia outros que eram mais dignos de representá-la.
Nós não conhecemos Rupérez. Mas ele também não conhece os bascos, e certamente não conhece Pete. E penso que quem apunhala pelas costas um homem que acabou de morrer é [uma pessoa] muito pequena. Alguns de nós tivemos a honra de conhecer esta grande personalidade basco-americana. No entanto, nós queremos refletir sobre a significativa contribuição de Pete na preservação da identidade basca dentro e fora do País Basco (veja as reflexões de About the Basque Country e The Bieter Blog). Os quatro blogs que subscrevem a este post não poderiam se calar diante da difamação pública de Pete Cenarussa patrocinada por Rupérez. Encorajamos vocês a compartilhar livremente este post e o façam seu, o repostando em seus blogs, sites ou redes sociais.
Rupérez fecha seu texto com uma frase que ele diz ser de Mark Twain: "Nem todas as mortes são recebidas da mesma maneira". Talvez seja verdade. De qualquer forma, nós podemos garantir ao senhor Rupérez que a morte de Pete foi recebida com grande tristeza e com o respeito merecido por alguém que fez grandes coisas em sua vida. Gostaríamos de concluir com outra frase de Mark Twain que cabe como uma luva em pessoas como Javier Rupérez: "É melhor manter a boca fechada e deixar as pessoas pensarem que você é um idiota do que abri-la e remover todas as dúvidas".
Agur eta ohore [Adeus e honra], Pete
Agur eta ohore [Adeus e honra], Pete
Assinado por:
A Basque in Boise (Inglês)
About the Basque Country (Castelhano)
Basque Identity 2.0 (Inglês)
The Bieter Blog (Inglês)
The Angry Brazilian (Português)
8probintziak (Francês)
Nafar Herria (Castelhano)
The Angry Brazilian (Português)
8probintziak (Francês)
Nafar Herria (Castelhano)
Pete Cenarrusa (1917-2013)Rancheiro de Idaho, Separatista bascoFalecido aos 96 anos, Cenarrusa, que havia assim encurtado o Zenarruzabeitia paterno, protagonizou a vida política e social do estado de Idaho durante quase seis décadas, sendo várias vezes eleito para o legislativo local e tendo desempenhado durante anos o posto de secretário de estado no rústico território. Seus pais haviam emigrado do País Basco aos EUA no princípio do século XX, como fizeram muitos de seus compatriotas naqueles tempos, em resposta à solicitação de pastores para conduzir/liderar a importante indústria pecuária do oeste americano.Desde cedo, consciente de suas origens euskaldunes, procurou fomentar a memória individual e coletiva entre seus conterrâneos. Atividade que a partir da década de setenta adquiriu um marcante tom nacionalista. Não em vão, o PNV lhe outorgaria no ano 2000 o prêmio Sabino Arana na condição de "basco universal".Foi em 2002 quando essas propensões nacionalistas tomaram forma na tentativa de fazer a câmara legislativa de Idaho adotar um "memorial" em que se ignorava a ação terrorista da ETA e exigia da Espanha e França uma disposição favorável para negociar "o fim do conflito" e se pedia a autodeterminação do povo basco. Cenarrusa era o inspirador e cabeça visível da tentativa, na qual contava com a colaboração do governo basco de Ibarretxe e a de ramificações do [partido ilegalizado] Batasuna, encarnados nos jornais Gara e Egunkaria, assíduos visitantes do território no qual eram recebidos com hospitalidade pelo legislador local e hoje prefeito de Boise, David Bieter.O governo de José Maria Aznar alertou a Casa Branca de George W. Bush sobre a manobra, este que tentou fazer os legisladores de Idaho enxergarem a inconveniência de adotar textos que eram ofensivos a um país aliado e aliado como a Espanha. O porta-voz do Departamento de Estado deu por aqueles dias uma contundente declaração na qual, entre outras coisas, afirmava que "o povo espanhol sofre regularmente a violência exercida por uma organização terrorista chamada ETA". Justamente o que o memorial de Cenarrusa/Bieter/Ibarretxe/Gara/Egunkaria não queria mostrar. E que, muito apesar de seus patrocinadores, acabou figurando no texto emendado que finalmente foi aprovado por todos os parlamentares de Idaho.Foi em janeiro de 2003, quando o presidente do Senado de Idaho fez chegar aos representantes do governo espanhol seu pesar pelo ocorrido, atribuindo [sua aprovação] ao profundo desconhecimento que tinham dos assuntos espanhóis os representantes locais e ao desejo generalizado de contentar Cenarrusa em sua última iniciativa antes de se aposentar de seu posto de Secretário de Estado. O senador Robert I Geddes havia suplicado ao velho pecuarista e político de origem basca que "na próxima vez que quisesse declarar guerra à Espanha que o avisasse previamente, para evitar um mal entendido". Nesta mesma ocasião, o Senado de Idaho concedeu ao embaixador da Espanha em Washington o título de cidadão honorário do estado. E a Espanha nomeava oficialmente Adelia Garro Simplot, outra descendente de bascos, cônsul honorária no estado. Garro é abreviação de Garroguerricoechevarria. Cenarrusa, que não havia vacilado em sua obsessão contra a Espanha constitucional e democrática até mesmo o dia de sua morte, não poderia ser o único representante da comunidade basca em Idaho.Como diria Mark Twain, "Nem todas as mortes são recebidas da mesma maneira".Javier RupérezEmbaixador da Espanha nos EUA (2000-2004)
------
Postado por
Raphael Tsavkko Garcia
às
10:30
Em defesa de Peter Cenarrusa. In Memorian (1917-2013)
2013-10-09T10:30:00-03:00
Raphael Tsavkko Garcia
Espanha|EUA|Nacionalismo|Obituário|País Basco|Política|Separatismo|Tradução|
Comments
Marcadores:
Espanha,
EUA,
Nacionalismo,
Obituário,
País Basco,
Política,
Separatismo,
Tradução
quinta-feira, 5 de setembro de 2013
Putin irá abandonar Assad pelas promessas sauditas?
Alguns notaram um "abrandamento" no discurso de Putin em relação a Síria que em poucos dias anunciava que estaria disposto a até atacar os Sauditas caso os EUA atacassem Assad e agora fala que poderia apoiar uma intervenção no país caso fosse provado o uso de armas químicas por parte do regime.
Este artigo [em inglês] que o Guga Chacra passou no Twitter ajuda a entender a aparente mudança.
Sutil, mas ainda assim significante em termos de discurso. E de desdobramentos. Por mais que no geral seu discurso pareça o mesmo - belicoso em defesa da Síria - há alguns pontos para o debate.
Em outras palavras (ou traduzindo e resumindo), os sauditas prometeram colaborar e cooperar com os projetos de gás e petróleo russo na região, garantiram a segurança da base russa na Síria e, mais importante ao meu ver - e também um ponto importante para outros tema e discussões - garantiram a segurança das olimpíadas de inverno de Sochi.
Como?
Controlando as milícias chechenas.
Em outras palavras, hoje a resistência chechena é majoritariamente guiada por uma ideologia fundamentalista islâmica. E quem está por trás disso é a Arábia Saudita. É bom notar, no entanto, que ainda há representantes da "ala nacionalista" disputando espaço, porém são hoje minoritários frente a "ala islâmica".
Este é um dado conhecido, mas nunca publicamente declarado pelos Sauditas, que sempre preferiram negar e, por debaixo dos panos, financiar a Al Qaeda e outros grupos jihadistas semelhantes.
Para além da oferta generosa e tentadora à Rússia, fica o final reconhecimento de que quem está por trás da guerrilha chechena - e podemos assumir de outras também - é a Arábia Saudita.
A grande questão neste momento, porém, é entender o que move os sauditas. O mero fato de Assad ser laico e impor dificuldades à proliferação de grupos apoiados por sauditas na região não me parece, sozinho, motivo suficiente para tanta sede ao pote em sua derrubada.
Mas o fato é que a cada dia que passa vemos que o grande ator na região do Oriente Médio não é os EUA ou a Rússia, nem mesmo Israel ou o Irã, mas a Arábia Saudita. Seus interesses estão por trás de boa parte dos últimos acontecimentos relevantes na região, inclusive de intervenções americanas.
E a certeza que fica é: Caso estas propostas convençam Putin, Assad pode estar com os dias contados e, vale notar, hoje ele está vencendo a guerra.
É claro que, no fim das contas, Putin possa estar apenas buscando uma porta de saída para a crise Síria sem se comprometer, afinal provas contundentes de uso de armas químicas seriam um argumento válido politicamente para trocar de aliado(s).
Este artigo [em inglês] que o Guga Chacra passou no Twitter ajuda a entender a aparente mudança.
Sutil, mas ainda assim significante em termos de discurso. E de desdobramentos. Por mais que no geral seu discurso pareça o mesmo - belicoso em defesa da Síria - há alguns pontos para o debate.
Em outras palavras (ou traduzindo e resumindo), os sauditas prometeram colaborar e cooperar com os projetos de gás e petróleo russo na região, garantiram a segurança da base russa na Síria e, mais importante ao meu ver - e também um ponto importante para outros tema e discussões - garantiram a segurança das olimpíadas de inverno de Sochi.
Como?
Controlando as milícias chechenas.
“I can give you a guarantee to protect the Winter Olympics next year. The Chechen groups that threaten the security of the games are controlled by us,”Já escrevi diversas vezes sobre o tema, e é notável a mudança no foco da resistência chechena que inicialmente era absolutamente étnica, ou seja, tratava-se de uma minoria lutando pela independência da região tendo por base as diferenças culturas, étnicas e históricas dos chechenos em relação aos russos. Após a Primeira Guerra Chechena o foco foi mudado para uma luta com tons fundamentalistas islâmicos até que, após a Segunda Guerra Chechena a coisa degringolou e hoje fala-se mais em um "Califado do Cáucaso" que em uma República chechena.
Em outras palavras, hoje a resistência chechena é majoritariamente guiada por uma ideologia fundamentalista islâmica. E quem está por trás disso é a Arábia Saudita. É bom notar, no entanto, que ainda há representantes da "ala nacionalista" disputando espaço, porém são hoje minoritários frente a "ala islâmica".
Este é um dado conhecido, mas nunca publicamente declarado pelos Sauditas, que sempre preferiram negar e, por debaixo dos panos, financiar a Al Qaeda e outros grupos jihadistas semelhantes.
Para além da oferta generosa e tentadora à Rússia, fica o final reconhecimento de que quem está por trás da guerrilha chechena - e podemos assumir de outras também - é a Arábia Saudita.
A grande questão neste momento, porém, é entender o que move os sauditas. O mero fato de Assad ser laico e impor dificuldades à proliferação de grupos apoiados por sauditas na região não me parece, sozinho, motivo suficiente para tanta sede ao pote em sua derrubada.
Mas o fato é que a cada dia que passa vemos que o grande ator na região do Oriente Médio não é os EUA ou a Rússia, nem mesmo Israel ou o Irã, mas a Arábia Saudita. Seus interesses estão por trás de boa parte dos últimos acontecimentos relevantes na região, inclusive de intervenções americanas.
E a certeza que fica é: Caso estas propostas convençam Putin, Assad pode estar com os dias contados e, vale notar, hoje ele está vencendo a guerra.
É claro que, no fim das contas, Putin possa estar apenas buscando uma porta de saída para a crise Síria sem se comprometer, afinal provas contundentes de uso de armas químicas seriam um argumento válido politicamente para trocar de aliado(s).
------
Postado por
Raphael Tsavkko Garcia
às
10:30
Putin irá abandonar Assad pelas promessas sauditas?
2013-09-05T10:30:00-03:00
Raphael Tsavkko Garcia
Arábua Saudita|Assad|Chechênia|Conflito|EUA|Guerra|Oriente Médio|Petróleo|Putin|Rússia|Síria|
Comments
quinta-feira, 29 de agosto de 2013
Os EUA irão atacar a Síria?
"I have a dream". Martin Luther KingObama está em vias de atacar a Síria. Como Bush, baseado em premissas falsas ou, ao menos, sem informações suficientes para chegar à conclusão que chegou: a de que a síria teria armas de destruição em massa e que as teria usado - no caso, armas químicas - contra a população.
"I have drones". Barack Obama
Não há confirmação sequer de que o ataque que custou, diz-se, a vida de ao menos mil pessoas na Síria tenha ocorrido. Algumas fontes apontam para a falsificação de fotos e de dados.
Mas, assumindo a veracidade do ataque, novamente temos um problema: Ninguém sabe a origem. É óbvio que o exército Sírio poderia ter sido responsável, mas tal movimentação teria sido burra. Assad está vencendo a guerra, não teria razões para um ataque que faria a "comunidade internacional" ter argumentos para atacá-lo. Claro, um ditador é sempre um ditador e, como tal, imprevisível.
Por outro lado, tal ataque poderia ter sido realizado pela "resistência", coalhada de membros da Al Qaeda e outros malucos do tipo (além de uma parcela que efetivamente luta por democracia, mas ainda pequena). Shoko Asahara e seu ataque de Sarin ao metrô de Toquio são a prova de que um grupo organizado teria capacidade de um ataque com armas químicas.
E, lembremos, a Al Qaeda e outros grupos não são conhecidos pela compaixão mesmo pelo seu próprio povo ou apoiadores e poderia ter usado armas químicas como forma de culpar a Síria e acelerar uma resposta por parte dos EUA.
E para quem está pensando "os EUA vão novamente se juntar contra a Al Qaeda e depois fingir que não sabiam de nada?", a resposta é "sim". Afeganistão 2.0.
Assim como Bush 2.0 na mentira sobre armas de destruição em massa e Iraque 2.0 na destituição de um ditador sob falsos pretextos.
Ainda que, no caso, os EUA jurem de pé junto que a intenção é "dar uma lição" e não derrubar Assad.
Fiquemos de olho.
O complicador na questão é a Rússia, que alertou que poderá atacar a Arábia Saudita em retaliação. A declaração é possivelmente uma bravata na tentativa de frear Obama, mas ainda assim uma bravata perigosa.
No fim das contas, os EUA estão agindo da única forma que conhecem, com violência insensata, com ignorância, abusando de informações falsas, manipulando a opinião pública e, enfim, fazendo o que querem, como querem e da forma que querem sem se preocupar com mais nada.
A opinião interna dos EUA não suportará outra guerra. Obama prometeu que sairia de lamaçais por onde Bush se embrenhou, prometeu que fecharia Guantánamo e, no fim, pode acabar enfiando os EUA em mais um lamaçal.
E em mais um lamaçal de mentiras e hipocrisia. Em declaração à CNN, Obama declarou que "quem contraria a legislação internacional deve ser punido". Oras, então os EUA deveriam ter sido punidos há décadas. Nunca serão.
E completou: "Os EUA querem impedir que a Síria volte a usar armas químicas...não tomei uma decisão, recebi alternativas das Forças Armadas e tive diversas reuniões com a equipe de Segurança."
Os EUA querem impedir uma vitória de Assad com base em informações falsas ou pelo menos inconclusivas. E farão o que for possível para tanto. É a mensagem.E nada mais que o modus operandi dos EUA desde sempre.
É possível que um ataque dos EUA não culmine com uma invasão/ocupação, mas a situação da Líbia acaba por mostrar que qualquer opção é ruim. Um ataque dos EUA poderia desequilibrar a situação síria, fazendo com que a balança que hoje pende para Assad, mude para dar vantagem aos rebeldes.
É impossível ter certeza se haverá ou não um ataque, mas conhecendo a história dos EUA, é provável.
E uma intervenção teria repercussão por todo o Oriente Médio, em especial se a Rússia cumprir sua ameaça, o que poderia incentivar ainda Israel a se juntar às animosidades, e mesmo complicar a situação interna libanesa e atiçar os ânimos iranianos.
Saddam era odiado, Kadaffi não era amado, mas Assad e a Síria tem posição importante no Oriente Médio e desperta muito mais paixões. Fosse outro país e não os EUA, tal atitude seria considerada puro terrorismo.
------
terça-feira, 13 de março de 2012
O que há de errado com #Kony2012 ou a ingênua "boa vontade" estadunidense
Acredito que muitos (todos?) conheçam o vídeo da ONG "Invisible Children" #Kony2012:
O vídeo é muito bem feito - apesar de ter sido criticado por ser muito caro -, e a propsota de mobilização idem. Poucas vezes vi uma campanha basicamente online - mas com desdobramentos offline, claro, e com iniciativas offline - ser tão bem feita, ter atingido tão perfeitamente um alvo e causar tamanha repercussão.
Além das redes sociais, após imenso sucesso, o vídeo, a campanha e a ONG foram citadas e saudadas na mídia convencional, garantindo aind mais visibilidade.
Mas, enfim, porque critico e chamo-os de ingênuos.
Bem, a ONG basicamente nasce da iniciativa de um rapaz que, abismado e revoltado com a violência em Uganda perpetrada por Joseph Kony e pelo LRA (Exército de Resistência do Senhor), um grupo cristão fanático e assassino, resolve fazer alguma coisa para acabar com o grupo, através da prisão de seu líder.
Já acredito caber uma crítica inicial, a de que talvez seja ingênuo acreditar que um grupo com milhares de adeptos simplesmente se desmobilizaria pela prisão/morte (ainda que a ONG pregue a prisão e não a morte, mas sabemos que a segunda opção é até maisprovável) de seu líder. O grupo poderia se enfraquecer, é verdade, mas também poderia se dividir em pequenos e ainda mais fanatizados grupos, pulverizados e de maior mobilidade.
Mas este nem é o principal problema.
A grande questão está na forma escolhida para mobilizar, além da via online e através de ativistas, e no que pregam como solução para prender/matar Kony.
Primeiro, vamos à questão da mobilização.
A ong escolheu um numero de "celebridades" e políticos, mas sem se preocupar absolutamente com posições ideológicas, chegando a aceitar o apoio de Rush Limbaugh, um conhecido fanático racista de extremíssima direita.
Acho lindo que alguns queiram colocar as diferenças ideológicas acima de uma causa, mas para tudo há limite. E Limbaugh não é o único exemplo utilizável, talvez apenas o mais fácil.
A idéia de colocar a causa acima de ideologias pode esbarrar em obviedades, como a de um fanático participando de uma campanha contra outro fanático.
Segundo ponto, e talvez o mais problemático, é o de "como" a ong propõe uma solução: Através do envio de tropas dos EUA - mesmo que "apenas" como consultoras à Uganda.
Vejam bem, quem, de forma sensata, iria querer mandar marginais uniformizados, capazes de cometer os piores atos de genocídio, para resolver um problema em Uganda?
Não acredito que o exército local seja capaz - ou mesmo queira - resolver o problema, mas acredito que seja muito mais interessante - além de viável e politicamente mais simples - o envio de tropas da União Africana ou mesmo tropas de paz da ONU com mandato para agir (e não para servirem de palhaços como no Genocídio de Ruanda, país vizinho).
Me parece algo da típica ingenuidade de muitos estadunidenses, que acreditam piamente que seu exército e seu país são verdadeiros bastiões da liberdade e que servem como pacificadores no mundo. Nada poderia ser mais mentiroso.
Disfarçada de boas intenções (e acredito que seja isso mesmo), a campanha da ONG se propõe a ampliar a presença dos EUA na região, encruzilhada importante na África, em um país vizinho de países problemáticos e que interessam aos EUA, como o Sudão do Sul e o rico Congo, e a um pulo do Chifre da África.
Geopoliticamente - e economicamente - uma região de grande importância e interesse.
E que melhor chance para os EUA entrarem lá e andarem livremente do que à convite, motivados por uma campanha internacional pela paz na região?
É o momento em que a ingenuidade ativista se junta com a vontade política de um Estado criminoso e poderoso com permissão - carta branca - para treinar, "acessorar" e manipular um exército livremente, no caso, o de Uganda. Todos sabemos o que significa a intervenção dos EUA em países estrangeiros, não é preciso ir muito longe.
Abrir um precedente desses, de uma espécie de intervenção dos EUA como forma de dar vazão aos anseios de ativistas bem intencionados é extremamente perigoso. NAda impede que, futuramente, o próprio governo dos EUA possa se valer de alguma ONG de fachada com alguma campanha bem bolada para influenciar a opinião pública a apoiar invasões e terrorismo de Estado... Se bem que...
A campanha, mesmo bem intencionada - e estou dando um crédito a eles -, caiu como uma luva no colo dos interesses estadunidenses.
O objetivo da ONG não era homenagear Kony, líder do grupo rebelde Lord’s Resistance Army, de Uganda, tristemente conhecido por sequestrar garotos de suas famílias e, pelo medo, transformá-los em guerrilheiros, matando e mutilando suas famílias e seus vizinhos. O anonimato facilitava a fuga de Kony pela África, por isso a Invisible Children se propôs a torná-lo uma celebridade divulgando seu rosto e fazendo com que cada pessoa no mundo possa identificá-lo e prende-lo ainda em 2012.O vídeo bateu todos os recordes no Youtube, foi o mais visto da história e, à medida que se aproxima a data marcada para o evento mundial programado pela ONG, o sucesso da iniciativa ficou absolutamente claro.
O vídeo é muito bem feito - apesar de ter sido criticado por ser muito caro -, e a propsota de mobilização idem. Poucas vezes vi uma campanha basicamente online - mas com desdobramentos offline, claro, e com iniciativas offline - ser tão bem feita, ter atingido tão perfeitamente um alvo e causar tamanha repercussão.
Além das redes sociais, após imenso sucesso, o vídeo, a campanha e a ONG foram citadas e saudadas na mídia convencional, garantindo aind mais visibilidade.
Mas, enfim, porque critico e chamo-os de ingênuos.
Bem, a ONG basicamente nasce da iniciativa de um rapaz que, abismado e revoltado com a violência em Uganda perpetrada por Joseph Kony e pelo LRA (Exército de Resistência do Senhor), um grupo cristão fanático e assassino, resolve fazer alguma coisa para acabar com o grupo, através da prisão de seu líder.
Já acredito caber uma crítica inicial, a de que talvez seja ingênuo acreditar que um grupo com milhares de adeptos simplesmente se desmobilizaria pela prisão/morte (ainda que a ONG pregue a prisão e não a morte, mas sabemos que a segunda opção é até maisprovável) de seu líder. O grupo poderia se enfraquecer, é verdade, mas também poderia se dividir em pequenos e ainda mais fanatizados grupos, pulverizados e de maior mobilidade.
Mas este nem é o principal problema.
A grande questão está na forma escolhida para mobilizar, além da via online e através de ativistas, e no que pregam como solução para prender/matar Kony.
Primeiro, vamos à questão da mobilização.
A ong escolheu um numero de "celebridades" e políticos, mas sem se preocupar absolutamente com posições ideológicas, chegando a aceitar o apoio de Rush Limbaugh, um conhecido fanático racista de extremíssima direita.
Acho lindo que alguns queiram colocar as diferenças ideológicas acima de uma causa, mas para tudo há limite. E Limbaugh não é o único exemplo utilizável, talvez apenas o mais fácil.
A idéia de colocar a causa acima de ideologias pode esbarrar em obviedades, como a de um fanático participando de uma campanha contra outro fanático.
Segundo ponto, e talvez o mais problemático, é o de "como" a ong propõe uma solução: Através do envio de tropas dos EUA - mesmo que "apenas" como consultoras à Uganda.
Vejam bem, quem, de forma sensata, iria querer mandar marginais uniformizados, capazes de cometer os piores atos de genocídio, para resolver um problema em Uganda?
Não acredito que o exército local seja capaz - ou mesmo queira - resolver o problema, mas acredito que seja muito mais interessante - além de viável e politicamente mais simples - o envio de tropas da União Africana ou mesmo tropas de paz da ONU com mandato para agir (e não para servirem de palhaços como no Genocídio de Ruanda, país vizinho).
Me parece algo da típica ingenuidade de muitos estadunidenses, que acreditam piamente que seu exército e seu país são verdadeiros bastiões da liberdade e que servem como pacificadores no mundo. Nada poderia ser mais mentiroso.
Disfarçada de boas intenções (e acredito que seja isso mesmo), a campanha da ONG se propõe a ampliar a presença dos EUA na região, encruzilhada importante na África, em um país vizinho de países problemáticos e que interessam aos EUA, como o Sudão do Sul e o rico Congo, e a um pulo do Chifre da África.
Geopoliticamente - e economicamente - uma região de grande importância e interesse.
E que melhor chance para os EUA entrarem lá e andarem livremente do que à convite, motivados por uma campanha internacional pela paz na região?
É o momento em que a ingenuidade ativista se junta com a vontade política de um Estado criminoso e poderoso com permissão - carta branca - para treinar, "acessorar" e manipular um exército livremente, no caso, o de Uganda. Todos sabemos o que significa a intervenção dos EUA em países estrangeiros, não é preciso ir muito longe.
Abrir um precedente desses, de uma espécie de intervenção dos EUA como forma de dar vazão aos anseios de ativistas bem intencionados é extremamente perigoso. NAda impede que, futuramente, o próprio governo dos EUA possa se valer de alguma ONG de fachada com alguma campanha bem bolada para influenciar a opinião pública a apoiar invasões e terrorismo de Estado... Se bem que...
A campanha, mesmo bem intencionada - e estou dando um crédito a eles -, caiu como uma luva no colo dos interesses estadunidenses.
------
Postado por
Raphael Tsavkko Garcia
às
10:30
O que há de errado com #Kony2012 ou a ingênua "boa vontade" estadunidense
2012-03-13T10:30:00-03:00
Raphael Tsavkko Garcia
África|Conflito|Conflito Étnico|EUA|Kony|Política|Política Externa|religião|Terrorismo|Uganda|Violência|
Comments
Marcadores:
África,
Conflito,
Conflito Étnico,
EUA,
Kony,
Política,
Política Externa,
religião,
Terrorismo,
Uganda,
Violência
quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012
Yoani Sanchez, mas pode chamar de Soniña
Cuba não é um paraíso. Mas tampouco é o inferno.
Yoani Sanchez, carinhosamente apelidada de Soniña no Twitter - uma comparação honesta, diga-se de passagem - é uma escroque. Fala livremente de Cuba, mas acusa o país de censurá-la. Se hospeda e usa a internet dos melhores hotéis, apesar de dizer que nunca esteve em nenhum deles. Diz que foi torturada e espancada por agentes cubanos, mas nunca mostrou as marcas.
Diz viver em uma ditadura terrível, mas só encontra eco fora do país e, oras, escreve livremente, anda por onde quer sem ser molestada... Como uma dissidente que se acha tão censurada tem acesso livre e irrestrito à internet, a jornalistas entrangeiros e fala o que bem entende?
Não, Cuba não é o paraíso, é claro que existem restrições tanto impsotas pelo próprio regime quanto, majoritariamente impsotas pelo criminoso embargo que dura mais de 40 anos. E o embargo ajuda a explicar porque os cubanos - e não apenas a Yoani, que sempre se faz de vítima - não podem sair do país a não ser que a trabalho ou com despesas pagas.
Vejam o Brasil, que vem adotando medidas restritivas de cunho econômico para dificultar a saída de divisas do país via compras de brasileiros no exterior. IOF para compras lá fora crescendo é um exemplo. Turistas gastam muito quando saem do país e não gastam no país. Giram a economia de fora e não a do próprio país e Cuba tem uma economia fraca, uma economia com pouquíssimos parceiros graças ao embargo, logo, precisa concentrar todo dinheiro que pode internamente.
Isto justifica a proibição da saída de cubanos? Acho que não. Mas explica.
Não é apenas a Soniña, ops, Yoani, a impedida de sair. TODO cubano só pode sair dentro das condições que já elenquei, sob pena da economia cubana sofrer um baque irreversível. E a questão aqui nem é "emigrar", pois Yoani já morou fora e voltou com o rabinho entre as pernas da europa, onde morava, pra Cuba, mas sim "turistar".
Yoani Sanchez, carinhosamente apelidada de Soniña no Twitter - uma comparação honesta, diga-se de passagem - é uma escroque. Fala livremente de Cuba, mas acusa o país de censurá-la. Se hospeda e usa a internet dos melhores hotéis, apesar de dizer que nunca esteve em nenhum deles. Diz que foi torturada e espancada por agentes cubanos, mas nunca mostrou as marcas.
Diz viver em uma ditadura terrível, mas só encontra eco fora do país e, oras, escreve livremente, anda por onde quer sem ser molestada... Como uma dissidente que se acha tão censurada tem acesso livre e irrestrito à internet, a jornalistas entrangeiros e fala o que bem entende?
Não, Cuba não é o paraíso, é claro que existem restrições tanto impsotas pelo próprio regime quanto, majoritariamente impsotas pelo criminoso embargo que dura mais de 40 anos. E o embargo ajuda a explicar porque os cubanos - e não apenas a Yoani, que sempre se faz de vítima - não podem sair do país a não ser que a trabalho ou com despesas pagas.
Vejam o Brasil, que vem adotando medidas restritivas de cunho econômico para dificultar a saída de divisas do país via compras de brasileiros no exterior. IOF para compras lá fora crescendo é um exemplo. Turistas gastam muito quando saem do país e não gastam no país. Giram a economia de fora e não a do próprio país e Cuba tem uma economia fraca, uma economia com pouquíssimos parceiros graças ao embargo, logo, precisa concentrar todo dinheiro que pode internamente.
Isto justifica a proibição da saída de cubanos? Acho que não. Mas explica.
Não é apenas a Soniña, ops, Yoani, a impedida de sair. TODO cubano só pode sair dentro das condições que já elenquei, sob pena da economia cubana sofrer um baque irreversível. E a questão aqui nem é "emigrar", pois Yoani já morou fora e voltou com o rabinho entre as pernas da europa, onde morava, pra Cuba, mas sim "turistar".
------
Postado por
Raphael Tsavkko Garcia
às
10:30
Yoani Sanchez, mas pode chamar de Soniña
2012-02-09T10:30:00-02:00
Raphael Tsavkko Garcia
América Central|América Latina|CIA|Cuba|Direitos Humanos|Esquerda|EUA|Mídia|Política|Política Externa|
Comments
Marcadores:
América Central,
América Latina,
CIA,
Cuba,
Direitos Humanos,
Esquerda,
EUA,
Mídia,
Política,
Política Externa
terça-feira, 7 de fevereiro de 2012
A revolta síria pode não ser o que parece?
Enquanto a situação política e mesmo social na síria aparenta cada vez mais piorar, o ocidente e a mídia ocidental - com o perdão de Edward Said - tem se esforçado em pintar o ditador Bashar Al Assad de assassino cruel.
Curioso notar, de início, que o termo “ditador”, usado hoje para designar Assad, começou a ser usado amplamente apenas após o ex-presidente George W Bush incluir a Síria no chamado “Eixo do Mal”. Mesmo assim, a mídia brasileira, em alguns momentos, costumava chamá-lo de “presidente”, mesmo tratamento dado até os derradeiros dias de Hosni Mubarak, no Egito, e outros.
É preciso ter em mente, porém, que Assad não é santo, mas tampouco o lunático sedento de sangue mostrado pela mídia e por seus detratores. A guerra de propaganda está em seu auge.
A Síria é uma região de importância estratégica significativa, não por suas riquezas, poucas em comparação com muitos de seus vizinhos, mas pelas suas fronteiras com regiões de interesse direto dos EUA e, especialmente, por serem grandes financiadores de grupos antagonistas de Israel e dos interesses dos EUA na região, como o Hamas e o Hezbollah.
O governo, assim como Assad, está nas mãos na minoria alauíta, um grupo muçulmano de ritos pouco conhecidos e extremamente fechado, enquanto a maior parte da população é composta por sunitas, mas tem ainda dentro de suas fronteiras consideráveis minorias cristãs, Drusas e Curdas, o que torna a Síria uma espécie de Líbano - ainda - sob controle, mas potencialmente explosivo.
E é do Líbano que muitos "agitadores", como os chamam o governo sírio, vem para ajudar os rebeldes em cidades como Homs, um dos epicentros das revoltas.
Está claro que o início do processo possivelmente revolucionário teve início na cidade de Daara, no sul do país, e é reflexo da insatisfação que a maioria sunita expressa contra um governo que os marginaliza - ou mantém sob controle, dependendo do ponto de vista.
Curioso notar, de início, que o termo “ditador”, usado hoje para designar Assad, começou a ser usado amplamente apenas após o ex-presidente George W Bush incluir a Síria no chamado “Eixo do Mal”. Mesmo assim, a mídia brasileira, em alguns momentos, costumava chamá-lo de “presidente”, mesmo tratamento dado até os derradeiros dias de Hosni Mubarak, no Egito, e outros.
É preciso ter em mente, porém, que Assad não é santo, mas tampouco o lunático sedento de sangue mostrado pela mídia e por seus detratores. A guerra de propaganda está em seu auge.
A Síria é uma região de importância estratégica significativa, não por suas riquezas, poucas em comparação com muitos de seus vizinhos, mas pelas suas fronteiras com regiões de interesse direto dos EUA e, especialmente, por serem grandes financiadores de grupos antagonistas de Israel e dos interesses dos EUA na região, como o Hamas e o Hezbollah.
O governo, assim como Assad, está nas mãos na minoria alauíta, um grupo muçulmano de ritos pouco conhecidos e extremamente fechado, enquanto a maior parte da população é composta por sunitas, mas tem ainda dentro de suas fronteiras consideráveis minorias cristãs, Drusas e Curdas, o que torna a Síria uma espécie de Líbano - ainda - sob controle, mas potencialmente explosivo.
E é do Líbano que muitos "agitadores", como os chamam o governo sírio, vem para ajudar os rebeldes em cidades como Homs, um dos epicentros das revoltas.
Está claro que o início do processo possivelmente revolucionário teve início na cidade de Daara, no sul do país, e é reflexo da insatisfação que a maioria sunita expressa contra um governo que os marginaliza - ou mantém sob controle, dependendo do ponto de vista.
------
Postado por
Raphael Tsavkko Garcia
às
10:30
A revolta síria pode não ser o que parece?
2012-02-07T10:30:00-02:00
Raphael Tsavkko Garcia
Conflito|EUA|Líbano|ONU|Oriente Médio|Palestina|Política|Síria|Terrorismo|
Comments
Marcadores:
Conflito,
EUA,
Líbano,
ONU,
Oriente Médio,
Palestina,
Política,
Síria,
Terrorismo
quinta-feira, 13 de outubro de 2011
Steve Jobs: A morte do deus tecno-humano
Visionário, gênio, herói, semideus e mesmo um deus tecno-humano foram
apenas alguns adjetivos usados pela mídia, por blogs e por indivíduos
para descrever Steve Jobs, na quarta-feira (5/10), vítima de câncer, aos
56 anos de idade. De forma absolutamente irrestrita sua imagem foi
vendida como a de um personagem irreal, saído da ficção direto para
salvar a humanidade da inércia e da apatia. Seus iPods, iPhones e outros
“i’s” se tornaram paradigmas supremos e símbolo da modernidade em que a
tecnologia determina nossas vidas.
Mais do que um obituário, Steve Jobs obteve um case de marketing completo onde seus produtos foram vendidos sob o falso tom de jornalismo comprometido. Sua morte pareceu até mesmo um golpe de marketing. Apenas poucos dias após o anúncio de mais um novo produto, sonho de consumo em um mundo onde a posse de gadgets ultramodernos se tornou razão da vida de muitos, morre Jobs, sua marca foi exaltada e o e a compra do mais novo iPhone transformada quase em homenagem à memória do semideus.
Como de costume, a morte nos torna a todos perfeitos. Apaga nossas falhas, nossas contradições. Não há nenhum morto que não seja lembrado com alguma dose de... carinho, talvez? Mesmo os piores ditadores encontram conforto na memória de selecionados seguidores. Por que seria diferente com Jobs? Aos que se surpreendem com a comparação com ditadores, não se assustem. Jobs era líder de um império empresarial, capitalista por natureza. Não aceitava limites para sua criatividade ou para seus lucros. Contrário à lógica colaborativa e democrática que permeia a rede, preferia ter sob seu guarda-chuva os melhores, prontos a trabalhar por gordos salários, e mantendo preso sob contrato conhecimentos que poderiam ajudar no desenvolvimento de diversas outras ferramentas e produtos tecnológicos.
Pensamento único da mídia
Sua empresa, a Apple, estava envolvida em escândalos, como casos de trabalho escravo e mesmo suicídios em fábricas que produziam seus produtos na China, como a Foxconn, que logo ampliará suas garras até as terras brasileiras. Michael Moore já provou em seus documentários que os patrões normalmente sabem das condições desumanas a que são submetidos seus empregados, mesmo que em empresas terceirizadas. No Brasil, tivemos recentemente a cobertura do caso da Zara, cuja cadeia de produção incluía baixos salários e imigrantes em situação análoga à da escravidão. Neste caso, palmas para a mídia que teve a dignidade de ajudar na denúncia e na pressão.
No caso da Apple, toda e qualquer denúncia foi, agora, enterrada pelos louvores ao gênio precocemente falecido. Ditador em suas maneiras, frio nas suas decisões e interessado apenas na promoção pessoal e na de seus produtos, que só faltam ir ao mercado e fazer as compras pelo seu feliz dono. Apenas na internet, no ambiente em que a mídia ainda enfrenta dificuldades para impor sua ditadura do pensamento único, algumas vozes destoaram do coro ao semideus. Mas tímidas, localizadas e mesmo comportadas.
Estas foram ignoradas ou reproduzidas pela mídia com tom de descrença, quase de ofensa pessoal contra um herói que talvez tenha descoberto a penicilina ou a cura para o câncer, mas que foi vencido em uma batalha heroica.
A ditadura de pensamento único da mídia se perpetua e mantém vivo o alerta pela necessidade de uma real democratização dos meios de comunicação. E, acima de tudo, mostrou que, mais uma vez, a internet permanece como um dos únicos polos de resistência que, ironicamente, foi a casa do deus tecno-humano que faleceu.
Publicado originalmente no Observatório da Imprensa
Mais do que um obituário, Steve Jobs obteve um case de marketing completo onde seus produtos foram vendidos sob o falso tom de jornalismo comprometido. Sua morte pareceu até mesmo um golpe de marketing. Apenas poucos dias após o anúncio de mais um novo produto, sonho de consumo em um mundo onde a posse de gadgets ultramodernos se tornou razão da vida de muitos, morre Jobs, sua marca foi exaltada e o e a compra do mais novo iPhone transformada quase em homenagem à memória do semideus.
Como de costume, a morte nos torna a todos perfeitos. Apaga nossas falhas, nossas contradições. Não há nenhum morto que não seja lembrado com alguma dose de... carinho, talvez? Mesmo os piores ditadores encontram conforto na memória de selecionados seguidores. Por que seria diferente com Jobs? Aos que se surpreendem com a comparação com ditadores, não se assustem. Jobs era líder de um império empresarial, capitalista por natureza. Não aceitava limites para sua criatividade ou para seus lucros. Contrário à lógica colaborativa e democrática que permeia a rede, preferia ter sob seu guarda-chuva os melhores, prontos a trabalhar por gordos salários, e mantendo preso sob contrato conhecimentos que poderiam ajudar no desenvolvimento de diversas outras ferramentas e produtos tecnológicos.
Pensamento único da mídia
Sua empresa, a Apple, estava envolvida em escândalos, como casos de trabalho escravo e mesmo suicídios em fábricas que produziam seus produtos na China, como a Foxconn, que logo ampliará suas garras até as terras brasileiras. Michael Moore já provou em seus documentários que os patrões normalmente sabem das condições desumanas a que são submetidos seus empregados, mesmo que em empresas terceirizadas. No Brasil, tivemos recentemente a cobertura do caso da Zara, cuja cadeia de produção incluía baixos salários e imigrantes em situação análoga à da escravidão. Neste caso, palmas para a mídia que teve a dignidade de ajudar na denúncia e na pressão.
No caso da Apple, toda e qualquer denúncia foi, agora, enterrada pelos louvores ao gênio precocemente falecido. Ditador em suas maneiras, frio nas suas decisões e interessado apenas na promoção pessoal e na de seus produtos, que só faltam ir ao mercado e fazer as compras pelo seu feliz dono. Apenas na internet, no ambiente em que a mídia ainda enfrenta dificuldades para impor sua ditadura do pensamento único, algumas vozes destoaram do coro ao semideus. Mas tímidas, localizadas e mesmo comportadas.
Estas foram ignoradas ou reproduzidas pela mídia com tom de descrença, quase de ofensa pessoal contra um herói que talvez tenha descoberto a penicilina ou a cura para o câncer, mas que foi vencido em uma batalha heroica.
A ditadura de pensamento único da mídia se perpetua e mantém vivo o alerta pela necessidade de uma real democratização dos meios de comunicação. E, acima de tudo, mostrou que, mais uma vez, a internet permanece como um dos únicos polos de resistência que, ironicamente, foi a casa do deus tecno-humano que faleceu.
Publicado originalmente no Observatório da Imprensa
------
Postado por
Raphael Tsavkko Garcia
às
10:30
Steve Jobs: A morte do deus tecno-humano
2011-10-13T10:30:00-03:00
Raphael Tsavkko Garcia
EUA|Jornalismo|Mídia|Política|Steve Jobs|Teconologia|trabalho escravo. direitos humanos|
Comments
Marcadores:
EUA,
Jornalismo,
Mídia,
Política,
Steve Jobs,
Teconologia,
trabalho escravo. direitos humanos
domingo, 25 de setembro de 2011
Reações da blogosfera e tuitosfera brasileira à execução de Troy Davies
[English below]
Em 21 de setembro, blogueiros brasileiros reagiram à execução de Troy Davies, um estadunidense condenado ao corredor da morte em 19 de agosto de 1989 acusado de ter matado o policial Mark MacPhailem Savannah, Geórgia.
A blogueira Rosângela Basso explica:
---------------------
English version:
On September 21 Brazilian bloggers reacted to the execution of Troy Davis, an American death row inmate convicted of the August 19, 1989, murder of Savannah, Georgia, police officer Mark MacPhail, as Global Voices reported, though nothing about his case was certain.
Blogger Rosângela Basso explains [pt]:
Em 21 de setembro, blogueiros brasileiros reagiram à execução de Troy Davies, um estadunidense condenado ao corredor da morte em 19 de agosto de 1989 acusado de ter matado o policial Mark MacPhailem Savannah, Geórgia.
A blogueira Rosângela Basso explica:
@Ro_anna: #TroyDavis As sete pessoas que voltaram atrás em seus testemunhos, disseram que foram "persuadidas" pela polícia a testemunhar contra DavisO blog Bule Voador (Flying Teapot) acrescentou:
@BuleVoador: #TroyDavis: outro homem confessou, 7 testemunhas retiraram testemunho. polícia acusada de coerção. SEM DNA, sem arma do crime. Justiça?Escrevendo algumas horas antes da execução, @tomfernandes, em seu blog, argumentou:
Troy Davis é um assassino? Apesar de todas as provas em contrário, das testemunhas que o inocentaram, da falta de provas físicas, evidências e da arma do crime, o “sistema judiciário” o condenou porque alguém precisa ser sempre condenado no roteiro americano. Os americanos não sabem conviver com a dúvida, com a incerteza, com a insegurança. Preferem admitir depois o erro a deixar de agir rapidamente.
A execução de Troy Davies causou uma onda de raiva entre os tuiteiros brasileiros, e também trouxe muitas questões. O ativista político Matheus Rodrigues pergunta:
@matheusrg: Supremo dos EUA rejeita recurso de suspensão de execução de Troy Davis http://glo.bo/r1MkJL Os que se levantaram pela Sakineh, onde estão?O mesmo fez a escritora e jornalista Silvia Kochen:
@silviakochen: EUA executam um inocente. Isso é o que chamam de civilização? #troydavisOs EUA e seu sistema judiciário foram muito criticados. Esta foi a forma pela qual o Bule Voador anunciou a morte de Davies:
@BuleVoador: #TroyDavis morreu oficialmente às 12:08, 4 minutos atrás, assassinado pelo governo dos EUA e pelo Estado de Georgia.Momentos antes, o jornalista Bruno Torturra disse:
@torturra: E a Suprema Corte Americana autorizou a execução de #troydavis... Clima horrível. EUA realmente perdeu o rumo geral.Anna Stein foi concisa:
@HannahStein_: @A_Rosaninha @Ro_anna Mataram o Troy Davis.Muitos repudiaram toda asociedade estadunidense, como Idelber Avelar, professor da Tulane University:
@iavelar: Não gosto de usar metáforas biológicas pra falar do social, mas tá difícil fugir delas: os EUA são um país cada vez mais doente. #troydavis.e o jornalista Victor Farinelli:
@vfarinelli: Assassinato cometido pelo estado é coisa de ditadura em qualquer lugar do mundo, por que não quando os assassinos são os EUA? #TroyDavis
E outros criticaram o presidente Barack Obama. A blogueira e ativista Conceição Oliveira foi direta:
@maria_fro: Mister Obama o senhor é o maior estelionato eleitoral da história. #vergonhaalheiaRosângela Basso acrescentou:
@Ro_anna: Essa é a PAZ que Obama discursou..., matam #TroyDavies com & testemunhas dizendo q foram "coagidas" pela polícia a testemunhar contra DavisSobre a Pena de Morte em si, o escritor Marcelo Carneiro Cunha disse:
@marceloccunha: No nosso país, caros brasileiros, a proibição à pena de morte é cláusula pétrea na Constituição. Isso temos, isso somos.Ao que a jornalista Cynara Menezes respondeu:
@cynaramenezes: não se iludam, no brasil também tem pena de morte. chama-se "auto de resistência" e também vitima negros e pobres #troydavisOs blogs Bule Voador e Maria da Penha Neles publicaram uma carta escrita por Troy Davies em 10 de setembro que muitos, no twitter, compartilharam com seus seguidores:
“EU SOU TROY DAVIS, E EU SOU LIVRE!”
Nunca Parem de Lutar por Justiça e Nós Ganharemos!
Suas última palavras, de acordo com o ativista Everson F, foram:
@eversonF: Troy Davis, nas últimas palavras, disse que não tinha arma, não matou ninguém e que sentia pela perda da família da vítima.
Com alguma revolta, Marcelo Carneiro Cunha disse:
@marceloccunha: Pra Justiça da Georgia e para os juízes da Suprema Corte que permitiram a execução, eu suspendo meu ateísmo e espero que exista um inferno.E o escritor Ricardo Gondin finaliza:
@gondimricardo: Vou tentar dormir...pesadelos serão bem-vindos para aliviar a crueza da realidade.
---------------------
English version:
On September 21 Brazilian bloggers reacted to the execution of Troy Davis, an American death row inmate convicted of the August 19, 1989, murder of Savannah, Georgia, police officer Mark MacPhail, as Global Voices reported, though nothing about his case was certain.
Blogger Rosângela Basso explains [pt]:
@Ro_anna: #TroyDavis As sete pessoas que voltaram atrás em seus testemunhos, disseram que foram "persuadidas" pela polícia a testemunhar contra Davis
@Ro_anna: #TroyDavis The seven people who went back in their testimonies, said they were "persuaded" by police to testify against Davis
The blog Bule Voador (Flying Teapot) added [pt]:@BuleVoador: #TroyDavis: outro homem confessou, 7 testemunhas retiraram testemunho. polícia acusada de coerção. SEM DNA, sem arma do crime. Justiça?
@BuleVoador: #TroyDavis:another man confessed, seven witnesses have withdrawn their testimonies. Police accused of coercion. Without DNA, no murder weapon. Justice?
Writing a few hours before the execution, @tomfernandes, in his blog, argued [pt]:Troy Davis é um assassino? Apesar de todas as provas em contrário, das testemunhas que o inocentaram, da falta de provas físicas, evidências e da arma do crime, o “sistema judiciário” o condenou porque alguém precisa ser sempre condenado no roteiro americano. Os americanos não sabem conviver com a dúvida, com a incerteza, com a insegurança. Preferem admitir depois o erro a deixar de agir rapidamente.
Troy Davis is a murderer? Despite all evidence to the contrary, of the witnesses who acquitted him, the lack of physical proofs, of evidences and of the murder weapon, the "justice system" condemned him because someone must always be condemned in the American script. The Americans cannot live with doubt, with uncertainty, insecurity. They prefer to admit the error than failing to act quickly.
Troy Davies' execution caused lots of anger among twitter users in Brazil, and also many questions. The political activist Matheus Rodrigues asks [pt]:@matheusrg: Supremo dos EUA rejeita recurso de suspensão de execução de Troy Davis http://glo.bo/r1MkJL Os que se levantaram pela Sakineh, onde estão?
@matheusrg:U.S. Supreme court rejects appel to suspend Troy Davies' execution http://glo.bo/r1MkJL Those who stood by Sakineh's killing, where are they?
The same does [pt] the writer and journalist Silvia Kochen:@silviakochen: EUA executam um inocente. Isso é o que chamam de civilização? #troydavis
@silviakochen: USA execute an innocent. This is what we call civilization? #troydavis
United States and their justice system were very criticized. Here's how the blog Bule Voador (Flying Teapot, pt) announced Davies's death:@BuleVoador: #TroyDavis morreu oficialmente às 12:08, 4 minutos atrás, assassinado pelo governo dos EUA e pelo Estado de Georgia.
@BuleVoador: #TroyDavis officially died at 12:08, 4 minutes ago, murdered by the U.S. government and the state of Georgia.
Moments before, journalist Bruno Torturra said [pt]:@torturra: E a Suprema Corte Americana autorizou a execução de #troydavis... Clima horrível. EUA realmente perdeu o rumo geral.
@torturra: And the American Supreme Court authorized the execution of #troydavis... Horrible situation. U.S. actually lost its general direction.
Anna Stein was concise [pt]:@HannahStein_: @A_Rosaninha @Ro_anna Mataram o Troy Davis.Many repudiated the whole American society, such as [pt] the Tulane University teacher Idelber Avelar:
@iavelar: Não gosto de usar metáforas biológicas pra falar do social, mas tá difícil fugir delas: os EUA são um país cada vez mais doente. #troydavis.
@iavelar: I don't like to use biological metaphors to talk about the social, but it's hard to escape them: the U.S. is increasingly ill. #troydavis.
and the journalist [pt] Victor Farinelli:@vfarinelli: Assassinato cometido pelo estado é coisa de ditadura em qualquer lugar do mundo, por que não quando os assassinos são os EUA? #TroyDavis
@vfarinelli: Murder committed by the state is something of dictatorship anywhere in the world, but why not when the killers is the U.S.?#TroyDavis
And others criticized President Barack Obama. Blogger and activist Conceição Oliveira was straightforward [pt]:
@maria_fro: Mister Obama o senhor é o maior estelionato eleitoral da história. #vergonhaalheia
@maria_fro: Mister Obama you are the biggest electoral fraud in history. #vergonhaalheia
Rosângela Basso added [pt]:@Ro_anna: Essa é a PAZ que Obama discursou..., matam #TroyDavies com & testemunhas dizendo q foram "coagidas" pela polícia a testemunhar contra Davis
@Ro_anna: This is PEACE that Obama spoke about...., to kill #TroyDavies with many witnesses saying they were "coerced" by police to testify against Davis
About the Death Penalty itself, writer Marcelo Carneiro Cunha said [pt]:@marceloccunha: No nosso país, caros brasileiros, a proibição à pena de morte é cláusula pétrea na Constituição. Isso temos, isso somos.
@marceloccunha: In our country, dear Brazilians, the prohibition of the death penalty is a unchangeable clause in the Constitution. This we have, this we are.
To what journalist Cynara Menezes responded [pt]:@cynaramenezes: não se iludam, no brasil também tem pena de morte. chama-se "auto de resistência" e também vitima negros e pobres #troydavis
@cynaramenezes: Do not deceive, Brazil also has the death penalty. called "auto de resistência" [death resulting from a confrontation] and also victimises black and poor people#troydavis
The blogs Bule Voador and Maria da Penha Neles published [pt] a letter [pt] by Troy Davies written on September 10th that many, on twitter, shared to it's followers:“EU SOU TROY DAVIS, E EU SOU LIVRE!”
Nunca Parem de Lutar por Justiça e Nós Ganharemos!
"I AM TROY DAVIES, AND I'M FREE!"
Never stop fighting for justice and we'll win!
His last words, according to the activist Everson F, were [pt]:
@eversonF: Troy Davis, nas últimas palavras, disse que não tinha arma, não matou ninguém e que sentia pela perda da família da vítima.
@eversonF: Troy Davis, on his last words, said he had no weapon, did not kill anyone and that he felt the loss of the victim's family.
With some revolt Marcelo Carneiro Cunha says:
@marceloccunha: Pra Justiça da Georgia e para os juízes da Suprema Corte que permitiram a execução, eu suspendo meu ateísmo e espero que exista um inferno.
@marceloccunha: For the Justice of Georgia and the Supreme Court that allowed the execution, I sighed my atheism and I hope there is a hell.
And writer Ricardo Gondin finalizes [pt]:@gondimricardo: Vou tentar dormir...pesadelos serão bem-vindos para aliviar a crueza da realidade.
@gondimricardo: I'll try to sleep ... nightmares are welcome to ease the harshness of reality.
------
Postado por
Raphael Tsavkko Garcia
às
14:00
Reações da blogosfera e tuitosfera brasileira à execução de Troy Davies
2011-09-25T14:00:00-03:00
Raphael Tsavkko Garcia
Assassinato|Brasil|EUA|justiça|Pena de Morte|Protesto|Safadeza|
Comments
Marcadores:
Assassinato,
Brasil,
EUA,
justiça,
Pena de Morte,
Protesto,
Safadeza
sexta-feira, 23 de setembro de 2011
A subserviência da mídia brasileira
Ao contrário da visão imposta de forma incessante pela mídia, o 11 de
setembro não significou nenhuma mudança efetiva na política
internacional – nem na política externa dos EUA, nem de qualquer outro
país. A política externa dos EUA permaneceu voltada para os ataques a
seus inimigos e para o patrocínio do terrorismo de Estado (e mesmo do
terrorismo internacional via grupos paramilitares e Estados aliados,
como na Colômbia) e em momento algum sofreu qualquer guinada, senão
apenas ajustes pontuais e uma readequação à continuidade da agenda
estadunidense. Criou-se um novo inimigo – a Al Qaida – para “desculpar”
seus ataques por todo o Oriente Médio e além.
Do “perigo comunista”, passando por um período pós-fim da URSS de reordenamento internacional até a “guerra ao terror”, os EUA continuaram a promover conflitos, criando inimigos e moldando aliados. Após o 11 de setembro, adotaram ao máximo e com afinco o princípio do “crescimento canceroso”, definido pelo cientista político húngaro Istvan Meszaros como aquele crescimento movido pela indústria bélica, pela destruição e posterior reconstrução de países “inimigos” e pela apropriação de suas riquezas naturais. Afeganistão e Iraque, primeiro, e agora a Líbia, foram alvos, e outros se desenham ou estão marcados, como Síria, Sudão e Coreia do Norte.
Mas mesmo com tudo isso, a mídia brasileira permaneceu fiel ao lado do discurso dos EUA de “guerra ao terror”, batendo palmas para suas ações e deixando passar graves denúncias de abusos aos direitos humanos, criticando apenas o que lhe parecia mais escandaloso, na tentativa de fingir uma imparcialidade inexistente.
Evento definitivo
A cobertura dos 10 anos do 11 de setembro não surpreende, então, o imenso interesse dos canais brasileiros sobre o evento, que cobriram com uma paixão mórbida e hoje realizam especiais, transmitem filmes, convidam “especialistas” e não deixam um minuto de afirmar que “o mundo mudou”. Mas não mudou. Antes do 11 de setembro, os EUA já haviam invadido a Sérvia sem permissão da ONU, já haviam invadido o Iraque em 1991 e continuavam a exportar terrorismo para a Colômbia e para os mais diversos pontos do mundo. A única diferença pós-ataques foi o caráter mais displicente das invasões e intervenções – contando com a eterna conivência midiática.
Com duas semanas para o fatídico aniversário dos ataques, a mídia brasileira – em particular a GloboNews – já se preparava com a avidez de uma ave carniceira para os milhares de especiais que havia preparado para a data. Por vezes é difícil separar o que é conivência sensacionalista e o que é apenas morbidez insensata. Não se passou um só dia sem que o 11 de setembro não fosse lembrado e exaltado como marco. Parecia até que a humanidade, como um todo, havia deparado com um evento definitivo.
Mídia “independente” e “nacional”
Apelidado de o maior ataque terrorista da história (Hiroshima e Nagasaki foram convenientemente esquecidas, assim como o bombardeio de Dresden ou mesmo os ataques israelenses contra crianças palestinas ou contra a população libanesa), o 11 de setembro serviu para, mais uma vez, deixar claro o caráter da mídia brasileira – em muitos casos, sua falta de caráter. O 11 de setembro, enfim, foi tratado como o evento limite da humanidade, mas suas consequências para o mundo foram diminuídas. Os ataques deram carta branca aos EUA, que se assumiram na posição de guardiões da humanidade, incontestes.
Total foco na carnificina, no sensacionalismo abjeto, nos documentários sensacionalistas e dramalhões “humanos”. Não era fácil encontrar um só canal de TV – aberta ou fechada – que não exibisse pelo menos um “especial” sobre a data, em uma overdose coletiva na tentativa de legitimar os atos posteriores do império ferido.
Todo 11 de setembro, mas em especial este, que marcou os dez anos, serve para demonstrar o quão independente e “nacional” é a mídia brasileira.
Publicado originalmente no Observatório da Imprensa
Do “perigo comunista”, passando por um período pós-fim da URSS de reordenamento internacional até a “guerra ao terror”, os EUA continuaram a promover conflitos, criando inimigos e moldando aliados. Após o 11 de setembro, adotaram ao máximo e com afinco o princípio do “crescimento canceroso”, definido pelo cientista político húngaro Istvan Meszaros como aquele crescimento movido pela indústria bélica, pela destruição e posterior reconstrução de países “inimigos” e pela apropriação de suas riquezas naturais. Afeganistão e Iraque, primeiro, e agora a Líbia, foram alvos, e outros se desenham ou estão marcados, como Síria, Sudão e Coreia do Norte.
Mas mesmo com tudo isso, a mídia brasileira permaneceu fiel ao lado do discurso dos EUA de “guerra ao terror”, batendo palmas para suas ações e deixando passar graves denúncias de abusos aos direitos humanos, criticando apenas o que lhe parecia mais escandaloso, na tentativa de fingir uma imparcialidade inexistente.
Evento definitivo
A cobertura dos 10 anos do 11 de setembro não surpreende, então, o imenso interesse dos canais brasileiros sobre o evento, que cobriram com uma paixão mórbida e hoje realizam especiais, transmitem filmes, convidam “especialistas” e não deixam um minuto de afirmar que “o mundo mudou”. Mas não mudou. Antes do 11 de setembro, os EUA já haviam invadido a Sérvia sem permissão da ONU, já haviam invadido o Iraque em 1991 e continuavam a exportar terrorismo para a Colômbia e para os mais diversos pontos do mundo. A única diferença pós-ataques foi o caráter mais displicente das invasões e intervenções – contando com a eterna conivência midiática.
Com duas semanas para o fatídico aniversário dos ataques, a mídia brasileira – em particular a GloboNews – já se preparava com a avidez de uma ave carniceira para os milhares de especiais que havia preparado para a data. Por vezes é difícil separar o que é conivência sensacionalista e o que é apenas morbidez insensata. Não se passou um só dia sem que o 11 de setembro não fosse lembrado e exaltado como marco. Parecia até que a humanidade, como um todo, havia deparado com um evento definitivo.
Mídia “independente” e “nacional”
Apelidado de o maior ataque terrorista da história (Hiroshima e Nagasaki foram convenientemente esquecidas, assim como o bombardeio de Dresden ou mesmo os ataques israelenses contra crianças palestinas ou contra a população libanesa), o 11 de setembro serviu para, mais uma vez, deixar claro o caráter da mídia brasileira – em muitos casos, sua falta de caráter. O 11 de setembro, enfim, foi tratado como o evento limite da humanidade, mas suas consequências para o mundo foram diminuídas. Os ataques deram carta branca aos EUA, que se assumiram na posição de guardiões da humanidade, incontestes.
Total foco na carnificina, no sensacionalismo abjeto, nos documentários sensacionalistas e dramalhões “humanos”. Não era fácil encontrar um só canal de TV – aberta ou fechada – que não exibisse pelo menos um “especial” sobre a data, em uma overdose coletiva na tentativa de legitimar os atos posteriores do império ferido.
Todo 11 de setembro, mas em especial este, que marcou os dez anos, serve para demonstrar o quão independente e “nacional” é a mídia brasileira.
Publicado originalmente no Observatório da Imprensa
------
Postado por
Raphael Tsavkko Garcia
às
10:30
A subserviência da mídia brasileira
2011-09-23T10:30:00-03:00
Raphael Tsavkko Garcia
Brasil|EUA|Manipulação|Mídia|Política|Política; Terrorismo|Safadeza|Terrorismo|
Comments
Marcadores:
Brasil,
EUA,
Manipulação,
Mídia,
Política,
Política; Terrorismo,
Safadeza,
Terrorismo
Assinar:
Postagens (Atom)







