São Paulo, quinta-feira, dia primeiro de março, por volta das 20 horas.
Saio de um hospital próximo da Avenida Paulista com minha namorada depois de passar o dia com meu avô, que irá passar por uma operação no dia seguinte para remover de vez um maldito câncer contra o qual vem lutando. Nada pior do que, no auge de seus 76 anos, ter de passar por algo assim.
Então saímos do hospital para uma curta caminhada até a Consolação para tomar um ônibus para casa, tensos, preocupados, mas esperançosos pelo dia que viria. Nem bem demos alguns passos e de forma quase alegórica, avistamos uma sem-teto seminua, apenas com uma camisa roxa e mais nada, sem dentes e aparentemente sofrendo de graves problemas mentais deitada - ou mesmo estatelada - ao lado do prédio do Banco Central.
Curioso, até alegórico uma situação tão absurda ao lado do centro de poder econômico e financeiro da nossa economia, a sexta do mundo, mas de uma desigualdade gritante e absurda. Abjeta.
A mulher, que nos disser não ter sequer 50 anos, parecia ter 70 - ou mais. Perdida, morava na rua desde que pode se lembrar. Baiana, mais uma vítima da cidade de São Paulo, que sabe atrair nordestinos, engolí-los sem mastigar e depois defecá-los, como pedaços de merda. Mas não só nordestinos, claro. Negra, como a maior parte daqueles que sofrem até hoje nas mãos da elite branca.
Encostada numa parede, mais exatamente na porta de uma agência bancária - outra ironia cruel - a pobre sem-teto gritava contra inimigos invisíveis, dizia repetidamente que tinha "gente" querendo sair pelas suas pernas cobertas de machucados e que, por isso, havia tirado sua saia em algum lugar da cidade e se encontrava daquele jeito. Exposta, vulnerável e ignorada.
Pessoas passavam e olhavam com um sorriso irônico, um "freak-show" tipicamente paulista. Clientes do banco onde ela em frente jazia olhavam ora com desprezo, ora com indiferença e sacavam seu dinheiro ao passo que tudo parecia caminhar na mais completa e total normalidade.
Nos aproximamos e começamos a conversar com ela. Minha namorada tentava tirar informações dela: Nome, onde vivia - na rua -, porque estava naquela situação - era a "gente" que saía dela -, se queria ir a um hospital - havia saído naquele dia de um, mas não sabia qual. Sem dúvida deveria ser denunciado. Conseguimos pouca coisa.
Eu tuitava, denunciando a situação e buscava telefones para saber pra quem poderíamos ligar em auxílio.
Ligamos para o SAMU (192) e este nos respondeu... 5 horas depois. E tiveram a cara de pau de perguntar se a pobre mulher ainda estava lá. Talvez se não tivéssemos dito que se tratava de uma sem-teto o atendimento fosse mais rápido. Mas não quero tirar conclusões precipitadas pois sei do trabalho que faz o SAMU e de como são ocupados. Mas mesmo assim...
Um senhor que passava tentou ligar para a Assistência Social da prefeitura. Depois de ficar pendurado no 156 (telefone dos serviços da Prefeitura) e de ter a ligação cortada e números errados passados, conseguiu ligar para acabar com uma atendente que o chamava de grosso e dizia que não poderia fazer nada, que a pobre mulher é quem deveria pedir ajuda!
Ele, corretamente, dizia que cabia ao Estado fazer seu papel, de garantir auxílio à ela e que não estava sendo grosso, apenas exigindo ser ouvido e que se fizesse algo. Não faço idéia se a Assistência Social fez algo ou se simplesmente ignorou completamente, com faz o poder público de São Paulo.
Aliás, minto, São Paulo não ignora seus sem-teto, seus mendigos. Os trata como lixo e os marginaliza ainda mais. Prefeitura os criminaliza, população não os vê, ou se os enxerga, ri, passa sem se preocupar. Não é com eles. O sofrimento humano é apenas algo normal, alguns devem ficar pra trás.
Uma senhora que acompanhava tudo foi até uma loja do outro lado da rua e comprou uma calcinha e um vestido para a pobre mulher, e um lanche numa lanchonete próxima.
Engraçado é que tanto o senhor, quanto a senhora que, sem dúvida, fizeram aquilo que achavam que podiam, só se aproximaram da pobre mulher no chão quando nós o fizemos. Não penso mal deles por isso, mas compreendo. Há um distanciamento claro entre "nós" e os "párias" sociais. Há um estranhamento que dificilmente é superado. É preciso um pequeno passo, uma pequena demonstração de humanidade e finalmente algo se move.
Posso estar errado. Sem duvida. Mas me permito ao menos tentar entender.
Neste meio tempo um homem, também sem teto, se aproximou, perguntando se iríamos a levar para casa. De início achei ofensivo, mas ele explicou: A pobreza extrema leva a loucura. O abandono, a solidão. Ou seja, nada do que fizéssemos alteraria a realidade. Poderíamos dar comida, dinheiro, roupas... Mas nada alteraria sua realidade de sofrimento. Sua história.
Dei dez reais a ele. Mas acho que o principal foi ouví-lo. Dizia ser solitário, ter sido abandonado até pelos pais e há 20 anos vivia na rua. sofria todo tipo de preconceito, de violência e ameaças de morte apenas por existir. Depois da curta conversa ele me estendeu a mão, meio receoso que eu fosse talvez sentir nojo, afinal, eu, um rapaz de classe média apertar a mão de um sem teto que não tomava banho ha dias!
Apertei com gosto e senti vontade de abraçá-lo. De ouví-lo mais. De poder... fazer alguma coisa. por ele e por todos em uma situação simplesmente incompatível com a ideia de humanidade.
Alimentada dentro do possível naquele momento e vestida, com a promessa de que esperaria pela ajuda, a deixamos, com os corações apertados. voltamos para nossas casas confortáveis, para nossas vidas e deixamos tudo pra trás, toda a degradação da sociedade e da cidade, toda a miséria e a tristeza que só um mundo cão pode proporcionar.
Seu nome, caso interesse a alguém, era Adriana, pelo que ela nos contou. Mais uma vítima de São Paulo, do Brasil, do Capitalismo e do descaso. Um ser humano com nome e com direito à dignidade. Mas este direito lhe foi negado, como a milhões de brasileiras e brasileiros, abandonados neste boom econômico que a tantos nubla a visão e a capacidade crítica.
No momento em que escrevia, na madrugada do mesmo dia, não sabia se ficariam bem. Felizmente hoje, um mês depois, sei que meu avô se recupera, mas nada sei da Adriana...
Blog de comentários sobre política, relações internacionais, direitos humanos, nacionalismo basco e divagações em geral... Nome descaradamente baseado no The Angry Arab
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quarta-feira, 4 de abril de 2012
São Paulo Mundo Cão
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Postado por
Raphael Tsavkko Garcia
às
10:30
São Paulo Mundo Cão
2012-04-04T10:30:00-03:00
Raphael Tsavkko Garcia
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sexta-feira, 13 de janeiro de 2012
Audiência Pública sobre a situação na Cracolândia
No dia 11 de janero estive na Câmara Municipal de São Paulo para acompanhar uma audiência pública sobre o que vem ocorrendo na chamada Cracolândia, na região da Luz. Muito blablabla, muitap resença de "autoridades", muito pouco espaço para os movimentos sociais se expressarem, acusações, disputas e quase nada de soluções, mas apenas promessas de boa vontade da parte dos vereadores e deputados estaduais presentes.
No início, o auditório Júlio Prestes estava lotado, inclusive com a presença da mídia - que provavelmente não citou sequer o evento em seus jornais -, mas dada a lenga-lenga típica de políticos (Jamil Murad conseguiu dar uma aula de como ser um anfitrião tedioso, sempre disposto a comentar por mais tempo que os discursos oficiais), aos poucos o local foi esvaziando e, como de costume, os movimentos sociais falaram quase que só para eles.
O assunto é de máxima importância e, no entanto, pouco ou nada ficou resolvido, mas ao menos pudemos ter acesso a algumas informações importantes, como as do presidente do Sindicato dos Guardas Municipais (GCM), Clóvis (vídeo 10), que denunciou o comando da GCM pela incitação clara à violência e anunciou a existência de uma "Ordem de Serviço 01" que obrigava todo GCM a retirar dos espaços públicos todo e qualquer sem-teto, não importando como. Ou seja, basicamente dando carta branca, ou melhor, obrigando ao uso da violência.
O Padre Júlio Lancelotti descreveu um cenário de pânico e terror onde ele mesmo foi abordado por policiais nada amistosos que se fazem isso com uma figura pública e um padre conhecido na região, imaginem com os "nóias", que não são sequer gente para a PM e para boa parte da população paulista (em especial elementos da elite racista e da classe mérdia).
Anderson, do Movimento Nacional de População de Rua traçou um panorama assustador da situação dos moradores de rua e da cracolândia, cobrando uma ação efetiva e não-policial, mas com saúde, educação, lazer e, enfim, respeito e dignidade.
O Desembargador Antônio Carlos Malheiro e o Presidente da AJD, Luis Fernando Vidal, fizeram seus discursos tendo em mente a necessidade de ação da justiça. Cumpriram seus papéis sem grandes necessidades de comentários.
Carlos Weiss, da Defensoria Pública de São Paulo "resumiu longamente" o trabalho feito pela defensoria na região ao passo que o Deputado Estadual Major Olímpio, para surpresa de muitos - e minha em especial - fez um excelente discurso criticando a ação da polícia no local e exigindo respeito e dignidade para a população em situação de rua. Saiu bastante aplaudido.
No início, o auditório Júlio Prestes estava lotado, inclusive com a presença da mídia - que provavelmente não citou sequer o evento em seus jornais -, mas dada a lenga-lenga típica de políticos (Jamil Murad conseguiu dar uma aula de como ser um anfitrião tedioso, sempre disposto a comentar por mais tempo que os discursos oficiais), aos poucos o local foi esvaziando e, como de costume, os movimentos sociais falaram quase que só para eles.
O assunto é de máxima importância e, no entanto, pouco ou nada ficou resolvido, mas ao menos pudemos ter acesso a algumas informações importantes, como as do presidente do Sindicato dos Guardas Municipais (GCM), Clóvis (vídeo 10), que denunciou o comando da GCM pela incitação clara à violência e anunciou a existência de uma "Ordem de Serviço 01" que obrigava todo GCM a retirar dos espaços públicos todo e qualquer sem-teto, não importando como. Ou seja, basicamente dando carta branca, ou melhor, obrigando ao uso da violência.
O Padre Júlio Lancelotti descreveu um cenário de pânico e terror onde ele mesmo foi abordado por policiais nada amistosos que se fazem isso com uma figura pública e um padre conhecido na região, imaginem com os "nóias", que não são sequer gente para a PM e para boa parte da população paulista (em especial elementos da elite racista e da classe mérdia).
Anderson, do Movimento Nacional de População de Rua traçou um panorama assustador da situação dos moradores de rua e da cracolândia, cobrando uma ação efetiva e não-policial, mas com saúde, educação, lazer e, enfim, respeito e dignidade.
O Desembargador Antônio Carlos Malheiro e o Presidente da AJD, Luis Fernando Vidal, fizeram seus discursos tendo em mente a necessidade de ação da justiça. Cumpriram seus papéis sem grandes necessidades de comentários.
Carlos Weiss, da Defensoria Pública de São Paulo "resumiu longamente" o trabalho feito pela defensoria na região ao passo que o Deputado Estadual Major Olímpio, para surpresa de muitos - e minha em especial - fez um excelente discurso criticando a ação da polícia no local e exigindo respeito e dignidade para a população em situação de rua. Saiu bastante aplaudido.
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Postado por
Raphael Tsavkko Garcia
às
10:30
Audiência Pública sobre a situação na Cracolândia
2012-01-13T10:30:00-02:00
Raphael Tsavkko Garcia
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