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domingo, 5 de outubro de 2014

Esquerda no Brasil: Junho morreu na praia?

"Por que a onda de 2013 vai morrer na praia? Entre outros motivos, porque as redes e organizações ditas horizontais que chamaram os protestos do ano passado não produzem lideranças. A democracia representativa depende de líderes, o poder não admite vácuo. Os manifestantes não se organizaram para preenchê-lo, mas os profissionais sim. É a volta dos que nunca foram embora.

Por essa contradição mal-resolvida, pela aridez econômica e climática, 2015 deve ser ano de mais nuvens lacrimogêneas. Melhor estocar água e vinagre."

Infelizmente faz sentido. Aliás, eu lembro de ter conversado longamente com muita gente sobre isso. O problema em si não está na horizontalidade (o Podemos mostrou que é possível manter a horizontalidade e criar lideranças e esperança), mas sim na falta de líderes e na insistência de alguns grupos de repudiar a política (eleitoral) como um todo.

Ao invés de "Só a luta muda a vida", o "vote nulo". O primeiro lema agrega a luta nas ruas, mas não esquece que até algo mudar teremos de também preencher espaços no parlamento. É triste ver que algumas pequenas lideranças surgidas das ruas encham a boca pra falar que políticos são todos iguais e pregando voto nulo. Oras, isso é o mesmo que dizer que não há diferença entre votar num Bolsonaro ou num Jean Wyllys.

É despolitizante.

É óbvio que o voto nulo em si não é despolitizante, há casos em que é a única alternativa, mas o voto nulo e ponto, como solução enquanto negação da política eleitoral e partidária é despolitizante, pois negamos um direito, reduzimos tudo ao zero, igualamos desiguais e nos recusamos a nos comprometer e a ter esperanças.

No fim, nos descolamos da sociedade adotando uma posição pseudo-vanguardista e iluminada e nos fechamos em casulos.

Na Espanha a esquerda soube se juntar e criar uma força política que agregou boa parte dos movimentos nas ruas, e no Brasil? Ainda não fomos capazes.

Não significa que junho tenha "morrido na praia" - ainda -, significa, neste momento, que a esquerda ainda não foi capaz de passar por cima de diferenças e buscar uma politização conjunta agregando ruas e urnas.

Ainda há muito o que nadar.
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sábado, 22 de fevereiro de 2014

ETA dá passos, a Espanha...

A cara de pau dos fascistas espanhóis é ilimitada.

A piada que responde pelo nome de COVITE (diz-se formada por "vítimas do terrorismo") não contente em "apenas" pedir para que tribunais internacionais julguem membros destacados e históricos da Esquerda Abertzale por... GENOCÍDIO (pausa pra gargalhadas), querem que os 6 verificadores internacionais que tem acompanhado o processo de desarme da ETA sejam forçados a entregar os nomes e a localização dos etarras que lhes entregaram parte do arsenal do grupo.

Ou seja, fascistas espanhóis querem que dois verificadores internacionais (um deles que participou do processo de paz no Sri Lanka e no Iraque e outro que "apenas" foi uma das maiores lideranças da ANC, amigo de Mandela e chefe da inteligência da África do Sul) sejam forçados a entregar pessoas com as quais negociam um processo de paz.

A COVITE tem todo o direito de querer tal coisa - ainda que em uma democracia de verdade uma instituição fascista nesses moldes não devesse sequer existir -, o terrível é a AN ACEITAR o pedido e efetivamente convocar os verificadores que irão à Madrid prestar depoimento amanhã. 

Sério, a Espanha é ridícula.
"La Fiscalía pedirá a la Audiencia Nacional, a petición del colectivo de víctimas del terrorismo del País Vasco (Covite), que se cite como testigo a los seis miembros de la Comisión de Verificación Internacional (CIV) para que den toda la información que posean sobre los integrantes de ETA con los que han mantenido contacto y que ésta sea trasladada a las Fuerzas de Seguridad con el objetivo de "detener a estos terroristas de inmediato"." 
Otegi inicia um processo de diálogo interno e busca vias pacíficas? 6 anos de cadeia por terrorismo e processo por (gargalhadas) Genocídio.

ETA anuncia cessar fogo? Insuficiente. ETA anuncia que não mais atuará militarmente? Insuficiente.

O que falta? Entregar as armas, dizem os espanhóis.

ETA entrega as armas. Insuficiente.

A quem serve o conflito basco?

Aos fascistas espanhóis.

A ETA deve "reconhecer o dano causado"? Os franquistas, hoje no poder, fizeram algo semelhante?


O PP está no poder. O PP é a face mais visível do Franquismo. Nunca pediram perdão e nunca se moveram para proporcionar memória histórica. O PSOE não é muito diferente, financiou a extrema direita dos GAL contra os bascos. Pediram perdão? Nunca.

PP e PSOE e os grupelhos fascistas em suas órbitas não tem nenhum direito de exigir NADA dos bascos, da ETA ou da Esquerda Abertzale.


Qual o próximo passo, mandar prender os verificadores caso se recusem a revelar quaisquer dados (coisa que provavelmente farão)?

A Espanha caminha para se tornar uma piada internacional.
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quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Opressão, repressão, violência, medo: É o que significa "Espanha" no País Basco [Atualização]

[Atualização ao final da postagem]
Estava caminhando calmamente com minha esposa até o mercado no fim da tarde de ontem (8 de janeiro) quando nos deparamos, na praça logo no fim de nossa rua, a Plaza Encarnacion, em Atxuri, com uma quantidade significativa de pessoas paradas (e revoltadas) olhando para uma cena ridícula, mas extremamente comum em Bilbao e em todo o País Basco:

Coisa de meia dúzia de carros da Guarda Civil Espanhola, uns 10 guardas civis em volta de um cordão de isolamento que fechava o acesso entre a Plaza Encarnacion e a Bosque Bidea e em volta disso carros da Ertzaintza e da polícia municipal.

O objetivo era prender um dos 8 advogados ligados à EPPK, o coletivo de presos políticos bascos que não faz uma semana deu passos concretos para a paz no País Basco. Mas a Espanha não quer paz, os franquistas do PP não querem paz.

Em outras partes de Bilbao, como na Calle Elcano, houve agressões por parte da Guarda Civil e Ertzaintza contra quem se manifestava contra as prisões arbitrárias.

Demos a volta no cordão para ver o que se passava do outro lado - naquele momento ainda não sabíamos do que se tratava o cordão de isolamento e a presença dos espanhóis -, e estávamos justo na Bosque Bidea, perto da estação de trens de Atxuri quando um homem descia a ladeira em nossa direção em seu carro e, passando devagar, disse algo em voz alta em direção a uns 3 guarda-civis que estavam parados com fuzil na mão e cara de poucos amigos.

Disse algo como "vão pra casa", em clara referência ao fato de serem espanhóis à serviço do PP invadindo o País Basco, prendendo seus cidadãos e violando seus direitos.

Imediatamente dois deles foram rápido em direção ao carro, que tinha parado no sinal logo à frente, na Calle Atxuri, e começaram a discutir. Comecei a gravar a ação com o celular, ao que o terceiro guarda-civil me mandou parar.

Acostumado com o morde e assopra da PM brasileira, que sempre nos manda parar de gravar e depois nos esquece quando não o fazemos, disse que era jornalista, me afastei e continuei a gravar.

A cena era ridícula, dois guardas fortemente armados, um empoleirado na janela do carro e outro na frente bloqueando a passagem, fazendo ameaças (não era possível ouvir, senão ver a atitude deles), e o homem no carro tentando avançar e desviar dos guardas ameaçadores.

Um deles então enfiou a mão pela janela tentando agarrar o homem que felizmente conseguiu acelerar e fugir.

Raivosos, vieram em minha direção e tentaram tomar meu celular, gritando que eu não podia gravar e que seria preso. Informei ser jornalista e brasileiro (apenas o segundo fato me livrou da cana certa), e democraticamente me forçaram a apagar o vídeo e me ficharam.

Um adendo, devo agradecer aos sindicatos de jornalistas brasileiros e seu corporativismo estúpido, mais interessados em garantir feudos com o diploma do que proteger jornalistas efetivamente. Meu vídeo poderia ter sido salvo caso eu portasse alguma identificação, coisa que os sindicatos brasileiros me negam - e a todos que não tem o diploma, mas arriscam mais o pescoço que toda a direção sindical burocrática.

Fui, então, puto da vida, fazer minhas compras e me informei que a ação era parte de algo maior, da prisão de oito advogados nacionalistas por toda a cidade. Fizemos compras, voltamos pra casa e o cerco continuava.

Depois de um tempo decidi pegar minha câmera e ir até a Plaza Encarnacion, logo no momento em que uma prisão era efetuada, enquanto pessoas gritavam palavras de ordem e de apoio ao advogado que estava sendo preso e crescia o efetivo repressor no entorno mas, felizmente, não agrediram ninguém.
Como escrevi para o Opera Mundi esta semana:
Após uma manifestação em Durango, na região de Bizkaia, no meio da semana, 63 ex-presos da ETA, e membros do EPPK, em liberdade (uma parcela de presos políticos foi recentemente libertada após a derrogação da Doutrina Parot, mas 527 ainda permanecem presos na Espanha e França) tornaram público um documento no qual reconhecem os "danos multilaterais" do Conflito Basco, abrindo caminho para o reconhecimento que não apenas o Estado, mas também a luta armada causaram danos e sofrimento.
E foram além, afirmando que, baseados em decisão coletiva, iriam buscar saídas individuais para a redução de suas penas e para que possam ser transferidos para cadeias mais próximas do País Basco. Em outras palavras, a declaração do EPPK dá luz verde para que os presos possam aceitar benefícios penitenciários de forma individual, algo que até o momento era considerado ato de traição e passível de expulsão do coletivo.
Esta declaração foi vista por muitos analistas como a aceitação por parte do coletivo de presos políticos do sistema penal espanhol e uma forma de pressionar o governo, hoje nas mãos do Partido Popular, de ideologia próxima ao Franquismo, a dialogar.
A ação espanhola se insere no contexto do interminável conflito basco, interminável por parte da Espanha, obviamente, que se recusa a dialogar e reconhecer os passos dados pela Esquerda Nacionalista e pela ETA.

Qual seria o sentido de prender 8 advogados de presos políticos ligados ao EPPK menos de uma semana depois deste coletivo ter declarado que aceitará o sistema legal espanhol e que se submeterá a ele? A resposta é simples: A guerra contra os bascos garante mais votos ao PP que a paz. E também ao PSOE, que fique claro.

Enfim, a violência policial e judiciária espanhola é conhecida e reconhecida. Dei sorte, mas o que eu sofri não é nada comparado à violência diária a que são submetidos os bascos. É fácil compreender o ódio que muitos sentem não só da Guarda Civil, que age como um exército colonial de ocupação, mas contra a Espanha, que controla esse exército.

Fosse eu basco, estaria preso. Acusação? Gravar um vídeo. Poderia, como centenas de bascos ao longo dos anos, ter sido torturado e/ou "desaparecido", como Jon Anza e outros. O destino dos bascos está inteiramente nas mãos da Espanha e, dessa forma, passos adiante da esquerda nacionalista no caminho da paz e da autodeterminação são tratados como ofensa, como crime.

Imaginem só como é viver assim. A lei não existe para a Guarda Civil, ela faz a lei e é a lei.

Atividades políticas, exceto as dos fascistas PP e PSOE, são criminalizadas, condenadas e qualquer cidadão basco pode ser preso, torturado, "desaparecido" e morto apenas por protestar contra sua situação e a situação do seu povo.

Mais fotos da prisão em Atxuri: http://www.flickr.com/photos/48788736@N03/sets/72157639561866494/

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Atualização:

Ontem ocorreu uma pequena manifestação no centro de Bilbao contra as prisões arbitrárias dos advogados do EPPK, gravei um vídeo e tirei algumas fotos.
 
A "justiça" espanhola, via um juiz que é ex-conselheiro do fascista PP, Eloy Velasco, PROIBIU a manifestação de amanhã em Bilbao convocada pelo coletivo Tantaz Tanta (Gota em gota).

No entanto, as esperadas mais de 50 mil pessoas devem comparecer à manifestação de qualquer forma, permita ou não a Espanha.

O mesmo juiz fascista do PP passou por cima da imunidade de um senador nacionalista basco e mandou a polícia invadir seu escritório. O senador do EH Bildu, Goioaga, é também advogado de presos políticos. Seu escritório goza de imunidade.

Pro PP não importa.

Sinto que o protesto de amanhã será um dos maiores da historia do País Basco. O PP só contribui para que cresça o ódio contra a Espanha.
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quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Em defesa de Peter Cenarrusa. In Memorian (1917-2013)

Pete Cenarussa. Crédito da foto: Glenn Oakley, 2009
Pete Cenarrusa morreu semana passada aos 95 anos. Para começar, é difícil falar em "defender" Pete de qualquer coisa. Ele era uma pessoa maravilhosa, alguém que muitos de nós admirávamos e respeitávamos. Seus pais eram imigrantes que cresceram em cidades bascas vizinhas, mas que se conheceram a milhares de quilômetros, no meio do estado americano de Idaho. A primeira língua de Pete era o basco, e ele continua a falá-la pelo resto da vida, algumas vezes jogando termos em inglês pelo caminho.

Pete estudou na Universidade de Idaho, onde ele participou do clube de boxe e se formou em agricultura e pecuária (aos 92 anos, ele blogou que seus cursos favoritos eram nutrição, química orgânica  e bacteriologia -"Eu recomendaria esses cursos a qualquer um no colégio"). Ele se juntou aos Marines em 1942 e se tornou um instrutor de aviação. Ele voou por 59 anos, mais de 15 mil horas de vôo sem nenhum acidente.

Pete foi eleito como Republicano para a Câmara dos Deputados (House of Representatives) de Idaho em 1950 e serviu por nove mandatos, incluindo três como porta-voz da Casa. Em 1967, quando o secretário de estado de Idaho faleceu, o governador o indicou para o cargo, que ele serviu até 2003. Ele não era um político do elenco central. Como disse seu amigo e sucessor em seu funeral, Pete não era um bom orador; mas diferente de muitos políticos, Pete sabia disso. Ainda assim, é difícil argumentar com o sucesso: Pete nunca perdeu uma eleição e permaneceu no cargo por 52 anos, o maior tempo no cargo de um servidor público na história de Idaho.

Então, o jornal espanhol ABC publicou um "obituário" escrito por Javier Rupérez, o ex-embaixador espanhol nos EUA. Rupérez chama Pete de "Basco separatista", um homem cheio de "obstinação cega" contra a Espanha "até o dia de sua morte". Foi uma peça escrita com veneno guardado desde um evento que aconteceu há mais de uma década, expelido apenas um par de dias depois de Pete morrer. Pete não pode levantar-se e se defender. É por isso que sentimos uma forte obrigação de fazê-lo em seu lugar.

Obituário escrito por Rupérez. A tradução encontra-se ao final do post.
E um pouco de contexto: Rupérez, o autor, foi sequestrado pelo grupo terrorista basco ETA em 1979. Ele foi mantido prisioneiro por um mês. Após ser solto, 26 prisioneiros bascos foram libertados da prisão, e o parlamento espanhol concordou em criar uma comissão especial para investigar as acusações de tortura contra prisioneiros bascos. Não podemos imaginar pelo que Rupérez passou, e gostaríamos que nunca tivesse acontecido. É um evento que certamente muda uma visão de mundo. Mas Pete não teve nenhuma relação com o horrível evento, e sabemos que ele o teria condenado. E é ai que Rupérez erra terrivelmente em relação a Pete e aos bascos em geral.

Perto do fim de sua carreira, Pete anunciou a introdução no legislativo Idaho de uma declaração que dirigiu uma série de críticas a eventos no País Basco e na Espanha. A declaração, oficialmente conhecida como um "memorial", pediu aos líderes dos Estados Unidos e da Espanha para realizar um processo de paz. Em 2002, Rupérez soube do memorial e imediatamente voou para Idaho, [ele] aertou o primeiro-ministro espanhol, o Departamento de Estado e a Casa Branca. De repente, uma declaração do legislador de um pequeno estado do Oeste americano explodiu e tornou-se notícia internacional.

À medida que se aproximava a data da votação do memorial, havia um monte de idas e vindas entre muitas partes que, de repente, se envolveram. Mas a reação de Pete foi perfeita, parafraseando-o: Desde quando os EUA decidem sua política externa baseada em governos estrangeiros? No final, o legislativo de Idaho aprovou por unanimidade o memorial. Ele descrevia a história dos bascos em Idaho, as primeiras ações do legislativo de Idaho em condenar a repressão da Ditadura de Franco, os esforços dos bascos em manter sua cultura e a condenação de todos "menos uma parcela marginalizada fração" de bascos da violência.

Perfeito ou não, foi uma declaração unânime de um governo democraticamente eleito. Mas [a decisão] parece ter assombrado Rupérez por todos esses anos. Mal completadas 72 horas da morte de Pete, Rupérez o condenou como "o inspirador e líder visível" de um esforço que fez vista grossa à violência, um esforço que um líder do Senado de Idaho mais tarde teria supostamente lhe dito que era o resultado de "extrema ignorância por parte de representantes locais" sobre assuntos espanhóis e da "vontade generalizada de agradar Cenarrusa em sua última iniciativa antes de se aposentar". Rupérez sugere que Pete não era típico da comunidade basca de Idaho, que havia outros que eram mais dignos de representá-la.

Nós não conhecemos Rupérez. Mas ele também não conhece os bascos, e certamente não conhece Pete. E penso que quem apunhala pelas costas um homem que acabou de morrer é [uma pessoa] muito pequena. Alguns de nós tivemos a honra de conhecer esta grande personalidade basco-americana. No entanto, nós queremos refletir sobre a significativa contribuição de Pete na preservação da identidade basca dentro e fora do País Basco (veja as reflexões de About the Basque Country e The Bieter Blog). Os quatro blogs que subscrevem a este post não poderiam se calar diante da difamação pública de Pete Cenarussa patrocinada por Rupérez. Encorajamos vocês a compartilhar livremente este post e o façam seu, o repostando em seus blogs, sites ou redes sociais.

Rupérez fecha seu texto com uma frase que ele diz ser de Mark Twain: "Nem todas as mortes são recebidas da mesma maneira". Talvez seja verdade. De qualquer forma, nós podemos garantir ao senhor Rupérez que a morte de Pete foi recebida com grande tristeza e com o respeito merecido por alguém que fez grandes coisas em sua vida. Gostaríamos de concluir com outra frase de Mark Twain que cabe como uma luva em pessoas como Javier Rupérez: "É melhor manter a boca fechada e deixar as pessoas pensarem que você é um idiota do que abri-la e remover todas as dúvidas".

Agur eta ohore [Adeus e honra], Pete

Assinado por:

A Basque in Boise (Inglês)
The Bieter Blog (Inglês)
The Angry Brazilian (Português)
8probintziak (Francês)
Nafar Herria (Castelhano)


Pete Cenarrusa (1917-2013)
Rancheiro de Idaho, Separatista basco

Falecido aos 96 anos, Cenarrusa, que havia assim encurtado o Zenarruzabeitia paterno, protagonizou a vida política e social do estado de Idaho durante quase seis décadas, sendo várias vezes eleito para o legislativo local e tendo desempenhado durante anos o posto de secretário de estado no rústico território. Seus pais haviam emigrado do País Basco aos EUA no princípio do século XX, como fizeram muitos de seus compatriotas naqueles tempos, em resposta à solicitação de pastores para conduzir/liderar a importante indústria pecuária do oeste americano.

Desde cedo, consciente de suas origens euskaldunes, procurou fomentar a memória individual e coletiva entre seus conterrâneos. Atividade que a partir da década de setenta adquiriu um marcante tom nacionalista. Não em vão, o PNV lhe outorgaria no ano 2000 o prêmio Sabino Arana na condição de "basco universal".

Foi em 2002 quando essas propensões nacionalistas tomaram forma na tentativa de fazer a câmara legislativa de Idaho adotar um "memorial" em que se ignorava a ação terrorista da ETA e exigia da Espanha e França uma disposição favorável para negociar "o fim do conflito" e se pedia a autodeterminação do povo basco. Cenarrusa era o inspirador e cabeça visível da tentativa, na qual contava com a colaboração do governo basco de Ibarretxe e a de ramificações do [partido ilegalizado] Batasuna, encarnados nos jornais Gara e Egunkaria, assíduos visitantes do território no qual eram recebidos com hospitalidade pelo legislador local e hoje prefeito de Boise, David Bieter.

O governo de José Maria Aznar alertou a Casa Branca de George W. Bush sobre a manobra, este que tentou fazer os legisladores de Idaho enxergarem a inconveniência de adotar textos que eram ofensivos a um país aliado e aliado como a Espanha. O porta-voz do Departamento de Estado deu por aqueles dias uma contundente declaração na qual, entre outras coisas, afirmava que "o povo espanhol sofre regularmente a violência exercida por uma organização terrorista chamada ETA". Justamente o que o memorial de Cenarrusa/Bieter/Ibarretxe/Gara/Egunkaria não queria mostrar. E que, muito apesar de seus patrocinadores, acabou figurando no texto emendado que finalmente foi aprovado por todos os parlamentares de Idaho.

Foi em janeiro de 2003, quando o presidente do Senado de Idaho fez chegar aos representantes do governo espanhol seu pesar pelo ocorrido, atribuindo [sua aprovação] ao profundo desconhecimento que tinham dos assuntos espanhóis os representantes locais e ao desejo generalizado de contentar Cenarrusa em sua última iniciativa antes de se aposentar de seu posto de Secretário de Estado. O senador Robert I Geddes havia suplicado ao velho pecuarista e político de origem basca que "na próxima vez que quisesse declarar guerra à Espanha que o avisasse previamente, para evitar um mal entendido". Nesta mesma ocasião, o Senado de Idaho concedeu ao embaixador da Espanha em Washington o título de cidadão honorário do estado. E a Espanha nomeava oficialmente Adelia Garro Simplot, outra descendente de bascos, cônsul honorária no estado. Garro é abreviação de Garroguerricoechevarria. Cenarrusa, que não havia vacilado em sua obsessão contra a Espanha constitucional e democrática até mesmo o dia de sua morte, não poderia ser o único representante da comunidade basca em Idaho.

Como diria Mark Twain, "Nem todas as mortes são recebidas da mesma maneira".
Javier Rupérez
Embaixador da Espanha nos EUA (2000-2004)

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quarta-feira, 3 de abril de 2013

Estado Espanhol tortura até os mortos... no Brasil!

CRUELDADE EM SOLO BRASILEIRO

Como alguns de vocês devem se lembrar, no dia 18 de Janeiro de 2013, o cidadão espanhol (basco) JOSEBA VIZAN GONZALEZ foi preso no Rio de Janeiro por portar documentos falsos. A sua prisão repercutiu em diversos veículos de imprensa, não pelo porte dos documentos falsos, mas sim por estar sendo acusado de pertencer a um grupo militante armado na Espanha.

Joseba foi solto depois de 2 meses na prisão, o seu caso está muito longe de ser um caso policial. Joseba foi preso e torturado na Espanha por acreditar na liberdade do seu povo e do seu País, o País Basco. Joseba é um perseguido político, porém para a sua pátria mãe, a Espanha, ele seria um fugitivo, mesmo nunca tendo sido julgado nem condenado.

Um dia após sua prisão no Brasil, os pais de sua esposa (sogros de Joseba) vieram a socorro de sua filha e neta no Brasil, para lhes prestar apoio e ajuda neste momento tão difícil. Ambas se encontravam desamparadas em solo brasileiro, sem qualquer apoio diplomático. Contando apenas com a ajuda de alguns amigos que aqui fizeram nos 16 anos em que aqui viveram.

Os sogros de Joseba iriam embora hoje, dia 02 de Abril, após 2 meses de muita luta e sofrimento, mas iam felizes, pois Joseba estava fora da cadeia, cumprindo pena alternativa, conforme lhe foi sentenciado por um tribunal brasileiro, pois sua prisão era desproporcional ao único crime ora cometido: falsidade ideológica, que se fez necessário devido a sua situação de perseguido político em solo Espanhol.

JOSÉ MARCO MUYOR, sogro de Joseba se preparava ontem, dia 01 de Abril, para fazer sua última caminhada pelas ruas do Rio de Janeiro, para se despedir da cidade. Estava com sua esposa e JOSEBA, quando sofreu um ataque cardíaco fulminante. Joseba tentou sem sucesso reanima-lo, ajudado por alguns bombeiros, e depois por agentes do SAMU. Foi encaminhado para a UPA – Unidade de Pronto Atendimento de Botafogo por uma ambulância, mas já chegou na unidade em óbito.

Mal sabíamos todos que o sofrimento maior ainda estaria por vir. Uma família que fazia pouco tempo foi destroçada por uma prisão injusta, sem julgamento ou condenação, que passou as amarguras de buscar ajuda entre cidadãos brasileiros pois não encontrou apoio no governo do seu país, começava um novo calvário.

Neste dia 02 de Abril, acompanhei a esposa de Joseba na árdua missão de liberar o corpo do pai no IML – Instituto Médico Legal no Rio de Janeiro, lá fomos informados pelo policial civil JOSÉ que o corpo de JOSÉ MARCO MUYOR só poderia ser liberado mediante uma autorização do CONSULADO GERAL DE ESPANHA, do Rio de Janeiro. Por se tratar de um cidadão estrangeiro, o procedimento seria padrão. Ainda lhe perguntei se o Consulado Geral da Espanha saberia do que eu iria lhes pedir, no que ele nos respondeu: “Com certeza, o plantão consular de todos os países sabem que é procedimento padrão e para tanto será um documento muito simples”. Estávamos de posse do passaporte de JOSE MARCO MUYOR e da sua identidade Espanhola.

Rumamos eu e a esposa de Joseba para o Consulado Geral de Espanha, situado na Torre Rio Sul em Botafogo, na cidade do Rio de Janeiro. Chegamos ao local por volta das 12:30 do dia 02 de Abril, explicamos o que precisaríamos para que o corpo de JOSÉ MARCO fosse liberado pelo IML.
Fomos atendidas pelo Sr. Afonso Castilho que nos informou que tal procedimento não existe.
Colocamos o agente da Polícia Civil no telefone com os agentes consulares espanhóis, quem sabe eu não estávamos lhes pedindo o documento correto? De nada adiantou.

O Consulado Geral de Espanha disse que em nada poderia nos ajudar neste assunto. Que apenas cuidaria de algum assunto administrativo.

Voltamos a Polícia Civil do IML para entendermos o que poderíamos fazer para acabar com este sofrimento, mais uma vez o agente JOSÉ, estarrecido com a reação pouco usual por parte do Consulado Geral da Espanha, o policial Civil brasileiro nos deu duas opções:

- Entrar na justiça brasileira através de um plantão judiciário para a liberação do corpo
OU
- Aguardar o prazo de 72 horas de entrada no IML para que na presença dos familiares e de outras duas testemunhas o corpo fosse liberado SEM IDENTIFICAÇÃO, como INDIGENTE.

Não bastasse o sofrimento da perda de um pai, um sogro, um avó, a família ainda passa pelo profundo desgosto de ser IGNORADA POR AQUELES QUE DEVERIAM PRESTAR APOIO: O corpo Consular do seu próprio País.

Em nenhum momento NENHUM MEMBRO DO CONSULADO ESPANHOL se dispôs a tentar ajudar no problema, nunca foi lhes dado um só telefonema, nenhum facilitador, nenhuma palavra, nenhum apoio, nada.

À família ESPANHOLA lhes resta pedir SOCORRO ao GOVERNO BRASILEIRO para tentar enterrar seu pai que TINHA SIM UM NOME, não é um indigente, É UM CIDADÃO ESPANHOL, portador de todos os seus documentos.

Essa atitude CRUEL, DESUMANA do Governo Espanhol para com esta família me revolta, me entristece, me envergonha como SER HUMANO. SE ESTA FAMÍLIA NÃO ESTÁ SOFRENDO UMA PERSEGUIÇÃO POLÍTICA POR PARTE DO GOVERNO ESPANHOL, NÃO SEI MAIS O QUE ISSO PODE RIA SER.

Com profunda tristeza suplico a ajuda do GOVERNO BRASILEIRO, suplico AJUDA DOS DIREITOS HUMANOS, suplico ajuda dos órgãos competentes para que possamos não só como pátria, mas como SERES HUMANOS, ajudar a cessar tamanho sofrimento que aflige esta família.

Com esperança me subscrevo,

Irina Faria Neves
Rio de Janeiro, 02 de Abril de 2013

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A notícia não surpreende, por mais que seja inaceitável e asquerosa. O Estado Espanhol tortura mesmo aos mortos e suas famílias. Em sua vingança pessoal conra Joseba, um lutador pela independência de sua pátria, o regime espanhol tortura sua família, nega a seu sogro um enterro decente, nega o mero reconhecimento deste.

É simplesmente inaceitável que um Estado se preste a um ato cruel de vingança como este.

Joseba é um herói. Um lutador de sua pátria e de seu povo e por isto foi torturado e hoje sua família é torturada. Toda minha solidariedade a ele e a sua famílii e amigos.
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Atualização 04/04:
De Irina Neves, no Facebook:
Como o governo espanhol não conseguiu deportação de JOSEBA para que fosse torturado na Espanha, tenta agora a tortura psicológica. Mais uma vez conseguimos fazer justiça, e JOSÉ MARCO, nosso querido Aita, vai poder ser enterrado de forma digna. Obrigado a todas as manifestações de carinho e apoio. 
 
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sábado, 28 de abril de 2012

1937-2012 - Nunca esqueceremos de Gernika

Nos 75 anos do bombardeio criminoso da cidade basca de Gernika, só consigo me lembrar da minha visita ao Gernikako Bakearen Museoa (Museu da Paz de Gernika) ano passado.

Em uma pequena sala, reproduzindo uma típica casa basca dos anos 30, ouvimos uma senhora falar sobre seu dia através do sistema de som. Na nossa frente, um espelho, atrás, a reprodução fiel da casa. Acolhedora, simples, típica.

A senhora conta sobre seu dia, sua vida, seu medo pelos dias de guerra, seu temor pela vida de seus filhos, amigos e vizinhos e à medida que conversa conosco, ouvimos sirenes alertando para a aproximação de aviões. Um ataque aéreo é iminente.

Poucos segundos depois ouvimos as bombas, os gritos, o desespero. A sala fica escura, com flashes de luz enquanto os gritos de desespero ecoam. Momentos depois - impossível precisar, aprecia quase uma hora, mas provavelmente forma apenas alguns segundos - enquanto compartilhamos da agonia e desespero sentidos pelos bascos de Gernika naquele dia, ha 75 anos, as luzes começam a voltar, e no espelho na nossa frente, dupla-face, vemos os escombros deixados pelo bombardeio.

O artigo completo pode ser lido na minha coluna "Defenderei a casa de meu pai", no Diário Liberdade.
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segunda-feira, 24 de outubro de 2011

ETA: 50 anos depois, a caminho do fim

Chega ao fim, depois de 50 anos de luta, o grupo armado ETA (Euskadi Ta Askatasuna ou Pátria Basca e Liberdade), talvez um dos grupos mais controversos, ao mesmo tempo amado e odiado, que lutaram incansavelmente pela autodeterminação de seus povos.

No dia 20 de outubro, o grupo declarou o fim definitivo de suas atividades, já em pausa ou em situação de espera desde setembro de 2010, e conformidade com a Declaração de Aiete, assinada por 6 personalidades internacionais apenas 3 dias antes.

Paz, entendimento e até mesmo perdão. 

Este foi o tom da Conferência Internacional organizada por Paul Rios, coordenador da Lokarri, ONG sediada em Bilbao, no País Basco, no dia 17 de julho que teve lugar na cidade de Donostia-San Sebastian e contou com a presença do ex-Secretário Geral da ONU Kofi Annan, o presidente do Sinn Féin Gerry Adams, os ex-primeiro-ministros da Irlanda e Noruega Bertie Ahern e Gro Harlem Bruntland, Pierre Joxe, ex-ministro do interior francês e Jonathan Powll, ex-chefe de gabinete de Tony Blair, que não pôde comparecer.

Juntas, estas 6 personalidades buscam cooperar no fim do chamado conflito basco que há pelo menos 50 anos opõe o grupo separatista ETA (Pátria Basca e Liberdade) e o governo espanhol (e, ainda, o governo francês). Lutando pela independência de 3 regiões no norte da Espanha e 4 no sul da França, a ETA é responsável por 50 anos de violência que levou à morte de pelo menos 800 pessoas, a maioria militares e políticos ligados ao Franquismo e à direita do espectro político.


O governo espanhol, por sua vez, é responsável por incontáveis casos de assassinatos, tortura, censura, "desaparecimentos" e mesmo ilegalizações de partidos políticos nacionalistas que remontam pelo menos o início da ditadura de Francisco Franco, nos anos 30, até seu derradeiro fim em 1975 e períodos de maior ou menor repressão armada contra o povo basco, em especial até meados dos anos 80.

Em trégua há 2 anos, e agora em trégua definitiva, a ETA busca coordenar seus esforços com o grosso da chamada Esquerda Abertzale (nacionalista), tanto a porção ilegalizada que formava o partido Batasuna (Unidade), quanto aquela ainda legal, hoje reunida nas coalizões Bildu (Reunir) e Amaiur (nome de um castelo em Navarra), para buscar uma solução pacífica para um conflito que parece interminável.

Durante as tréguas anteriores da organização o cessar-fogo foi quebrado com atentados a bomba que buscavam denunciar a falta de comprometimento e mesmo vontade de negociar por parte do governo espanhol (principal ator político antagonista do grupo, enquanto a França permanece como um "problema menor") que, no entanto permanece a mesma.

Sob um governo ilegítimo local, nas mãos do socialista Patxi Lopéz, eleito apenas devido à ilegalização das principais formações nacionalistas de esquerda de então, e ao maciço voto nulo e abstenções em protesto, e um governo fraco (PSOE) e eternamente pressionado pela oposição de extrema direita franquista (PP), o conflito basco permanece como o último grande conflito europeu.

Bruxelas e Gernika

Após diversos acordos firmados entre diversos grupos ligados à Esquerda Nacionalista, em especial o recente Acordo de Gernika (setembro de 2010), assinado por 28 forças políticas e sociais do País Basco espanhol e fracês e que, em resumo, pedia à ETA a declaração de um cessar-fogo permanente, unilaterla e verificável. O acordo foi apoiado (em setembro de 2011) não só pela ampla maioria das formações, grupos e coletivos do entorno da ETA, como pelo EPPK (Euskal Preso Politiko Kolektiboa, ou Coletivo de Presos Políticos Bascos) o coletivo mais próximo do grupo e que fala em nome de todos os seus presos.

Este apoio do EPPK foi o passo definitivo para que a Conferência fosse organizada, na esteira de um longo processo de negociação e discussão no seio da Esquerda Abertzale, com o apoio do chamado Grupo de Contato, capitaneado pelo mediador sulafricano Brian Currin, com larga experiência em resoluções de conflitos.

Este Grupo de Contato foi formado no início de 2010, e foi o resultado mais visível do Acordo de Bruxelas (março de 2010), impulsionado por personalidades ganhadoras do Nobel como Nelson Mandela, Desmond Tutu, Mary Robinson, dentre outros que, alem de propor uma mediação internacional, levou àdiscussão os chamados Princípios Mitchell e à uma verificação internacional de um possível desarmamento do grupo armado.


O "fim" da ETA

O fim da ETA, porém, não se dará rapidamente. O grupo não se auto-extinguiu, como alguns analistas chegaram a pensar inicialmente, e tampouco o grupo concordou em entregar suas armas. A ETA declarou, na verdade, o fim de seus ataques (2009), um cessar fogo (2010, Acordo de Bruxelas), uma trégua permanente (janeiro de 2011, começando a aceitar o Acordo de Gernika, que será definitivamente aceito pelo seu coletivo de presos em setembro) e o fim definitivo de suas atividades armadas (outubro de 2011, Acordo de Aiete), o que significa que permanece existindo enquanto grupo, mas apenas abre mão de qualquer tipo de ação armada, passando de grupo "terrorista" ou guerrilheiro a um grupo com ação apenas social ou mesmo ideológica.

Outros passos ainda precisam ser dados, como o aceite por parte dos governos espanhol e francês de um processo negociado para a resolução do conflito e para que a ETA possa não só efetivar o fim de suas atividades armadas, como também entregue suas armas e haja um processo de reconciliação e reinserção.

A declaração da ETA foi recebida com felicidade e comemorações por todo o País Basco e não foi, para muitos, uma surpresa, mas tão somente o resultado de anos de um amplo processo de negociação e discussão no seio da Esquerda Nacionalista (Abertzale) que, por fim, deu resultado. A surpresa, talvez, tenha sido a rápida resposta da ETA à Declaração de Aiete, visto que o grupo levou meses para apoiar acordos anteriores, como Bruxelas e Gernika.

Por parte das mais diversas forças políticas e sociais bascas, a certeza de que o caminho está aberto e de que a cidadania basca foi ouvida e respeitada e de que há agora um espaço para se caminhar para o fim do conflito. O mesmo entusiasmo pôde ser verificado entre formações nacionalistas da Catalunha e da Galiza, mesmo entre os conservadores. Do lado espanhol, alguma resistência, mas o incontestável tom de esperança nos pronunciamentos dos principais líderes do governista PSOE (Socialista) e do opositor PP (conservador) cujo núcleo mais à direita, no entanto, manifestou descrença.

Os passos da ETA vem sendo coreografados. Acordo após acordo o grupo caminha paa seu incontestávle e derradeiro fim, mas, ao contrário das tentativas diversas por parte das principais forças políticas espanholas, sai por cima, como grupo que escolheu o momento de desaparecer, escutando unicamente a voz e a vontade da cidadania basca.

O caminho está aberto, a ETA deu diversos passos, resta agora o governo espanhol e o governo francês seguirem juntos.

Publicado originalmente no Opera Mundi

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sábado, 27 de agosto de 2011

O modelo espanhol de "Democracia"

Pouco ou nada se lê ou ouve na mídia brasileira sobre a tentativa do PSOE, em conjunto com o PP (que são partidos cada vez mais iguais a cada dia que passa), de reformar a constituição espanhola para controlar e limitar o déficit público.

Desta proposta, três absurdos.

Primeiro, o fato das teóricas oposições entre PP e PSOE em um bipartidarismo imposto, estarem pautando todas as discussões em nível estatal. Basicamente o PP e o PSOE podem, sozinhos, controlar todo o Estado Espanhol sem responder a nada nem ninguém. E isto não se trata de "respeitar a vontade popular", pois partidos como a Izquierda Unida são impedidos, por força do modelo eleitoral adotado, de terem uma presença forte no parlamento.

O bipartidarismo espanhol é uma farsa imposta pelos dois maiores partidos para se perpetuar sem percalços e, porque não, para se alternar no poder, mas sem grandes diferenças em termos de políticas públicas. Na verdade, por vezes o PSOE consegue ser muito mais conservador que o PP.

Segundo, e talvez mais gritante, seja o fato desta reforma constitucional não passar pelo crivo popular. Mesmo a fascista constituição atual, que mantém amarradas as nacionalidades minoritárias em um Estado artificial e repressor, foi aprovada pelo voto popular. O caso agora é diferente. Busca-se limitar o espaço de manobra do Estado no uso de recursos públicos através de uma limitação do endividamento - e aqui entramos no terceiro absurdo - que, sabemos, atingirá apenas as camadas populares.

Se hoje a realidade já é de uso de recursos públicos para garantir a sobrevivência dos bancos e do grande capital e apenas o pouco que sobre para ajudar a população a sobreviver (e quando digo pouco, quero dizer migalha mesmo), imaginem com limitação de gastos? Não sobrará nada para a população, apenas para garantir a sobrevida de um modelo canceroso de capitalismo.

Não surpreende que tal reforma passe longe de qualquer consulta popular e, também, que não assuste aos dois grandes partidos qualquer reação negativa. Ambos, PP e PSOE, estão seguros de que não importa quanta insatisfação haja, os eleitores não terão opção para votar, pois o sistema eleitoral apenas os privilegia em detrimento de qualquer outro partido menor (e, em muitos casos, menor apenas pela força da lei eleitoral). Eles sabem que continuarão majoritários e se alternando.
No deja de ser curioso, en todo caso, que Izquierda Unida tenga que depender para conseguir apoyos a su propuesta de referéndum de fuerzas políticas con muchos menos votos pero más escaños por las “peculiaridades” de la Ley Electoral. Tan curioso como que un millón de ciudadanos que votan a un partido tengan dos representantes en el Congreso y los 10 millones que votan a otro tengan 154 representantes, por ejemplo.
Os indignados são um grupo imenso, porém vazio de alternativas eleitorais. Não tem nenhuma proposta para desbancar os dois partidos estatais majoritários ou mesmo para combatê-los. Combatem a tudo e todos, em um movimento interessante, mas ideologicamente falho.

Mas, claro, a reforma não passará por votos porque mesmo tendo a certeza de sua perena alternância, PP e PSOE não podem correr o risco de permitir ao povo votar uma proposta que interessa ao grande capital e é imposta desde instâncias internacionais superiores, e perder. Porque nesta votação a lei eleitoral não entra. Vença quem efetivamente for mais votado e é dificil acreditar que o projeto fosse aprovado pelo povo, indignado ou não.

Enfim, esta é uma reforma que visa limitar o poder do Estado de intervir na economia e na sociedade. É o Estado Mínimo patrocinado por um partido dito de esquerda, dos trabalhadores. Com o apoio feliz e sorridente dos fascistas do PP. À população resta lamentar e, aidna mais, buscar alternativas viáveis a este bipartidarismo forçado e inviável. Os indignados não parecem ser a solução.

Originalmente publicado na coluna "Defenderei a casa de meu pai", no Diário Liberdade.
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quinta-feira, 2 de junho de 2011

Bildu 313,231 x Espanha 0 e o protesto dos "indignados"

Trigésima-sexta coluna para o portal anticapitalista Diário Liberdade, "Defenderei a casa do meu pai".

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Este é o número de votos que a coalizão nacionalista Bildu conseguiu nas eleições de 22 de maio, perfazendo mais de 22% do eleitorado e se tornando de forma incontestável a segunda força política no país basco e não muito atrás da primeira força, o PNV.

Mesmo assim, Bildu conseguiu o maior numero de eleitos em todo o país basco, chegando ao ponto de ficar em primeiro na eleição da região de Guipuzkoa e em sua capital, Donostia (San Sebastian).

Um feito e tanto para o grupo político que vinha sofrendo constantes processos de ilegalização desde 2003, com o banimento do Batasuna.

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Os Indignados

O sistema político-eleitora espanhol não privilegia os dois principais partidos apenas na contagem dos votos, mas também beneficia o PPSOE com a abstenção e o voto em branco. Os "indignados", ao não votar ou protestar desperdiçando o voto apenas contribuíram para a grande vitória "Popular", ou seja, Franquista.

Não digo que os indignados "fizeram o jogo da direita", isto seria um absurdo, mas a falta de uma plataforma coerente e da busca por opções contra a ascensão do PP contribuíram para a apatia geral em torno do pleito. De fato o PP pouco evoluiu em termos de votos, mas o PSOE teve uma retração gigantesca.

Não diria jamais que os protestos não tenham seu valor, mas unicamente acampar e reclamar da realidade, especialmente durante as eleições, não resolve ou resolverá absolutamente nada. Fingindo que política eleitoral não tem relação alguma com suas vidas apenas contribui para a vitória da pior opção. Como sempre digo, o mais triste para quem diz não gostar de política é que este é governado por quem gosta, ou ao menos por quem entende dela e se vale da apatia para crescer.

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Artigo COMPLETO no Diário Liberdade.

"Nire aitaren etxea
defendituko dut"
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"Defenderei
a casa de meu pai"
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segunda-feira, 30 de maio de 2011

Nacionalismo e Emancipação Nacional: O caso das nações oprimidas do Estado Espanhol

O texto a seguir nasce de um debate* entre Lucas Morais (@Luckaz), Antônio Luiz Costa (@ALuizCosta) e Raphael Tsavkko (@Tsavkko) sobre os movimentos nacionalistas Basco, Galego e Catalão e sua relação com o Estado espanhol. Durante o debate, várias questões surgiram, como a relevância da luta pela emancipação nacional, a força dos movimentos nacionalistas, sua vitalidade e mesmo sua validade nos dias atuais. Questões que pretendemos – não exaustivamente – responder a seguir, buscando contextualizar a luta pela emancipação nacional enquanto ato de resistência dos trabalhadores além de mero reflexo dos interesses da burguesia.

Sobre a história dos nacionalismo catalão, basco e galego

I

Bascos, catalães e galegos possuem longa história de independência. Ainda no século XVII, a Catalunha experimentou sua primeira e breve experiência republicana, repetida novamente em fins do século XIX e novamente nos anos 30 do século XX. Ainda hoje é lembrado o Dia da Catalunha (Diada Nacional de Catalunya) com protestos pela nação,  rememorando o 11 de setembro de 1714, ou a conquista final do país pelo Reino de Castela, e a cada ano renova-se a esperança pelo dia em que a Catalunha será novamente independente. Os Bascos, por sua vez, vieram a ser finalmente conquistados apenas no fim do século XIX, antes disto passaram séculos sob o regime de Foros, ou seja, possuíam total liberdade interna, entregando apenas a sua defesa externa ao Reino de Castela. Euskal Herria (País Basco) é uma nação independente desde os primeiros registros escritos sobre seu povo e sua língua milenar. Não foram conquistados pelos romanos ou por qualquer outra nação ou império que passou pela região. Resistiram a todas as investidas e, ainda hoje, mantém a luta por sua independência. Já os galegos formaram um poderoso reino durante a idade média, o Reino Suevo de Gallaecia, o primeiro reino independente de toda Europa, estabelecido como tal no ano 410, e do qual fazia parte o condado portucalense, que no século XII originou o Reino de Portugal e fez do galego sua língua nacional, sob o nome de português. Daí parte unidade linguística da faixa ocidental da Península Ibérica (Galiza e Portugal) e a longa luta do povo galego, que durante séculos alternou períodos de soberania com outros de submetimento a Castela, até o descabeçamento total da sua classe dirigente, o que explica a falta de um projeto nacionalista burguês na Galiza atual.

O Reino da Galiza subsistiu até 1833 e, mesmo dominados pelo então Reino de Castela, o povo galego manteve sempre vivas sua língua e cultura. O movimento nacionalista galego parte assim do século XIX, tendo um caráter eminentemente progressista e republicano.

Os demais “nacionalismos periféricos” e a “espanholização” forçada

II

Há outras regiões da Península Ibérica que já foram nações ou são reivindicadas como sendo parte das nações referidas, como Valência e Ilhas Baleares. Ambos faziam parte do que historicamente se chama Países Catalães, que são territórios de língua catalã. Entretanto, os níveis de espanholização imposto a estes povos são diversos. É óbvio que a Catalunha é o território com maior consciência nacional e, em função disto, maior independentismo. Entretanto, nas Ilhas Baleares há menos consciência nacional que na Catalunha, e menos ainda em Valência. Neste último, os espanhóis conseguiram sobretudo introduzir um sentimento localista anticatalão, ao ponto da burguesia de Valência defender que lá se fala uma língua diferente chamada “valenciano”. Aqui, sim, ocorre a estratégia do “divide et impera”, isto é, dividir os povos para imperar sobre eles. Do mesmo modo o Estado espanhol afirma que o galego não tem nada a ver com o português, quando hoje sabemos que a nossa língua, o português, nasceu realmente na antiga Gallaecia. Aragão e Astúrias historicamente foram nações, com línguas próprias que lutam para sobreviver, assim como Leão, cujo idioma sobrevive às duras pelas em um território dividido com Castela, logo, sem qualquer status especial ou possibilidade de ensino em escolas ou crescimento. Hoje, as línguas astur-leonesa e aragonesa estão em processo de desaparição, com poucos milhares de falantes e movimentos nacionalistas muito fracos. Isto se deve pela absorção realizada pelo Reino de Castela (base do projeto nacional espanhol), que, desde muito cedo, impôs a espanholização a estes povos.

Os tipos de nacionalismo e o desejo de liberdade

III

Não há somente um tipo de nacionalismo. Há nacionalismos expansionistas e nacionalismos defensivos. É claro que desde o Brasil ou Portugal é difícil compreender os conflitos de nacionalidades, dado que nestes países referidos não se vive tais conflitos e não há problemas no uso da própria língua, o que pode levar a crer que é sem sentido a defesa de direitos linguísticos na Catalunha, Galiza e País Basco por exemplo. Somente vivendo esta condição humilhante há a possibilidade de compreender as determinações sociais que fundam a resistência, isto é, ao sentir-se impotente perante as imposições do Estado espanhol, ao não poder escolarizar os filhos na língua própria, como ocorre na Galiza por exemplo, ou como quando o franquismo baniu e criminalizou as línguas basca, catalã e galega. O fim do franquismo deixou um legado nefasto em que o basco passou a ser falado por meros 40% da população, ainda que um forte movimento popular o fez ressurgir, alcançando hoje perto de 70% da população. Mas é pouco. Bascos, catalães e galegos querem ter o direito a ensinar seus filhos sem pedir permissão para o Estado espanhol para tal. Bascos, catalães e galegos querem ter o direito a votarem e serem eleitos, sem precisar pedir permissão a tribunais espanhóis. É comum confundir “nacionalismo” como uma manifestação de uma direita xenófoba e racista sem, porém, compreender as notáveis diferenças entre o nacionalismo movido pelo ódio ao outro e o nacionalismo que busca apenas garantir a (sobre)vivência cultural, econômica e a autodeterminação de um povo.

Imperialismo versus nacionalismo

IV

Naturalmente, há um fundo de verdade nas informações que Antonio Luiz coloca em debate, que o imperialismo sempre tenta se aproveitar de contradições nacionais em benefício próprio, o que é verdade. Entretanto, isto não anula a existência dos direitos de emancipação nacional. Durante décadas a esquerda de todo o mundo doou seu apoio e demonstrou solidariedade (quando não pegou em armas) para garantir os direitos das nações e povos oprimidos em seu direito à autodeterminação e a superação de seu status de colônia. A luta de bascos, catalães e galegos nada mais é que a continuidade das lutas por emancipação nacional e pela descolonização. Também é verdade que, por vezes, é a burguesia quem dirige ou tem dirigido esses processos independentistas, mas, novamente, isto não anula a existência de um povo sujeito de direitos.

O nacionalismo galego enquanto resposta dos trabalhadores

V

No caso galego, a burguesia renuncia à nacionalidade galega e conforma-se com os lucros que lhe correspondem por fazer parte do mercado espanhol, e, neste caso, é a esquerda somente que defende a liberdade nacional do povo da Galiza. Ora, não é por “separatismo” que se luta pela independência galega, e sim pela aspiração à liberdade e independência frente o Estado espanhol, para que, então, a Galiza possa se por em verdadeiro pé de igualdade na Península Ibérica, em relações baseadas na igualdade, e não na imposição, e, claro, no respeito às identidades nacionais. Esta soberania não tem como aspiração a exploração do homem pelo homem, nem expandir-se como os impérios históricos, mas sim um movimento defensivo antitético ao nacionalismo expansionista e imperialista do Estado espanhol. É interessante notar que o nacionalismo galego é mais fraco ou menos presente nas instituições que o basco e catalão, precisamente porque a burguesia renuncia maioritariamente à nacionalidade galega, o que não acontece nos casos basco e catalão, que também têm fortes partidos burgueses nacionalistas. Além disso, a repressão franquista foi especialmente brutal com a Galiza, que caiu logo sob o domínio dos fascistas e viu como toda uma geração de seus melhores filhos morriam assassinados ou tinham que fugir para salvar a vida. Só nos anos da guerra (1936-1939) estima-se que o número de vítimas mortais do fascismo espanhol na Galiza pode ser de 40 mil em apenas 3 anos (a ditadura militar argentina, estima-se que tenha matado mais de 30 mil), numa população inferior aos 2 milhões e meio na altura. Portanto, o nacionalismo galego tem seu caráter popular e de esquerda, com forte implantação sindical no movimento operário, e sua vontade de integração no espaço internacional lusófono, enquanto berço histórico da língua portuguesa.

A força relativa dos nacionalismos no Estado Espanhol

VI

Os critérios restritos aplicados à esquerda catalã e basca, baseado no sucesso eleitoral, não refletem a realidade destas nações. Ora, sabe-se qual a porcentagem da esquerda anticapitalista em Espanha? Afinal, ali quase inexiste expressões revolucionárias da esquerda. O Partido Comunista Espanhol, como tal, não tem sequer um deputado no parlamento espanhol nestes momentos. Proporcionalmente, o pensamento político de esquerda revolucionária tem maior porcentagem na Catalunha, enquanto Galiza e Euskal Herria (País Basco) se mantém acima da média em relação ao restante do Estado espanhol. Some-se a isto que os movimentos sociais são mais fortes nestas três nações que em qualquer outro território espanhol. As nações oprimidas, portanto, possuem mais esquerda socialista proporcionalmente que a média das demais regiões do Estado espanhol, o que é um dado muito importante. É claro que contabilizar isto somente com os resultados eleitorais é uma simplificação semelhante a considerar que a democracia consiste em emitir o voto a cada 4 anos, ou seja, trata-se aqui de um conceito e critério burgueses. Tanto na Catalunha quanto no País Basco, as opções nacionalistas são maioria em termos de voto e representantes, na Galiza são a terceira força. Dentre as esquerdas, o reformista Bloco Nacionalista Galego é a terceira força na Galiza, Bildu é a segunda força basca, praticamente empatado com o Partido Nacionalista Vasco, nacionalista de centro-direita (este partido possui duas correntes principais, uma independentista, outra autonomista, sendo que esta última está na direção do partido de seis anos para cá), e na Catalunha a esquerda nacionalista, mesmo fragmentada, se apresenta com força.


Um mundo melhor ou apenas melhores condições de luta?

VII

Não se trata de o mundo estar melhor ou pior com a independência da Catalunha, Galiza e País Basco, mas sim destes povos terem o direito à sua autodeterminação e serem reconhecidos e respeitados como nações. A luta anticapitalista, isto é, a luta internacionalista pela emancipação humana que almeja uma ordem social de igualdade substantiva, sem a dominação dos trabalhadores pelos capitalistas e seus Estados, por uma sociedade de produtores livremente associados, não anula a luta independentista dos povos oprimidos e vice-versa. Na verdade, muito pelo contrário, tais lutas se entrecruzam em um nacionalismo defensivo, anti-imperialista, socialista e baseada na fraternidade entre os povos, ou seja, internacionalista. O exemplo da Revolução Cubana é didático neste sentido, um povo que foi colonizado primeiramente por espanhóis e posteriormente pelos imperialistas estadunidenses, hoje pode levantar alto a bandeira de Cuba e afirmar sua nacionalidade ao mesmo tempo em que pratica o internacionalismo solidário na América Latina e na África.


Nacionalismos legítimos e ilegítimos

VIII

Equívoco costumeiro entre aqueles que não buscam entender as questões identitárias e históricas por detrás do nacionalismo catalão é a de comparar o independentismo catalão com o separatismo da Padânia. A Catalunha possui todos os atributos de uma nação histórica, já foi independente, tem idioma e literatura próprios. A nação catalã inclusive já travou guerras pela independência. Já a Padânia, trata-se de invento recente, de vinte anos para cá, da burguesia rica do norte da Itália que simplesmente quer separar-se da Itália sulista pobre, sem qualquer base popular. Portanto, não há nação Padânia (ou Padana), assim como não há nação no sul brasileiro, apesar da tradição sulista. Podemos falar em nação Vêneta (esta costumeiramente solidária ao nacionalismo basco e catalão), em nação Lígure, em nação Franco Provençal (Vale d’Aosta) e etc, mas não em Nação Padânia (ou Padana), que não possui nenhuma característica identitária além de uma ligação ideológica entre burguesias próximas à extrema-direita xenófoba. A Catalunha constitui-se como república soberana ainda nos anos trinta do século XX, reconhecida nos primeiros atos do breve governo republicano espanhol, com um movimento nacionalista-independentista sempre vinculado tanto à esquerda e aos movimentos populares, quanto à direita, mas nunca ao fascismo, ao contrário das reivindicações de privilégios da burguesia na Padânia ou em Santa Cruz, na Bolívia. O nacionalismo catalão moderno se centra nas figuras de Lluis Companys e Francesc Macià, expoentes da Esquerra Republicana de Catalunya. E, vale lembrar, os catalães colocaram-se historicamente ao lado dos republicanos durante a Guerra Civil, e contra Francisco Franco durante todo seu governo, seja à direita ou à esquerda.


PxC e o falso nacionalismo catalão

IX

Primeiramente cabe esclarecer que a Plataforma de Catalunha é um partido político da extrema direita, neofranquista e pró-Estado espanhol, cujo líder, Josep Anglada, foi dirigente de uma organização fascista muito conhecida, a Fuerza Nueva, que nos primeiros anos da democracia espanhola teve deputados ligados ao nacionalismo católico ultraespanholista e que teve representação parlamentar na transição. Logo, não faz sentido colocar esse exemplo como sendo representante do independentismo catalão, pois, de fato, a Plataforma de Catalunha é anti-independentista.


Seletividade? Ou a opressão gera resistência

X

Ora, o mais curioso é quando Antonio Luiz diz que apoia apenas a emancipação nacional dos palestinos e saarauis (Saara Ocidental), enquanto no mundo há centenas de povos oprimidos. E os curdos? E os cabílios? E os mapuches, sistematicamente esmagados por Pinochet e ainda hoje vítimas de intensa perseguição e brutal repressão? Ou os povos do Cáucaso? Não é necessário ser revolucionário para apoiar a emancipação de tais povos, mas, no mínimo, estar de acordo com os princípios democráticos. Desde Marx até Lênin, e a grande maioria de teóricos socialistas do século XX, reconhecem o direito de autodeterminação, assim como as principais correntes da esquerda o fizeram. Inclusive, Fidel, no início dos anos 90, fez um apelo ao Estado espanhol para reconhecer os direitos de bascos, catalães e galegos. Na Europa, os únicos setores de “esquerda” a negarem este reconhecimento são o chauvinismo estalinista e os reformistas socialdemocratas, dado que estes frequentemente estavam atrelados aos projetos estatais imperantes, assim como o Partido Comunista Francês atuou contra os independentistas argelinos, defendendo sua burguesia nacional, e até hoje se recusa a poiar a luta dos corsos ou reconhecer os direitos linguísticos de Provençais, Bascos e Bretões; e o Partido Comunista Espanhol, que, apesar de incluir em seu programa o direito de autodeterminação dos bascos, catalães e galegos, na prática não apoia, mas este nem sequer ousa negar isto em teoria.

*Texto feito em conjunto com Lucas Morais

Algumas referências:
SAINZ, José Luis de La Granja. El Nacionalismo Vasco: Um siglo de historia. Ed. Tecnos
KURLANSKY, Mark. The Basque History of the world. Penguin Books
SEIXAS, Xosé M. Núñez. Movimientos nacionalistas en Europa. Siglo XX. Ed. Sintesis
_____________________. Los nacionalismos en la España contemporánea (siglos XIX y XX) Barcelona: Hipòtesi
PÉREZ-AGOTE, Alfonso. The social Roots of Basque Nationalism. University of Nevada Press
GUIBERNAU, Montserrat. Nacionalismos: O Estado nacional e o nacionalismo no século XX. Jorge Zahar Editor
VELASCO SOUTO, Carlos F. 1936: Represión e alzamento militar en Galiza. Ed. A Nosa Terra

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