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quarta-feira, 3 de abril de 2013

Estado Espanhol tortura até os mortos... no Brasil!

CRUELDADE EM SOLO BRASILEIRO

Como alguns de vocês devem se lembrar, no dia 18 de Janeiro de 2013, o cidadão espanhol (basco) JOSEBA VIZAN GONZALEZ foi preso no Rio de Janeiro por portar documentos falsos. A sua prisão repercutiu em diversos veículos de imprensa, não pelo porte dos documentos falsos, mas sim por estar sendo acusado de pertencer a um grupo militante armado na Espanha.

Joseba foi solto depois de 2 meses na prisão, o seu caso está muito longe de ser um caso policial. Joseba foi preso e torturado na Espanha por acreditar na liberdade do seu povo e do seu País, o País Basco. Joseba é um perseguido político, porém para a sua pátria mãe, a Espanha, ele seria um fugitivo, mesmo nunca tendo sido julgado nem condenado.

Um dia após sua prisão no Brasil, os pais de sua esposa (sogros de Joseba) vieram a socorro de sua filha e neta no Brasil, para lhes prestar apoio e ajuda neste momento tão difícil. Ambas se encontravam desamparadas em solo brasileiro, sem qualquer apoio diplomático. Contando apenas com a ajuda de alguns amigos que aqui fizeram nos 16 anos em que aqui viveram.

Os sogros de Joseba iriam embora hoje, dia 02 de Abril, após 2 meses de muita luta e sofrimento, mas iam felizes, pois Joseba estava fora da cadeia, cumprindo pena alternativa, conforme lhe foi sentenciado por um tribunal brasileiro, pois sua prisão era desproporcional ao único crime ora cometido: falsidade ideológica, que se fez necessário devido a sua situação de perseguido político em solo Espanhol.

JOSÉ MARCO MUYOR, sogro de Joseba se preparava ontem, dia 01 de Abril, para fazer sua última caminhada pelas ruas do Rio de Janeiro, para se despedir da cidade. Estava com sua esposa e JOSEBA, quando sofreu um ataque cardíaco fulminante. Joseba tentou sem sucesso reanima-lo, ajudado por alguns bombeiros, e depois por agentes do SAMU. Foi encaminhado para a UPA – Unidade de Pronto Atendimento de Botafogo por uma ambulância, mas já chegou na unidade em óbito.

Mal sabíamos todos que o sofrimento maior ainda estaria por vir. Uma família que fazia pouco tempo foi destroçada por uma prisão injusta, sem julgamento ou condenação, que passou as amarguras de buscar ajuda entre cidadãos brasileiros pois não encontrou apoio no governo do seu país, começava um novo calvário.

Neste dia 02 de Abril, acompanhei a esposa de Joseba na árdua missão de liberar o corpo do pai no IML – Instituto Médico Legal no Rio de Janeiro, lá fomos informados pelo policial civil JOSÉ que o corpo de JOSÉ MARCO MUYOR só poderia ser liberado mediante uma autorização do CONSULADO GERAL DE ESPANHA, do Rio de Janeiro. Por se tratar de um cidadão estrangeiro, o procedimento seria padrão. Ainda lhe perguntei se o Consulado Geral da Espanha saberia do que eu iria lhes pedir, no que ele nos respondeu: “Com certeza, o plantão consular de todos os países sabem que é procedimento padrão e para tanto será um documento muito simples”. Estávamos de posse do passaporte de JOSE MARCO MUYOR e da sua identidade Espanhola.

Rumamos eu e a esposa de Joseba para o Consulado Geral de Espanha, situado na Torre Rio Sul em Botafogo, na cidade do Rio de Janeiro. Chegamos ao local por volta das 12:30 do dia 02 de Abril, explicamos o que precisaríamos para que o corpo de JOSÉ MARCO fosse liberado pelo IML.
Fomos atendidas pelo Sr. Afonso Castilho que nos informou que tal procedimento não existe.
Colocamos o agente da Polícia Civil no telefone com os agentes consulares espanhóis, quem sabe eu não estávamos lhes pedindo o documento correto? De nada adiantou.

O Consulado Geral de Espanha disse que em nada poderia nos ajudar neste assunto. Que apenas cuidaria de algum assunto administrativo.

Voltamos a Polícia Civil do IML para entendermos o que poderíamos fazer para acabar com este sofrimento, mais uma vez o agente JOSÉ, estarrecido com a reação pouco usual por parte do Consulado Geral da Espanha, o policial Civil brasileiro nos deu duas opções:

- Entrar na justiça brasileira através de um plantão judiciário para a liberação do corpo
OU
- Aguardar o prazo de 72 horas de entrada no IML para que na presença dos familiares e de outras duas testemunhas o corpo fosse liberado SEM IDENTIFICAÇÃO, como INDIGENTE.

Não bastasse o sofrimento da perda de um pai, um sogro, um avó, a família ainda passa pelo profundo desgosto de ser IGNORADA POR AQUELES QUE DEVERIAM PRESTAR APOIO: O corpo Consular do seu próprio País.

Em nenhum momento NENHUM MEMBRO DO CONSULADO ESPANHOL se dispôs a tentar ajudar no problema, nunca foi lhes dado um só telefonema, nenhum facilitador, nenhuma palavra, nenhum apoio, nada.

À família ESPANHOLA lhes resta pedir SOCORRO ao GOVERNO BRASILEIRO para tentar enterrar seu pai que TINHA SIM UM NOME, não é um indigente, É UM CIDADÃO ESPANHOL, portador de todos os seus documentos.

Essa atitude CRUEL, DESUMANA do Governo Espanhol para com esta família me revolta, me entristece, me envergonha como SER HUMANO. SE ESTA FAMÍLIA NÃO ESTÁ SOFRENDO UMA PERSEGUIÇÃO POLÍTICA POR PARTE DO GOVERNO ESPANHOL, NÃO SEI MAIS O QUE ISSO PODE RIA SER.

Com profunda tristeza suplico a ajuda do GOVERNO BRASILEIRO, suplico AJUDA DOS DIREITOS HUMANOS, suplico ajuda dos órgãos competentes para que possamos não só como pátria, mas como SERES HUMANOS, ajudar a cessar tamanho sofrimento que aflige esta família.

Com esperança me subscrevo,

Irina Faria Neves
Rio de Janeiro, 02 de Abril de 2013

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A notícia não surpreende, por mais que seja inaceitável e asquerosa. O Estado Espanhol tortura mesmo aos mortos e suas famílias. Em sua vingança pessoal conra Joseba, um lutador pela independência de sua pátria, o regime espanhol tortura sua família, nega a seu sogro um enterro decente, nega o mero reconhecimento deste.

É simplesmente inaceitável que um Estado se preste a um ato cruel de vingança como este.

Joseba é um herói. Um lutador de sua pátria e de seu povo e por isto foi torturado e hoje sua família é torturada. Toda minha solidariedade a ele e a sua famílii e amigos.
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Atualização 04/04:
De Irina Neves, no Facebook:
Como o governo espanhol não conseguiu deportação de JOSEBA para que fosse torturado na Espanha, tenta agora a tortura psicológica. Mais uma vez conseguimos fazer justiça, e JOSÉ MARCO, nosso querido Aita, vai poder ser enterrado de forma digna. Obrigado a todas as manifestações de carinho e apoio. 
 
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sábado, 31 de março de 2012

Escracho e Abertura dos Arquivos: É hora da VERDADE! #DesarquivandoBR

Ha pelo menos um ano, eu e a Niara de Oliveira (@NideOliveira71) conversávamos sobre a necessidade de se mudar a abordagem sobre os crimes - e os torturadores - da Ditadura. Já não tínhamos muita esperança na justiça brasileira (se é que algum dia tivemos) e já estava claro que Lula não iria, no fim de mandato, desafiar os militares.

Como vimos tempos depois, nem Dilma, ex-presa política, viria a desafiar, mas sim se aliar àqueles que a torturaram e mantiverma o país numa Ditadura brutal por mais de uma década. Comissão da (meia) Verdade feita para agradar, ou ao menos não melindrar os milicos mais chegados e só. Nenhum passo adiante e, na verdade, vários passos atrás com a insistência em se recusar a cumprir decisão da CIDH/OEA sobre a Lei da Anistia.

Pois bem, tivemos uma discussão sobre novas formas de ação e protesto, ou seja, da necessidade de não depender da justiça ou de governos vendidos para demonstrar nosso repúdio aos criminosos da Ditadura e de, ao menos, constrangê-los de alguma forma. Se não seriam presos, que ao menos pagassem com o constrangimento público por seus crimes, que andassem nas ruas sendo apontados como torturadores e assassinos e que tivessem a convivência social enquanto pessoas "normais" dificultada, ou seja, que se tornassem párias.

A idéia, claro, vem em parte da condenação de Brilhante Ustra em tribunal paulista. Se por um lado ele não foi preso, graças à Anistia tão cara à Dilma e ao STF, por outro foi declarado, com todas as letras, TORTURADOR. Um pária.

Qualquer pessoa poderia, então, olhar para quela figura desgraçada e chamá-lo, sem culpas, pelo que ele realmente é: Um monstro torturador.

Nossa ideia - mais da Niara que minha, sejamos honestos -, enfim, era a de realizar manifestações, "escrachos" nas casas e escritórios de conhecidos torturadores. Pixar os muros das casas alertando que ali morava um torturador, colar cartazes, fazer vigílias e muito barulho...

A idéia era constranger e identificar. Deixar claro para vizinhos, conhecidos e transeuntes que ali morava um torturador que merecia ser excluído do convívio social e tratado com o desprezo compatível - mas jamais com violência, nos reduzindo ao nível deles.

A idéia foi apresentada ao Grupo Tortura Nunca Mais de São Paulo que, na época, não achou que seria algo compatível com suas funções. Bem, acredito que estavam certos, pois a força de uma mobilização comandada por jovens sem qualquer ligação com esse passado - a maioria nasceu depois do fim da ditadura  - acabou por se mostrar maior do que se tivesse o comando de uma organização já conhecida e ligada histórica e diretamente à causa.

Como chamar de "revanchismo" a ação de jovens que não teria diretamente do que se vingar? Não que ne mpor um segundo a tese do "revanchismo" cole ou seja aceitável, mas neste caso específico os milicos de pijamas não teriam nem este pífio argumento.

O efeito foi de surpresa, muito maior do que se organizada por quem tem já um histórico na questão.

Depois da surpresa, o choque de realidade: Convivemos com vizinhos e conhecidos que torturaram e mataram e muitas vezes sequer temos noção disto, pois o passado foi escondido, mascarado e criminosos foram perdoados por seus pares, sem que o povo fosse consultado.
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quarta-feira, 21 de março de 2012

Roberto Laudísio: O uso criminoso das armas "não-letais" e a tortura legalizada

Escrevi ha algum tempo, no auge dos protestos estudantes contra o aumento das passagens em São Paulo, sorbe o uso indiscriminado por parte da polícia de armas chamadas de "não-letais" que, na verdade, são verdadeiros instrumentos de tortura:
É válido um questionamento sobre o uso indiscriminado e descontrolado de armas ditas "não-letais" pelas forças de "segurança".

Balas de borracha, bombas de gas lacrimogêneo eufemísticamente chamadas de "bombas de efeito moral", sprays de pimenta concentrada e mesmo armas de choque são armas potencialmente letais, usadas de forma indiscriminada por policiais sem qualquer tipo de treinamento, e pior, com vontade de causar o máximo de dano que puderem.

Caso matem a vítima com estas armas "não-letais", poderão dar a desculpa de que foi sem querer ou de que cumpriam ordens.

Estas armas são basicamente instrumentos de tortura em massa com selo de aprovação governamental.
Mantenho o que disse a aproximo à realidade com um exemplo atual e polêmico.

O brasileiro Roberto Laudísio foi assassinado na Austrália pela polícia local com choques de taser (arma de choque) por, supsotamente, ter roubado um pacote de bolachas de um mercado.

Assim como com Jean Charles, que de tão absurdo o caso, virou um filme, o caso demonstra a forma pela qual seres humanos são tratados pelas forças policiais: Sem nenhum respeito pela integridade física e pela vida.

Jean Charles foi baleado covardemente e assassinado de forma brutal ao ser confundido com um suposto terrorista que, MESMO que fosse terrorista, não poderia ser assassinado a sangue frio sem sequer reagir. Não me consta que a legislação de nenhum país dito democrático permita o assassinato sem julgamento (isto para os países que promovem a pena de morte) nemque a polícia mate sem que esteja em perigo ou se defendendo.

Mesmo assim NADA aconteceu com nenhum policial inglês envolvida, assim como o Brasil não se empenhou em fazer justiça. Uma vergonha de ambos os lados.
O suspeito fugiu da abordagem, ainda conforme a polícia. Os policiais o perseguiram e, durante um confronto, dispararam uma arma de choque elétrico e usaram spray de pimenta.
Uma testemunha da ação disse ao jornal australiano “Sydney Morning Herald” que, mesmo depois de caído no chão, ele tentou se livrar e foi atingido pelo menos mais três vezes com a arma de choque, do modelo Taser. A ação foi filmada por uma câmera de segurança de um café da rua e exibida na TV australiana
No caso em tela, de Roberto Laudísio, o rapaz foi simplesmente agredido com um taser e então morto. Há tentativas de "explicar", de que talvez ele estivesse drogado, bêbado, ou mesmo tivesse ingerido algo que pudesse "facilitar" a ação letal do taser, uma arma não letal.
Tudo indica que Roberto sequer estava envolvido no furto dos biscoitos. Mesmo que tivesse,  é absurdo que houvesse motivos para tanta violência contra uma pessoa desarmada, sòzinha diante de uma equipe policial.
O crime lembra o assassinato de Jean Charles, o brasileiro perseguido e morto pela polícia inglesa, que alega tê-lo confundido com um terrorista.

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sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Audiência Pública sobre a situação na Cracolândia

No dia 11 de janero estive na Câmara Municipal de São Paulo para acompanhar uma audiência pública sobre o que vem ocorrendo na chamada Cracolândia, na região da Luz. Muito blablabla, muitap resença de "autoridades", muito pouco espaço para os movimentos sociais se expressarem, acusações, disputas e quase nada de soluções, mas apenas promessas de boa vontade da parte dos vereadores e deputados estaduais presentes.

No início, o auditório Júlio Prestes estava lotado, inclusive com a presença da mídia - que provavelmente não citou sequer o evento em seus jornais -, mas dada a lenga-lenga típica de políticos (Jamil Murad conseguiu dar uma aula de como ser um anfitrião tedioso, sempre disposto a comentar por mais tempo que os discursos oficiais), aos poucos o local foi esvaziando e, como de costume, os movimentos sociais falaram quase que só para eles.

O assunto é de máxima importância e, no entanto, pouco ou nada ficou resolvido, mas ao menos pudemos ter acesso a algumas informações importantes, como as do presidente do Sindicato dos Guardas Municipais (GCM), Clóvis (vídeo 10), que denunciou o comando da GCM pela incitação clara à violência e anunciou a existência de uma "Ordem de Serviço 01" que obrigava todo GCM a retirar dos espaços públicos todo e qualquer sem-teto, não importando como. Ou seja, basicamente dando carta branca, ou melhor, obrigando ao uso da violência.

O Padre Júlio Lancelotti descreveu um cenário de pânico e terror onde ele mesmo foi abordado por policiais nada amistosos que se fazem isso com uma figura pública e um padre conhecido na região, imaginem com os "nóias", que não são sequer gente para a PM e para boa parte da população paulista (em especial elementos da elite racista e da classe mérdia).

Anderson, do Movimento Nacional de População de Rua traçou um panorama assustador da situação dos moradores de rua e da cracolândia, cobrando uma ação efetiva e não-policial, mas com saúde, educação, lazer e, enfim, respeito e dignidade.

O Desembargador Antônio Carlos Malheiro e o Presidente da AJD, Luis Fernando Vidal, fizeram seus discursos tendo em mente a necessidade de ação da justiça. Cumpriram seus papéis sem grandes necessidades de comentários.

Carlos Weiss, da Defensoria Pública de São Paulo "resumiu longamente" o trabalho feito pela defensoria na região ao passo que o Deputado Estadual Major Olímpio, para surpresa de muitos - e minha em especial - fez um excelente discurso criticando a ação da polícia no local e exigindo respeito e dignidade para a população em situação de rua. Saiu bastante aplaudido.
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quinta-feira, 28 de julho de 2011

Brilhante Ustra no banco dos réus - Relato, vídeos e fotos do ato

Quarta feira, 27 de junho de 2011, um dia para ficar na memória de todos que lutam pelos Direitos Humanos no país. Carlos Alberto Brilhante Ustra, assassino e torturador foi julgado pela tortura e morte de Luiz Eduardo Merlino, militante do Partido Operário Comunista, em 1971.

Hoje, foram ouvidas as testemunhas de acusação e uma nova data será marcada para as testemunhas de defesa (a maioria, senão todas, por carta precatória, covardes que não tem coragem sequer de defender seu comparsa). Dentre os defensores do Coronel torturador estão José Sarney e Jarbas Passarinho.

Na frente do Fórum João Mendes, dezenas de pessoas. Ativistas devárias partes do país e de vários grupos políticos e coletivos ligados am ovimentos sociais cantando palavras de ordem, protestando e se emocionando.
Cerca de 250 pessoas tomaram a porta do Fórum, entre elas representantes de entidades como a central sindical CSP-Conlutas, organização de esquerda LER-QI, Grupo Tortura Nunca Mais, Fórum Permanente de Ex-presos Políticos de São Paulo, Comitê Brasileiro Pela Justiça, coletivo político QUEM, Sindicato de Trabalhadores da USP (Sintusp), PCR (Partido Comunista Revolucionário), Tribunal Popular, União Estadual dos Estudantes de São Paulo (UEE-SP), Assembleia Nacional dos Estudantes Livres (Anel), Federação do Movimento Estudantil de História (FEMEH), Comissão Brasileira Justiça e Paz e grupos feministas.
Um primeiro dia que transcorreu com rapidez, com as testemunhas sendo ouvidas em pouco mais de uma hora.

Foram ouvidos Otacílio Cecchini, Eleonora Menicucci de Oliveira e Leane de Almeida, ex-militantes do POC (Partido Operário Comunista),  o ex-ministro da Secretaria Especial de Direitos Humanos Paulo de Tarso Vannuchi e o historiador e escritor Joel Rufino dos Santos e Laurindo Junqueira Filho.

Várias pessoas foram proibidas de entrar no tribunal sob diversas alegações, inclusive ex-presos-políticos interessados em acompanhar de perto o destino de um dos piores carrascos da Ditadura contra a qual lutaram e frente a qual caíram, sem nunca, porém, capitular.
Ustra foi comandante do DOI-Codi (Destacamento de Operações de Informações do Centro de Operação de Defesa Interna) do 2º Exército, em São Paulo. Ele já foi condenado em primeira instância e declarado torturador em uma ação movida pela família do jornalista em 2007. No ano seguinte, por 2 votos a 1, os desembargadores acataram o recurso dos advogados de Ustra e extinguiram o processo.
Essa segunda ação se refere a danos morais e foi movida pela irmã de Merlino, Regina Merlino Dias de Almeida, e pela ex-companheira do jornalista, Angela Mendes de Almeida.
O Grupo Tortura Nunca mais esteve presente no ato, além de ex-presos políticos como Criméia Almeida, Alípio Freire e Ivan Seixas, dentre outros.

Ustra, como bom covarde, não deu as caras. Fora de sua posição de poder, com cacetetes e oficiais à sua disposição e uma sala de tortura equipada, Ustra é apenas mais um militar covarde, acuado, um pária frente a história.

No em frente ao Fórum não faltaram palavras de ordem exigindo a revogação da Lei da Anistia para torturadores, para todos que cometeram crimes contra a humanidade, sejam civis ou militares (Alípio Freire, em vídeo reproduzido ao fim da postagem deixa clara a participação não só de militares no golpe, mas de civis, que apoiaram de forma entusiasmada o regime), e cantaram em repúdio a Dilma, que nem como ministra de Lula, nem como presidente se moveu para abrir os arquivos.

A mídia, como não poderia deixar de ser, mente descaradamente. Enquanto a Folha surpreende citando "centenas de pessoas", O Globo fala em 30. As 2 da tarde talvez, mas as 3:30 éramos mais de 150. A melhor definição foi a dada pela RBA:
Não era uma multidão – uma turba, diriam os militares –, mas foi numeroso o protesto promovido em frente ao Fórum João Mendes, no centro de São Paulo, durante audiência para ouvir testemunhas da acusação contra o coronel reformado  Carlos Alberto Brilhante Ustra.
Vale à pena ler matéria da Rede Brasil Atual sobre o ato, com depoimentos das testemunhas de acusação.

Mais fotos no Flickr.

Recomendo fortemente os vídeos 5 e 8. No primeiro, Alípio Freire explica comdetalhes o significado da Ditadura e seus agentes, tanto civis quanto militares e, no segundo vídeo, Lucio França, do Grupo Tortura Nunca Mais, que conseguiu entrar no julgamento, dá um resumo do que aconteceu.

Vídeos:

Recomendo a reportagme do Jornal da Gazeta sobre o Ato, o único canal que vi dar mais que poucos segundos ao caso:
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terça-feira, 26 de julho de 2011

Convocação: Um torturador no banco dos réus! Brilhante Ustra, ASSASSINO!

Os companheiros que moram em São Paulo tem um dever a cumprir na
4ª feira, 27 de julho
na próxima semana:

Coletivo Merlino
e
Grupo Tortura Nunca Mais/SP

pedem comparecimento em peso à audiência marcada para as

14h30,
no Fórum João Mendes
(pça. João Mendes, centro velho de SP).

Na ocasião,
o ex-comandante do DOI-Codi paulista,
Carlos Alberto Brilhante Ustra,
será confrontado com as testemunhas da morte do
jornalista Luiz Eduardo Merlino,
um dos aproximadamente 40 resistentes assassinados naquele centro de torturas
da rua Tutóia, durante os  anos de chumbo.

Trata-se do segundo processo movido pela família de Merlino contra Ustra.

O anterior foi arquivado em 2008 graças a um subterfúgio legal, conforme expliquei na época:

"...[Ustra] dsprezou a chance que teve de provar sua inocência, alegada desde que a atriz Bete Mendes, em 1985, o identificou como seu torturador.
Ao invés de deixar a ação seguir até que o mérito fosse julgado, a defesa conseguiu seu arquivamento sob a alegação de que uma das várias pessoas que acusavam Ustra não comprovara sua legitimidade como parte do processo (dizia ter sido companheira de Merlino, mas não anexara documentos que o provassem).
Ou seja, Ustra escapou pela tangente, aproveitando uma brecha jurídica para evitar a sentença que certamente lhe seria desfavorável".
A família voltou à carga com uma ação por danos morais acusando Ustra de responsável pela morte sob tortura de Merlino, em julho de 1971, nas dependências do DOI-Codi. E a corte, desta vez, rechaçou as manobras evasivas.
Vão depor, no dia 27, testemunhas da tortura e morte de Merlino, como cinco companheiros de militância no Partido Operário Comunista (Otacílio Cecchini, Eleonora Menicucci de Oliveira, Laurindo Junqueira Filho, Leane de Almeida e Ricardo Prata Soares); o ex-ministro da Secretaria Especial de Direitos Humanos, Paulo de Tarso Vanucchi; e o historiador e escritor Joel Rufino dos Santos.
As testemunhas do torturador, ouvidas por carta precatória, serão José Sarney, Jarbas Passarinho, um coronel e três generais da reserva do Exército brasileiro. O primeiro foi um figurão do partido de  pinóquios  que negavam a existência das torturas e o segundo, ministro de governos ditatoriais que praticaram a tortura em larga escala e sem limites. Para bom entendedor...
Já declarado torturador pela Justiça paulista em outro processo, Brilhante Ustra agora poderá ter oficializada a condição de assassino.IMPERDÍVEL: UM TORTURADOR NO BANCO DOS RÉUSIMPERDÍVEL: UM TORTURADOR NO BANCO DOS RÉUS
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Recebido por e-mail do jornallista e ex-preso político Alípio Freire
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segunda-feira, 27 de junho de 2011

Responsabilização: O silêncio criminoso do Brasil

RESPONSABILIZAÇÃO - UM SILÊNCIO CRIMINOSO
OS DIREITOS HUMANOS EM JOGO NO BRASIL
Por Marcelo Zelic *

Após 14 anos tramitando na Organização dos Estados Americanos (OEA), coube ao governo da presidenta Dilma Rousseff cumprir a sentença condenatória, notificada em 14/12/2010 por alta instância jurídica de Direitos Humanos à qual o Brasil responde, colocando um ponto final na discussão sobre a anistia, dada pelos militares aos agentes públicos e civis envolvidos em práticas de prisão arbitrária, tortura, estupro de prisioneiras, execução sumária e desaparecimento forçado de opositores da ditadura militar de 1964-1985.

O compromisso do país com os Direitos Humanos está em xeque se prevalecer no governo a orientação de se cumprir quase tudo da sentença da Corte Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) no Caso Gomes Lund e outros (Guerrilha do Araguaia), que condenou o Brasil na OEA. Não se justifica a atitude do governo em desconsiderar da sentença um dos pontos centrais da jurisprudência deste tribunal internacional, que reverteu leis de auto-anistia em vários de seus países membros e vale lembrar, organizou uma sessão específica em San José da Costa Rica sobre a Lei de Anistia no Brasil, para fundamentar a sentença dada.

O entendimento jurídico sobre a extensão da Lei nº 6.683/79, mudou a partir de 14 de Dezembro de 2010, firmado em jurisprudência internacional já consolidada pela OEA e referendada pelo Brasil como país-membro, deixando sem valor as decisões nas diversas instâncias internas que usam a Lei de Anistia, incluída a decisão do Superior Tribunal Federal (STF) sobre a ADPF 153, para arquivar ações das mais variadas natureza, impedindo a consecução da justiça no Brasil.

Os juízes declararam que “as disposições da Lei de Anistia brasileira que impedem a investigação e sanção de graves violações de direitos humanos são incompatíveis com a Convenção Americana, carecem de efeitos jurídicos e não podem seguir representando um obstáculo para a investigação dos fatos do presente caso, nem para a identificação e punição dos responsáveis, e tampouco podem ter igual ou semelhante impacto a respeito de outros casos de graves violações de direitos humanos consagrados na Convenção Americana ocorridos no Brasil”, que o Estado deve realizar "a investigação penal dos fatos do presente caso (Guerrilha do Araguaia) a fim de esclarecê-los e determinar as correspondentes responsabilidades penais" e que “são inadmissíveis as disposições de anistias, as disposições de prescrição e o estabelecimento de excludentes de responsabilidade, que pretendam impedir a investigação e punição dos responsáveis por graves violações dos direitos humanos, como tortura, as execuções sumárias, extrajudiciárias ou arbitrárias e os desaparecimentos forçados”.

A presidenta Dilma Rousseff e sua equipe de Ministros e Ministras, o Legislativo e o Judiciário, não podem desconsiderar os termos acima da sentença, colocados que o foram, de forma tão clara pelos magistrados da CIDH ao condenarem o Brasil.
Recentemente, a Ministra Maria do Rosário expôs de forma velada as dificuldades do cumprimento da sentença, ao dizer que "não podemos esquecer que há outros dispositivos na decisão que merecem uma atenção também do Poder Legislativo e do Poder Judiciário", acrescentando que o parecer da AGU diz respeito apenas à "impossibilidade de modificar a decisão do STF" relativa a punição de torturadores, buscando por uma pedra final sobre o assunto.

Marcio Sotelo Felippe, ex-procurador geral do Estado de SP, no artigo STF, Corte Interamericana e anistia: aspectos jurídicos desmonta este argumento refutando o ponto final no assunto e diz:

“Embora a Corte tenha delimitado sua competência aos efeitos jurídicos pós-1998, em voto apartado o juiz Caldas enfatizou aspectos do caráter imperativo das normas de Direito Internacional dos Direitos Humanos independentemente da convencionalidade. Lembrou que é irrelevante a não ratificação pelo Brasil da Convenção sobre a Imprescritibilidade dos Crimes de Guerra e contra a Humanidade porque ela não é criadora do Direito, mas meramente consolidadora. Desde Nuremberg reconhece-se a existência de um costume internacional que remonta ao preâmbulo da Convenção de Haia de 1907. Assim, prosseguiu, há um Direito que transcende o Direito dos Tratados e abarca o Direito Internacional em geral, inclusive o Direito Internacional dos Direitos Humanos. Nenhuma norma de direito interno pode impedir que um Estado cumpra a obrigação de punir os crimes de lesa-humanidade "por serem eles insuperáveis nas existências de um indivíduo agredido, nas memórias dos componentes de seu círculo social e nas transmissões por gerações de toda a humanidade."

Em artigo publicado logo após a sentença no jornal Valor Econômico, a jornalista Maria Inês Nassif aponta que :

“O aparelho policial e militar foi altamente prejudicado pela presença de agentes que se acostumaram a viver à sombra e acima da lei. Quando se fala em abuso policial e do poder das milícias nas favelas do Rio, por exemplo, ninguém se lembra que a origem dessa autonomia policial diante das leis e perante o resto da sociedade remonta ao período em que o aparelho de repressão tinha licença para sequestrar, matar e torturar sem se obrigar sequer a um registro policial. E que a manutenção da tortura como instrumento de investigação policial existe, atinge barbaramente os setores mais vulneráveis da população e continua não sendo punido. A anistia a agentes do Estado tem se estendido, sem parcimônia, até os dias de hoje”.

O pronunciamento da AGU é tão somente uma tentativa de manobrar a opinião pública, uma jogada de cena para justificar a inação do governo frente ao tema da responsabilização. É fruto de uma estratégia irresponsável, por parte de setores do estado brasileiro, que não pensa o país e está centrada em negar a competência e as implicações constitucionais no ordenamento jurídico do Brasil de sua adesão à CIDH, protelando os mecanismos da impunidade e criando com esta negativa uma instabilidade jurídica que faz retroceder os direitos humanos no país, servindo de estímulo para aqueles que hoje praticam arbitrariedades iguais, pois sinaliza que sempre haverá a defesa dos mecanismos da impunidade, uma vez que as decisões da OEA não possuem efeito interno no Brasil.

Seguir neste caminho será pactuar com o atraso e alinhar o estado brasileiro com os crimes de lesa-humanidade praticados. Neste processo histórico por justiça e verdade, tal posição além de expor os governantes e agentes públicos de hoje à contestação por crimes pelo não cumprir a sentença da OEA, deixa o país em situação desconfortável no plano internacional. Na América do Sul, os mais altos tribunais judiciários da Argentina, Chile, Colômbia, Peru e Uruguai já incorporaram os parâmetros ditados pela CIDH nessa matéria, a partir de alterações efetuadas na legislação de anistia proposta pelos executivos.

Pela decisão da Corte Interamericana rever ou não a Lei de Anistia não está mais em questão, pois já foi definido na sentença seu caráter de auto-anistia e sua extensão, excluindo os agentes do estado e civis que cometeram crimes de lesa-humanidade. Cabe a um governo comprometido com o Direito Internacional dos Direitos Humanos como é o governo brasileiro, cumprir de forma integral a sentença, que é definitiva e remover os obstáculos jurídicos desta auto-anistia, que implicam em impedimentos ao devido processo legal.

O ex-Ministro Eros Grau, ao expor seu voto, mostra que ao STF não há necessidade de mudar sua decisão, apontando através de alteração da Lei 6683/79, o legislativo federal como caminho e instância para corrigir sentença do Supremo Tribunal Federal, diz ele:

“O acompanhamento das mudanças do tempo e da sociedade, se implicar necessária revisão da lei de anistia, deverá ser feito pela lei, vale dizer, pelo Poder Legislativo, não por nós. Como ocorreu e deve ocorrer nos Estados de direito. Ao Supremo Tribunal Federal --- repito-o --- não incumbe legislar.”

Para o Estado brasileiro cumprir este ponto da sentença, caberá à presidenta Dilma Rousseff enviar ao Congresso Nacional decreto-lei ou medida provisória em regime de urgência, para ser votada dentro do prazo da sentença, dando nova interpretação à Lei da Anistia baseada na decisão da CIDH, apontando o caráter imprescritível dos crimes abordados e anexando a integra da condenação à lei, como forma também de reparação. Se o governo for esperar a votação do PL da Deputada Luiza Erundina nos trâmites arrastados do Congresso Nacional, chegaremos em 14/12/2011, sem cumprir a sentença inteira e o país estará vulnerável a sanções por parte da OEA, por desrespeito aos Direitos Humanos.

Não será por desconhecimento da justeza da sentença da CIDH ou por discordar dela, que o governo da presidenta Dilma Rousseff descumprirá este ponto da condenação, caso vejamos confirmada a opção pela omissão. A presidenta quando Chefe da Casa Civil enviou ao STF, em 4 de dezembro de 2008, parecer favorável à mudança da Lei de Anistia nos seguintes termos:

“Revela-se impossível sustentar, portanto, qualquer tese no sentido de que delitos comuns praticados por agentes do Estado contra opositores políticos enquadram-se no conjunto de anistiados pelo termo crimes políticos do artigo 1º da Lei da Anistia. Os crimes de lesão corporal, estupro, atentado violento ao pudor, homicídio, ocultação de cadáver e tortura praticados por agentes do Estado não são crimes políticos sob a ótica dos conceitos amplamente aceitos e adotados pela doutrina e pela jurisprudência”.

Para o Brasil, cumprir a sentença no que diz respeito a este ponto, fortalece nossas instituições, pois revendo a legislação de 1979, além de remover da Lei de Anistia parte do entulho autoritário que ainda segue como norma legal no judiciário, desobstrui a justiça e proporciona aos familiares e vítimas exercerem o direito de acionar os tribunais. Educará a sociedade e seus cidadãos ao reparar a verdade dos fatos históricos, indo de encontro à intenção dos juízes quando declaram que “esta Sentença constitui per se uma forma de reparação”.

Estabelece a verdade para a sociedade como por exemplo, redefinindo os argumentos falseados em vários dos votos majoritários proferidos no julgamento da ADPF 153 no STF, que negando registros contidos nas proprias atas da comissão presidida pelo Senador Teotônio Vilela, defenderam a tese da existência de um acordo harmonioso para termos a lei de anistia, negando não só os registros oficiais produzidos durante a elaboração da lei 6683/79, como outros tantos que refutam a versão de pacificação do país ocorrida com a promulgação da Anistia.

Ao longo destes 32 anos da promulgação da Lei de Anistia, os familiares de mortos e desaparecidos, ex-presos e ex-presas políticas, bem como diversas entidades da sociedade civil e de direitos humanos, vêm lutando pelo esclarecimento dos fatos e a responsabilização dos agentes públicos envolvidos nestes crimes de lesa-humanidade ocorridos durante a ditadura militar. A decisão que condenou o Brasil na CIDH é resultado desta consciência, trabalho e luta, só por respeito a este esforço cidadão, deve ser cumprida integralmente.

Os sete juízes estrangeiros e o juiz ad hoc (determinado) brasileiro a quem o Grupo Tortura Nunca Mais do Rio de Janeiro, a Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos e o CEJIL foram reclamar justiça em 1996, entenderam que o Estado brasileiro violou os direitos estabelecidos nos artigos 3 (reconhecimento da personalidade jurídica), 4 (vida), 5 (integridade pessoal), 7 (liberdade pessoal), 8 (garantias judiciais), 13 (liberdade de pensamento e expressão) e 25 (proteção judicial) da Convenção Americana sobre Direitos Humanos, em conexão com as obrigações previstas nos artigos 1.1 (obrigação geral de respeito e garantia dos direitos humanos) e 2 (dever de adotar disposições de direito interno) da Convenção.

Determinaram por unanimidade ao Estado brasileiro cumprir 14 pontos, dos quais destacamos:

  1. O Estado deve conduzir eficazmente, perante a jurisdição ordinária, a investigação penal dos fatos do presente caso a fim de esclarecê-los, determinar as correspondentes responsabilidades penais e aplicar efetivamente as sanções e consequências que a lei preveja, em conformidade com o estabelecido nos parágrafos 256 e 257 da presente Sentença.
  2. O Estado deve realizar todos os esforços para determinar o paradeiro das vítimas desaparecidas e, se for o caso, identificar e entregar os restos mortais a seus familiares, em conformidade com o estabelecido nos parágrafos 261 a 263 da presente Sentencia.
  3. O Estado deve realizar um ato público de reconhecimento de responsabilidade internacional a respeito dos fatos do presente caso, em conformidade com o estabelecido no parágrafo 277 da presente Sentença.
  4. O Estado deve continuar com as ações desenvolvidas em matéria de capacitação e implementar, em um prazo razoável, um programa ou curso permanente e obrigatório sobre direitos humanos, dirigido a todos os níveis hierárquicos das Forças Armadas, em conformidade com o estabelecido no parágrafo 283 da presente Sentença.
  5. O Estado deve adotar, em um prazo razoável, as medidas que sejam necessárias para tipificar o delito de desaparecimento forçado de pessoas em conformidade com os parâmetros interamericanos, nos termos do estabelecido no parágrafo 287 da presente Sentença. Enquanto cumpre com esta medida, o Estado deve adotar todas aquelas ações que garantam o efetivo julgamento, e se for o caso, a punição em relação aos fatos constitutivos de desaparecimento forçado através dos mecanismos existentes no direito interno.
  6. O Estado deve continuar desenvolvendo as iniciativas de busca, sistematização e publicação de toda a informação sobre a Guerrilha do Araguaia, assim como da informação relativa a violações de direitos humanos ocorridas durante o regime militar, garantindo o acesso à mesma nos termos do parágrafo 292 da presente Sentença.
Em fevereiro a OAB enviou ofício à presidenta Dilma onde aponta que: “as determinações [da corte] são de cumprimento obrigatório por todos os agentes públicos do país, sem a possibilidade de rediscussão ou revalidação interna de seu valor. O eventual descumprimento de quaisquer das determinações da sentença da corte representará um retrocesso sem precedentes na evolução dos direitos humanos no Brasil e nas Américas”.

Que o governo se paute não pelo argumento do revanchismo, pois não é disso que versa o tema como querem as forças a serviço da barbárie e da impunidade, mas pelo Direitos Humanos e pelo dever ético de todo país que respeita a justiça, a verdade, a memória, a educação, sua história e seus cidadãos.

A Comissão da Verdade é importante e é retratada na sentença, “o Tribunal valora a iniciativa de criação da Comissão Nacional da Verdade e exorta o Estado a implementá-la”, mas sem a revisão da lei da Anistia é cortina de fumaça. É dever da cidadania fazer ecoar nos quatro cantos do país um brado: Cumpra-se por inteiro a sentença da OEA.

O governo da presidenta Dilma Rousseff dependendo do caminho que escolher, poderá virar uma página de nossa a história e fazer avançar os Direitos Humanos no país, consolidando seu governo nos ideais que sempre se pautou. Caso decida omitir-se frente aos desafios de se cumprir a sentença inteira, diminuirá seu papel na história.

* Marcelo Zelic é Vice-presidente do Grupo Tortura Nunca Mais-SP, membro da Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo e Coordenador do Projeto Armazém Memória
mzelic@uol.com.br
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sábado, 23 de abril de 2011

Turquia e Espanha, irmãs na repressão

Trigésima-segunda coluna para o portal anticapitalista Diário Liberdade, "Defenderei a casa do meu pai".

Turquia e Espanha, irmãs na repressão

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Poucas pessoas poderiam olhar para países aparentemente tão diferentes - e distantes - como a Espanha e a Turquia e notar o quão semelhante são.

Uma muçulmana, aparentemente laica, outra católica, também aparentemente laica. Mas em ambos os casos fortemente influenciadas por suas tradições e pressões religiosas.

Ambas um caldeirão de nações, algo muito distante da imagem internacional que tentam passar de homogeneidade. Bascos, Catalães, Galegos, Andaluzes, Aragoneses, Asturianos, Leoneses, dentre outros, habitam o Estado Espanhol em clara inferioridade frente aos Castelhanos.

Armênios, Curdos, Circassianos, Assírios, dentre outros, habitam a Turquia e, em mutios casos, são discriminados.

Semelhante à Espanha Franquista, a Turquia dita democrática, governada por um partido muçulmano moderado (em oposição à tradição laica de Ataturk), continua a proibir o ensino e em muito casos, o uso da língua Curda (ou das línguas curdas). A repressão à minoria curda encontra amplo paralelo com a repressão franquista aos bascos e catalães. A diferença crucial, porem, é que a turquia é considerada uma democracia moderna.

A Espanha ainda prende, tortura e mata lutadores bascos, mas ao menos faz esforços para fingir que todos são membros da ETA (o que, segundo eles, deveria legitimar a tortura), criminosos e etc. A Turquia não se preocupa com tais atitudes.

Em 2003 o partido nacionalista basco Batasuna (Unidade) foi ilegalizado pela justiça (sic) espanhola por supostamente ser o braço político da ETA - o que na verdade pouco importa, dado que sempre foi notório ser o Sinn Fein braço do IRA, o que acabou facilitando negociações de paz -, assim como todos os partidos nacionalistas que viriam posteriormente a surgir.

Em 2009 (dezembro), o partido nacionalista curdo DTP (Partido da Sociedade Democrática) foi baindo pela justiça (sic) turca. As acusações eram a de ter conexões com organizações terroristas, ou seja, com o PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão) de Abdullah Öcalan, atualmente na cadeia.

Notem a tremenda e indiscutível semelhança entre os casos. Aliás, já que falamos em Öcalan, tracemos um paralelo com Arnaldo Otegi. Ambos fizeram parte do PKK e ETA respectivamente e embora o primeiro tenha sido preso ainda na liderança do grupo enquanto Otegi já era líder do Batasuna na legalidade e posterior ilegalidade, ambos convergiram para posições críticas ao uso da violência, abrindo o caminho para negociações e para a diminuição de animosidades.

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Artigo COMPLETO no Diário Liberdade.

"Nire aitaren etxea
defendituko dut"
...
"Defenderei
a casa de meu pai"
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sexta-feira, 22 de abril de 2011

SBT e Amor e Revolução - Liberdade e censura


Ontem, durante o depoimento final da novela Amor e Revolução (mais que recomendada a todo militante pelos direitos humanos que conhece ou quer saber mais sobre a Ditadura Militar), o ex-guerrilheiro e comandante da ALN (Aliança Libertadora Nacional, do grande Marighella) Carlos Eugênio da Paz, o Comandante "Clemente", sem papas na lingua, denunciou o que alguns sabiam, mas muitos preferiam ignorar: Houve amplo apoio de setores empresariais ao Golpe.

Tive o imenso prazer de conhecer o Comandante durante um evento na USP ano passado, quando ele disse a todos, não sem orgulho, ter sido o responsável pro justiçar o famigerado Boilesen (do documentário Cidadão Boilesen), que sadisticamente assistia às sessões de tortura no DOPS e se divertia com o sofrimento dos torturados.

Durante tal evento, Clemente (Carlos Eugênio) não só admitiu com orgulho seus atos em defesa do país e contra a Ditadura, como ainda deu nome aos bois, das empresas que financiavam a tortura, como por exemplo o Grupo Pão de Açucar, Grupo Ultra, Camargo Corrêa, Andrade Gutierrez dentre outros (vale a leitura de artigo da jornalista Lúcia rodrigues sobre o assunto).

Infelizmente não consegui gravar sua palestra, apenas a do também ex-guerrilheiro Ivan Seixas.
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Alguém gravou o vídeo, felizmente, a usuária "deaconti" do Youtube:




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Mas, enfim, pese a coragem do SBT em se impor frente aos milicos que ainda insistem em negar a realidade de tortura, falta de democracia e repressão - chegaram até a propor abaixo-assinado contra a novela, o que apenas reforça o caráter ditatorial desta corja - o canal se acovardou frente às verdades ditas por Clemente.

No momento em que Clemente iria dar o nome aos empresários responsáveis por apoiar a Ditadura e por organizar uma caixinha de onde saia o dinheiro para pagar a "recompensa" pela captura de "subversivos", o vídeo foi abruptamente cortado, toscamente editado (reparem no vídeo aos 1:16).

Ponto mais que negativo para o SBT que se acovardou em um momento chave. Podemos aceitar que milicos saudosos da Ditadura, como Curió e Jarbas Passarinho tenham seu espaço nos depoimentos finais da novela.

Não podemos nos rebaixar ao nível deles, que nos amordaçaram por décadas. Que falem suas mentiras, serão respondidos pela história. Mas é bem diferente de você abrir o espaço e ao mesmo tempo limitar o que se pode falar, censurar, como aconteceu com o Clemente.

Resta a esperança de que o SBT lance um (ou uma série) de documentário(s) com todo o material recolhido, sem cortes ou censura, e nos ajude a contar a história do nosso país. Fica, porém, aquela sensação de que, mesmo depois de tanto tempo e até mesmo com a evolução que a novela representa, ainda temos medo, ainda temos esqueletos no armário e que não é seguro contar toda a verdade.

Mas, de qualquer forma, não podemos negar a importância histórica da novela. Pouco importa se algumas atuações são macarrônicas, se a trama por vezes parece didática demais no uso de termos marxistas e mesmo na tentativa/necessidade de se explicar o contexto histórico e os termos comuns para a militância, mas não para o povo.

Não se trata de uma novela da Globo, mas isto carrega em si noções positivas e negativas.

Por um lado, não temos a qualidade da atuação de alguns medalhões da Globo, ou a riqueza de cenários e figurino, mas por outro lado temos personagens principais que não vivem em mansões com 10 quartos ou pobres e ricos estereotipados e todos devidamente em seus lugares (sic).

Amor e Revolução vem em um momento chave, em que temos um governo (mais ou menos) de esquerda, comandado por uma ex-guerrilheira e presa política e no exato momento em que a OEA nos obriga a revisar a famigerada e unilateral Lei da Anistia.

Estamos ainda em pleno momento de discutir a abertura dos Arquivos, em pesadas campanhas contra o sigilo eterno e, tudo isto junto, chega uma novela que funciona como um abre-alas para a verdade.

Sim, não podemos fingir que não existam interesses empresariais (do Silvio Santos e de patrocinadores) sobre a novela, que tudo é lindo e maravilhoso, mas seria tolice e "esquerdismo" demais não reconhecer seu valor e o timing ímpar.
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quarta-feira, 6 de abril de 2011

Cinema e Novela como instrumentos de mudança: Carne, Osso & Amor e Revolução

Não sou um crítico de cinema, de novelas ou de qualquer coisa do tipo. Assisto ao máximo de filmes que posso, especialmente os políticos. Mas me sinto na obrigação de recomendar um excelente documentário, que concorre ao prêmio na Competição Brasileira do É Tudo Verdade de 2011.

"Carne, Osso", produzido pela ONG Repórter Brasil - coordenada pelo Leonardo Sakamoto, que muitos devem conhecer - é um soco no estômago.
Na esteira do aumento do consumo de carne e frango no País e da exportação alcançada pelos frigoríficos brasileiros, as jornadas de seus trabalhadores vêm se tornando cada vez mais estafantes, penosas e perigosas. A exigência de um rendimento crescente nas linhas de produção obriga os funcionários a uma rotina progressivamente mais rápida, implicando a realização de diversos movimentos repetitivos por minuto, o que vêm levando a inúmeros problemas de saúde. Tendinites, dores, artroses, atrofias de nervos, problemas de juntas e de coluna integram o quadro de doenças profissionais do setor, muitas vezes responsáveis pela incapacitação de diversos empregados – alguns deles, não só para funções no mercado dos frigoríficos, mas para todo e qualquer trabalho, em faixas etárias relativamente jovens.
R: CAIO CAVECHINI | DF: LUCAS BARRETO | C: LUCAS BARRETO | SD: CARLOS JULIANO BARROS | M: CAIO CAVECHINI | Mu: ANDRÉ CAMPOS | P: MAURÍCIO HASHIZUME | PE: CARLOS JULIANO BARROS | CP: ONG REPÓRTER BRASIL | 

A descrição não consegue descrever perfeitamente o filme. Só assistindo aos depoimentos de quem passou anos trabalhando na indústria, nos frigoríficos, e perdeu o movimento dos membros, se feriu gravemente, perdeu membros e sofreu profundos danos psicológicos para compreender a situação.

Ao invés da tradicional ótica sobre o alimento em si, dos vários filmes e documentários que tratam da situação pela ótica do animal, ou melhor, pela forma que a ave, o bovino e etc são tratados na hora do abate e antes, uma visão sobre o ser humanos, sobre quem processa, prepara o alimento.

Longas horas de trabalho em ambiente inóspito, gelado, sem condições de segurança. Pressão por metas desumanas, com poucos segundos para a execução de intermináveis movimentos repetitivos, nenhum tempo sequer para ir ao banheiro, conivência de médicos das empresas... São apenas alguns pontos tratados pelo filme, cuja base é a entrevista com vítimas, ex-trabalhadores, agentes e fiscais do trabalho e juízes, tudo intercalado por imagens do interior das fábricas, do serviço desumano.

Mas além do valor como documentário, o filme tem valor artístico, com uma gravação primorosa e uma fluidez ímpar.

Segundo o Sakamoto me disse, o filme será disponibilizado na rede assim que participar de mais dois festivais - internacionais - de documentários. Recomendo que todos fiquem de olho e divulguem esta produção fantástica.

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Mas se não sou crítico de cinema, o que falar de novelas. A última que assisti deve ter sido ha mais de 15 anos. Não gosto da linguagem, da atuação e nem da obrigação diária, do comprometimento de estar todo dia disposto e livre para assistir.

Mas resolvi topar o desafio dar uma chance à nova novela do SBT, Amor e Revolução. E tive uma grata surpresa.

De fato, em geral algumas atuações sofríveis (especialmente entre o elenco jovem), uma linguagem que não me agrada muito, mas o tema - a Ditadura Militar - e a música (Chico, Milton, sucessos da MPB anti-Ditadura) me deixaram grudados na TV.

Se por um lado é verdade que as novela são o veículo preferencial do Capital vender seus produtos e passar sua mensagem, por outro, também podem ter uma função social (as novelas comprovadamente ajudaram a reduzir a taxa de natalidade no país durante muitos anos), e sem dúvida, mostrar a verdade sobre os "Anos de Chumbo", a tortura, os desaparecimentos e perseguições se encaixa neste quesito.

A novela não só mostrou de forma nua e crua a realidade do período, como ainda terminou o capítulo com o depoimento emocionante de Amélia Telles, presa, torturada em frente aos seus filhos, pela Ditadura.

A direita e os milicos de pijama (além do Bolsonaro) devem estar espumando de ódio. Isso é excelente!

Já as conjecturas de muitos, sobre os reais motivos para o SBT do malufista Sílvio Santos produzir uma novela de esquerda pouco importam. Se é para agradar o PT ou não (que salvou o Sílvio há algum tempo), a verdade é que desagrada a direita e resgata a nossa história, sem cortes, sem suavizar.

É disso que precisamos agora. Criar o debate, fazer o povo comentar, se indignar, questionar o porque da não-punição até hoje, da impunidade. Quem sabe - não custa sonhar - a novela crie interesse mesmo sobre a própria esquerda, sua ideologia, ideais...?

Pelo que vi, o IBOPE do primeiro capítulo foi, para os padrões do SBT, excelente. Terceiro lugar em São Paulo, segundo em Minhas e DF...

A novela, sem dúvida, pode e vai gerar debate na sociedade e pode contribuir para acelerar a criação da Comissão da Verdade e para que se abram os arquivos da Ditadura, se seguir pelo caminho que apontou no primeiro capítulo.
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sexta-feira, 1 de abril de 2011

Os arquivos secretos da Ditadura Militar Brasileira: A Anistia perpétua.

A Ditadura Militar no Brasil durou exatos 21 anos, de 1º de Abril de 1964 (o dia da mentira no Brasil, razão pela qual os militares apontam o dia anterior, 31 de março como dia do Golpe) até 15 de janeiro de 1985 e, durante este período de grande repressão política, 380 pessoas foram mortas (uma boa parte de guerrilheiros de esquerda anti-Ditadura, mas muitos estudantes ou simplesmente cidadãos que não apoiavam o regime), entre as quais 147 continuam desaparecidos e nada se sabe sobre o destino de seus corpos.

Hoje sabe-se que tanto o golpe quanto o regime consequente foram financiados pelos EUA em uma aliança regional entre ditaduras na América Latina chamada de Plano Condor, ou seja, uma rede gerenciada pelos EUA que mantinha ligação efetiva e constante entre os países da região que estavam (ou logo estariam) sob regimes ditatoriais, promovendo a manutenção do status quo e dando apoio logístico e financeiro à derrubadas de regimes democráticos, como o Chile de Salvador Allende, derrubado por Augusto Pinochet em 11 de setembro de 1973.

Durante os chamados "Anos de Chumbo", milhares de brasileiros e brasileiras foram vítimas de tortura sistemática e prisões arbitrárias, inclusive mulheres grávidas e, em alguns casos, crianças, filhos dos presos políticos, assistiam às sessões de tortura. Não se sabe ao certo o número de crianças traumatizadas durante o período.

Pela esquerda, foi organizada às pressas uma resistência armada formada por diversos pequenos grupos compostos majoritariamente por estudantes universitários que praticavam assaltos à bancos (expropriações) para financiar suas ações, dentre elas o sequestro de personalidades e embaixadores estrangeiros. Estes grupos jamais foram grandes u muito fortes e boa parte destes foram desmantelados depois de intensa perseguição, prisões e torturas, além de exílios forçados.

Durante o período que se conhece no Brasil como o da abertura, no final dos anos 70 e começo dos 80, em que a guerrilha tanto urbana quanto rural já havia sido quase totalmente dizimada e durante o momento em que as Forças Armadas começavam a sentir que não poderiam mais se manter no poder - aumento significativo da inflação, aumento significativo da dívida externa brasileira, crise econômica mundial devido à crise do petróleo no mesmo ano, processos de re-democratização em países vizinhos -, foi promulgada a Lei da Anistia.

Em 28 de agosto de 1979, o então ditador, João Figueiredo, promulgou a lei 6.683, conhecida como Lei da Anistia que virtualmente “desculpava” os militares e civis pró-regime que haviam matado e torturado durante o regime de exceção, já prevendo o fim próximo da Ditadura e a possibilidade de processos contra os criminosos.

Militares e civis que haviam torturado e matado centenas de brasileiros em paus de arara, com choques elétricos, afogamento, espancamento dentre outras técnicas passaram automaticamente a serem inimputáveis, ou seja, jamais poderiam ser alcançados pela lei de um regime democrático e julgados por seus crimes.

Crimes como o cometido contra a família de Amélia Telles e Criméia Almeida, presas e torturadas enquanto a segunda encontrava-se grávida. Criméia Almeida ainda teve o marido, André Grabois, e o sogro, Maurício Grabois, assassinados pela Ditadura e criou seu filho sozinha. A filha de Amélia Telles foi presa, aos 5 anos de idade, junto com a mãe e por anos carregou danos psicológicos pela situação a que foi submetida e à sua família.

O Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, responsável pela tortura de Criméia e Amélia, dentre outras centenas, foi o único militar a ser processado e condenado, em 9 de outubro de 2008, passando a ser considerado oficialmente um torturador, ainda que a pena não acarretasse prisão ou pagamento de multa, sendo apenas declaratória.

Até hoje nenhum militar foi punido e os arquivos relativos àquele período permanecem fechados, secretos, impedindo que as famílias dos 147 desaparecidos possam enterrar seus entes queridos e saber da verdade.

Em Abril de 2010 o Supremo tribunal Federal tornou ainda mais difícil a abertura do arquivos e a punição dos torturadores ao julgar a validade da Lei da Anistia e garantir a eterna impunidade daqueles que, em nome do Estado, torturaram e mataram.

Porém, na véspera do natal de 2010, a Corte de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA) julgou e condenou o Brasil no caso conhecido como "Guerrilha do Araguaia", em que sobreviventes da guerrilha, dentre eles Amélia Telles e Criméia Almeida, processavam o país, tentando obrigá-lo a reparar as vítimas da Ditadura e revogar a Lei da Anistia.

O governo brasileiro, até o momento, não tomou conhecimento da sentença.

Desde a chamada re-democratização, em 1985, diversos grupos lutam para garantir o direito das vítimas da Ditadura, buscando reparação financeira, condenação aos criminosos, abertura dos arquivos e manter viva a memória histórica nacional. Online, há também uma grande mobilização permanente de blogueiros que buscam dar publicidade a casos de vítimas, pressionam com abaixo-assinados e com blogagens coletivas para manter viva a memória.

A justiça brasileira, mesmo antes da decisão do STF a favor da Anistia, vem dificultando a procura por corpos de desaparecidos, ao mesmo tempo em que o exército demonstra extrema má vontade em buscar pelos corpos de guerrilheiros ainda hoje enterrados em  valas comum na região do Araguaia, no centro do país.

Por outro lado, o governo brasileiro, hoje com uma ex-presa política e ex-guerrilheira como Presidente, Dilma Rousseff, pouco se movimenta no sentido de abrir os arquivos ainda secretos da Ditadura. Durante a discussão no STF sobre a anistia Dilma Rousseff, ainda Ministra de Minas e Energia, declarou acreditar se tratar de "revanchismo" a tentativa dos grupos de direitos humanos de revogar a Lei e deu total apoio à decisão.

O então Presidente Lula, por sua vez, elevou o tempo para que arquivos secretos sejam divulgados para o público, tornando impossível para os sobreviventes terem acesso mesmo a seus processos em tribunais militares enquanto viverem.

As últimas ações do governo federal foram todas no sentido de não entrar em confronto com as Forças Armadas e, por outro lado, de confrontar os sobreviventes e vítimas da Ditadura e negar-lhes seu direito e o direito de toda a população brasileira, de conhecer e passar a limpo seu passado.
Passados 26 anos da re-democratização, o passado do país ainda está envolto em uma cortina negra de segredos e mentiras e os ativistas se perguntam: Até quando?

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Este artigo foi publicado originalmente ontem, no Latin American Bureau

Recomendo também a leitura de post do Global Voices sobre a Blogagem Coletiva pela Abertura dos Arquivos, #DesarquivandoBR
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