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sexta-feira, 3 de abril de 2015

A redução da maioridade penal junto à pena de morte já é realidade nas favelas brasileiras

Uma criança de 10 anos, Eduardo de Jesus Ferreira, foi baleada no Complexo do Alemão ontem. As suspeitas (ou certezas) são sempre as mesmas: Policiais Militares da UPP.

Sim, a foto é gráfica, mas é importante para que se entenda: É este tipo de imagem que crianças vêem quase todos os dias nas favelas brasileiras. Não, não é na Síria, não é no Iraque, não é a ISIS, é o Rio de Janeiro, é a PM carioca, é o tráfico, a milícia, é o Brasil.

Se a criança que vive na favela vê esse tipo de imagem todo dia você que lê este blog também pode ver. 

Enquanto 90% da população defende a redução da maioridade penal crianças são mortas violentamente ou são forçadas a conviver com esta realidade de medo. Podem ser mortas a qualquer momento. São submetidas desde a infância à violência, são alvos. Não tem direito nem dignidade.

E isso gera revolta.

CRIANÇA DE 10 ANOS MORTA PELA UPP NO COMPLEXO DO ALEMÃO
COVARDES, VIERAM PARA MATAR UMA CRIANÇA DE 10 ANOS.É ISSO MESMO GOVERNADOR.#SOSCOMPLEXODOALEMAO Quero ver nas #Olímpiadas2016#Rio2016 #Olimpiadas#FoxNews#Bbc#Itv#Cnn#Abc#Cbs#TheNewYorkTimes#TheGuardian#ERREJOTA#ElPaís#TheNewYorkTimes #Brasil2016#RioDeJaneiro#Rio2016
Posted by Complexo Alemao on Quinta, 2 de abril de 2015
Não estou justificando a revolta, mas apenas deixando claro que ela existe, e que há nela alguma legitimidade. Você consegue imaginar o que é ser discriminado, violentado e abusado desde criança? De ser tratado como lixo, de ver seus amigos, pais, parentes, serem humilhados, violentados e mortos pela polícia que deveria os proteger? Aceitaria passível toda a desgraça que te cerca? Uns sim. Outros não.

É lógico que a revolta acaba gerando apenas mais resposta violenta alimentando o ciclo, mas é importante entendê-la para poder debater, propor saídas.

E não estou tirando a autonomia dos indivíduos, nem todos "viram bandidos", nem todos seguem o caminho do ódio - pese muitos sentirem esse ódio -, mas acreditar apenas que estes são "ruins", que escolheram e ponto seu caminho é de uma infantilidade, torpeza e desumanidade incrível.

Vejam só o comentário de um garoto, no Facebook, numa das várias postagens sobre o assassinato dessa criança (o garoto da postagem deve ter a mesma idade da criança morta):
Se esse garoto tiver mais de 10 anos é muito. E já sente ódio.
Qual o futuro dele? Se tornar um traficante? Um assaltante? Um assassino? Acabar morto ou trancafiado numa cadeia onde irá sentir ainda mais ódio da sociedade?

É incompreensível o ódio que ele sente? Não. Incompreensível é a negação de amplos setores sociais da realidade de violência e exclusão a que crianças são submetidas. Negação da realidade seguida de pura vingança: Vamos meter mais e mais adolescentes em centros de tortura estatal para se pós-graduarem no crime e sentirem ainda mais ódio - que se voltará contra a própria sociedade.
Postagem de um rapaz já mais velho, mas no mesmo tom de revolta. A lógica dele é incompreensível?
Longe de APOIAR a violência ou respostas violentas, eu busco entender para, então, ser capaz de enxergar que TODO o sistema precisa de reforma. Educação, inclusão, direitos humanos, o fim da PM, o tratamento humano a todos, políticas de promoção de igualdade, ajuda psicológica, enfim, o pobre, o favelado tem que parar de ser tratado como marginal ou marginal em potencial, ser vigiado, violentado e deve ser tratado como... ser humano. Como todos temos de ser tratados, mas apenas poucos somos.

A redução da maioridade penal vai apenas piorar o quadro de violência, mas os defensores irão apenas lavar as mãos e, no fim, irão defender penas mais duras para crianças como esta da foto que abre a postagem, isso se não chegarem ao cinismo de comemorar: Que bom, morreu antes de poder cometer crimes.
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sábado, 27 de novembro de 2010

Rio de Janeiro, tragédia anunciada?

Soa como clichê dizer que o Rio chegou ao limite. Na verdade soa como uma mentira. O ponto de quebra, o limite, já foi alcançado há muito tempo. Mas os sinais eram mascarados pelas ações do BOPE de suposta pacificação dos morros e da substituição do tráfico pelas milícias, além da própria divisão das grandes facções em outras menores e cada vez mais violentas.

Quando parecia que alcançávamos o limite, o tráfico se dividiu e as milícias deram a falsa impressão de paz, daquela paz finalmente alcançada. No fim, as milícias se mostraram tão nocivas quanto os traficantes de antes.

Tudo isto é reflexo do descaso do estado e do Estado. De políticas puramente de confronto e não de inclusão, de políticas de criminalização não só das drogas mas da pobreza em geral. Quadro este que se perpetua pelo país, mas dada a história e a geografia do Rio, a coisa se complica.

Não pretendo me demorar na análise histórica da situação, esta já é bem conhecida, e sim me concentrar no que vem agora. No momento atual e nas perspectivas.

Pois bem, sempre acompanhei as invasões em favelas com preocupação, em alguns casos estive muito perto de invasões extremamente violentas - passei boa parte das minhas férias no Grajaú, ao lado de favelas dominadas pelo Comando Vermelho e Terceiro Comando em constante guerra - e sempre via o desespero na cara de quem morava nas favelas invadidas ou nas proximidades.

Invasão significa a morte de civis, significa a truculência e, no fim, quase nada muda na vida dos que vivem nas favelas. O tráfico costuma voltar e ficam apenas os corpos pelo chão das vítimas das investidas esporádicas da polícia.

Com as UPP's, pese algumas críticas, a coisa começou a tomar uma nova forma. Por mais que tenham falhas, as UPPs inauguraram  uma nova era na política de pacificação das comunidades, até mesmo diminuindo o estigma de serem criminalizados por serem pobres, excluídos.

Mas, ainda assim, o Rio continua sendo um campo minado onde facções criminosas, milícias e polícia disputam cada centímetro. Mas o problema está além.

Não se pode dizer que o tráfico é o resultado do trabalho de marginais mal intencionados que devem ser mortos. São pobres marginalizados suas vidas inteiras que encontram na marginalidade uma forma de reação, de rebelião. Claro, existem os que efetivamente gostam, foram feitos para o crime, mas estas são exceções.A maior parte dos soldados são simples adolescentes ou jovens com famílias desestruturadas que nunca foram considerados gente pelo estado e pelo Estado e que encontraram no tráfico uma forma de serem alguém.

As milícias são uma resposta, mas uma resposta corrupta, com a intenção apenas moralista de substituir os antigos dominantes, os traficantes. Sai a droga, mas a violência continua a mesma, até piora. É uma reação de agentes do Estado à própria falta de ação de seus empregadores, mas com métodos tão deploráveis quanto os empregados por quem eles combatem.

A saída violenta para o Rio apenas resulta em mais violência, por mais estúpida e óbvia que a sentença possa parecer. A resposta à exclusão, de forma violenta, faz nascer o tráfico, que por sua vez causa a resposta das milícias, também violenta. Tudo isto intercalado por ações "legítimas" do Estado, de invasões e brutalização.

O ciclo apenas se completa, reduzindo tudo à mais pura marginalização e criminalização, em que ser pobre já é, por si só, razão para condenação.

Óbvio, estou sendo mais simplista do que pede a situação, seria impossível analisar todos os diversos aspectos que levaram o Rio até a situação limite atual.

A falta da presença do Estado nas comunidades carentes é o maior dos males. A prisão de traficantes não diminui a violência, senão apenas recicla a bandidagem e cria novas lideranças, por vezes, até mais violentas.

O problema, claro, não está só em combater o tráfico, seus líderes, mas ir além, ir atrás dos políticos que comandam efetivamente tudo.

Combater o fogo com o fogo apenas perpetua o ciclo. Combater as causas da exclusão, porém, é a solução.

Este tema é motivo de paixões e de radicalismo. O que não ajudam em nada à melhorar a situação.

Tomar a situação atual, do Complexo do Alemão cercado e tomado por traficantes, por um viés ideologizado e sem matizes é apenas contribuir para a perpetuação do problema.

A realidade é a de mais de 500 traficantes acampados nos morros do complexo, fortemente armados e prontos para tudo. São bandidos, não há como negar, independentemente do que os levou até lá. A realidade é, ainda, a de uma população aterrorizada e cercada, vivendo no medo e, ainda, as forças armadas, polícia, BOPE e afins cercando a região para impedir que os traficantes escapem.

É um quebra-cabeça.

O que deve fazer a polícia? Recuar e permitir a fuga, ou até pior, o entranhamento na comunidade de centenas de criminosos? Isto seria impossível e inaceitável. Por outro lado, a solução seria invadir e acabar por matar inocentes?

Historicamente vejo as invasões como nem de longe desejadas pela população, que sempre se dá mal, mas pelo que venho acompanhando, desta vez, me parece que a polícia encontra amplo apoio por parte da população - e falo de moradores e não da classe média que a Globo adora entrevistar pra saber a opinião desde seus apartamentos da Zona Sul - e, está claro, o comando da polícia vem fazendo um esforço imenso para negociar, chegando até a citar direitos humanos e pedir pela rendição dos bandidos a fim de evitar um banho de sangue.

O diferencial desta vez, até mais do que o apoio popular, talvez esteja na negociação. Em todas as mensagens e apelos pela rendição, nos apelos para que seja evitado um banho de sangue...

Que uma coisa fique clara, se existem traficantes na favela é obrigação - e não digo moral, mas obrigação legal mesmo - da polícia ir retirá-los. Prender ou matar se for preciso. Isto não está em discussão. Gostemos ou não, esta é uma prerrogativa do Estado e de sua força de segurança, de seu aparelho repressor.

O que acho válido analisar aqui é a clara mudança de posição ou de comportamento por parte do comando em, ao invés de simplesmente invadir, tentar todos os meios de diálogo.

Quando vejo posições radicais anti-polícia me pergunto: "O que querem? Que virem as costas e finjam que não tem nenhum bandido acampado no Alemão?".

Não vejo outra solução senão a continuidade da negociação e uma possível invasão, esperando que esta possa ser a mais limpa possível e ter o menor número de baixas.

Acredito que a disputa entre os que consideram a polícia boba, feia e chata e os que querem que matem todos os "favelados" seja desnecessária e indevida. Não chegam ao cerne do problema. É claro, a solução mais efetiva é a inclusão social, é a mudança da mentalidade da sociedade, mas nada disto se alcança sem algum confronto, nada disto se alcança sem que os problemas pontuais sejam, também, atacados.

Uma coisa são ações policiais sem qualquer estrutura, visando apenas o assassinato de criminosos e inocentes e uma suposta imagem de respeito à lei e à ordem para aparecer na TV e agradar a elite, outra é uma ação que se vê necessária em que diversas forças se unem e buscam uma saída pacífica e, não encontrando, são forçadas a defender o Estado e a população.

Diferencial desta vez, ao meu ver, são os apelos da polícia e, acreditem, a palavra "direitos humanos" saindo das bocas de comandantes e lideranças que sequer deveriam conhecer seu significado até alguns meses atrás.

Mas, sempre,  deve-se ter em mente que, não importa quantas ações a polícia faça, sem inclusão social e sem uma mudança completa na forma como os pobres e favelados são tratados, os banhos de sangue continuarão, pois a morte de um traficante não cria uma lacuna, apenas cria um sucessor.
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segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Banalização dos protestos e Apartheid Social


Eu já havia comentado ha alguns dias sobre a banalização dos protestos em curso no país.

Mas, para além disto, também é curioso notar o paradoxo do excesso de manifestações vazias e sem sentidos que acabam por banalizar este importante instrumento de pressão social e política ao mesmo tempo em que novas formas de protesto são tentadas dia após dia.

É realmente curioso - e lamentável - que protestos sérios e relevantes sejam criminalizados e esvaziados ao tempo em que futilidades mil ganhem projeção e o óbvio apóio da mídia, interessada em patrocinar o esvaziamento daquilo que não lhe convém.

É esta corrupção, aliás, que desvia o dinheiro que deveria ser usado na inclusão social, na inclusão dos marginalizados e que é desviada para os bolsos do vereador, do prefeito, do deputado....

No caso do Rio, além de tudo isto, temos uma guerra entre caciques, entre Cesar Maia, Cabral, Beltrame, os Garotinhos... Todos de uma maneira ou de outra ligados às causas da violência local.







Quando algum movimento, protesto ou manifestação sai na capa de um grande jornal, logo começo a duvidar das intenções e propostas do dito grupo. Se o PIG apóia então algo está errado. A edição de domingo da Folha de São Paulo estampa os "manifestantes" em sua capa e, como não é de surpreender, acaba por se declarar favorável à atitude do grupo.

Mesmo modus operandi adotado pelo O Globo para divulgar o grupelho burguês "Nove", que protestou contra a fraude do Enem. Isso mesmo, contra a fraude, não contra algo factual, visível, claro. Fizeram apenas o jogo DemoTucano, como é de se esperar dos filhos da elite.

No caso deste protesto no Rio - mais um de dezenas, alguns inclusive capitaneados por sub-celebridades -, é o mais do mesmo. Filhinhos de papai se encontram na Zona Sul, na praia, fazem um teatro, aparecem na TV, são capa de jornal e depois vão tomar banho de mar e voltar às suas vidas, como se nada tivesse acontecido.

Não estamos diante apenas da banalização dos protestos, dos protestos nonsense, mas do completo descaramento de uma classe média que  usa o espetáculo para fingir que se importa com alguém que não apenas os de sua classe.

Porque não sobem o Morro dos Macacos e protestam lá contra a violência policial? Ao invés disto ficam seguros, cercados pela polícia e pelos abutres do jornalismo (sic) Global ao lado de sua praia favorita, para onde vão depois, descansar, com o dever cumprido. O dever de fingir se importar, o dever de fingir agirem pela paz real e não pela sonhada pelos seus: Livre das favelas, da pobreza, mas não pela inclusão, mas pelo cercamento, pela repressão, pelo apartheid social.

A Classe Média não sabe contra quem ou o que protestar. Vota nos mesmos escroques de sempre e faz campanha de boca cheia para os mesmos políticos corruptos, interessados em privilegiar sua classe em detrimento do resto do povo. Como resultado criam um círculo vicioso em que os favelados se rebelam contra sua situação, em muitos casos, através da violência do tráfico.

As elites mais abastadas contam com a Classe Média para propagar seus delírios consumistas, para divulgar a mensagem profética d'O Globo e da Veja e para garantir a nulidade ou a atitude mais reacionária da classe.

Na falta de alternativas, de argumentos para sua própria ignorância, na falta de coragem ou decência para uma atitude corajosa a Classe Média protesta. Contra quem ou o que não sabem, mas se sentem realizados em atuar como arautos da paz e da decência.
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segunda-feira, 19 de outubro de 2009

A eterna violência carioca

Morreu mais um PM, o terceiro dos que estavam no helicóptero abatido pelos traficantes do Morro dos Macacos.

De fato, é uma notícia ruim, o desperdício de vidas humanas em uma guerra insensata e sem sentido nunca pode ser comemorada. Mas, da mesma forma, a morte de inocentes no fogo cruzado também não pode ser tratada - como o é pela imprensa - como "dano colateral", mal menor.

Aliás, a própria guerra que ocorre no Rio não pode ser reduzida à uma guerra entre mocinhos (PM), bandidos (Tráfico, sem rosto), danos colaterais (favelados, pobres, igualmente sem rosto) e pobres vítimas inocentes (classe média).


Artigo completo está no Trezentos.
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