Imagino que todos já tenham passado por isto, especialmente quando se
busca o primeiro emprego, um estágio ou simplesmente um emprego ao sair
da faculdade (não necessariamente o primeiro, mas o definitivo, o
relevante).
Falo da "Experiência", a maldita experiência que algumas empresas e ONGs
adoram exigir e que muitas vezes não conseguimos acreditar que algum
ser humano possa ter as qualificações desejadas.
Das duas uma, ou a empresa não quer contratar ninguém e abre a vaga só
de pirraça, molecagem, ou então usa esta exigência absurda como filtro -
apenas quem esteja perto do exigido se candidatará.
Em ambos os casos temos, pelo menos, uma tremenda falta de respeito,
especialmente com quem está saindo da faculdade ou está me busca do
primeiro emprego, de um bom estágio.
Vale, antes de mais nada, lembrar que exigir mais de 6 meses de
experiência é
ilegal!
Mais uma das leis que não "pegam" no Brasil.
Como em tantos setores no Brasil, no mercado de
trabalho existem leis que não pegam. A que proíbe exigir mais de
seis meses de experiência é um exemplo.
“A empresa vai contratar a mesma pessoa que ela iria contratar
anteriormente. Alguém que provavelmente tem cinco, seis ou sete
anos de experiência”, diz Max Gehringer.
Aliás, o cúmulo da falta de noção e empresa oferecer
estágio pedindo experiência! Gente, "comofas"? O objetivo do estágio não
é exatamente o de aprender, de começar do zero, de dar chance à um
universitário começar?
Eu não coloco aqui exemplos de empresas e suas esdrúxulas exigências
para não ser processado mas já encontrei oferta de estágio exigindo 1 a 2
ano de experiência em determinada área.
Vejamos, o universitário então deveria ter trabalhado quando criança
para conseguir chegar ao padrão exigido por esta magnífica e socialmente
interessada companhia! Apologia do trabalho infantil, talvez?
Não é incomum encontrar exigências de até mais que 4 ou 5 anos de
experiência em determinada áre, isto quando não pedem Doutorado, PhD e o
escambau! Campeãs nestes tipos de exigências estão as agências da ONU,
como Acnur e afins, que jamais sonhariam em exigir menos que meia vida
de um indivíduo como experiência.
Neste ponto eu me pergunto, será que uma pessoa com 500 anos de
experiência, mas uma cabeça feita, um padrão de ações, uma mentalidade
formada e dificilmente maleável é realmente melhor para uma empresa - ou
uma ONG - que alguém novo, recém-saído da Universidade, com novas
idéias, uma nova cabeça e que será moldado por esta empresa (ONG),
trabalhará exatamente como ela quer, pois não terá qualquer modelo
anterior?
Qual é o grande problema em se tomar um mês, dois meses quiçá, ensinando
alguém novo e entusiasmado numa função? Qual a grande dificuldade em
ensinar, integrar, dar oportunidades?
Outra coisa que surpreende bastante é que boa parte das instituições
mais exigentes, mais difíceis de se entrar e de se estar à altura do
exigido para os cargos são as ONG's! Exatamente àquelas que lutam por
igualdade, integração social e etc são as que mais discriminam na hora
de contratar.
As ONG's, por si só, são difíceis de entrar, são uma panela, vale o
"quem indica" mais do que a qualidade do candidato. É como um grupo
fechado onde só os que tem bons contatos, amigos em comum ou indicação
"de cima" são aceitos.
Chego a pensar que as exigências absurdas são apenas uma maneira de
manter o grupo fechado, ou seja, entra quem é indicado, para os de fora
valem as regras draconianas e quase sempre impossíveis.
Enfim, não surpreende que no mundo das ONG's muitos se conheçam, migrem
de uma para outra e os mesmos rostos sejam frequentes. Difícil você
lançar 5 nomes num grupo de ongueiros e estes não conhecerem pelo menos 2
ou 3... ou até todos!
Mas o problema da "experiência" é geral. As empresas, Ong's, enfim, o
mercado de trabalho, prefere dar espaço para quem já está há anos e
fecha as portas para quem está começando, não surpreende que a taxa de
desemprego seja
muito
maior entre jovens que querem entrar no mercado de trabalho do que
entre quem já está ha algum tempo na estrada, e a taxa
continua a crescer!
Não seria hora de repensar o modelo? Não seria hora do governo começar a
efetivamente fiscalizar esta exigência absurda de larga e longa
experiência? Não seria hora, enfim, do governo incentivar, seja pelos
meios que forem, a contratação de jovens que querem se inserir no
mercado de trabalho mas encontram as portas fechadas até para simples
estágios?
Aliás, é hora, sem sombra de dúvida, para as empresas repensarem sua
maneira de contratar e agir. Não há qualquer sentido na constante troca
de cadeiras entre as mesmas pessoas, o nomadismo de meia dúzia de
indivíduos qualificados enquanto todo o resto do mercado de trabalho
luta lá embaixo para conseguir ao menos se inserir.