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domingo, 26 de junho de 2016

Ciudadanos-Ciutadans: A "nova" direita espanhola



Fundado em 2006 na Catalunha sob o nome de "Ciutadans de Catalunya", uma plataforma cívica que logo deu origem ao partido "Ciudadanos, partido de la ciudadania" presidido por Albert Rivera, antigo membro das juventudes do PP, partido de (extrema) direita ainda no poder na Espanha (o PP ainda governa de forma transitória até que um novo governo seja formado após as eleições de hoje, 26 de junho).

Em pouco menos de 10 anos de atividade o partido de minoritário em sua região original passou a disputar as primeiras posições em diversas pesquisas eleitorais no âmbito espanhol, pese sua popularidade não ter, até então, se convertido em votações suficientes para alcançar o primeiro lugar e, nas últimas eleições regionais (2015), ter conseguido uma votação inferior à necessária para influenciar significativamente a formação dos governos regionais e das principais capitais espanholas - mas com musculatura suficiente para se aventurar no processo de eleição do presidente do governo espanhol.

Nem de direita, nem de esquerda... E sem dúvida nem de centro

O Ciudadanos se coloca como partido de centro, mesmo de centro-esquerda, pese na prática o quadro ser significativamente (ou mesmo radicalmente) diferente. Diversas lideranças do partido possuem passagens pelo PP ou mesmo por partidos ainda mais direitistas ou mesmo falangistas (ideologia professada por Francisco Franco). Por vezes se declaram liberais e efetivamente muitos de seus quadros - como muitos do PSOE - acabam por defender, ainda que timidamente e muitas vezes de forma ambígua, agendas progressistas, como a laicidade do Estado ou o direito ao aborto, porém se colocam à direita em questões econômicas, tendo mais afinidades com o PP que com o PSOE - pese se oferecerem para formar alianças com ambos, visando chegar ao poder de qualquer forma e denunciando sua falta de base ideológica.

Rivera e outras lideranças partidárias modulam seus discursos sociais para cada audiência, seja na questão do aborto, na questão da imigração ou mesmo em relação às touradas. Em abril de 2014, por exemplo, o Ciudadanos foi o único partido a, junto com o PP, defender a limitação ao acesso à saúde a imigrantes ilegais no parlamento da Catalunha, assim como propôs a proibição do uso de burka.

A única base, porém, sólida do grupo é a da defesa da unidade da Espanha e a negação do direito de autodeterminação de catalães, bascos, galegos e outros povos presos na colcha de retalhos étnica que é o Estado espanhol. Pese sua origem catalã, chegam a se unir em manifestações com partidos da mais radical extrema-direita em manifestações contra a independência desta região (ou nação) da Espanha. Uma das mais significativas críticas feitas pela esquerda à formação é exatamente a facilidade com que se juntam ou mesmo aliam com forças de direita e extrema-direita a fim de conseguir seus objetivos e para promover sua propaganda. O partido professa ainda abertamente ideais individualistas, de "cultura do esforço" e um Estado mínimo, uma receita que apenas aumentaria a desigualdade em um país já assolado por crises sociais e políticas.

Mas existem outras críticas.

O partido se orgulha de declarar-se "nem de esquerda e nem de direita", mas diferentemente do Podemos e de seu líder Pablo Iglesias (que chegou a dar declarações semelhantes), suas posições são nitidamente de direita e neoliberais. O partido não questiona o sistema, mas o sustenta, e nisto se diferencia enormemente das bases fundamentais do Podemos, partido constantemente comparado com o Ciudadanos, pese as poucas semelhanças.

O partido se diferencia do PP apenas de forma cosmética. Algumas poucas questões voltadas à liberdades individuais, visto que o PP é um partido de caráter mais conservador. Poderíamos dizer que ao invés de um terno italiano feito por um alfaiate usado por um membro do PP, o membro do Ciudadanos usaria um blazer, camisa polo e sapato da Osklen. No fim a mesma elite, a mesma "casta", porém com uma cara mais moderna e palatável às novas audiências. O Ciudadanos agrega elementos liberais ao caldo conservador do PP. De certa forma se complementam. 

Este liberalismo acaba também por aproximar o partido do PSOE, que a cada dia migra mais para o centro e menos se diferencia de muitas das políticas pró-mercado do PP. 

Em linhas gerais o Ciudadanos se apresenta apenas como uma versão mais nova do PP, com uma cara mais light e com uma história menos ligada à ditadura, com uma militância mais nova que em muitos casos lembra os grupelhos pseudo-liberais brasileiros sempre prontos a apoiar as políticas mais reacionárias possíveis. O Ciudadanos seria o sonho de consumo da "nova" direita ligada à "escola austríaca", uma direita em muitos aspectos mais perigosa que a atualmente no poder.

O Ciudadanos vem ocupar o lugar do UPyD (União, Povo e Democracia), um partido muito semelhante, porém com menos apelo popular que o primeiro e que vem minguando exatamente pela ascensão do partido de Rivera. Muitos de seus quadros, como era de se esperar, migraram para o Ciudadanos. Em muitos casos, os quadros mais radicais.

Não apenas o seu presidente, Albert Rivera, fez parte do PP (pese por muito tempo ele ter negado seu passado), mas a coordenadora do partido em Extremadura, Victória Domínguez, fez parte do PP e do regionalista de direita UPEX. Em Viladecans, na comarca de Baix Llobregat, o militante e candidato do partido Manuel García Florido saiu do partido e migrou para o xenófobo Plataforma Per Catalunya (PxC), do falangista Josep Anglada que, ainda, declarou que todos os militantes do Ciudadanos na cidade haviam migrado para seu partido. O coordenador de suas juventudes em Madri, Carlos López Martín - posteriormente expulso - ficou conhecido por uma série de tuítes preconceituosos e por sua proximidade com movimentos falangistas, assim como eram falangistas três dos cinco dirigentes do partido em Getafe. Francisco Gambarte, ex-candidato à presidência da região de Astúrias foi outro que, no twitter, declarou que "limparia a bunda" com a bandeira catalã. 

Diversos outros membros do partido estão sendo investigados (ou foram condenados) por envolvimento em casos de corrupção, o que para uma formação que sequer chegou aos 10 anos de idade demonstra uma vontade tremenda de se apropriar dos cofres públicos.

Resultados conflitantes

O Ciudadanos, enfim, se mostra um partido de direita infiltrado por falangistas e ex-membros do PP que mantém uma posição ambígua ou mesmo claudicante em relação a temas sociais ao passo que defendem políticas neoliberais no campo econômico. Porém, o hype em torno do partido se mantém, inclusive com cidadãos de esquerda apostando pelo partido como uma alternativa ao bipartidarismo PP/PSOE e mesmo frente ao Podemos que, para muitos, seria muito radical.

Os resultados das últimas eleições, porém, demonstram que muito do apoio ao partido acaba por se diluir na hora da votação. Pese terem chegado em quarto lugar nas últimas eleições espanholas, ajudando a criar um cenário de quase impossibilidade de se formar um governo estável (com PP vencendo por pequena margem, PSOE em segundo e o Podemos pouco atrás), a votação do partido foi muito aquém do esperado - e do investimento feito por parte considerável da mídia e do "mercado". Nas eleições de 26 de junho de 2016 o resultado do partido provavelmente será inferior à das eleições gerais ainteriores.

O apoio ao Ciudadanos tem diminuído passado o hype inicial e também, pode-se pensar, devido ao crescimento de forças locais, municipais e regionais que pese terem concorrido em conjunto com o Podemos, não fazem parte do partido e mesmo nutrem críticas em relação à sua forma de se organizar. Não é possível, no entanto, chegar a um veredito único.

Porém, uma certeza que fica é a de que tanto os dois partidos tradicionalmente majoritários, PP e PSOE, começam a perder força ao passo que Podemos e Ciudadanos tem participado de uma luta própria. Até o momento com o Podemos saindo-se melhor (numericamente).

A "direita chic" encarnada pelo Ciudadanos ainda não foi capaz de transformar sua boa presença nas pesquisas efetivamente em votos e tampouco pôde oferecer seu apoio a qualquer partido que possa lhes garantir algum poder como sócio, ao menos não de forma consistente - mas foram bem sucedidos em encantar o PSOE, que nunca teve problemas em mostrar o quão pouco comprometidos estão com suas bases, sua história e com a esquerda em geral, e fecharam um acordo para apoiar a posse de Pedro Sánchez para que este possa governar o país.

Pese o acordo entre PSOE e Ciudadanos, o Podemos pode acabar com segunda força e, então, ter a preferência em uma coalizão com o PSOE que excluiria o Ciudadanos.

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segunda-feira, 28 de março de 2016

Democracia? É pela Dilmocracia

Resuminho do que o PT/Governo tem feito pela Dilmocracia enquanto não faltam trouxas, inocentes úteis, cooptados - e mesmo canalhas tentando garantir seus cargos nas ruas - gritando por "democracia" apenas da semana passada pra cá. Repito, da SEMANA PASSADA pra cá. Imagina o que o PT não vai fazer mais pra tentar segurar o impeachment e agradar o máximo que puder a direita? Mas tem gente nas ruas apoiando porque senão ~a direita~ assume!


Governo Dilma congela reforma agrária (Mas o MST tá lá, firme e forte na Dilmocracia)
 

Planalto usa projeto que beneficia igrejas para agradar bancada evangélica (Estado Laico? Nem pensar! Se bem que dilma nunca respeitou o Estado Laico, deu declaração homofóbica, cancelou programas pró-LGBT, se recusa a debater aborto...)

Estamos 'bastante interessados' em manter o PMDB no governo, diz Dilma (com Temer, Cunha, Renan e quem mais vier pro trenzinho da alegria)


Diário Oficial traz mais uma exoneração para acomodar aliado contra impeachment (Trenzinho da alegria também no segundo escalão! É uma verdadeira orgia em que só o povo toma no cu!)

Acho mais fácil a turma que acha que está protestando "pela democracia" parar um pouquinho, pensar, e notar que estão protestando pela DILMOCRACIA. Tudo que a ~direita~ poderia fazer de ruim a Dilma e o PT estão já fazendo.
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terça-feira, 31 de março de 2015

"Direitização": De alarmismos à responsabilidade da esquerda

Paulo Arantes, durante o encontro dos seminários de quarta que acontece na FFLCH-USP ao qual fui convidado na semana passada pra expor imagens e impressões sobre a "nova direita" no Brasil: "Vendo o vídeo do Caio eu me lembrei (eu era militante na época) da marcha da família com deus em 64 que também foram bem numerosas e bem impressionantes. Depois do golpe ainda houve uma outra marcha de confraternização. Então é a primeira vez que eu vejo isso vivo novamente em 50 anos. Portanto eu vi a direita desfilando, mas era uma direita que não tem nada a ver com
essa, eram senhoras de salto alto, padres, advogados, donas de casa bem vestidas, com algumas panelas, terço... Aquilo não metia medo em ninguém, uma semana antes do golpe nós ficamos impressionados com o número de pessoas na rua, que dava de 10 a zero no comício da cut do dia 13... Mas era só, o resto não metia medo. Hoje vendo essas imagens que o Caio escolheu, aqui dá medo e a impressão é que a repetição é
muito mais sinistra do que a farsa. E assusta muito mais porque não existe o outro lado, não tem esquerda e nós estamos sozinhos esperando sermos linchados quando dermos a cara pra bater. Estamos sozinhos e por outro lado tem uma energia social solta aí... Bom, isso é uma tese clássica da esquerda européia dos anos 30, do marxismo europeu a respeito do fascismo que diz que: o fascismo é a expressão de uma derrota da esquerda, quando o fascismo surge nos anos20 na Itália é quando a esquerda já perdeu a energia revolucionária. O fascismo era a pulsão plebéia à todo vapor pra acabar com aquilo. Tinha crise, tinha desemprego, tinha humilhação, tinha classe operária desorganizada, tinha guerra, tinha tudo. A massa fascista era uma massa revoltada e por isso ela foi organizada. Se você tem uma massa revoltada, proletária e que vai te massacrar é porque você perdeu. É isso que vai acontecer conosco agora, não há dúvida... A outra coisa que nos dá medo é o que nós perdemos. Todos os "Renans"que estão aí é o que nós perdemos. A gente precisa saber o que faz isso." via Caio Castor, no FB
O comentário do professor Paulo Arantes descrito pelo Caio Castor é alarmista, mas em geral correto.

A leitura geral me parece correta, de fato é mais preocupante uma marcha de direita hoje do que em 64 onde as coisas eram mais demarcadas (pese não poder dizer apenas que a marcha do dia 15 foi só de direita ou majoritariamente pedia ditadura, tinha muita gente mais perdida que carioca em tiroteio), e sem duvida a direita está onde está por culpa da esquerda, que virou direita. 

É claro que, no entanto, não podemos resumir ou reduzir a marcha do dia 15 à "direita", tampouco a "golpismo", mas é fato que uma ampla maioria se não era de direita, subscrevia crítica ou acriticamente ao pensamento dos grupos que convocaram a marcha. Aí está o nó, a direita está liderando o centro.


Sem dúvida muitos ali são disputáveis, mas quem está fazendo esta disputa?

E não quero me repetir, mas é óbvio, o PT é o grande responsável por essa direitização e também pela situação ter chegado a este ponto, mas não só.

Setores da esquerda "radical" também tem responsabilidade, por um discurso descolado do povo, que não consegue dialogar com divergências, não conseguem dialogar sobre pautas específicas com a maioria da população (oras, não conseguem discutir entre si! É um tal de jogar pedra à mínima discordância...). Mas, enfim, a culpa é nossa enquanto esquerda, seja da que se vendeu, seja da que não consegue dialogar, seja da que se limita a ver o barco passar.


É difícil pensar em um caminho ou caminhos para superar a atual crise, mas sem dúvida este passa pela total e completa superação do PT. Sem remorso, sem olhar pra trás. E, claro, pelo combate franco às forças de direita e fascistas que crescem.

E por "forças de direita e fascistas" não me refiro apenas à grupos pró-Ditadura, que felizmente AINDA são pequenos, mas que devem ser ferozmente combatidos, mas também aos grupos neopentecostais que estão hoje formando exércitos como os Gladiadores do Altar, que saem por aí atacando praticantes de religiões afro e seus centros, perseguindo os discordantes, espalhando medievalismo e ignorância, incutindo ódio religioso e buscando controlar a política brasileira e impor sua visão deturpada de mundo à constituição e à população.

Se estes grupos não forem parados agora, poderemos não ter nova chance no futuro. Se hoje os evangélicos são 20% da população (e os fundamentalistas provavelmente metade disso e obviamente estes são os inimigos) e já praticamente controlam o congresso, imaginem se não forem impedidos de pregar seu ódio.

Mas e o resto da esquerda?

Não faz muito tempo chegou até mim um manifesto em que pese algumas críticas ao PT (e obviamente ao PSDB), não conseguia superar o sentimento enraizado de amor ao PT ou de que se deve algo ao PT, um saudosismo dos tempos de esquerda do partido, uma insistência em não enxergar o óbvio e a realidade e de embarcar no discurso fácil dos fundamentalistas neoPTcostais de que ainda há alguma disputa a ser feita no e pelo partido.

No manifesto, após críticas, o velho morde e assopra. O PT é responsável pela crise da Petrobrás, sem dúvida ~subtraiu~ valores da empresa, MAS (notem o "mas"), o PSDB... Não, meus amigos, não tem "mas". O PSDB se pudesse privatizaria a empresa sem dó e dividiria o lucro com seus amigos (como já o fez em outros caoss), mas o PT vem efetivamente privatizando lentamente a empresa e, no meio tempo, tem se refestelado com ampla corrupção.

Não é uma questão de escolher, é necessário denunciar igualmente AMBOS os partidos e seus respectivos aliados, sem continuar no joguinho de encobrir e escolher o "menos pior". De quebra, o texto ainda busca dar um tom passivo aos atos do PT, como se o partido tivesse sido LENIENTE com os roubos da Petrobrás e não parte ativa, enquanto mandantes, da roubalheira.

A linguagem diz muito. A escolha das palavras é fundamental. Recuar ou buscar de qualquer forma justificar ou acobertar, ou mesmo diminuir, o papel do PT na direitização do país é bater palmas para este processo. Tentar criar alternativas enquanto se passa o pano pro PT equivale a enxugar gelo e até que entendamos isso, é melhor nem insistir, pois todo e qualquer projeto estará fadado ao fracasso.
"(...) Camaradas, reconheçam agora que esse 'mal menor'
Que ano após ano foi usado para afastá-los de qualquer luta
Logo significará ter que aceitar os nazistas.
Mas nas fábricas e nas filas dos desempregados
Vimos a vontade de lutar dos proletários (...)"
Bertolt Brecht, 'Quando o fascismo se tornava cada vez mais forte' In: Poemas 1913-1956, 2000 [1967], p. 95.
Com o perigo de mais uma vez me repetir, fica o apelo: Superem o PT. Parem de justificar, de "entender" os atos do partido. Não fiquem excitados porque no mar de lama surgiu um Janine Ribeiro que, sozinho, irá salvar a pátria. Não, ele não vai.

Não se trata te ~torcer contra~ mas de ser realista. Uma andorinha não faz verão, um Janine Ribeiro não fará a revolução na educação. Se ele conseguir ao menos brecar parte das "reformas" que Dilma vem fazendo ou debatendo até aqui (chegando ao ponto de aventar terceirizar a contratação de professores federais) já será um ganho, mas ainda assim, mais por obra dele que do PT que, sem dúvida, se vendo nas cordas e atacados por todos os lados, da direita à esquerda, resolveu fazer um aceno contando com a boa vontade dos ainda adeptos da tese do mal maior (ou mal menor, para ficarmos com o velho Brecht).

Aceitem de uma vez por todas que não há salvação - a não ser que você acredite na volta de jesus e afins, porque se acredita no PT.... - e vamos construir alternativas antes que seja tarde.
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segunda-feira, 16 de março de 2015

A esquerda perdida e as lições dos protestos do dia 15/Domingo

Sou o primeiro a admitir que errei ao prever protestos pequenos no domingo contra Dilma. Baseado no histórico de setores da direita de não juntarem nem 1% do que previam, acreditei que o poder de mobilização deles seria pequeno uma vez mais. De fato, continuo achando que o poder de mobilização desses grupos é, em si, pequeno, mas o poder da indignação parece ter sido mais que suficiente.

Como já ficou claro por outros textos, não tenho a menor simpatia pelo protesto do domingo - como não tenho pelo dos petistas dia 13 -, mas nem por isso considero nenhum deles menos legítimo.

Dito isto, é preciso analisar friamente a realidade.

O protesto do dia 15

O protesto do dia 15 é difuso. Como Junho, possui uma base ideológica, mas se espalhou para muito além dessa base, agregando dezenas de reivindicações por vezes contraditórias. Golpistas? Muitos. Fascistas? Mais ainda. Nazistas? Também. Mas reduzir manifestações realmente imensas por todo país - ouso dizer que maiores que a mobilização do PT de dois dias antes, mas bem menor que os protestos em Junho - a estes termos não é apenas wishful thinking, é estúpido.

É óbvio que o protesto do dia 15 é conservador, mas podemos dizer que o do dia 13 era progressista? Não. Mas dentro desse conservadorismo há centenas, quiçá milhares de espectros e variantes.

Exigir a saída de Dilma, em si, está longe de ser golpe. Não importa quanto ódio isto carregue ou quanto ódio foi necessário para chegar nesse ponto. Não, não era uma manifestação só da "elite branca", nem só "da direita", este tipo de generalização comumente feita pelo PT é despolitizante, é burra e apenas esconde a superfície de algo muito mais profundo.

Há real insatisfação com o PT, mesmo entre muitos que se beneficiaram de muitos de seus programas.

O petismo morrendo?
 
Porém, após 12 anos o modelo petista acabou esgotado. Oras, mesmo Dilma reconheceu tácita e explicitamente ao anunciar que os meios usados até então para controlar a economia haviam se esgotado e ao alterar significativamente a política econômica, apostando por austeridade e cortes (de gastos, de investimentos, de direitos).
Aulas de inglês, por favor! Mais educação, Dilma!;-)
O petismo - que é incapaz de entender que não é uma religião, pese ter seus religiosos - foi incapaz até hoje de entender que dar o pão num dia não escraviza o indivíduo, não o obriga a, no dia seguinte, sem o pão, a seguir o (a) líder.

Em outras palavras, ser beneficiário dos programas sociais do governo ou mesmo ter, de uma forma ou de outra, se beneficiado do petismo, ascendido socialmente (mesmo que de maneira cosmética, como tem se provado em muitos casos, ou através de pesado endividamento) não significa apoio automático ou eterno. O petismo não consegue lidar com o que considera ingratidão. Se faz de ferido e, como um cão acuado, ataca por instinto.

Uma pessoa comentou comigo no Twitter que era óbvio que o protesto do dia 15 seria maior que do dia 13 porque o primeiro era num domingo, quando as pessoas não trabalham... Oras, então porque a CUT marcou protesto para a sexta e não para o sábado? Era para ter esta desculpa esfarrapada na manga caso não pudesse pagar gente suficiente e alugar ônibus suficiente para levar pessoas para seus protestos?

E, no fim, não percebe que apenas cria uma brecha ainda maior, jogando mais combustível (que está caro, aliás) na fogueira da "venezuelização" do país.


Não, o PT não é o único culpado, pese ser, talvez, o maior. 

Setores da direita souberam aproveitar o sentimento de frustração e fazer a bolha estourar. A questão é que muitos desses movimentos não conquistaram corações e mentes de quem está na rua, mas tão somente conseguiram canalizar a insatisfação com a ajuda da incapacidade do PT de dialogar e reconhecer seus erros.

A superioridade com que petistas tratam qualquer um que discorde, como se fossem apenas uma "massa cheirosa" se aliou à uma recém-(re)descoberta da capacidade da direita de canalizar a despolitização revoltada.
Sim, tem uma suástica à esquerda da faixa maior.
O petismo perdeu o chão

Outro dos artifícios mais comuns do petismo em sua capacidade de enxergar a realidade é a de atacar a mídia. Ela seria golpista. Não posso negar a afirmação, sem dúvida a mídia é parte importante no processo de crise social, tem incitado protestos contra o governo e se mostrado muitas vezes oposição (para ser um importante aliado na hora de justificar cortes e políticas neoliberais ou mesmo repressão), mas a reação petista é apenas a de atacar a mídia com slogans ultrapassados e "tuitadas" enquanto acham a Record comandada pela IURD o máximo da revolução e sem em momento algum questionar o óbvio: QUEM financia a mídia? Oras, em geral o PT através do governo federal.

Ou seja, as "armas" do petismo para a crise são desqualificar a oposição de todas as formas e apontar o dedo para a mídia que eles próprios financiam. Não há como sair da crise assim, pelo contrário.

Comentaram comigo no Twitter que o PT sempre teve "feeling" pra protesto, pra entender as ruas... Sem dúvida, no passado. Hoje não mais. Junho deixou claro que o PT esqueceu o que era militar, esqueceu o que era ir pras ruas com o perigo de apanhar da polícia, oras, o PT ofereceu até Força Nacional para brutalizar as ruas!

Não, o PT perdeu seu feeling, se burocratizou, colocou coleira nos movimentos sociais que aceitaram ser cooptados e passaram a agir sob seu comando, com alguns poucos ensaios de rebeldia, mas em geral agindo sempre como mandava a direção, achatando a base, despolitizando a base. O preço está sendo pago agora e pode ser um preço alto.
Sim, o protesto é difuso.
Prognósticos imediatos: Ódio e revolta

É difícil saber o que sairá dos protestos de domingo. Não apenas as pautas são difusas, como não propõem nada. Em Junho havia um conjunto de pautas objetivas em torno do Passe Livre, do fim da violência contra as ruas, da defesa dos direitos humanos e etc, mas e o Domingo?
Comparem a média de idade das pessoas nos protestos pelo impeachment, nos protestos pró-governo e nos protestos contra a tarifa (que iniciaram as jornadas de junho).
Fica evidente que a juventude, que fez explodir as ruas em junho, não é mais maioria esmagadora nas ruas.
Isso porque os protestos do dia 13 e 15 não são nada mais que uma reação conservadora ao choque que a política institucional sofreu em junho.
Há ódio e revolta contra Dilma (não cabe a mim dizer se correto ou incorreto), há um "fora Dilma" ensaiado, mas o que se propõe? Se a ideia é tumultuar o congresso, criar um fato para dificultar a vida do PT, oras, a realidade é esta, não era preciso nenhum protesto. Se a tese é derrubar a Dilma, bem, convençam o PMDB, depende dele e duvido que na atual situação queiram assumir a bucha.

Enfim, há revolta, há despolitização (mas não reduzamos a isso), há ódio... Mas não há pautas efetivas. Não há a bandeira da reforma política, nem de uma completa reformulação do congresso, sequer há revolta efetiva contra o congresso. O alvo é o PT que pese ter imensa responsabilidade na crise atual, não é nem de longe o único culpado.



Mas e agora?

Não sei. Com toda honestidade eu não faço ideia do passo a ser dado (ao menos pelo PT).

O governo petista acabou. Safatle chegou a comentar em artigo que a Nova República havia acabado junto, o companheiro Marcelo Castañeda disse no Facebook que os protestos de sexta e domingo encerravam o ciclo de Junho. Mas a única certeza é que algo precisa mudar.

O fato é que o PT está nas cordas e querer continuar brigando como se isso fosse resolver simplesmente não funciona. Ridicularizar protesto contrário, "xingar muito no twitter" ou mesmo manter a soberba são a receita perfeita para se dar mal. 

O PT está pagando por ter adotado a agenda do PSDB. Está pagando por ter se aliado e dado forças aos evangélicos fundamentalistas, por ter feito um governo que abusou diariamente dos direitos humanos dando voz e espaço para o preconceito e o fundamentalismo (mesmo vocalizado pela própria presidente e sua declaração de que não faria "propaganda de opção sexual") e especialmente por ter cooptado e desmobilizado movimentos sociais os usando como correia de transmissão de suas políticas em geral contrárias aos interesses destes mesmos movimentos.

O problema é que o PT paga, mas nós pagamos também.

Não acredito que Dilma sofrerá um impeachment mais pelo PMDB dificilmente querer assumi o filho do que por boa vontade - e também é mais proveitoso sugar o quanto puderem de um governo vencido e desacreditado -, mas é fato que o governo foi derrotado e acabou antes de começar. Apenas sobrevive aos trancos e barrancos.
Vamos fingir que acreditamos na manifestação do dia 13?
Então vamos lá: qual resposta do governo às (poucas) cobranças e às (tímidas) críticas feitas pelos movimentos aliados?
Nenhuma. Já pra de hoje, a resposta veio antes até do fim dos protestos.
Ridícula essa 'esquerda' que lambe botas de quem nem lhes dá atenção. Afinal, quem não se valoriza, não tem significância mesmo...
O papel da esquerda

Fica a lição e a tarefa para a esquerda que não quer superar o PT: SUPEREM. E rápido. Proponham algo novo, proponham alternativas, busquem se aproximar das ruas e dos movimentos e criar algo novo. Passou da hora da esquerda desmamar. O PT NÃO fará autocrítica, não irá magicamente abrir mão de 12 anos de direitização, aceitem de uma vez por todas.

As ruas ainda podem ser conquistadas, ainda há espaço para mediações. Ou ao menos eu espero que haja. O ódio está crescendo, mas talvez ainda não seja tarde. Mas assusta, sem dúvida é assustador ver cartazes exigindo golpe, volta dos militares ou com suásticas. É assustador ver o nível da despolitização de muitos ou da politização radicalizada e fascista de outros.
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sexta-feira, 13 de março de 2015

Nem dia 13, nem dia 15, chega de falsa polarização!

Ato em defesa da Petrobrás nada mais é que um ato em defesa do PT e, por consequência, de seu "direito" de dilapidar a empresa porque, claro, com o PSDB seria pior.

E acreditando nisso (ou sendo financiado para acreditar) movimentos como MST, MAB (?), CUT, UNE, dentre outros, se mobilizaram para ir às ruas defender a Petrobrás (sic). Trata-se da mais explícita defesa das ações do PT não apenas na empresa, mas das ações criminosas do partido contra o país, como corte de direitos trabalhistas, cortes na educação e desmandos sem fim.

O governo Dilma chegou ao limite mal tendo começado seu segundo mandato. Isolado no congresso, repudiado pelos mesmos aliados que escolheu e deu poder (e verba), e acuado busca nas ruas dar uma resposta aos críticos - pese o PT ter "oficialmente" se desmarcado dos protestos.

Das duas uma, ou o governo por debaixo dos panos move as engrenagens de movimentos cooptados para protestar por si e demonstrar suposta força (que não tem), ou movimentos cooptados resolveram à revelia da direção mostrar esta mesma força em solidariedade. Em ambos os casos, é um tiro no pé.

Chegamos ao ponto do surrealismo do MAB (Movimento dos Atingidos por Barragens) apoiar manifestação pró-PT. O MST que tem sido tratado como lixo apoia o PT e usa sua base como figurantes para sustentar Katia Abreu e o latifúndio. A UNE se apresenta para apoiar o governo que cortou bilhões da educação e que deixa bolsistas perigarem passar fome e a CUT, a organização pelega por excelência, sai às ruas para defender o governo que cortou direitos trabalhistas e previdenciários e que adotou política econômica que aumentará o desemprego.

Se isto não é surreal, nada mais é.

Remoções forçadas para grandes obras, criminalização de todo tipo de manifestação aos gritos de VAI PM por parte da "militância que cada dia mais se transforma em seita, corrupção endêmica, estelionato eleitoral descarado e reconhecido, aliança com o que há de pior na política nacional, medievalização e retrocessos grotescos nos direitos humanos, crescimento do agronegócio (transgênicos, agrotóxicos, desmatamento e todo o pacote), continuidade do genocídio de negros nas favelas (mas em troca de algumas cotas movimentos se calam e seguem adiante no apoio), privatização de estradas, aeroportos e mesmo de parte da Petrobrás e do pré-sal... Este é um resumo rápido das realizações de Dilma e do PT nos últimos anos.
Os capos do Governo Federal e do PT querem nos impor esta nova chantagem / armadilha: nos defendam, mais uma vez, das ratazanas e dos porcos que nós alimentamos ao longo desses 12 anos, confundindo-se conosco (como se fôssemos a mesma coisa) para "salvar a Democracia e a Esquerda do país".
Ora, quem vem fortalecendo políticos fascistas e uma sociedade cada vez mais fascista ao longo dos últimos anos é o Governo Federal comandado pelo PT... Quantos Bilhões entraram nos cofres da Rede Globo de Televisão, ao longo dos últimos anos, esta Rede de Televisão que hoje articula e comanda o Golpismo do Impeachment da Extrema-Direita?! Agora nos digam quanto foi investido e fortalecido em meios de comunicação, jornais, revistas, TVs ou rádios verdadeiramente populares e comunitárias?!
Vamos agora sair às ruas para defendê-los, Mandatários do PT et caterva, nos confundindo mais uma vez com vocês, para vocês seguirem governando com os Joaquim Levys, Temers, Renans, Cunhas, Sarneys, Marinhos, Kassabs, Kátias, Andres Sanchez e companhia?! Até quando acham que podem fazer esta chantagem e este jogo perverso com o nosso povo, e os nossos anseios legítimos - sempre deixados em segundo plano por vocês?!


E, ainda assim, há movimentos que bancam tudo isso e gritam que a direita quer derrubar o governo de esquerda. A triste verdade é que a esquerda foi derrotada pelo próprio PT, na verdade, sequer chegou ao poder.

Este protesto hoje, dia 13, "em defesa da Petrobrás", ou na verdade em defesa descarada do PT é simplesmente vergonhoso. Envergonha a história da esquerda brasileira e deveria envergonhar seus participantes. Ou, mais ainda, poderia significar uma virada da esquerda, demonstrar de vez a necessidade dos movimentos não-cooptados de se unir buscando alternativas.

Nada disto, porém, justifica ou dá razão ao outro protesto convocado para o dia 15. Não vou dizer "convocado pela direita" porque no fim o protesto de hoje também é a defesa da direita, de políticas de direita que seriam aplicadas, por exemplo, por Aécio, caso tivesse sido eleito.

O que temos são dois protestos (ou duas convocações de protesto) de direita. Em defesa de políticas e políticos de direita. Tampouco diria que se trata, no dia 15, de uma manifestação "golpista". Impeachment não é golpe, não importa o quanto gritem os petistas. Collor não foi vítima de golpe e não importa que hoje ele seja melhor amigo do PT, a história não será reescrita para caber nos devaneios dessa turma.

Mas o protesto do dia 15, no entanto, é um balaio de gatos perigoso. De apoiadores de Eduardo Jorge a neofascistas e integralistas. De PSDB a Revoltados Online, um caldo que vai da direita "light" à mais extremada direita que pede (esta sim) golpe e volta dos militares.

Antes de mais nada, o conteúdo "light" exigido pela "direita" é ridículo. Impeachment. Para que? Para Temer assumir? O que mudará? Não passa de demonstração de força de grupelhos radicalizados com apoio de um PSDB ferido querendo se vingar do PT, mesmo que não chegue ao poder graças à esta manobra.

É igualmente um protesto vergonhoso. E, bom lembrar, protestos CONTRA o PT pedindo impeachment apenas FORTALECEM o PT. A inteligência daqueles que odeiam o PT é realmente artigo em falta.

E a polarização - pelos motivos colocados acima - é falsa. E, pior ainda, acaba jogando pra debaixo do tapete problemas reais do país, o fato de que tanto PT quanto PSDB se beneficiaram e se beneficiam da corrupção da Petrobrás, como o PSDB se beneficia da corrupção do Cartel Tucano no metrô, como o PT se beneficiou do Mensalão, como todos os partidos satélites igualmente tem se beneficiado... E, claro, cria artificialmente diferenças ideológicas e práticas entre PT e PSDB que efetivamente não existem.

PT e PSDB ativamente defendem a repressão de movimentos populares que saem às ruas, ambos partidos fecham os olhos (quando não incentivam) chacinas e assassinatos contra pobres e negros, ambos privilegiam o agronegócio, privilegiam os bancos, o capital financeiro, desprezam educação pública... Sair às ruas dia 13 ou dia 15 significa a mesma coisa: A defesa de políticas de austeridade, da direita, de políticas contra a população.

Nem 13, Nem 15, Nem 45! Nem PT, nem PMDB, nem PSDB!
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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Impeachment contra Dilma? Duvido, mas desde já lavo minhas mãos e preparo a pipoca

Eu não poderia me importar menos com um possível impeachment de Dilma, o que me preocupa, no entanto, é a incapacidade política do brasileiro de ser político e de fazer política.

Dilma foi incontestavelmente eleita pela maioria dos brasileiros, uma quantidade significativa iludida por suas promessas falsas de campanha. Se por um lado suas mentiras (ainda que óbvias) são uma parte da razão para eu não me importar caso ela venha a cair, por outro estas mesmas mentiras são um expediente absolutamente comum na política (e não apenas brasileira).

O estelionato eleitoral é a forma mais comum de se fazer política. Não há nada de novo aí. Claro, Dilma tem chegado em um nível extremo de estelionato, dado que foi eleita pela esquerda, mas governa igual ou até de maneira pior que Aécio, seu adversário. E digo pior pois ela conta com a conivência de sindicatos e movimentos cooptados e trabalhados/silenciados/amaciados pelo PT nestes 12 anos de poder.

Se Dilma cair, nada mudará. O PT seguirá seu caminho natural para o lixo da história, o PMDB continuará efetivamente no poder, onde sempre esteve desde o fim da Ditadura, e o PSDB continuará também seu caminho logo atrás do PT para o mesmo lugar.

Notem que ir para o lixo da história não significa desaparecer, mas sim deixar de representar efetivamente anseios e grupos organizados, mas se tornar definitivamente apenas mais um em meio à total indigência político-partidária brasileira.

Só existe um cenário inaceitável em que efetivamente as coisas piorariam: A volta dos militares; E como isso não passa de agenda de um punhado de dementes fascistas e de algumas viúvas da Ditadura, não há possibilidade de termos algo (muito) pior que Dilma, Levy e cia.

A polarização PTxPSDB serve, hoje, apenas para mantê-los relevantes enquanto o PMDB efetivamente dá as cartas. Uma vez quebrada a polarização ambos serão relegados ao lugar que merecem. A queda de Dilma, pois, apenas acertaria as contas ou entregaria o país definitivamente a quem manda, ao PMDB de Michel Temer.

E não importa o #mimimi petista de que Temer seria horroroso (sim, seria e é), foram eles que o escolheram como vice, que deram ainda mais força e poder ao PMDB, não há do que reclamar. Jogar a carta do "Temer feio e malvado" talvez colasse se ele não fosse o vice escolhido pelo PT para Dilma.

Esta cartada é sempre usada para denunciar inimigos e aliados sempre que convém e, até agora, infelizmente, tem convencido a muitos, mas cada vez menos.

Eduardo Cunha é um horror! Verdade, mas, novamente, é aliado do PT. Renan Calheiros é um horror! Incontestável, mas, novamente, aliado do PT, eleito com seus votos até no Senado. Collor é terrível! Sem dúvida, mas quem fez campanha para sua reeleição em Alagoas? Sim, o PT. E o mesmo vale para TODOS os aliados, de Kassab a Katia Abreu que tem apoio, confiança e se brincar até amor do PT, mas que são usados vez ou outra pelos membros da Seita (não podemos chamar aquilo de "militância") ou pela direção partidária para justificar recuos e canalhices.

Dilma nomeou um neoliberal para a fazenda, tem destruído direitos sociais e previdenciários, cortou bilhões de vários ministérios, inclusive o da educação, cada vez mais sucateada. Prepara-se para cortar ainda mais direitos, mesmo tendo prometido exatamente o contrário. Se cair, não derramarei uma lágrima, assim como não tenho ou terei qualquer esperança de que com o PMDB ou qualquer outro membro da máfia parlamentar algo mude ou seja diferente.

O assustador, no entanto, é a capacidade do brasileiro de ser massa de manobra, de ser incapaz de entender como funciona a política. Bradam com ódio por um impeachment que não muda nada. Collor foi deposto, o que mudou? Onde ele está hoje?

Mudar a figura no poder ou mesmo o partido não faz a menor diferença, pois quem governam são os banqueiros, os empreiteiros, são os financiadores de campanha e a elite. Os políticos em geral são apenas seus representantes que, apenas para deixar a ironia ainda maior, brincam de eleição, onde o povo acha que escolhe alguém para o representar, mas em geral o número efetivo de interessados em representar o povo e não as elites é ínfimo.

Longe de desacreditar na política representativa, acredito na necessidade geral de uma limpeza do sistema, um reboot, a criação de uma ou umas alternativa(s) que possam impor reformas profundas no sistema político. Mas esta(s) alternativa(s) não são nem PT, nem PSDB e nem PMDB, que apenas dividem os lucros de estar no poder.

A queda de Dilma será um duro golpe no PT e sem dúvida na $eita, mas o poder só mudará nominalmente de mãos. As minhas estão limpas, lavadas e só falta estourar a pipoca para ver a máfia se degladiar.

Mas ficam dois pensamentos finais: Primeiro, impeachment NÃO é golpe, lembrem-se do Fora FHC capitaneado pelo PT há anos, não era golpe, porque hoje seria? Tampouco Collor foi vítima de golpe, não importa quanto seus neoaliados petistas queiram reescrever a história.

Aliás, os pedidos de impeachment dos petistas contra o Joaquim Barbosa eram golpe?

E, segundo, duvido que saia um impeachment, o PMDB governa muito confortável sem dar a cara a tapa, não imagino Temer ou a cúpula querendo pegar o país na crise atual podendo perfeitamente surfar e lucrar no desgaste do PT e mandar sem o ônus da popularidade arrasada. Mas, se sair, como já disse, a pipoca está pronta para ser estourada.
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Atualização 14/02:

Faço meus os comentários do Fabio ZC no Facebook:
1-) Não é golpe. Golpe é destituir um presidente sem o devido processo legal. O impeachment está previsto na constituição e é um dispositivo legítimo.
2-) Ser legítimo não o torna menos suscetível a ser usado como manobra política, pois é isso que ele é: um ato político. A palavra de um jurista não tem muito valor aqui pois se o congresso quiser, ele cassa um presidente sem provas ou mantém alguém com provas de crime. Basicamente todos os presidentes desde Vargas possuem motivos para serem impedidos, só não o foram por razões políticas.
3-) Pode-se discordar do dispositivo impeachment. Eu particularmente, assim como tenho lido várias pessoas, não acho tão bom o congresso ter o poder de reverter o voto popular. Prefiro o chamado "recall".
4-) Não acho que a Dilma sofrerá o impeachment. É o PMDB gritando para conseguir arrancar mais e mais do governo. Lembrando que a rusga começou quando a Dilma, por imposição própria, colocou Kátia Abreu, sua nova amiga de infância, no Min. da Agricultura mesmo o PMDB sendo contra, e também da forma como o governo agiu durante a eleição para a presidência da câmara.
5-) Porém, se acontecer, não derramarei uma lágrima e não moverei um dedo para defender essa presidência. Tampouco adiantará o que restou do PT e seus militantes chamarem as "ruas" pois quem abandonou as ruas há décadas, não conseguirá mobilizar agora. E nem todo mundo que não se importa com o governo ou com o PT é coxinha.
6-) Ao abandonar as ruas e optar pela luta institucional, o governo escolheu um caminho. E quando esse caminho falha, não adianta choramingar. Quem dorme com cobra na cama eventualmente será mordido.
7-) Vivemos uma nova época, uma nova safra de militantes fora do alcance da institucionalidade, com novas formas de pensar. E isso incomoda. Os movimentos sociais não vão se importar por um governo que nunca se importou com eles.
Recall seria muito mais saudável e muito mais democrático, não apenas por ser o povo quem coloca e tira do poder, como também porque o problema não é o presidente, mas o conjunto da obra, quem está no poder. Qual a diferença mudar a cabeça e trocar por outra que era a/o vice? Claro, o problema é ainda maior, de crise de representação ou mesmo de crise completa do modelo político brasileiro, mas seria um começo.
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sexta-feira, 14 de novembro de 2014

O "petismo" precisará de quantas overdoses para ser superado?

Há muito tempo tenho dito e mesmo alertado que o papo da "constituinte exclusiva" para a "reforma política" é uma imensa roubada. Razões não faltam, mas a principal delas é a mais óbvia: Após o crescimento da representação da direita no parlamento brasileiro, no que considero uma readequação conservadora, há uma clara tendência de fascistização do país. Há uma clara tendência ao embate aberto e a rupturas. A esquerda não tem NADA a ganhar se quiser competir nas urnas, nesse momento, com a direita, sem ter efetivamente reagido, inovado, se reinventado e proposto algo novo.
Em 1988 havia uma esquerda forte, atuante e ideológica para propor e também para barrar grandes absurdos propostos pela direita. Quem, hoje, seria essa esquerda? Não o PT.

O PT está sempre pronto e disposto a aceitar todas as exigências de seus aliados ruralistas, evangélicos fundamentalistas, banqueiros, empreiteiras... Iremos confiar neste partido para capitanear uma reforma política? Quem irá segurar a direita não será, sem dúvida, o PT, que hoje nada a amplas braçadas para (e com) a direita.

Os eleitos para uma "constituinte exclusiva", tendo em mente a configuração política atual, as pressões, o crescimento do eleitorado fundamentalista e as alianças da ex-esquerda com a pior direita, seriam francamente conservadores. Isto basta para acabar com qualquer ânimo de quem é efetivamente de esquerda. De que importa que políticos com mandato não possam concorrer? Alguém acha que o PSC tem apenas o Feliciano na manga? Ou que o Malafaia, o Edir Macedo, os Ruralistas e outros não tem candidatos guardados para quando precisarem?
Nem o PT seria o partido de esquerda a garantir avanços e nem o PSOL, o PCB ou o PSTU tem real força para impedir uma catástrofe. A esquerda organizada é ridiculamente pequena frente à direita e o que seria a direita numa constituinte.

Tenho para mim que o papo da constituinte exclusiva é ou foi mais uma forma vazia do PT desviar a atenção para sua responsabilidade na imensa repressão durante Junho e meses posteriores (notadamente durante a Copa), o problema é que movimentos sociais como o MTST parecem não ter prestado bem atenção ao que acontecia e efetivamente adotaram uma bandeira praticamente suicida.

Digo com todas as letras: Uma constituinte neste momento, neste cenário de confrontação, de uma disputa artificial entre PT e PSDB que, no fim, representam o mesmo projeto, é suicídio político. Os movimentos sociais embarcam de cabeça, muito provavelmente ainda pensando que tem no PT um aliado comprometido ou ainda movidos por algum saudosismo descolado da realidade, e serão os primeiros a dançar.

Pra ser honesto, eu venho até pensando em torcer pela tal constituinte, porque talvez assim alguns movimentos consigam acordar. É verdade que muitos continuam mesmo que "criticamente" apoiando o PT, mesmo que apenas durante o segundo turno, mas parece não terem entendido ou reconhecido o inimigo (o é junto ao PSDB e à elite que ambos representam).

Em tempo, sequer há um debate sobre QUE modelo de reforma política os movimentos lutariam caso houvesse espaço em uma constituinte (o que não haverá, penso). O PT quer um modelo de listas fechadas, onde poderia enfiar Vaccarezzas e outros dejetos sem que a "militância" ou os "desavisados" pudessem fazer nada, facilitando ainda mais a guinada do partido para a direita, o que dizem os movimentos? Ou não dizem nada?

E quanto ao modelo de financiamento? O PMDB e demais satélites irão aceitar um modelo onde apenas doações de pessoas físicas, e com tento para doação, seja aceito? Ou iremos aprofundar o péssimo modelo que temos hoje, sangrando mais ainda os cofres públicos e mesmo dificultando mais ainda a fiscalização das já obscuras doações de empresas?

O movimento social já discutiu seriamente estas questões ou espera que na hora do "vamos ver" o PT jogue no lixo todos os 12 anos de seu governo e milagrosamente adote uma agenda popular? alguém realmente acredita que o PT iria em peso se opor ao financiamento e empresas enquanto é o partido no país que mais se beneficiar deste financiamento? Coloquemos então o lobo para cuidar das ovelhas, ainda que no cenário atual vejo muitas ovelhas quase implorando para se juntarem ao lobo.

O MTST e demais grupos podem colocar quantas pessoas quiserem nas ruas, mas a realidade não mudará de imediato: O país caminha a passos largos para o conservadorismo. É preciso, porém, que o MTST e demais grupos saiam às ruas e nelas fiquem, mas com agendas progressistas e próprias, com projetos de emancipação popular, com projetos de (re)construção da esquerda, mas não adotando modelos e agendas tiradas da manga para acabar de vez com qualquer resistência.

Não custa lembrar que durante a campanha muitos à esquerda comentaram, maravilhados, como o PT e Dilma tinham caminhado para a esquerda para logo quebrarem a cara com aumento de juros, de preços e tarifas e para o total e completo silêncio federal frente aos crescentes crimes homofóbicos, por exemplo, ou à lenta e tímida (para dizer o mínimo) resposta do governo à Chacina em Belém.

Precisamos de uma reforma política, mas através da pressão popular e dos movimentos sociais, não precisamos, porém, dar carta branca para um novo congresso (chamem como quiserem, mas serão os mesmos eleitos de hoje ou seus laranjas e os mesmos partidos podres e carcomidos dando as cartas) que não terá qualquer diferença para o atual, pelo contrário, poderá ou poderia ser pior.

Nós, enquanto esquerda, temos de raciocinar e compreender que fomos derrotados nas urnas, que há uma divisão social e ideológica tremenda no país e que precisamos conquistar e reconquistar, recriar e inovar antes de pensar em dar passos adiante arriscados ou mesmo francamente suicidas. É hora de nos reorganizar.

Após 12 anos os movimentos parecem cada vez mais anestesiados pela droga chamada "petismo". E eu começo até a ver que o efeito talvez só venha a passar após uma ou duas overdoses dolorosas (Junho parece não ter chegado a tanto). Por vezes me pego ligando o "foda-se", porque parece que alguns movimentos realmente querem ter de sofrer - mais do que já sofrem - ou mesmo precisam...?
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