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sábado, 26 de abril de 2014

Genocídio Armênio: 99 ANOS DE SOLIDÃO

Heitor Loureiro, historiador,
doutorando em História pela UNESP-Franca

No clássico livro Cem Anos de Solidão, do escritor colombiano Gabriel García Márquez, falecido recentemente, há uma passagem sobre o massacre de três mil trabalhadores na fictícia Macondo, perpetrado pela poderosa companhia estrangeira responsável pela produção e exportação de bananas. Apesar do impacto da matança, o esforço do governo e da empresa para negar o crime fez com que a própria população da cidade não acreditasse no que havia ocorrido, tomando por louco o único que ousava tocar no assunto. Os perpetradores e os espectadores passivos, assim, venceram a batalha no campo da memória e escreveram a História ao seu modo, escolhendo o que seria lembrado e o que seria esquecido.

A obra fantasiosa de Márquez, nessa passagem, é baseada em um fato real: o massacre de Aracataca, em 6 de dezembro de 1928, quando trabalhadores e sindicalistas da United Fruit Company promoveram uma greve de quase um mês para reivindicar melhores condições de trabalho. O movimento foi debelado com violência pelas forças de segurança locais, deixando centenas de trabalhadores mortos.

Infelizmente, o que García Márquez escreveu sobre o evento ocorrido em sua cidade natal, transportando-o para a fantástica Macondo, não ficou circunscrito à Colômbia ou à América Latina. O modus operandi de execução de um grupo-alvo já havia ocorrido alguns anos antes, no longínquo Império Otomano, contra as minorias cristãs que viviam dentro de suas fronteiras, sobretudo, os armênios.

Em 24 de abril de 1915, o Comitê União e Progresso, agrupamento político chauvinista e radical que tomou o poder no Império Otomano, ordenou a prisão e deportação de centenas de intelectuais e políticos armênios na capital Constantinopla. Na noite de Páscoa, essas lideranças da comunidade armênia otomana foram retirados de suas casas e colocados em comboios ferroviários rumo à prisões no interior. Essa noite marcou o início do extermínio sistemático da população armênia do Império, que nos anos seguintes sofreu ocupações de suas vilas e cidades, expropriações de seus bens e deportações rumo aos desertos da Síria ou ao Rio Eufrates, em um processo no qual os historiadores calculam que entre 1 e 1,5 milhão de armênios tenham sido mortos, o que significa algo entre 50 e 75% da população armênia otomana. Para uma nação mergulhada numa grave crise econômica e prestes a se esfacelar, o extermínio dos armênios significaria a transferência de grande parte da economia do país para as mãos dos turcos e outros povos muçulmanos, ao mesmo tempo em que tornaria o Império mais homogêneo, sem o elemento cristão. Eram tempos em que ideologias nacionalistas, higienistas e a ideia idílica de um retorno à “era de ouro” estavam na ordem do dia.

Embora tenha causado grande comoção e mobilização no ocidente na época, o plano de extermínio dos armênios foi enterrado junto com o nascimento da moderna República da Turquia, pelas mãos de Mustafá Kemal (posteriormente nomeado Atatürk), em 1923, quando um tratado assinado entre os kemalistas e as potências ocidentais não mais previa a devolução dos territórios da Turquia ocidental aos armênios, sendo estes obrigados a se contentar com a diminuta República Socialista Soviética da Armênia. Com a Turquia, se consolidava uma política estatal de negação do ocorrido com os armênios, pois admitir os massacres planejados e sistematizados pelo governo otomano seria reconhecer que a moderna nação turca estava alicerçada nas propriedades, terras e, sobretudo, vidas de mais de um milhão de pessoas.

Quando o conceito de genocídio foi criado, os armênios pleitearam o reconhecimento mundial para o que havia acontecido a partir de 1915 também ser classificado como tal, principalmente após grande mobilização na Armênia Soviética em 1965. Como consequência, vários países e entidades internacionais reconheceram que os massacres perpetrados contra a população armênia no Império Otomano constituíram sim um genocídio. Não obstante, a Turquia fortaleceu sua posição negacionista, patrocinando eventos, debates e publicações para provar que as mortes foram consequências da I Guerra Mundial e que não havia uma intenção de exterminar a minoria armênia. EUA, Israel, Grã Bretanha e outros aliados estratégicos do Estado turco mantiveram um ensurdecedor silêncio, apesar da forte pressão política das comunidades armênias espalhadas pelo mundo.

O fato é que na primeira década do século 21 algumas coisas mudaram. Cada vez mais países reconhecem a existência do genocídio e convocam a Turquia a enfrentar o próprio passado. Após o assassinato de um jornalista turco-armênio em Istambul em 2007, a população turca também iniciou um processo de questionamento das instituições nacionais que culminou nos protestos da Praça Taksim no ano passado. Muitos intelectuais turcos, hoje, falam abertamente que houve um genocídio e que a Turquia deve se retratar. A comunidade internacional também não consegue manter o silêncio. Por mais que os EUA não reconheçam, a maior parte de seus estados já o fez. Em países como França, há discussões sobre legislações que criminalizem a negação do genocídio armênio, a exemplo do que ocorre com o Holocausto.

O primeiro ministro turco Recep Tayyip Erdoğan enfrenta a pior crise política de seu governo. Abandonado por aliados históricos e visto com desconfiança por vários setores da sociedade turca, Erdoğan não abandona a postura ofensiva para se defender das críticas e denúncias. Sobre o genocídio armênio, não é diferente: a um ano do centésimo aniversário do genocídio, o político já se articula com aliados como o Azerbaijão para mitigar os eventos que a República da Armênia e a diáspora farão para rememorar o ocorrido. Assistiremos a uma guerra no campo de batalha da memória em 2015.

Erdoğan está em xeque pelos movimentos sociais turcos, pela oposição e pela sociedade internacional. A sistemática política de negação da Turquia cada vez mais tem se confundido com as ações polêmicas e duvidosas do primeiro ministro. A única saída possível é enfrentar a própria História e propor soluções para a reconciliação nacional observando o tripé “justiça, memória e verdade”. Do contrário, a Turquia ficará isolada, negando o inegável e o evidente, comemorando em 2015 seus “cem anos de solidão” no que diz respeito aos direitos humanos.

*Uma versão resumida do texto foi publicado pelo Estadão.
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terça-feira, 5 de março de 2013

Chávez está morto. Viva Chávez!

Hugo Chávez Frías 1954-2013
Chavez está morto, VIVA CHÁVEZ! Que a revolução possa continuar seguindo seu curso com Maduro e com o apoio do povo. Que a direita fascista venezuelana e os EUA não tentem nada!

O governo e o poder venezuelano era absolutamente centrado em Chávez, um governo tipicamente latinoamericano, mas com claras fragilidades. É preciso ficar de olho na oposição e nas pressões externas contra. A Morte de Chávez será comemorada pela oposição que, porém, é extremamente fragmentada, mas como em 2002, perigo de golpe sempre existe.

Uma nova eleição será convocada (provavelmente) e Maduro tem tudo para ser eleito e precisará capitalizar a vontade do povo e a consternação com a morte de seu grande líder para fazer o regime e a revolução sobreviver.

O Bolivarianismo tem características plebiscitárias, para além de personalistas, mas há chances reais de sobrevivência do regime e do modelo caso os aliados de Chávez consigam jogar corretamente as cartas e anular a oposição que, neste momento, não deve se contentar de tanta felicidade.

O maior perigo, porém, vem de fora, dos EUA e da Espanha (Aznar, então primeiro ministro do país foi o grande artífice do golpe e seu partido, o PP, está hoje novamente no poder), e o momento é delicado.

Torçamos para que a revoluçãocontinue e para que o Bolivarianismo tenha forças para sobreviver à morte de seu líder e idealizador e que a esquerda venezuelana se mantenha unida, deixando suas diferenças de lado.

A luta e as ideias permanecem vivas! Chávez mudou a Venezuela, mudou a América LAtina, mudou a todos nós.

Viva Chávez! Viva a Venezuela, Viva a Revolução Bolivariana!
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segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Da Primavera Bérbere ao Outono Islâmico

O que começou como um movimento de libertação nacional da minoria Bérbere no norte do Mali e a posterior formação do Estado de Azawad acabou como uma queda de braços entre a França, com aval da ONU e do governo malinês, e grupos islâmicos radicais, como o Ansar Dine e o Movimento pela Unidade e pela Jihad, da África Ocidental (Mujao), e a Al Qaeda do Magreb, todos ligados à Al Qaeda.
Por detrás da queda de braço, interesses étnicos, religiosos e financeiros.

De um lado tribos bérberes organizadas no MNLA (Movimento Nacional de Libertação do Azawad) e seus ex-aliados pontuais ligados à Al Qaeda, e do outro os interesses comerciais franceses e internacionais em uma região rica em minerais como urânio disfarçados por preocupação humanitária.
Os Bérberes encontram-se espalhados por diversos países do norte da África, sendo os Curdos daquele continente, ou seja, uma população de tamanho considerável, sem Estado, e espalhada por diversos outros Estados onde, em muitos casos, é tratada como inferior, tem sua língua proibida ou sua veiculação dificultada.

No Mali, os Tuaregues, ramo local do povo Bérbere, já ensaiaram dezenas de revoltas contra o governo central malinês com maior ou menor sucesso e buscam a formação de um Estado que abarque todos os Tuaregues em países vizinhos. Parece que não foi desta vez.

Fortalecidos por armamento vindo da Líbia e com soldados treinados por Khaddafi, o MNLA pôde pela primeira vez realmente impor perigo real ao governo malinês.

Após um golpe de Estado no Mali, em 21 de março de 2012, cerca de 3 mil rebeldes do MNLA tomaram de assalto as três grandes cidades de Kidal, Gao e Timbuktu – capitais regionais do norte do Mali – em meio à completa fragilidade do governo central e declararam sua independência.

O Mali vinha passando há meses por um processo de deterioração de suas instituições, seguido por um golpe de Estado e pela imposição de um governo de transição que buscava agregar diferentes posições políticas e foi surpreendido por mais uma revolta Bérbere, desta vez bem sucedida - ao menos temporariamente.

A vizinha Argélia também enfrenta dificuldades no combate tanto aos Tuaregues quanto à minoria Cabile, também de origem bérbere, na região do Mediterrâneo. Desde 1980 e da chamada Primavera Bérbere (que tomou nova força a partir de 2011 junto à Primavera Árabe na vizinha Tunísia) e da Primavera Negra de 2001 (quando perto de uma centena de Béberes Cabiles foram assassinados e milhares ficaram feridos ou mutilados em ações violentas do governo argelino contra manifestações por autonomia em um cenário de revoltas populares locais) lutam por maior reconhecimento de sua língua e cultura no país usando métodos pacíficos de manifestação, que muitas vezes são reprimidas com violência.

Já em abril de 2012 o MNLA e demais grupos islâmicos "aliados" controlavam virtualmente todo o norte do Mali, porém tensões entre estes grupos acabaram por decretar a derrota do MNLA e a perda das principais cidades conquistadas.

Para tanto, o MNLA contou com o apoio de grupos islâmicos radicais, mais interessados na formação de um califado fundamentalista do que em uma pátria para os Bérberes que, em geral, tendem para o laicismo ou para um islamismo moderado.

Financiados muito provavelmente pela Arábia Saudita e por poderosos do Golfo Pérsico, os grupos islâmicos ligados à Al Qaeda buscam se apoderar de uma região que tradicionalmente professou e professa um islamismo moderado, de escola jurídica Malikita e onde o Sufismo, vertente mística e não-radical, impera.

Monumentos Sufis e tumbas de importantes líderes da corrente foram destruídos pelos radicais.
Contra diversos prognósticos, o MNLA foi derrotado por seus aliados pontuais e o sonho de um Azawad livre se tornou mais difícil, mas não o sonho dos islamitas radicais de controlar a região e buscar, por fim, o controle de todo o Mali e de usar este território como base para ataques aos países vizinhos.

Ainda é difícil compreender completamente o que levou o MNLA à derrota em tão pouco tempo, especialmente quando consideramos sua maioria numérica e mesmo superioridade em termos de equipamentos bélicos, mas o fato é que foram virtualmente neutralizados e expulsos das principais cidades conquistadas.

É possível apontar, ao menos em algumas cidades, para a fragilidade do controle do MNLA que não apenas tinha de manter controlados os islâmicos radicais como combater outros grupos locais ligados à etnias minoritárias ou mesmo majoritárias localmente.

Conflitos ainda acontecem em cidades do norte, onde se enfrentam grupos islamitas que agora se opõem a um Estado Bérbere (preferindo a conquista de todo o Mali e a fundação de um Estado islâmico onde impere a Sharia) e o MNLA enfraquecido. O MNLA ainda tem de enfrentar a resistência da população em cidades como Gao, onde a maioria da população pertence a minorias africanas, como Fulas e Songais, que contam com sua própria milícia, e Ganda Iso.

De uma Primavera Bérbere, aos moldes da Primavera Árabe que varreu o Oriente Médio e o norte da África em 2012 e aos moldes dos movimentos autonomistas Cabiles, a situação passou a ser um Inverno Islâmico e um pesadelo real para a França, antiga metrópole que conta com a presença de 2.500 soldados no país e parece ser a única esperança do governo central malinês e de sua população na resistência ao fundamentalismo - mas cujo apoio não virá de graça em uma região rica em minérios.
Esta esperança, porém, sepulta os sonhos da população Bérbere do norte.

O fato é que a ONU busca intervir na região e conta com o apoio do exército francês e do apoio logístico do Reino Unido e da Alemanha. O Conselho de Segurança das Nações Unidas já deu sua permissão para uma ação francesa na região, apesar da discordância pontual dos EUA, que preferia uma ação comandada pela CEDEAO/ECOWAS (Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental), possivelmente para poder depois negociar melhores contratos de exploração dos minérios locais sem ter de passar pela França.

É preciso ainda recordar que originalmente o MNLA encontrou forças e armamento para derrotar o exército malinês no norte do país devido à intervenção dos EUA na Líbia, que conta também com significativa minoria Bérbere (Tuaregues e outros) que integrava, dentre outras, as forças de elite do exército de Khaddafi.

A situação, ao menos do ponto de vista diplomático, parece mais simples do que a situação, por exemplo, da Líbia e da Síria, onde existia resistência a uma intervenção, no caso da Líbia, e onde ainda existe muita confusão sobre os diversos grupos que se degladiam, no caso da Síria, e cujo governo ainda conta com apoio da Rússia e da China, tornando uma decisão na ONU difícil.

No caso do Mali, nem os islâmicos radicais ligados à Al Qaeda nem os rebeldes Bérberes contam com apoio internacional, ao menos não declarado - ainda que seja provável o apoio de radicais e milionários sauditas aos guerrilheiros islâmicos. Uma intervenção militar estrangeira torna-se portanto, factível, apesar do pouco interesse que o governo francês ou qualquer outro possa ter em ir para a linha de frente em uma batalha que pode custar vidas e trazer perdas políticas em casa.

Apenas os minérios e a possibilidade de contratos vantajosos - a região do norte do Mali, Azawad, é rica em minérios - justificam uma intervenção, assim como, em menor parte, o temor do fortalecimento de guerrilhas islâmicas na região do Magreb, que poderia causar impactos em todo o norte da África
O líder do Mujao, Abou Dardar, chegou a ameaçar atacar "o coração da França" caso o país mantenha sua cooperação militar com o Mali no combate às milícias islâmicas. Em Paris, o nível de alerta terrorista foi elevado e a segurança de pontos turísticos e de interesse reforçada.

Por outro lado, lideranças no MNLA ofereceram-se para ajudar a França a derrotar os islâmicos, mas não se sabe qual é o preço de sua ajuda e, tampouco, se estão dispostos a abrir mão de sua independência efêmera (que durou apenas de abril a junho de 2012) para receber ajuda externa no combate aos islâmicos. De fato, é complicado saber se o MNLA receberá ou oferecerá ajuda nesta questão, tudo depende de complicados arranjos políticos.

Enquanto a situação do Mali piora, militantes islâmicos impõem a Sharia pelo norte do país e já há casos reportados de penas de amputação aplicadas a criminosos e penas a quem insiste em ouvir música ou mesmo a quem utiliza toques de celular considerados "não islâmicos".

Na vizinha Argélia, centenas de estrangeiros foram feitos reféns por um grupo islâmico solidário aos radicais islâmicos malineses, possivelmente o braço da Al Qaeda no país, e vários foram mortos após a intervenção do exército do país. Outros ataques de milícias islâmicas solidárias não podem ser descartados.

Quando da tomada de poder por parte dos Bérberes do MNLA e a fundação do Estado de Azawad, o temor era do espalhamento do conflito com a adesão de grupos Bérberes de países vizinhos.
Hoje, o temor não é mais o de uma nova Primavera Bérbere, mas de um levante islâmico na região do Magreb que coloque a segurança internacional em risco.

Publicado originalmente no Brasil de Fato.
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sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Estado da Palestina: Comemoremos por hora, mas o trabalho apenas começou

O que se pode esperar agora do processo de paz entre Israel e Palestina após esta ter sido finalmente reconhecida como Estado não-membro (observador) da ONU, um status semelhante ao do Vaticano?
Politicamente a vitória da Palestina é incontestável, com uma maioria absoluta dos votos (138 favoráveis, 9 contrários e 41 abstenções) que ajudam a apagar (ou ao menos diminuir a lembrança) a recusa do Conselho de Segurança, em 2011, de aprovar a entrada da Palestina na ONU.

Aumenta a pressão internacional e, sem dúvida, ajuda a reclamação palestina sobre os territórios ocupados.

Se, através de inúmeras resoluções, a ONU já reconheceu o direito dos palestinos aos territórios que lhe forma usurpados ou estão sendo (como Jerusalém Orienta, por exemplo), agora a coisa muda de figura. A ONU não reconhece posse ou soberania sobre territórios conquistados por guerra, invasão ou ocupação, mas o status indefinido da Palestina dificultava a aplicação desta norma. Agora, não há mais desculpas e a ilegalidade das ocupações é ainda mais flagrante.

Torna-se mais difícil para Israel sustentar a ocupação anterior e futuras anexações do território de um Estado, e não apenas de uma entidade política indefinida. Agora Israel não ultrapassa barreiras criadas por si, mas ultrapassa e desrespeita fronteiras definidas pela ONU e por um Estado soberano.

A Palestina pode, ainda, recorrer ao Tribunal Penal Internacional e outros fóruns internacionais e buscar uma condenação de Israel contra seus inúmeros e repetidos crimes de guerra, ainda que seus efeitos possam ser meramente cosméticos, em uma guerra de propagandas isto conta bastante.

Outra vitória palestina foi a de impor, ao mesmo tempo, duras derrotas a Israel e aos EUA, do prêmio Nobel da paz Barack Obama. Exceto por Canadá e República Tcheca, apenas os costumeiros protetorados estadunidenses ficaram ao lado de Israel, demonstrando que, ao menos neste assunto, a influência dos EUA é limitada ou que, talvez, tenha crescido a insatisfação pela falta de soluções propostas pelos aliados de Israel.

A abstenção do Reino Unido não foi uma surpresa, dada a proximidade deste país com os EUA, nem o voto do Paraguai governado por golpista. Por outro lado, a Espanha e seu voto favorável - pese a posição contrária anterior de Mariano Rajoy - surpreende devido aos "problemas" domésticos que enfrenta em termos de autodeterminação dos povos, um instrumento muitas vezes esquecido ou sufocado à base da força por diversos Estados.

Foi uma pequena vitória palestina na ONU, de efeitos práticos limitados, especialmente no que concerne a recuperação de suas terras, o Direito de Retorno e o bloqueio criminoso a Gaza.

Leia o artigo completo, online, no jornal Brasil de Fato.
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quinta-feira, 14 de junho de 2012

Últimos textos: Vadias, Síria, Impostos e Lula no Ratinho

Escrevi recentemente 4 textos para diferentes blogs e veículos de imprensa que gostaria de compartilhar aqui (trechos) e convido meus leitores avisitarem as páginas linkadas para poder ler todo o conteúdo.

Primeiro, o texto mais antigo deles, publicado na Revista Bula sobre a Marcha das Vadias, feminismo e o papel do homem nisso tudo - "Vadias, putas: E a liberdade da mulher?":
Mulheres ainda recebem menos que os homens e nosso governo não teve a coragem de manter uma proposta igualando os salários por força de lei. E isto porque temos uma presidente mulher, uma presidentA, mas que até agora não deu um passo sequer no caminho dos direitos das mulheres. Pelo contrário, aprovou medida provisória que torna ainda mais complicado o aborto, ao tentar dar direitos a um feto, como se fosse um ser humano, dentre outras medidas.

Enfim, em pleno século 21 mulheres, milhares, são forçadas a sair às ruas e se manifestar pelo simples direito de serem livres. De terem direitos sobre seus corpos, de se vestirem como quiser e de poder decidir suas vidas sem a imposição de um homem, de uma sociedade machista.

A marcha das vadias que aconteceu nos dias 26 e 27 de maio é uma demonstração da crescente insatisfação das mulheres com o tratamento que recebem. Devem seguir um padrão único de beleza, se vestir sempre da forma “correta” para cada momento, ou seja, devem se vestir para serem desejadas quando o homem quiser, quando a mídia ditar, e devem se esconder se fogem do padrão ou em momentos específicos.

Não podem decidir sobre suas vidas, sobre como se vestir, sobre como e quem amar.
O texto seguinte foi publicado pelo blog Amálgama, onde critico o torpe protecionismo brasileiro e a política estilo-ditadura que se avizinha na substituição de importações - "Não é apenas o Preço Justo. São os impostos, o lucro e a má vontade governamental":
Não se trata “apenas” de querer barrar importações ilegais, pois é muito fácil verificar que aquela caixa onde está escrito conter um livro de fato contém um livro e não há sentido em demorar 3 meses para liberá-lo. É uma política deliberada e continuada de Dilma que faz ecos à ditadura, quando tínhamos a famigerada política de substituição de importações.

A diferença é que muito do que vem sendo barrado não é e nem tem a intenção de ser produzido no Brasil. Querendo ou não, existe um Direito do Consumidor que, em tese, tem validade nacional, mas como fazemos para processar o governo por sua ineficiência em um área que alguns vão considerar desimportante frente, por exemplo, ao caos na saúde, educação…?

É pirraça pura.

Além do que, a política da ditadura foi um fracasso, atrasando em décadas o avanço da indústria nacional que, até hoje, tem seu bastião na fabricação de carros – setor onde mais Dilma investe, em detrimento de diversificação da indústria e do transporte público.
Mais recentemente publiquei artigo na página online do jornal Brasil de Fato que é uma atualização de artigo meu anterior sobre o conflito na Síria. Desta vez tento desmistificar a guerrilha midiática onde um lado é sempre msotrado como santo e o outro como bandido sanguinário e que a situação é muito mais profunda que isso - "Síria, uma guerra de propagandas":
A mídia comercial insiste em retratar os insurgentes sírios como um grupo homogêneo de lutadores pela liberdade, ao passo que Assad e toda a “situação” síria, pró-governamental é mostrada como sanguinária e apenas interessada no poder. Esta visão é datada e carregada de interesses.

Os opositores de Assad são vários e nem de longe unificados. Pequenas facções divididas não apenas em cores religiosas, mas também divididas em tribos e clãs e com os mais diversos interesses. A franca maioria dos insurgentes é da maioria sunita, que é marginalizada por Assad, um alauíta, mas também é possível encontrar alguns poucos cristãos junto a eles. Há grupos laicos e militantes islâmicos, grupos com cristãos e grupos anticristãos, além de grupos financiados pelos EUA, outros vindo do Líbano e grupos independentes, enfim, uma salada indigesta sob todos os pontos de vista.

Ao lado do governo luta não apenas o exército, mas a milícia Shabbiha, cuja influência governamental é incerta, e outros grupos menores, especialmente cristãos e drusos.
Por fim, meu último artigo, publicano do Observatório da Imprensa, sobre a visita do Lula ao sensacionalista programa do Ratinho, acompanhado de Haddad, onde discuto a problemática da visita de uma figura emblemática que, por seus próprios esforços, caminha para virar ídolo, ao passo que se vale de um programa vagabundo e apelativo para, também, tentar colar sua imagem, sem qualque noção de ética, ao Haddad - "A propaganda e o mito":
Lula, aos poucos, se torna um mito, uma figura central na política brasileira, como foi Vargas, com a diferença que Lula sabe se manter por cima, vivo, como eminência parda, ao mesmo tempo em que escapa das piores críticas feitas à sua sucessora. O termo “Pai dos Pobres” não cabe mais em Vargas, que ganhou um sucessor.

Ao fazer sua primeira grande aparição, sua primeira grande entrevista pós-câncer em um programa popular ou mesmo popularesco, manda diversas mensagens a seus aliados e inimigos. Aos amigos se mostra forte, atuante, pronto para futuras batalhas, enfim, recuperado. O fato de ter ido a um programa de “variedades” e não a um jornal como o Nacional, da Globo, ou qualquer outro das principais redes de TV, pode ser encarado como um golpe nas grandes redes de TV que insistem em criticar seu legado e também como uma forma de agradar sua militância que, apesar da total ausência de ação ou mesmo vontade do governo (o seu e o atual de Dilma) em regular a mídia, democratizar as comunicações, há esperanças.
Espero que apreciem a leitura.
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segunda-feira, 16 de abril de 2012

A crise do Mali e o “Curdistão” Bérbere

Artigo publicado no jornal Brasil de Fato 476 (12-18 de abril), ainda nas bancas!

Um conflito pouco conhecido, porém sangrento, que remonta a formação das fronteiras (artificiais) pós-coloniais do norte da África recentemente teve mais um capítulo escrito.

A população Bérbere (subdivididos em grupos como Amazighs, Tamasheqs ou Tuaregues, dentre outros) luta há décadas contra os governos da Argélia, Mali, Burkina Fasso e Níger pela independência do povo que pode ser considerado o paralelo africano aos Curdos, que há décadas lutam, enquanto maior nação sem pátria do mundo, por um Estado, o Curdistão.

Pela África

Os Bérberes habitam a região do norte da África há séculos e constantemente foram subjugados pelos dominadores árabes, por impérios regionais, como o Songhai, e posteriormente pelos europeus, sem jamais terem o direito a um Estado – ou mesmo a vários Estados, dado que os diferentes grupos berberes não reivindicam uma unidade entre todas as tribos. A ideia de um “Berberistão”é ainda mais embrionária que a de um Curdistão unido.

Espalhados pelo território de diversos países, os berberes tem notável força local na Argélia, onde lutam há décadas pelo Estado de Cabília, na costa do país, e no Mali, onde acabaram de fundar o Estado de Azawad que, não se sabe, pode ser apenas efêmero.

Na Líbia, os berberes encontravam relativa autonomia e engrossavam as fileiras do exército de Muammar Khadafi e daí vem parte do “problema” enfrentado hoje pelo governo do Mali, ou melhor, por líderes que buscam assegurar o governo do país.

Tomando o poder

Um grupo de rebeldes Tuaregues (ou Tamasheqs, como preferem ser chamados localmente) tomou de assalto as três grandes cidades de Kidal, Gao e Timbuktu – capitais regionais – do norte do Mali em meio à completa fragilidade do governo central, comandando provisoriamente por uma junta militar que havia dias antes (em 21 de março) deposto o presidente do país, Amadou Toumani Touré.

Munidos de armamento vindo do exército líbio, os cerca de 3 mil rebeldes do MNLA (Movimento Nacional de Libertação do Azawad) conseguiram facilmente dominar as tropas oficiais que, em sua maioria, fugiram ao primeiro sinal de problema. Uma parte considerável dos Tuaregues do norte do Mali e da Líbia servia no exército de Muammar Khadafi, deposto e morto por rebeldes apoiados pelos EUA e França há alguns meses dentro da onda que ficou conhecida como Primavera Árabe.

Após a derrota de Khadafi, retornaram com força total ao Mali.

Em poucos dias toda resistência oficial foi superada e o MNLA reivindica total controle da região , chegando a declarar finalmente sua independência. Em algumas cidades divide o poder com grupos rebeldes de caráter islâmico, como o Ansar Dine e aparentemente terão mais problemas em combater estes grupos do que o exército central propriamente dito, ao menos por ora.

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