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segunda-feira, 30 de maio de 2011

Nacionalismo e Emancipação Nacional: O caso das nações oprimidas do Estado Espanhol

O texto a seguir nasce de um debate* entre Lucas Morais (@Luckaz), Antônio Luiz Costa (@ALuizCosta) e Raphael Tsavkko (@Tsavkko) sobre os movimentos nacionalistas Basco, Galego e Catalão e sua relação com o Estado espanhol. Durante o debate, várias questões surgiram, como a relevância da luta pela emancipação nacional, a força dos movimentos nacionalistas, sua vitalidade e mesmo sua validade nos dias atuais. Questões que pretendemos – não exaustivamente – responder a seguir, buscando contextualizar a luta pela emancipação nacional enquanto ato de resistência dos trabalhadores além de mero reflexo dos interesses da burguesia.

Sobre a história dos nacionalismo catalão, basco e galego

I

Bascos, catalães e galegos possuem longa história de independência. Ainda no século XVII, a Catalunha experimentou sua primeira e breve experiência republicana, repetida novamente em fins do século XIX e novamente nos anos 30 do século XX. Ainda hoje é lembrado o Dia da Catalunha (Diada Nacional de Catalunya) com protestos pela nação,  rememorando o 11 de setembro de 1714, ou a conquista final do país pelo Reino de Castela, e a cada ano renova-se a esperança pelo dia em que a Catalunha será novamente independente. Os Bascos, por sua vez, vieram a ser finalmente conquistados apenas no fim do século XIX, antes disto passaram séculos sob o regime de Foros, ou seja, possuíam total liberdade interna, entregando apenas a sua defesa externa ao Reino de Castela. Euskal Herria (País Basco) é uma nação independente desde os primeiros registros escritos sobre seu povo e sua língua milenar. Não foram conquistados pelos romanos ou por qualquer outra nação ou império que passou pela região. Resistiram a todas as investidas e, ainda hoje, mantém a luta por sua independência. Já os galegos formaram um poderoso reino durante a idade média, o Reino Suevo de Gallaecia, o primeiro reino independente de toda Europa, estabelecido como tal no ano 410, e do qual fazia parte o condado portucalense, que no século XII originou o Reino de Portugal e fez do galego sua língua nacional, sob o nome de português. Daí parte unidade linguística da faixa ocidental da Península Ibérica (Galiza e Portugal) e a longa luta do povo galego, que durante séculos alternou períodos de soberania com outros de submetimento a Castela, até o descabeçamento total da sua classe dirigente, o que explica a falta de um projeto nacionalista burguês na Galiza atual.

O Reino da Galiza subsistiu até 1833 e, mesmo dominados pelo então Reino de Castela, o povo galego manteve sempre vivas sua língua e cultura. O movimento nacionalista galego parte assim do século XIX, tendo um caráter eminentemente progressista e republicano.

Os demais “nacionalismos periféricos” e a “espanholização” forçada

II

Há outras regiões da Península Ibérica que já foram nações ou são reivindicadas como sendo parte das nações referidas, como Valência e Ilhas Baleares. Ambos faziam parte do que historicamente se chama Países Catalães, que são territórios de língua catalã. Entretanto, os níveis de espanholização imposto a estes povos são diversos. É óbvio que a Catalunha é o território com maior consciência nacional e, em função disto, maior independentismo. Entretanto, nas Ilhas Baleares há menos consciência nacional que na Catalunha, e menos ainda em Valência. Neste último, os espanhóis conseguiram sobretudo introduzir um sentimento localista anticatalão, ao ponto da burguesia de Valência defender que lá se fala uma língua diferente chamada “valenciano”. Aqui, sim, ocorre a estratégia do “divide et impera”, isto é, dividir os povos para imperar sobre eles. Do mesmo modo o Estado espanhol afirma que o galego não tem nada a ver com o português, quando hoje sabemos que a nossa língua, o português, nasceu realmente na antiga Gallaecia. Aragão e Astúrias historicamente foram nações, com línguas próprias que lutam para sobreviver, assim como Leão, cujo idioma sobrevive às duras pelas em um território dividido com Castela, logo, sem qualquer status especial ou possibilidade de ensino em escolas ou crescimento. Hoje, as línguas astur-leonesa e aragonesa estão em processo de desaparição, com poucos milhares de falantes e movimentos nacionalistas muito fracos. Isto se deve pela absorção realizada pelo Reino de Castela (base do projeto nacional espanhol), que, desde muito cedo, impôs a espanholização a estes povos.

Os tipos de nacionalismo e o desejo de liberdade

III

Não há somente um tipo de nacionalismo. Há nacionalismos expansionistas e nacionalismos defensivos. É claro que desde o Brasil ou Portugal é difícil compreender os conflitos de nacionalidades, dado que nestes países referidos não se vive tais conflitos e não há problemas no uso da própria língua, o que pode levar a crer que é sem sentido a defesa de direitos linguísticos na Catalunha, Galiza e País Basco por exemplo. Somente vivendo esta condição humilhante há a possibilidade de compreender as determinações sociais que fundam a resistência, isto é, ao sentir-se impotente perante as imposições do Estado espanhol, ao não poder escolarizar os filhos na língua própria, como ocorre na Galiza por exemplo, ou como quando o franquismo baniu e criminalizou as línguas basca, catalã e galega. O fim do franquismo deixou um legado nefasto em que o basco passou a ser falado por meros 40% da população, ainda que um forte movimento popular o fez ressurgir, alcançando hoje perto de 70% da população. Mas é pouco. Bascos, catalães e galegos querem ter o direito a ensinar seus filhos sem pedir permissão para o Estado espanhol para tal. Bascos, catalães e galegos querem ter o direito a votarem e serem eleitos, sem precisar pedir permissão a tribunais espanhóis. É comum confundir “nacionalismo” como uma manifestação de uma direita xenófoba e racista sem, porém, compreender as notáveis diferenças entre o nacionalismo movido pelo ódio ao outro e o nacionalismo que busca apenas garantir a (sobre)vivência cultural, econômica e a autodeterminação de um povo.

Imperialismo versus nacionalismo

IV

Naturalmente, há um fundo de verdade nas informações que Antonio Luiz coloca em debate, que o imperialismo sempre tenta se aproveitar de contradições nacionais em benefício próprio, o que é verdade. Entretanto, isto não anula a existência dos direitos de emancipação nacional. Durante décadas a esquerda de todo o mundo doou seu apoio e demonstrou solidariedade (quando não pegou em armas) para garantir os direitos das nações e povos oprimidos em seu direito à autodeterminação e a superação de seu status de colônia. A luta de bascos, catalães e galegos nada mais é que a continuidade das lutas por emancipação nacional e pela descolonização. Também é verdade que, por vezes, é a burguesia quem dirige ou tem dirigido esses processos independentistas, mas, novamente, isto não anula a existência de um povo sujeito de direitos.

O nacionalismo galego enquanto resposta dos trabalhadores

V

No caso galego, a burguesia renuncia à nacionalidade galega e conforma-se com os lucros que lhe correspondem por fazer parte do mercado espanhol, e, neste caso, é a esquerda somente que defende a liberdade nacional do povo da Galiza. Ora, não é por “separatismo” que se luta pela independência galega, e sim pela aspiração à liberdade e independência frente o Estado espanhol, para que, então, a Galiza possa se por em verdadeiro pé de igualdade na Península Ibérica, em relações baseadas na igualdade, e não na imposição, e, claro, no respeito às identidades nacionais. Esta soberania não tem como aspiração a exploração do homem pelo homem, nem expandir-se como os impérios históricos, mas sim um movimento defensivo antitético ao nacionalismo expansionista e imperialista do Estado espanhol. É interessante notar que o nacionalismo galego é mais fraco ou menos presente nas instituições que o basco e catalão, precisamente porque a burguesia renuncia maioritariamente à nacionalidade galega, o que não acontece nos casos basco e catalão, que também têm fortes partidos burgueses nacionalistas. Além disso, a repressão franquista foi especialmente brutal com a Galiza, que caiu logo sob o domínio dos fascistas e viu como toda uma geração de seus melhores filhos morriam assassinados ou tinham que fugir para salvar a vida. Só nos anos da guerra (1936-1939) estima-se que o número de vítimas mortais do fascismo espanhol na Galiza pode ser de 40 mil em apenas 3 anos (a ditadura militar argentina, estima-se que tenha matado mais de 30 mil), numa população inferior aos 2 milhões e meio na altura. Portanto, o nacionalismo galego tem seu caráter popular e de esquerda, com forte implantação sindical no movimento operário, e sua vontade de integração no espaço internacional lusófono, enquanto berço histórico da língua portuguesa.

A força relativa dos nacionalismos no Estado Espanhol

VI

Os critérios restritos aplicados à esquerda catalã e basca, baseado no sucesso eleitoral, não refletem a realidade destas nações. Ora, sabe-se qual a porcentagem da esquerda anticapitalista em Espanha? Afinal, ali quase inexiste expressões revolucionárias da esquerda. O Partido Comunista Espanhol, como tal, não tem sequer um deputado no parlamento espanhol nestes momentos. Proporcionalmente, o pensamento político de esquerda revolucionária tem maior porcentagem na Catalunha, enquanto Galiza e Euskal Herria (País Basco) se mantém acima da média em relação ao restante do Estado espanhol. Some-se a isto que os movimentos sociais são mais fortes nestas três nações que em qualquer outro território espanhol. As nações oprimidas, portanto, possuem mais esquerda socialista proporcionalmente que a média das demais regiões do Estado espanhol, o que é um dado muito importante. É claro que contabilizar isto somente com os resultados eleitorais é uma simplificação semelhante a considerar que a democracia consiste em emitir o voto a cada 4 anos, ou seja, trata-se aqui de um conceito e critério burgueses. Tanto na Catalunha quanto no País Basco, as opções nacionalistas são maioria em termos de voto e representantes, na Galiza são a terceira força. Dentre as esquerdas, o reformista Bloco Nacionalista Galego é a terceira força na Galiza, Bildu é a segunda força basca, praticamente empatado com o Partido Nacionalista Vasco, nacionalista de centro-direita (este partido possui duas correntes principais, uma independentista, outra autonomista, sendo que esta última está na direção do partido de seis anos para cá), e na Catalunha a esquerda nacionalista, mesmo fragmentada, se apresenta com força.


Um mundo melhor ou apenas melhores condições de luta?

VII

Não se trata de o mundo estar melhor ou pior com a independência da Catalunha, Galiza e País Basco, mas sim destes povos terem o direito à sua autodeterminação e serem reconhecidos e respeitados como nações. A luta anticapitalista, isto é, a luta internacionalista pela emancipação humana que almeja uma ordem social de igualdade substantiva, sem a dominação dos trabalhadores pelos capitalistas e seus Estados, por uma sociedade de produtores livremente associados, não anula a luta independentista dos povos oprimidos e vice-versa. Na verdade, muito pelo contrário, tais lutas se entrecruzam em um nacionalismo defensivo, anti-imperialista, socialista e baseada na fraternidade entre os povos, ou seja, internacionalista. O exemplo da Revolução Cubana é didático neste sentido, um povo que foi colonizado primeiramente por espanhóis e posteriormente pelos imperialistas estadunidenses, hoje pode levantar alto a bandeira de Cuba e afirmar sua nacionalidade ao mesmo tempo em que pratica o internacionalismo solidário na América Latina e na África.


Nacionalismos legítimos e ilegítimos

VIII

Equívoco costumeiro entre aqueles que não buscam entender as questões identitárias e históricas por detrás do nacionalismo catalão é a de comparar o independentismo catalão com o separatismo da Padânia. A Catalunha possui todos os atributos de uma nação histórica, já foi independente, tem idioma e literatura próprios. A nação catalã inclusive já travou guerras pela independência. Já a Padânia, trata-se de invento recente, de vinte anos para cá, da burguesia rica do norte da Itália que simplesmente quer separar-se da Itália sulista pobre, sem qualquer base popular. Portanto, não há nação Padânia (ou Padana), assim como não há nação no sul brasileiro, apesar da tradição sulista. Podemos falar em nação Vêneta (esta costumeiramente solidária ao nacionalismo basco e catalão), em nação Lígure, em nação Franco Provençal (Vale d’Aosta) e etc, mas não em Nação Padânia (ou Padana), que não possui nenhuma característica identitária além de uma ligação ideológica entre burguesias próximas à extrema-direita xenófoba. A Catalunha constitui-se como república soberana ainda nos anos trinta do século XX, reconhecida nos primeiros atos do breve governo republicano espanhol, com um movimento nacionalista-independentista sempre vinculado tanto à esquerda e aos movimentos populares, quanto à direita, mas nunca ao fascismo, ao contrário das reivindicações de privilégios da burguesia na Padânia ou em Santa Cruz, na Bolívia. O nacionalismo catalão moderno se centra nas figuras de Lluis Companys e Francesc Macià, expoentes da Esquerra Republicana de Catalunya. E, vale lembrar, os catalães colocaram-se historicamente ao lado dos republicanos durante a Guerra Civil, e contra Francisco Franco durante todo seu governo, seja à direita ou à esquerda.


PxC e o falso nacionalismo catalão

IX

Primeiramente cabe esclarecer que a Plataforma de Catalunha é um partido político da extrema direita, neofranquista e pró-Estado espanhol, cujo líder, Josep Anglada, foi dirigente de uma organização fascista muito conhecida, a Fuerza Nueva, que nos primeiros anos da democracia espanhola teve deputados ligados ao nacionalismo católico ultraespanholista e que teve representação parlamentar na transição. Logo, não faz sentido colocar esse exemplo como sendo representante do independentismo catalão, pois, de fato, a Plataforma de Catalunha é anti-independentista.


Seletividade? Ou a opressão gera resistência

X

Ora, o mais curioso é quando Antonio Luiz diz que apoia apenas a emancipação nacional dos palestinos e saarauis (Saara Ocidental), enquanto no mundo há centenas de povos oprimidos. E os curdos? E os cabílios? E os mapuches, sistematicamente esmagados por Pinochet e ainda hoje vítimas de intensa perseguição e brutal repressão? Ou os povos do Cáucaso? Não é necessário ser revolucionário para apoiar a emancipação de tais povos, mas, no mínimo, estar de acordo com os princípios democráticos. Desde Marx até Lênin, e a grande maioria de teóricos socialistas do século XX, reconhecem o direito de autodeterminação, assim como as principais correntes da esquerda o fizeram. Inclusive, Fidel, no início dos anos 90, fez um apelo ao Estado espanhol para reconhecer os direitos de bascos, catalães e galegos. Na Europa, os únicos setores de “esquerda” a negarem este reconhecimento são o chauvinismo estalinista e os reformistas socialdemocratas, dado que estes frequentemente estavam atrelados aos projetos estatais imperantes, assim como o Partido Comunista Francês atuou contra os independentistas argelinos, defendendo sua burguesia nacional, e até hoje se recusa a poiar a luta dos corsos ou reconhecer os direitos linguísticos de Provençais, Bascos e Bretões; e o Partido Comunista Espanhol, que, apesar de incluir em seu programa o direito de autodeterminação dos bascos, catalães e galegos, na prática não apoia, mas este nem sequer ousa negar isto em teoria.

*Texto feito em conjunto com Lucas Morais

Algumas referências:
SAINZ, José Luis de La Granja. El Nacionalismo Vasco: Um siglo de historia. Ed. Tecnos
KURLANSKY, Mark. The Basque History of the world. Penguin Books
SEIXAS, Xosé M. Núñez. Movimientos nacionalistas en Europa. Siglo XX. Ed. Sintesis
_____________________. Los nacionalismos en la España contemporánea (siglos XIX y XX) Barcelona: Hipòtesi
PÉREZ-AGOTE, Alfonso. The social Roots of Basque Nationalism. University of Nevada Press
GUIBERNAU, Montserrat. Nacionalismos: O Estado nacional e o nacionalismo no século XX. Jorge Zahar Editor
VELASCO SOUTO, Carlos F. 1936: Represión e alzamento militar en Galiza. Ed. A Nosa Terra

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segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Constituição Espanhola - 32 anos de extermínio

32 anos de Constituição Espanhola, ou seja, 32 anos em que as nacionalidades Basca, Galega e Catalã são forçadas a vivem sob o domínio imperial espanhol, sob constante Estado de medo, medo de terem sua cultura eliminada, sua língua proibida ou violentada. São 32 anos de terrorismo estatal, de prisões arbitrárias, de torturas e, claro, de resistência, seja cultural ou mesmo armada.

Terra Lliure, Euskadi Ta Askatasuna, Exército Guerrilheiro do Pobo Galego Ceibe, dentre outros grupos, que ha pelo menos 50 anos lutam por seus povos. Além de partidos como a Frente Popular Galega, Nós-Unidade Popular, BNG, Batasuna, EA, Aralar, Esquerra Republicana de Catalunya, Solidaritat Catalana per la Independència, CUP, PSAN e tantos outros.

Hoje, a Constituição Espanhola completa 32 anos e os povos oprimidos por ela só tem o que lamentar. Não surpreende que o período em que se discutia a Constituição tenha sido também o auge dos ataques da ETA.

São 32 anos de sofrimento e extermínio.

Publico abaixo trecho de dois textos do blog Galiza Livre que analisam o papel da Constituição Espanhola na opressão dos povos.
Hojé somos testemunhas do circo mediático de instituiçons, partidos e meios de comunicaçom com o 32º aniversário da Constituiçom espanhola. Segundo eles, a CE está cheia de vantagens, foi umha heroicidade terem aprovado um texto tam progressista e respeitoso com as distintas sensibilidades. Mais umha vez os poderosos repitem a sua mentira para a converter numha verdade. Por muito que repeniquem com o seu discurso, todas e todos sabemos a que interesses respondeu a aprovaçom deste texto. Além de ser aprovado à margem da cidadania. No nosso Pais obtém o 44,7% de votos afirmativos no referendum constitucional.
Passarom 32 anos, suficientes para avaliarmos o nefasto que foi para nós este marco jurídico. Continuamos sem ter as competências em sectores fulcrais para a nossa terra, as políticas neocoloniais pegam cada vez com mais força, sem termos ferramentas políticas para nos defender.
A configuraçom do Estado das Autonomias concreta-se nos artigos 148 e 149 da CE, onde se fixam as competências exclusivas do Estado (a. 149) e as competências que as Comunidades Autônomas podem assumir (a. 148). Este marco competencial impede que Galiza tenha competências em muitos temas como o financiamento ou as políticas econômicas. Aliás perde toda a sua validez (se tinha algumha) com a entrada no Mercado Comum Europeu (1986), momento em que se traspassam as competências em temas fundamentais para nós como som as políticas agrárias ou as políticas ambientais.
O facto de vivermos no seu interior dificulta-nos vermos na sua autêntica dimensom o carácter arbitrário e antidemocrático dos princípios e os preceitos que fundamentam a actual Constituiçom monárquica espanhola, filha de 40 anos de ditadura e da negaçom violenta das naçons presas desse cárcere de povo chamado Espanha.

Com efeito, é importante destacarmos o facto incontestável de que a Constituiçom bourbónica actual é só umha concessom feita polos mesmos que protagonizárom umha das mais brutais ditaduras do século XX, responsável pola morte de milhares de pessoas: a ditadura franquista.

A melhor prova do que dizemos é a absoluta impunidade que essa Constituiçom, aprovada meses depois da assinatura dos infames Pactos da Moncloa, outorgou a todos responsáveis do bárbaro regime franquista. Uns pactos e umha constituiçom que integrárom boa parte dos dirigentes do que tinha sido exemplar oposiçom antifranquista nos anos anteriores.

O peso da propaganda sistemática provoca que importantes sectores do nosso povo considerem normal esse facto, mas basta dar umha vista de olhos ao acontecido noutros processos similares para comprovar que nom é assim: No Uruguai ou na Argentina, por exemplo, produzírom-se processos judiciais, nem que fossem parciais, contra integrantes do aparelho de poder das respectivas ditaduras militares, que em muitos casos os sentenciou com pesadas condenas.

No caso do Estado espanhol, nom só nom houvo processos contra os criminais franquistas, como se produziu umha “continuidade natural” nos mesmos cargos políticos, administrativos, judiciais, policiais... dos próprios franquistas e dos seus filhos, desde a morte do ditador e até hoje.

Também a aprovaçom da actual Constituiçom espanhola, continuadora da legalidade franquista e negadora da legitimidade republicana de 1936, foi umha prova da farsa em que se fundou o atual regime: a imposiçom da economia capitalista de mercado, a unidade sagrada e indivisível do Estado e a negaçom dos direitos nacionais de povos como o nosso, todo sob a tutela do exército e da Igreja Católica.

Gora Euskal Herria Askatuta! Vive o Pobo Galego Ceive/Livre! Visca Catalunya Lliure!
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segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Eleições Catalãs, Primeiras Impressões

Com praticamente 100% de urnas apuradas e já sendo impossível uma mudança de panorama, é possível fazer uma análise preliminar do resultado das eleições catalãs, que acabaram por punir duramente os membros do Tripartido - forças de esquerda nacionalistas e não-nacionalistas - que governam a Catalunha há anos.

O Partido Socialista Catalão, filial do PSOE, perdeu 9 vagas, enquanto o grande derrotado da noite foi a Esquerra Republicana de Catalunya, que perdeu metade de seus deputados, caindo de 21 para dez, de terceira força para quinta (tem o mesmo número de deputados que a ICV, mas menos votos).

A Iniciativa Per Catalunya Verds-Eusquerda Unida perdeu dois deputados e, no total, o tripartido de 70 para 48 deputados, perdendo de longe a maioria absoluta, enquanto o PP acabou crescendo, passando de 14 para 18 votos o que para uns pode parecer uma tendência ou mesmo uma grande vitória mas na verdade foi apenas uma reorganização da direita e o crescimento do PP foi, em termos de votos, tímido.

O PP teve uma boa votação em Barcelona, mas apenas votação residual nas demais regiões da Catalunya. O significado é claro.

O grande vencedor, de forma incontestável, foi o partido, ou melhor, a coalizão, Convergencia i Unió, que roçou a maioria absoluta (conseguiu 62 votos, 6 a menos que a maioria) e, também, a Solidaritat Catalana per la Independència (SI) que, comandados pelo ex-presidente do Barcelona Joan Laporta, conseguiram mais de 100 mil votos e 4 deputados. O partido anti-nacionalista Ciudadanos-Ciutadans manteve seus 3 deputados.

Sobressaem três momentos, primeiro a alta abstenção (mais de 40%), segundo a derrota acachapante do Tripartido, cujos votos em sua maioria migraram para a CiU e para a SI (e também em pequena parte para o Reagrupament, que não conseguiu entrar no parlamento e foi formado por dissidentes do ERC) e, terceiro, o crescimento da CiU, que abocanhou mais 14 lugares no Parlament.

Mais que direita e esquerda, o resultado das eleições demonstra, porém, o crescimento do nacionalismo. Nas eleições passadas os nacionalistas eram representados por ERC e CiU (com a ICV, apesar de não reivindicar o nacionalismo de forma ampla) e contavam com 69 deputados (ou 81). Hoje, os nacionalistas somam 76 deputados ou 86 com a ICV, logo, maioria absoluta e com folga.


Não a toa, Laporta declarou que os resultados demonstram a vontade dos catalães em lutar por sua independência e a SI anunciou que a primeira lei a ser enviada ao parlamento será a declaração de independência da Catalnya.

Agora é o momento de negociações. Muitos esperam que a CiU se alie ao PP, como já fez no passado, apesar de outros acreditarem que não há mais espaço para tal aliança porque, apesar de ambos se colocarem à direita, os membros da CiU - como os do PNV no País Basco - sempre lutaram contra Franco, cujos ideais são defendidos até hoje pelo PP.

PP é um partido ferrenhamente nacionalista espanhol, cujos membros em grande parte são saudosos de Franco e do período em que os nacionalistas, sendo conservadores ou não, eram mortos. A CiU já sofreu pesadas derrotas eleitorais graças à ligação que mantinha com o PP.

Uma hipótese válida é a de uma aliança entre nacionalistas, idéia esta defendida com unhas e dentes pela SI e que encontra eco nos resultados eleitorais, com votos nacionalistas apenas migrando entre si.

Claro que, roçando a maioria absoluta, a CiU poderá governar sem alianças, um governo de minoria, mas que faria acordos pontuais, evitando assim se comprometer com propostas que possam divergir com suas diretrizes.
Uma coalizão CiU-PP seria extremamente maléfica para a Catalunya, pois não só impediria o avanço do ideal de independência, mas também fortaleceria o PP, dando ao partido uma força que ele não tem no país, como no País Basco, onde a aliança entre PSE e PP está levando o país a uma onda de perseguições sem precedente e um significativo retrocesso político e social.

Os resultados deixam clara a vontade dos catalães de lutar por sua independência, resta saber se os partidos irão respeitar esta vontade. Está claro que os votos da ERC migraram diretamente para SI e CiU, logo, restou a estes a responsabilidade de fazer jus à vontade do povo, que quer a independência e deixou muito clara a intenção depois da massiva manifestação às vésperas da final da Copa do Mundo.

A CiU é uma icógnita quando se trata da independência. Assim como o PNV, oscila entre um unionismo com regalias e a independência se, porém, posição fechada.

Logo de início, se a SI apresentar a declaração de independência, iremos saber o que os próximos anos aguardam. Os resultados foram ruins para a esquerda, mas excelentes para os nacionalistas como um todo, é questão de saber se a CiU saberá aproveitar.


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sábado, 11 de setembro de 2010

Os outros 11 de setembro - 1714 e 1973 - Diada Nacional de Catalunya e Salvador Allende! #11desetembro

Dia 11 de Setembro de 1714 - Barcelona caiu frente às tropas do Duque de Berwick, durante a Guerra de Sucessão Espanhola.
Catalunya triomfant, tornarà a ser rica i plena. Endarrera aquesta gent tan ufana i tan superba. Bon cop de falç, Bon cop de falç, Defensors de la terra! Bon cop de falç! Ara és hora, segadors. Ara és hora d'estar alerta. Per quan vingui un altre juny esmolem ben bé les eines. Bon cop de falç, Bon cop de falç, Defensors de la terra! Bon cop de falç! Que tremoli l'enemic en veient la nostra ensenya. Com fem caure espigues d'or, quan convé seguem cadenes. Bon cop de falç, Bon cop de falç, Defensors de la terra! Bon cop de falç!

Visca Catalunya Lliure!

Dia 11 de Setembro de 1973 - Assassinato do Presidente do Chile, Salvador Allende, em pleno Palácio de La Moneda por forças a mando de Pinochet

Mais que recomendada a leitura deste post, do Idelber Avelar - 11 de setembro, 37 anos: Allende vive



 
"Seguramente, esta será a última oportunidade em que poderei dirigir-me a vocês. A Força Aérea bombardeou as antenas da Rádio Magallanes. Minhas palavras não têm amargura, mas decepção. Que sejam elas um castigo moral para quem traiu seu juramento: soldados do Chile, comandantes-em-chefe titulares, o almirante Merino, que se autodesignou comandante da Armada, e o senhor Mendoza, general rastejante que ainda ontem manifestara sua fidelidade e lealdade ao Governo, e que também se autodenominou diretor geral dos carabineros.

Diante destes fatos só me cabe dizer aos trabalhadores: Não vou renunciar! Colocado numa encruzilhada histórica, pagarei com minha vida a lealdade ao povo. E lhes digo que tenho a certeza de que a semente que entregamos à consciência digna de milhares e milhares de chilenos, não poderá ser ceifada definitivamente. [Eles] têm a força, poderão nos avassalar, mas não se detém os processos sociais nem com o crime nem com a força. A história é nossa e a fazem os povos.

Trabalhadores de minha Pátria: quero agradecer-lhes a lealdade que sempre tiveram, a confiança que depositaram em um homem que foi apenas intérprete de grandes anseios de justiça, que empenhou sua palavra em que respeitaria a Constituição e a lei, e assim o fez.

Neste momento definitivo, o último em que eu poderei dirigir-me a vocês, quero que aproveitem a lição: o capital estrangeiro, o imperialismo, unidos à reação criaram o clima para que as Forças Armadas rompessem sua tradição, que lhes ensinara o general Schneider e reafirmara o comandante Araya, vítimas do mesmo setor social que hoje estará esperando com as mãos livres, reconquistar o poder para seguir defendendo seus lucros e seus privilégios.

Dirijo-me a vocês, sobretudo à mulher simples de nossa terra, à camponesa que nos acreditou, à mãe que soube de nossa preocupação com as crianças. Dirijo-me aos profissionais da Pátria, aos profissionais patriotas que continuaram trabalhando contra a sedição auspiciada pelas associações profissionais, associações classistas que também defenderam os lucros de uma sociedade capitalista. Dirijo-me à juventude, àqueles que cantaram e deram sua alegria e seu espírito de luta.

Dirijo-me ao homem do Chile, ao operário, ao camponês, ao intelectual, àqueles que serão perseguidos, porque em nosso país o fascismo está há tempos presente; nos atentados terroristas, explodindo as pontes, cortando as vias férreas, destruindo os oleodutos e os gasodutos, frente ao silêncio daqueles que tinham a obrigação de agir. Estavam comprometidos. A historia os julgará.

Seguramente a Rádio Magallanes será calada e o metal tranqüilo de minha voz não chegará mais a vocês. Não importa. Vocês continuarão a ouvi-la. Sempre estarei junto a vocês. Pelo menos minha lembrança será a de um homem digno que foi leal à Pátria. O povo deve defender-se, mas não se sacrificar. O povo não deve se deixar arrasar nem tranqüilizar, mas tampouco pode humilhar-se.

Trabalhadores de minha Pátria, tenho fé no Chile e seu destino. Superarão outros homens este momento cinzento e amargo em que a traição pretende impor-se. Saibam que, antes do que se pensa, de novo se abrirão as grandes alamedas por onde passará o homem livre, para construir uma sociedade melhor.

Viva o Chile! Viva o povo! Viva os trabalhadores! Estas são minhas últimas palavras e tenho a certeza de que meu sacrifício não será em vão. Tenho a certeza de que, pelo menos, será uma lição moral que castigará a perfídia, a covardia e a traição."
Allende Presente!

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sábado, 4 de setembro de 2010

Artigo na Fórum: Nós decidimos, somos uma nação

Abaixo reproduzo o artigo "Nós decidimos, somos uma nação", publicado na Revista Fórum de Agosto, ainda nas bancas (número 89). O artigo trata do nacionalismo catalão à luz das recentes manifestações pela independência em Barcelona (às vésperas da final da Copa do Mundo) que reuniram perto de 1.5 milhão de pessoas (a população de Barcelona mal ultrapassa os 1.6 milhão).

O artigo ainda analisa o efeito que teve, sobre o nacionalismo catalão, a vitória da seleção espanhola na Copa do Mundo, que contava com uma forte presença de jogadores de nacionalidade catalã e também do Barcelona.


Esta é a segunda vez que utilizo o espaço aberto pela Revista Fórum para que blogueiros possam publicar na revista. Se você tme um bom texto, envie para eles. redacao@revistaforum.com.br.

O meu artigo publicado na edição de junho da Fórum pode ser encontrado aqui: Um olhar sobre o conflito basco.

Nós decidimos, somos uma nação

Nem mesmo o título mundial conquistado pela Espanha sufocou o desejo de independência da Catalunha

Por Raphael Tsavkko Garcia
[25 de agosto de 2010 - 20h10]
Sob o lema de "Nosaltres Decidim, Som Una Nació" (Nós decidimos, somos uma nação), 1,5 milhão de pessoas se reuniram em um sábado, dia 10 de julho, no centro de Barcelona, um dia antes de a Espanha jogar e vencer a final da Copa do Mundo. Em uma cidade de pouco mais de 1,6 milhão de habitantes, o tamanho da marcha dava o recado. O objetivo era deixar clara a aspiração à independência da Catalunha, que hoje permanece como uma simples região do país.

Milhares de senyeras (bandeira bicolor catalã) e de mãos de cartolina com as inscrições “Adèu Espanya” e “Jo no acato” deram o tom da marcha encabeçada por uma senyera de 250 metros quadrados. No total, mais de 1400 organizações, entre partidos, sindicatos, associações culturais e coletivas convocaram e participaram da manifestação que foi a maior já realizada em toda a história catalã. Ausentes, apenas o PP e partidos "españolistas" minoritários sem participação no Parlamento local.

A razão para tal protesto – que levou outras 40 mil pessoas à San Sebastian-Donostia, no País Basco, em solidariedade e sob o lema “Nazio Gara, Autodeterminazioa” – foi a mutilação do Estatut, a Constituição da Catalunha, feita pelo Tribunal Constitucional espanhol. Em jogo, a preferência pelo catalão como idioma oficial de ensino e o reconhecimento da nação catalã frente à espanhola, dentre outras questões como as fiscais e relacionadas aos impostos, aeroportos e imigração.

O caminho da independência e a dependência espanhola

A Catalunha possui uma longa e antiga história de luta por reconhecimento e independência, perdida em 11 de setembro de 1714 com a absorção do Reino de Aragão pelo Reino de Castela. Para completar este quadro, sua população foi fortemente reprimida por Francisco Franco (1939-1975) enquanto tentava manter vivas suas tradições, cultura e língua sob um regime brutal que buscava de todas as formas neutralizá-los.

Foi através da luta eminentemente política – entre 1979 e 1995 o pequeno grupo Terra Lliure (TLL, Terra Livre) adotou as táticas da ETA, sem obter, porém, grande efeito ou aceitação popular – que os mais diversos partidos e organizações, sob forte pressão da população, chegaram até a gigantesca manifestação do dia 10 de julho.

O catalão é a língua falada pela quase totalidade da população, mesmo pelos imigrantes, e a mídia local o utiliza extensivamente – em alguns casos exclusivamente – como língua veicular. O governo e o parlamento utilizam quase que só o catalão para seus trabalhos, as festas populares são sempre acompanhadas por multidões entusiasmadas e, não menos importante, o FC Barcelona figura como símbolo máximo da “catalanidade” e divulga estes ideais pelo mundo.

Com apenas 7 milhões de habitantes em uma Espanha de 47 milhões, a Catalunha representa 25% do PIB, sendo, junto com o País Basco, a região mais rica e próspera do país; logo, uma região que a Espanha não gostaria de ver perdida. A iniciativa de propor um novo Estatut partiu do próprio PSOE, que buscava acalmar os ânimos mais exaltados, insatisfeitos com a falta de autonomia local frente ao governo espanhol. Uma tentativa final para manter “segura” a rica e importante região.

O Estatut e o Tribunal Constitucional

O Estatut foi aprovado pelo parlamento local em 2006 e então ratificado por referendo pela população local e mesmo pelo parlamento espanhol, garantindo à Catalunha uma maior autonomia em relação à Espanha. Para alguns, autonomia demais.

Reza o estatuto aprovado que a Catalunha é nação, enquanto a Espanha e seu tribunal apenas reconhecem que esta é uma “espécie do gênero cidadania espanhola”; sendo que “o povo espanhol é o único titular da soberania nacional” cuja Constituição “não reconhece outra, senão a nação espanhola” e insiste na “indissolubilidade da nação espanhola”.

Oriol Junqueras, eurodeputado pela Esquerra Republicana de Catalunya (ERC), desabafou em um artigo publicado em seu blog, afirmando que o Estatut – e a marcha – são o resultado de anos de trabalho incansável do independentismo catalão, da militância dos mais diversos tipos de pessoas, do esforço de se melhorar a sociedade, de se consumir produtos locais, de se criar empresas grandes ou pequenas nos momentos mais difíceis, de saber esperar apesar de querer logo alcançar seu objetivo, como expresso na famosa música Somniem (“Sonhar”), de Lluis Llach.

O diário nacionalista basco Gara (“Nós”), em editorial, alertava para a manobra conservadora do Estado para esvaziar de conteúdo o texto do Estatut, discutido e votado pela população. Em 28 de junho deste ano o Tribunal Constitucional revogou diversos pontos do Estatut, em um documento de mais de 800 páginas que, dentre outros, “rebaixava” a identidade deste povo extremamente orgulhoso de sua herança cultural.

O processo para a revisão do Estatut foi proposto pelo Partido Popular, único dos partidos com representação no Parlament a discordar de seus termos e propor a revisão de 113 de seus 221 artigos e que, no fim, acabou por ver sua vontade atendida. Como nos tempos de Franco, os “populares” sentem-se como se dessem todas as cartas e o Judiciário não discorda. Segundo o PP, a autonomia catalã põe em perigo a unidade espanhola.
A sentença confirma que a Espanha continuará a negar a condição de “nação” do povo catalão e não reconhecerá os direitos históricos do povo e tampouco modificará a atual situação de inferioridade formal do catalão frente ao espanhol.

 “La Roja”

Em meio à febre da Copa, a manifestação, em que pese seu tamanho, foi praticamente ignorada pelos veículos de comunicação no Brasil. Apenas algumas notas esparsas em jornais online davam uma pequena amostra do que acontecia por lá. Por se dar na véspera da grande final – ironia do destino, com a participação da própria Espanha – a Catalunha foi deixada de lado.

Porém, a escolha do dia não poderia ser mais simbólica. A seleção espanhola que entraria em campo no dia seguinte para se tornar campeã era um belo exemplo da diversidade de povos e nações que formam o Estado Espanhol: nada menos que sete jogadores da seleção, praticamente a base titular, eram catalães (sem contar os oito jogadores do Barcelona, dos quais apenas dois não eram da região). Outros três jogadores eram bascos, um – e artilheiro do time, Villa – era asturiano. Ainda havia canários e valencianos. Dentre os 23 jogadores convocados, apenas nove eram, efetivamente, espanhóis.

O zagueiro Gerard Piqué, constantemente mostrado pelas redes de TV como um incansável herói que sangrou – literalmente – pela Espanha é, na verdade, catalão e jogador do Barcelona. Um dos heróis da classificação da Espanha para a final, Carles Puyol, empunhou orgulhosamente, junto com Xavi, a senyera assim que foi dado o apito final da última partida. Até o fim, orgulhosos catalães que, por contingências da vida, jogavam pela Espanha.

Os jornais espanhóis tentavam, em vão, mostrar a comemoração em Barcelona, em Bilbao, em Donostia... Mas tudo o que encontravam eram pequenos grupos esparsos se comparados com a multidão reunida em Madri. No geral, tanto a mídia nacionalista quanto a maior parte da população se mostravam alheias ou, em muitos casos, torcendo contra “La Roja”. Casos de violência contra quem usava uma camisa da Espanha não foram raros nas regiões separatistas.

Na Catalunha os sentimentos eram ainda mais confusos: Muitos torciam pelos catalães da seleção, mas dificilmente nutriam qualquer simpatia pela seleção em si. Comemoravam-se os gols dos catalães, as exibições dos “barcelonistas”, mas não os resultados da Espanha. Já no País Basco, uma pesquisa do jornal Deia (“Chamada”) apurou que 70% da população torceria contra a Espanha. É um valioso indicador do ânimo das populações com forte sentimento separatista.

Como me contou uma amiga basca, esta Copa serviu não para criar temores aos nacionalistas – como tentaram fazer crer alguns jornais espanhóis –, mas apenas para tirar do armário alguns españolistas que se mantinham escondidos. Agora tudo está às claras, a Catalunha disse o que quer e a Espanha, passada a comemoração, terá de acordar para a dura realidade de uma economia em frangalhos e de uma nação demonstrando com força todo o seu descontentamento e buscando deixar seu passado de dominação para trás.

A tentativa midiática de forjar uma identidade espanhola baseada numa seleção de futebol, como se vê, falhou de forma retumbante.
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quinta-feira, 29 de julho de 2010

Catalunya, Touradas e a Independência

A grande vitória da Catalunya e dos catalães em proibir as touradas não está em proibir esta barbaridade, mas em mostrar à Espanha sua autonomia e que os catalães cansaram de se subordinar às decisões espanholas acima das suas próprias.

Que falamos de uma vitória dos defensores dos animais é óbvio, mas olhando mais atentamente veremos que todo o processo de deu a partir de uma iniciativa popular que foi então votada pelo Parlament e aprovada. Tudo isto à revelia da Espanha, que não legislou ainda sobre a questão e, ao menos para os catalães, pouco importa se o farão.


A decisão vem logo depois da marcha com mais de um milhão e meio de catalães em Barcelona (cuja população perfaz 1.6 milhão) para exigir respeito ao seu Estatut, sua constituição regional.

Nacionalistas, regionalistas e insatisfeitos em geral se juntaram à marcha convocada por mais de 1400 organizações catalãs e que contou com o apoio de todos os grandes partidos, à exceção dos franquistas "Populares".

O Estatut havia sido aprovado pela população, pelo Parlament e pelo parlamento espanhol, mas o PP recorreu da decisão soberana do povo ao Tribunal constitucional espanhol - famoso por ilegalizar partidos bascos e referendar a tortura contra o povo - que revogou diversos pontos "polêmicos", como a idéia de que a Catalunya é nação, sobre o uso do catalão de forma preferencial no ensino e na administração regional e outras questões relacionadas à impostos, aeroportos e fronteiras.

A insatisfação catalã com sua união à Espanha é patente. Sequer a vitória da seleção Espanhola foi suficiente para acalmar os ânimos, pelo contrário, a população catalã se dividiu entre os que não deram a mínima e entre os que torciam fervorosamente contra, com raros "espanholistas" apoiando a seleção que, de Espanhola, não tinha nada.

Eram 7 catalães, 3 bascos, um asturiano.... Um total de 14 jogadores não-espanhóis dos 23 convocados. A seleção "espanhola" não passa de um mito.

De qualquer forma, é sempre bom lembrar que esta multidão se reuniu em Barcelona no dia anterior à final, para protestar contra sua situação frente à Espanha que fica com boa parte dos impostos pagos pelo povo e apenas devolve crise, dívidas e prejuízos.
Voltando ao caso das touradas, a Catalunya não só demonstrou sua força e autonomia, como ainda bateu de frente com os brios nacionalistas espanhóis. A direita faxista, representada pelo PP e pelo pequeno partido de extrema-direita no Parlament, o Ciudadanos/Ciutadans, reclamou da decisão e ameaça correr chorando para a justiça (sic) espanhola. Para estes faxistas, as touradas são um evento cultural espanhol, símbolo da cultura e da identidade espanhola. Talvez até seja, mas é apenas uma razão além para que a Catalunya a proíba.

La extrema derecha y el ultraderechista PP quieren que las corridas de toros sean consideras "fiesta de interés cultural general", de forma que los pueblos del estado español, no tengan capacidad para abolir este tipo de festejos.
El ultraderechista PP ha avanzado que pedirá en el Congreso posfranquista y en el Senado "que se regule por ley" que las corridas de toros sean "fiesta de interés cultural general", de forma que los pueblos del estado español "no tengan capacidad para prohibir" este tipo de festejos taurinos.
Se não vencem na democracia, tentam vencer no tapetão. É a saudade dos tempos de Franco em que simplesmente fuzilavam os discordantes.

Os votos favoráveis ao fim das touradas refletiram bem a divisão entre nacionalistas e espanholistas. Foram 68 votos a favor e 55 contrários.

Os Nacionalistas votaram em peso pela proibição, notadamente a ERC e a ICV, onde TODOS os parlamentares votaram da mesma forma. CiU votou majoritariamente pela proibição e o eterno indeciso e vacilante PSE acabou não apoiando com força a iniciativa.

Enfim, uma vitória para os animais e uma grande vitória para a Catalunya!
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segunda-feira, 26 de julho de 2010

Seria Cervantes um Catalão?

Seria Cervantes Catalão e Don Quixote escrito inicialmente em catalão e apenas traduzido para o Espanhol?

A hipótese existe.
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sexta-feira, 16 de julho de 2010

Nós Decidimos!


Sob o lema de "Nosaltres Decidim, Som Una Nació" (Nós decidimos, somos uma nação), um milhão e meio de pessoas se reuniam no Sábado, dia 10 de julho, no centro de Barcelona, para deixar claro à Espanha que querem a independência da Catalunha que, hoje, permanece como uma simples região.

Presentes na marcha originalmente organizada pelo órgão de promoção da língua catalã Omnium Cultural, grupos dos mais diversos, que vão desde os que exigem maior autonomia (como por exemplo os Socialistas do PSC, braço regional do PSOE do Premier espanhol) até a independência completa da região (desde os conservadores da CiU, passando pelos Social-Democratas do ERC de esquerda até os radicais das mais diversas formações como Endavant, CUP e ICV-Verdes).

No total, mais de 1400 organizações, entre partidos, sindicatos, associações culturais e coletivos participaram e convocaram a manifestação que foi a maior já realizada em toda a história catalã. Ausentes apenas o PP e partidos "españolistas" minoritários sem participação no Parlamento local.


Em meio à febre da copa, a manifestação, pese seu tamanho, foi praticamente ignorada pelos veículos de comunicação no Brasil. Apenas algumas notas esparsas em jornais online davam uma pequena mostra do que acontecia por lá.

Por se dar na véspera da grande final – ironia do destino, com a participação da própria Espanha – a Catalunha foi deixada de lado. Porém, a escolha do dia não poderia ser mais simbólica.

A seleção espanhola que entraria em campo no dia seguinte para se tornar campeã era um belo exemplo da diversidade de povos e nações que formam o Estado: Nada menos que 7 jogadores da seleção, praticamente a base titular, eram catalães (sem contar os 8 jogadores do Barcelona onde Iniesta e Villa eram os únicos não-catalães); Outros três jogadores eram bascos, um – e artilheiro do time, Villa – era Asturiano; Outros eram, canários, valencianos e, dentre os 23 jogadores convocados, apenas 9 eram efetivamente espanhóis.

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Sobre esta interessante característica da seleção "Espanhola" - a de não existir -, vale a leitura deste post.

Resumo: Dos 23 jogadores, 14 são de nacionalidades diferentes da espanhola, são minorias oprimidas, proibidas de defender suas próprias cores. Muitos destes jogadores, como Fábregas ou Llorente já jogaram pela Catalunya e pelo País Basco em amistosos não reconhecidos pela Fifa.
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Enfim, todo um circo midiático foi montado para esconder a insatisfação de Bascos e Catalães e para exacerbar o sentimento "espanhol". Notem como na TV apenas Madrid era mostrada. A seleção desfilou por Madrid, fez festa em Madrid... Se fossem para Bilbao, para Donostia - onde uma manifestação imensa sob o lema "Nazio Gara, Autodeterminazioa", fez coro à da catalunha , ou mesmo para Barcelona, os jogadores da "Roja" seriam ou ignorados ou, mais provavelmente, seriam recebidos à pedrada.

Claro, um pequeno grupo provavelmente os recepcionaria, mas duvido que este fato confortasse alguém. Um exemplo?

O excelente blog "Las Malas Lenguas" fez um post que merece ser lido, sobre o papelão que vários cargos eleitos do PP - que até hoje se nega a condenar o Franquismo, seu berço ideológico - fizeram ao posar com a bandeira espanhola em frente à estátua de Aguirre, o primeiro Lehendakari (Premier) do País Basco que morreu no exílio durante o regime de Franco e que lutou por um País Basco independente.
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Em português, outra boa fonte sobre o caso.
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Para compreender o quão importante é Aguirre, tentem pensar no que foi Churchill, de Gaulle ou FDR para seus países. É por aí. E, como um nacionalista, nad amais humilhante do que ter à sua volta fascistas com bandeiras do conquistador que até hoje tortura e mata o povo que ele amava.

O fato foi igualmente ignorado por boa parte da mídia - nem esperava que citassem nada no Brasil.
É a demonstração do caráter dos "españolistas". Em geral, a população Basca e Catalã ignorou a copa, ignorou a vitória da "seleção espanhola". Na Catalunha ao menos havia algum interesse nos jogadores locais ou do Barcelona, maioria do time titular, mas nenhum pela seleção em si, pelo que esta representava.

Coube aos fascistas em geral a comemoração absurda, o momento vergonha-alheia da copa, a tentativa torpe de aparecer na mídia comemorando como se fossem minimamente relevantes.

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terça-feira, 22 de junho de 2010

A Espanha não existe!

Analisando a seleção "espanhola" de futebol presente na copa, noite que ela só pode ser assim chamada com muita boa vontade. Melhor seria chamar de Seleção da Catalunya, com a adição de alguns outros elementos Bascos ou efetivamente espanhóis. Não à toa a federação catalã de futebol - que a FIFA e a UEFA se recusam a reconhecer - afirma ter uma seleção competitiva e que brigaria para entrar numa copa do mundo se pudesse.

Vejamos a lista, presente na wikipedia, dos jogadores da "Espanha" presentes na Copa:


No. Pos. Player DoB (Age) Caps Goals Club
1 GK Iker Casillas (captain) 20 May 1981 (1981-05-20) (age 29) 105 0 Spain Real Madrid
12 GK Víctor Valdés 14 January 1982 (1982-01-14) (age 28) 1 0 Spain Barcelona
23 GK Pepe Reina 31 August 1982 (1982-08-31) (age 27) 20 0 England Liverpool

2 DF Raúl Albiol 4 September 1985 (1985-09-04) (age 24) 23 0 Spain Real Madrid
3 DF Gerard Piqué 2 February 1987 (1987-02-02) (age 23) 17 4 Spain Barcelona
4 DF Carlos Marchena 31 July 1979 (1979-07-31) (age 30) 59 2 Spain Valencia
5 DF Carles Puyol 13 April 1978 (1978-04-13) (age 32) 84 2 Spain Barcelona
11 DF Joan Capdevila 3 February 1978 (1978-02-03) (age 32) 46 4 Spain Villarreal
15 DF Sergio Ramos 30 March 1986 (1986-03-30) (age 24) 61 5 Spain Real Madrid
17 DF Álvaro Arbeloa 17 January 1983 (1983-01-17) (age 27) 15 0 Spain Real Madrid

6 MF Andrés Iniesta 11 May 1984 (1984-05-11) (age 26) 44 6 Spain Barcelona
8 MF Xavi Hernández 25 January 1980 (1980-01-25) (age 30) 88 8 Spain Barcelona
10 MF Cesc Fàbregas 10 May 1987 (1987-05-10) (age 23) 50 6 England Arsenal
13 MF Juan Manuel Mata 28 April 1988 (1988-04-28) (age 22) 8 3 Spain Valencia
14 MF Xabi Alonso 25 November 1981 (1981-11-25) (age 28) 70 9 Spain Real Madrid
16 MF Sergio Busquets 16 July 1988 (1988-07-16) (age 21) 14 0 Spain Barcelona
20 MF Javi Martínez 2 September 1988 (1988-09-02) (age 21) 2 0 Spain Athletic Bilbao
21 MF David Silva 8 January 1986 (1986-01-08) (age 24) 37 7 Spain Valencia
22 MF Jesús Navas November 21, 1985 (1985-11-21) (age 24) 7 1 Spain Sevilla

7 FW David Villa 3 December 1981 (1981-12-03) (age 28) 59 38 Spain Barcelona
9 FW Fernando Torres 20 March 1984 (1984-03-20) (age 26) 74 24 England Liverpool
18 FW Pedro Rodríguez 28 July 1987 (1987-07-28) (age 22) 4 1 Spain Barcelona
19 FW Fernando Llorente 26 February 1985 (1985-02-26) (age 25) 7 3 Spain Athletic Bilbao

Agora, analisando um por um:

Jogadores Catalães:
Piqué, Puyol, Capdevila, Xavi, Fábregas, Busquets, Valdés.

Jogadores Bascos:
Xabi Alonso, Llorente e Javi Martínez

Jogadores Canários:
David Silva e Pedro Rodriguez

Jogadores Valencianos (Catalães):
Albiol

Jogadores Asturianos:
David Villa


Total: 14 jogadores não espanhóis, pertencentes à minorias oprimidas pela Espanha.

Vale notar que, entre os Catalães, a maioria é titular.

Agora vamos aos espanhóis:
Casillas, Fernando Torres e Reina são da região de Madrid,  Arbeloa é de salamanca, Iniesta é de Albacete, Mata é de Burgos.

Marchena, Navas e Sergio Ramosa são Andaluzes e a situação é discutível. Vale lembrar que há movimento nacionalista regional, ainda que pequeno. Por hora os coloquemos como espanhóis.

Total: 9 jogadores espanhóis.

Resumo: Dos 23 jogadores, 14 são de nacionalidades diferentes da espanhola, são minorias oprimidas, proibidas de defender suas próprias cores. Muitos destes jogadores, como Fábregas ou Llorente já jogaram pela Catalunya e pelo País Basco em amistosos não reconhecidos pela Fifa.

Enfim, a "Espanha" não existe. A seleção espanhola nada mais é que uma farsa baseada na punição coletiva de povos minoritários sobmetidos a um governo fascista e centralizador.

como diria o Padre Quevedo: Isto [a Espanha] non ecziste!

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