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segunda-feira, 3 de junho de 2013

Existirá um Brasil depois de 2016?

O Brasil, aparentemente, não existirá depois de 2014-16. 

Do jeito que Dilma vem privatizando o país começo a acreditar que logo não teremos "presidente", e sim "gestor". No fim das contas já é o serviço da Dilma, gerir o capitalismo nacional a fim de maximizar lucros de seus financiadores de campanha através da ampliação do consumo. 

Depois de 2016 a gente entrega o Rio pro Eike, negocia São Paulo e o resto do país pro "investidor" que der mais e seremos felizes pra sempre, morando em favelas, sem saneamento e morrendo nas mãos da polícia, sofrendo racismo, homofobia, mas com carro do ano na garagem, diploma de uniesquina e com sub-emprego. 

Mas felizes.
Como irrita ouvir que tudo o que o se está fazendo no Brasil nas cidades sede tem como objetivo a Copa ou as Olimpíadas. Porque diabos a limpeza da Bahia de Guanabara tem que ter a ver com as Olimpíadas? Isso não era importante antes? Depois de passar a Olimpíada vão sujá-la de novo? E o esquema de segurança que estão montando pro Rio de Janeiro, com direito à caça das forças armadas e tudo? E aquele centro de segurança ridículo? Sério, continuamos com a mesma merda de mente colonizada de sempre, tudo o que fazemos é pra agradar os de fora. Até hoje esse país não conseguiu se voltar para si, pensar em si próprio, levantar a cabeça. Ficam dizendo que Lula reposicionou o Brasil no mundo. Pode até ser em vários aspectos (incluindo esse sub-imperialismo nojento, que está virando imperialismo mesmo). Mas o principal, obviamente esse governo não fez, não nos fez sairmos dessa merda de posição de colonizados. Funcionamos para suprir as expectativas do estrangeiro. Sério, isso é lamentável. Quando vamos conseguir nos emancipar disso? Não com essa merda de projeto neodesenvolvimentista estúpido, míope e genocida (Mariana Parra).
O que acontecerá se, em 2016, não tivermos concluído as obras programadas? As despoluições, as inovações, as obras, as mudanças...? Nada.

Aliás, o mais provável é que NADA fique pronto até o fim da Copa e das Olimpíadas. Obras de mobilidade já foram alteradas, canceladas e prometidas mil vezes, sem que os prazos tenham sequer a possibilidade de serem cumpridos. 

E é óbvio que não importam os prazos, as obras custarão pelo menos o dobro. O dobro que virá dos nossos bolsos para, após os eventos, serem entregues para a "iniciativa privada". Em outras palavras, Dilma e o PT privatizarão tudo que for possível após (ou mesmo antes, caso do Maracanã, atual Cabralzão) os "grandes eventos" programados para esta década. 

Estádios que se transformarão em elefantes brancos estão sendo pagos pelos nossos bolsos e nós sustentaremos o enorme e inútil gasto por anos a fio. Isto se os estádios não desabarem, como o Engenhão, construído ha menos de uma década e já caindo aos pedaços. 

Seria interessante que o responsável pelos estádios, como o ministro Aldo Rebelo, fossem pessoalmente resonsabilizados por quaisquer prejuízos posteriores. Oras, ele não garantiu diversas vezes em entrevistas que estádioscomo os do Amazonas não serão elefantes brancos após a Copa? Se tem tanta certeza que banque de seu bolso e de seu partido caso o óbvio aconteça e nós tenhamos de pagar mais uma conta no final.

Mas o que irá acontecer? Nada. 

Pagaremos calados, felizes, enquanto a Globo mostra as belezas dos estádios, das cidades, dos eventos... Um verdadeiro e terrível "PIG". 

Hoje (ontem) eram cosntantes as imagens do novo Maracanão, o Cabralzão, durante o jogo da selecinha, para mostrar como estava "lindo", apesar de ter perdido sua alma e de parecer apenas um estádio europeu acanhado.

Mas a Globo achou lindo, o governo achou lindo. O Eike achou ainda mais lindo, já que é dono do Cabralzão sem pagar quase nada. Oras, ele prestou valiosos serviços ao PT e ao PMDB, sem dúvida merece um "prêmio" com valor de mais de 1.2 bilhão.

Enquanto acompanhava um jogo da Série C pela TV Brasil (pese a péssima qualidade de transmissão e imagem), um comentarista louvou o Cabralzão ao ponto de dizer que os brasileiros deveriam aprender a torcer de uma nova forma. Oras, o país que mais ganhou copas, admirado em todo o mundo terá de se anular e aprender a torcer como europeu?

Teremos de deixar nossa cultura, nossas tradições e história de lado para seguir as ordens vindas de baixo pra cima da FIFA e do governo? Não é só absurdo, chega a ser criminoso.

Mas tudo vale no Brasil 2014-16. O depois a gente pensa quando chegar.

Em 2016 provavelmente não teremos mais índios no que depender de Dilma. Dependemos do STF para que gays tenham direitos, e no que depender do PT viraremos uma republiqueta medieval de aluguel, com krents lucrando, o povo "educado" em uniesquinas, professores tratados como lixo, mas todos consumindo felizes.

Iremos da igreja/templo ao shopping, e torceremos sentadinhos e quietos em estádios, consumindo alimentos venenosos e banhados em sangue indígena.

Isso se chegarmos a 2016. Porque o depois parece cada vez mais distante e pior.

Eu não acho válida a pergunta "Imagina na Copa" simplesmente porque me preocupo mais com o que virá depois, como a conta, como o ônus, como a dívida. É possível que tudo funciona às mil maravilhas na Copa - para o gringo.

Polícia entrará em acordo com o tráfico para que o segundo venda numa boa e não atrapalhe a festa (para que a garanta, na verdade), os aeroportos irão funcionar provisoriamente e com mil gambiarras, mas a pleno vapor, teremos feriados nos dias de jogo para evitar que o gringo tenha qualquer transtorno.... Mas para nós, brasileiros...

A meta do milênio do PT parece ser a Copa e as Olimpíadas, o depois a gente pensa depois.
 
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quarta-feira, 22 de maio de 2013

O Maracanã perde a sua alma

Ao custo de mais de um bilhão de reais (R$1,3 bilhões) o Maracanã, ou Estádio Mário Filho, foi mais uma vez reformado. Desta vez, porém, foi desfigurado, diminuído, tornado uma "arena", modernizada e sem alma.

Não iremos nunca mais entrar no Maracanã e nos surpreender com seu tamanho, com sua beleza. Entrar no Maracanã era uma experiência única, era ficar boquiaberto, sem fôlego quando lotado, com duas torcidas ocupando cada espaço de seu interior. Era uma experiência única para a torcida e para os times e nunca era igual a experiência de ir ao grande templo do futebol brasileiro.

Mais que um cartão postal, era um símbolo e uma referência, a alma carioca e da pátria de chuteiras. Hoje resta apenas a casca. Uma casca superfaturada que será praticamente doada ao Eike Batista pelo governo do PMDB e PT. "Comprado" por nem bem 10% do valor da última reforma. Um prejuízo em todos os sentidos, tanto material quanto afetivo. Por 181 milhões, Eike será dono do Maracanã por 35 anos, lucrando 150 milhões por ano, e não mais o povo, não mais o torcedor.

Hoje o que resta é um Cabralzão, um Maracarena, um estádio acanhado, apenas uma casca vazia, comportada, onde torcedores poderão (deverão?) torcer de acordo com o que manda a FIFA, sentados, quietos, como bons europeus. Quem tiver dinheiro para pagar as entradas, obviamente, o objetivo das novas arenas é a de garantir que o pobre não mais tenha acesso e se misture com a elite.

Um dos últimos espaços populares efetivamente dignos deste nome, o Maracanã e diversos outros estádios pelo país estão sendo elitizados, transformados em simulacros do país que sonha o PT - se este realmente elevasse a renda ao invés de maquiar dados reduzindo a renda necessária para se considerar um indivíduo de classe média, a classe que em tese deveria frequentar os estádios.

Os estádios da copa são, aliás, apenas a ponta do iceberg na onda privatizante do PT de Dilma e de Lula. Nosso petróleo está sendo vendido para o mesmo amigo Eike, que já é dono de marcos como o Hotel Glória e planeja destruir a Marina da Glória e o Aterro, nossos aeroportos estão sendo virtualmente doados para empresas estrangeiras, nossas estradas estão sendo vendidas no mesmo modelo que o PSDB as vendia em São Paulo (e eram criticados, vejam só, pelo PT)... Dentro de pouco tempo o que nos restará?

O Maracanã é mais um símbolo que se vai, que é privatizado, descaracterizado, destruído.

Ao lado dele se vão ainda os estádios de atletismo e natação, históricos para suas respectivas modalidades, mas obsoletos no novo projeto privado. Ainda no mesmo complexo que tantas alegrias nos trouxe fica o Museu do Índio, casarão antigo e importante em nossa história há anos ocupado por indígenas que pleiteavam um verdadeiro museu, ou mesmo um centro de ensino para seus povos.

Foram removidos com violência. Tentaram resistir, a população ao seu lado tentou resistir, mas a força do capital e a força motora da destruição de tudo que parece obsoleto e incapaz de gerar lucros àqueles que financiam as campanhas de políticos venceu.

Os índios foram expulsos, a vida do local foi expulsa e, como o Maracanã, restou apenas uma casca vazia.

Fala-se que o Maracanã, construído em 1950, foi um dos responsáveis pelo fim ou pelo início do fim dos clubes menores do Rio. Os grandes não iam mais aos bairros, mas os pequenos tinham que ir ao Maracanã para jogar longe de suas torcidas. Hoje apenas América, Bangu e Goytacaz ainda mantém torcidas que se mostram presentes nos jogos de suas equipes, os demais não empolgam.
 
Verdade ou não, é fato que a morte do Maracanã vem junto com o visível declínio do futebol no Rio de Janeiro. Presença pífia, rendas vergonhosas, resultados medíocres e nenhum interesse por parte da torcida ou das torcidas no campeonato que um dia foi o mais importante e forte do país.

A morte do Maracanã é também a morte do futebol carioca, da sua segunda morte, ou ao menos de seu declínio, da morte de sua alma, do abandono de sua história, de suas raízes.

A transformação inevitável do futebol carioca - mas este também é um fenômeno que percorre todo o país - em um futebol de e para a elite, com estádios pensados para o conforto de um grupo e não para a festa popular e para a mistura de classes e raças, passa pela destruição do estádio que por tantos anos foi o símbolo de nosso futebol alegre, habilidoso, apaixonante.

O Maracanã perde sua alma, e o futebol brasileiro se perde.

Publicado originalmente na edição impressa do Jornalismo B, número 54
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