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quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Marina Silva continua representando o atraso, mas Dilma é ainda pior

Em 2010 me manifestei claramente sobre e então candidata Marina Silva: Ela representava o atraso.
Marina Silva não entende porque é vista, a priopri, como uma pessoa preconceituosa e fundamentalista por ser evangélica. Vamos iluminá-la? Em primeiro lugar, Silas Malafaia, Edir Macedo e RR Soares são nomes que logo vêm à mente e dizem alguma coisa. Em segundo lugar, ser contra o Aborto, Casamento/Adoção por casais homossexuais e pesquisa com células tronco dão mais uma mostra dos ideais progressistas da candidata. Realmente, porque será que ela sofre preconceito?
Sou o primeiro a admitir que não gostaria de um evangélico governando o país, mas preciso esclarecer; Me refiro não ao evangélico, ou melhor, o protestante laico, ao fiel de denominações tradicionais (em geral) e com os pés no chão, e sim ao popular "crente", ao fiel de "igrejas" neopentecostais, adeptas da tal "teologia da prosperidade", enfim, a qualquer um que orbite no entorno de Malafaia, Edir Macedo, Veldemiro, Assembleia de Deus e semelhantes.

Estes são os principais membros da chamada Bancada Evangélica (que conta também com membros de denominações protestantes tradicionais, no entanto) e são os propulsores do fundamentalismo e medievalismo no Brasil. Estes devem não apenas ficar longe da presidência, como devem ser defenestrados de qualquer cargo público, meios de comunicação e posição de poder. O Estado deve se distanciar ao máximo de religião, especialmente de fanáticos estelionatários.

Mas, enfim, Marina em 2010 era conhecida por sua claudicância em temas de direitos humanos, se opunha ao aborto, se opunha ao casamento igualitário, à adoção por casais do mesmo sexo, etc, e defendia algo absolutamente inaceitável, plebiscitos para questões de direitos humanos.

Era, apesar de todo o hype, uma candidata que representava um atraso monumental, aliado ao seu ecocapitalismo torpe e aliados que em nada se diferenciavam dos dos demais candidatos. Não havia nada de novo, senão a repetição talvez medievalizada e pseudo-moderna do que já tínhamos.

É preciso notar que hoje suas ideias não são mais a exceção. Mas a regra. A política brasileira cada vez mais se aproxima de um jogo não de soma zero, mas de resultados absolutamente negativos.

Chega 2014 e Marina tem novamente a chance de disputar a presidência. E algumas de suas posições mudaram. Acabou o papo de plebiscito pra direitos humanos, ela passou a defender (ao menos diz sua assessoria) direitos LGBTs e, no fim, seu discurso se mostra em tese mais progressista que as práticas dilmistas (esta sim um verdadeiro retrocesso em todos os sentidos).

Marina continua não diferindo em termos econômicos dos demais. Dilma, Marina e Aécio são patrocinados pelos mesmos grupos poderosos, defendem agenda econômica semelhante e cujas nuances não alteram o quadro geral - o de garantir lucros imensos aos patrocinadores e amigos e apenas garantir migalhas ao povo. Não há nenhuma diferença fundamental entre as três principais candidaturas que se apresentam este ano - e temos como o ponto mais baixo a candidatura do Pastor Everealdo, este sim que causa calafrios, mas é outro assunto.

Marina se coloca como defensora de um ecocapitalismo que, em tese, seria refratário aos anseios mais virulentos de Katia Abreu e sua turma - esta que é unha e carne com Dilma e o PT - e este é um ponto positivo, mas no fim é difícil vislumbrar, especialmente com o vice escolhido pelo PSB para ela - Beto Albuquerque, ruralista -  alguma mudança efetiva no campo, a suspensão de Belo Monte, reforma agrária e afins.

Aliás, faço um adendo, cito o Aécio neste texto, mas jamais votei ou votarei no PSDB, logo, não me demoro em sua candidatura.

Resta, então, os direitos humanos. Este era o ponto fraco de Marina, e continua, em geral, sendo, mas diante de Aécio e de Dilma, mesmo suas posições não muito progressistas gerais conseguem colocá-la à frente dos concorrentes.

Seu discurso hoje - e o de seu vice, abertamente pró-LGBT - é mais afinado com os direitos humanos e é sem dúvida mais progressista que Dilma, que foi uma franca INIMIGA dos direitos humanos: Promoveu com seus aliados genocídio indígena, homofobia, machismo, crescimento da AIDS....

Dilma se aliou, cedeu e governou com os evangélicos de tal forma que o mero fato de Marina ser evangélica ou se pautar em sua religião para governar (pese ter dado declarações em defesa do Estado Laico) se torna algo menor. Os recuos nos direitos humanos foram tão gigantescos com Dilma no poder que Marina não parece mais ser o imenso atraso que representava em 2010. Hoje o maior inimigo ou inimiga dos direitos humanos é Dilma e o PT. E isto não é teoria, não é análise de discurso, é a/na prática, ou esqueceram, por exemplo, da declaração criminosa de Dilma de que o "Estado brasileiro é Laico, mas"?

Não, Marina não se tornou simplesmente "palatável", o PT é que tomou seu lugar nas trevas.

Em outros tempos eu poderia, criticamente, chamar o voto em Marina num eventual segundo turno, mas depois do erro imenso que cometi na eleição passada ao apoiar o suposto mal menor, Dilma, não consigo repetir no erro e nem me comprometer a tal ponto.

Nesta eleição deixo claro, gostaria de ver o PT perder. O país precisa disso, a esquerda precisa disso e os movimentos sociais mais do que nunca precisam de espaço para se renovar sem a constante pressão, cooptação e violência vinda do  e patrocinada pelo PT, mas é preciso ter em mente que qualquer alternativa não é, em si, uma real alternativa, mas no máximo um período de transição que deve ser aproveitado.

Admito uma certa hipocrisia em afirmar a necessidade de derrotar o PT enquanto não me comprometo a apoiar ninguém que efetivamente possa derrotá-lo. Sim, espero que outros o façam, pois não tenho forças para dar meu voto a Marina. Nem coragem.Ela continua representando o atraso, pese Dilma ser pior.

Para o país, uma eventual vitória da Marina nos aliviaria de mais um governo ruralista, privatizador e genocida indígena representado pelo PT, mas traria novos desafios, pois seria igualmente aliado das oligarquias, representaria interesses semelhantes.


Todos os cenários são ruins para a população e todos exigem mobilização constante, movimentos sociais fortes e atuantes que, sem o PT no poder e sem a verba ilimitada para o partido cooptar, poderiam efetivamente se reerguer. Não tenho qualquer esperança de que o PT derrotado voltaria a seu papel de oposição de esquerda. O partido se degenerou de tal forma que não resta mais ilusão. Precisa do poder e das verbas que vem com ele. Uma oposição de esquerda invariavelmente teria de nascer das ruas e dos movimentos sociais e coletivos diversos.

Uma vitória da Marina seria ruim, sem dúvida, mas seria algo como o famigerado "menos pior". É, hoje, o possível. Posso estar enganado? Sem duvida, assim como me enganei com Dilma pensando que seria ela a menos pior e, no fim, ela foi a pior presidente que o país teve desde a redemocratização.

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Alguns podem perguntar "mas e a Luciana?", bem, eu não confio. Não digo ser uma candidatura em si ruim, mas a quantidade de tetos de vidro junto com as disputas internas no PSOL com sua tendência, o MES, das quais tenho conhecimento me afastam de sua campanha. É sem dúvida uma opção no primeiro turno, faço votos que consiga superar o traço, mas de fato não me anima ou enche os olhos. E, sejamos francos, não passará ao segundo turno e quis aqui me concentrar em cenários reais entre os três candidatos com chances de serem eleitos.
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terça-feira, 27 de maio de 2014

A Europa caminha para a (extrema)direita, entenderemos os sinais no Brasil?

"Não é nenhuma surpresa estarem usando o resultado das eleições europeias para defender o voto na Dilma como "menos pior". Perto das eleições, qualquer coisa que acontece no universo se torna argumento para nos unirmos contra o avanço da direita. Mas durante 4 anos isso nunca foi um problema, quando a direita avançou contra a legalização do aborto e das drogas, os direitos LGBT, os direitos indígenas, em alianças pra lá de "necessárias". Agora, o "avanço da direita" virou um grande problema mundial. Pelo visto, só as eleições importam e é só no período eleitoral que esses governistas sentem dor. No resto do tempo, não estão nem aí, quase em deboche. Então é aí que vocês têm que sentir mesmo. Não contem comigo pra essa campanha." Bruno Cava
Escrevi ha algum tempo:
"O fascismo está crescendo no Brasil, e a culpa não é só de Sheherazades e Bolsonaros da vida, ou de Felicianos e pastores neopentecostais. É culpa de um sistema educacional péssimo (não-emancipatório) e de um governo incapaz de se libertar da agenda conservadora dos aliados que escolheu. Incapaz não, simplesmente não tem interesse.

E quando eu falo "governo" não me refiro apenas ao PT, e sim aos sucessivos governos brasileiros, ainda que nunca vi um governo tão feliz em ser refém da agenda conservadora quanto o PT."
Mas iria além.

Não apenas o fascismo cresce no Brasil, mas pegando o gancho do Bruno Cava, cresce na Europa, com a extrema-direita conseguindo votações históricas nas eleições europeias da última semana POR CAUSA da ineficiência da esquerda em ser esquerda, em governar como esquerda e em propor alternativas ao capitalismo selvagem vigente.

Não falo sequer em fórmulas para destruir o capitalismo, não sou tão inocente, mas maneiras para se diferenciar a direita e respirar. Oras, a Islândia até onde eu sei não é um país socialista, por mais que adote muito deste modelo. É um país capitalista, mas soube peitar a "troika" e se recusou a fazer seu povo sofrer para beneficiar banqueiros e elites.

E é exatamente isso que a "esquerda" europeia não aprendeu a fazer. Ou simplesmente não quer. Oras, como vão viver os líderes desta esquerda uma vez "aposentados" da política se não tiverem garantidos cargos em grandes empresas?

PSOE espanhol, Labour inglês, PS francês, socialistas e trabalhistas alemães e italianos e por aí vai, no poder governam como a direita e mesmo para a direita.

Aqui no Estado Espanhol, onde vivo atualmente, o PSOE perdeu as eleições para o PP ha alguns anos e, na prática, não se vê diferença. Na oposição o PSOE não conseguiu apresentar nada que o diferencie do PP. Ambos defendem políticas de austeridade, que podem ser traduzidas como políticas de promoção do desemprego, do achatamento de salários e da garantia de lucros para o andar de cima às custas da fome do andar de baixo.

Outra questão muito relevante é a da imigração, razão forte para o crescimento da extrema-direita. A direita francesa dita moderada, com Sarkozy, iniciou o processo de expulsão de ciganos, os eternos culpados pelas mazelas da Europa, mas o PS de Hollande, atualmente no poder, simplesmente deu continuidade a uma política racista e higienista - para além de xenófoba - contra esta população. Ao invés de propor novas políticas de integração, se viu preso à austeridade e incapaz de mudar o disco.

A "esquerda" europeia é mais do mesmo. É a direita em pele avermelhada - ou rosada. É fato, porém, que em questões sociais pontuais, como direito ao aborto e direitos LGBTs a esquerda tradicional europeia ainda se mostra um pouco mais aberta e progressista, coisa que o PT, por exemplo, não pode reivindicar, mas é insuficiente - isto dizem as urnas.

Ainda sobre a questão da imigração é fato que a esquerda não consegue entender a origem do medo da classe trabalhadora do que enxergam como uma "invasão". E é esta classe trabalhadora, historicamente de esquerda, que garantiu a vitória, por exemplo, da racista Frente Nacional francesa. Gente que há poucos anos votava contente no Mitterrand e hoje vota em Marine Le Pen cujo pai e antigo líder de seu partido defende o Ebola como "solução final".

Oras, porque a população teme a "invasão" de imigrantes? Será que é só o medo imposto pela extrema-direita ou há algo aí ou, mesmo que não haja, como lidar? Apenas descartar com um aceno de mão ou um sorriso paternalista e pseudo-acadêmico, não adianta.

De fato, com a crise, temos visto desemprego e mesmo fome pela Europa. Há sim uma imensa quantidade de imigrantes chegando e muitos sem qualquer qualificação, fugindo de guerras e de situações ainda piores e que acabam nas ruas do continente, seja como indigentes, como pedintes, como ambulantes e alguns mesmo partindo para a criminalidade (ainda que este traço seja aumentado ao absurdo pela extrema-direita). Mas onde está o problema?

Será que o problema se dá apenas na ou depois da chegada destes imigrantes? O problema é a quantidade? É a não-aceitação, por exemplo, dos valores laicos por muitos muçulmanos - o "problema" francês?

Ou talvez o problema seja a NECESSIDADE destes imigrantes saírem de suas casas e de suas terras expulsos por guerras e fomes em  muitos casos PATROCINADAS pelos governos europeus de esquerda e/ou direita?

Trata-se o suposto problema cosmético, ou mesmo apenas se faz pouco caso da percepção do problema. Mas poucos tocam na real questão: Porque existe o sentimento de "invasão" e porque esta suposta invasão acontece?

Igualados, direita e esquerda, ambos são incapazes de enxergar o real problema. Ou simplesmente não querem fazê-lo.

Mas, voltando ao Brasil, nossos problemas são outros, mas ainda assim a questão central da direitização da esquerda permanece. Ao invés de buscar respostas, ou mesmo de aplicar aquilo que sempre defendeu - revisão da dívida, imposição de políticas sociais duradouras, valorização do emprego, ampliação da seguridade social, reforma agrária, respeito aos direitos humanos, etc - a "esquerda" representada pelo PT preferiu ir à extrema-direita buscar aliados. Katia Abreu, Feliciano, Malafaia, PSC, PR e cia não governam com o PT, mas impõem suas agendas ao PT que as impõe.

Como dito por Cava no trecho copiado logo na abertura do post, "Não é nenhuma surpresa estarem usando o resultado das eleições europeias para defender o voto na Dilma como "menos pior". Não apenas esta "esquerda", ou ainda ex-querda não conseguiu entender o que se passa na Europa, como repete os erros mais toscos daquela e ainda mais. Nem mesmo em áreas sociais e de direitos humanos consegue dar um passo adiante, pois adotou a agenda dos neopentecostais.

Não, o PT não é uma opção e podemos acabar trilhando o caminho europeu, com a esquerda mais direita do que nunca, com a extrema-esquerda dividida e falando apenas para si mesma (salvo exceções como na Grécia e um certo ressurgimento na Espanha) e com a extrema-direita ganhando força.

Oras, o que é Sheherazade com imenso ibope, Malafaia ganhando força, Bolsonaro pintando e bordando, Katia Abreu como eminência parda e mesmo o ridículo e residual PSC lançando candidato desconhecido a presidente e podendo abocanhar mais de 5% dos votos?

O processo de direitização ou mesmo fascistização do país está em curso e o PT é grande parte do problema, não a solução. A solução passa pelas ruas, pelos movimentos sociais organizados e horizontais, pela necessidade de reconstruir a esquerda a partir da base.


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terça-feira, 9 de abril de 2013

IV Ato conta Feliciano em São Paulo: Fotos e vídeos

O ato aconteceu no dia 7 de abril, domingo, começando na Praça do Ciclista (Av. Paulista) até o Largo da Batata, em Pinheiros, com centenas de ativistas de diversos coletivos e movimentos sociais repudiando não apenas o racista e homofóbico Marco Feliciano, mas também a influência da religião e de fundamentalistas na política e exigindo um Estado Laico e também repudiando a inércia de Dilma e a cumplicidade do PT.

(vídeos ao fim da postagem)


Márcia, advogada transsexual (vídeo com discurso dela ao fim do post)

O verdadeiro responsável.

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segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Da Primavera Bérbere ao Outono Islâmico

O que começou como um movimento de libertação nacional da minoria Bérbere no norte do Mali e a posterior formação do Estado de Azawad acabou como uma queda de braços entre a França, com aval da ONU e do governo malinês, e grupos islâmicos radicais, como o Ansar Dine e o Movimento pela Unidade e pela Jihad, da África Ocidental (Mujao), e a Al Qaeda do Magreb, todos ligados à Al Qaeda.
Por detrás da queda de braço, interesses étnicos, religiosos e financeiros.

De um lado tribos bérberes organizadas no MNLA (Movimento Nacional de Libertação do Azawad) e seus ex-aliados pontuais ligados à Al Qaeda, e do outro os interesses comerciais franceses e internacionais em uma região rica em minerais como urânio disfarçados por preocupação humanitária.
Os Bérberes encontram-se espalhados por diversos países do norte da África, sendo os Curdos daquele continente, ou seja, uma população de tamanho considerável, sem Estado, e espalhada por diversos outros Estados onde, em muitos casos, é tratada como inferior, tem sua língua proibida ou sua veiculação dificultada.

No Mali, os Tuaregues, ramo local do povo Bérbere, já ensaiaram dezenas de revoltas contra o governo central malinês com maior ou menor sucesso e buscam a formação de um Estado que abarque todos os Tuaregues em países vizinhos. Parece que não foi desta vez.

Fortalecidos por armamento vindo da Líbia e com soldados treinados por Khaddafi, o MNLA pôde pela primeira vez realmente impor perigo real ao governo malinês.

Após um golpe de Estado no Mali, em 21 de março de 2012, cerca de 3 mil rebeldes do MNLA tomaram de assalto as três grandes cidades de Kidal, Gao e Timbuktu – capitais regionais do norte do Mali – em meio à completa fragilidade do governo central e declararam sua independência.

O Mali vinha passando há meses por um processo de deterioração de suas instituições, seguido por um golpe de Estado e pela imposição de um governo de transição que buscava agregar diferentes posições políticas e foi surpreendido por mais uma revolta Bérbere, desta vez bem sucedida - ao menos temporariamente.

A vizinha Argélia também enfrenta dificuldades no combate tanto aos Tuaregues quanto à minoria Cabile, também de origem bérbere, na região do Mediterrâneo. Desde 1980 e da chamada Primavera Bérbere (que tomou nova força a partir de 2011 junto à Primavera Árabe na vizinha Tunísia) e da Primavera Negra de 2001 (quando perto de uma centena de Béberes Cabiles foram assassinados e milhares ficaram feridos ou mutilados em ações violentas do governo argelino contra manifestações por autonomia em um cenário de revoltas populares locais) lutam por maior reconhecimento de sua língua e cultura no país usando métodos pacíficos de manifestação, que muitas vezes são reprimidas com violência.

Já em abril de 2012 o MNLA e demais grupos islâmicos "aliados" controlavam virtualmente todo o norte do Mali, porém tensões entre estes grupos acabaram por decretar a derrota do MNLA e a perda das principais cidades conquistadas.

Para tanto, o MNLA contou com o apoio de grupos islâmicos radicais, mais interessados na formação de um califado fundamentalista do que em uma pátria para os Bérberes que, em geral, tendem para o laicismo ou para um islamismo moderado.

Financiados muito provavelmente pela Arábia Saudita e por poderosos do Golfo Pérsico, os grupos islâmicos ligados à Al Qaeda buscam se apoderar de uma região que tradicionalmente professou e professa um islamismo moderado, de escola jurídica Malikita e onde o Sufismo, vertente mística e não-radical, impera.

Monumentos Sufis e tumbas de importantes líderes da corrente foram destruídos pelos radicais.
Contra diversos prognósticos, o MNLA foi derrotado por seus aliados pontuais e o sonho de um Azawad livre se tornou mais difícil, mas não o sonho dos islamitas radicais de controlar a região e buscar, por fim, o controle de todo o Mali e de usar este território como base para ataques aos países vizinhos.

Ainda é difícil compreender completamente o que levou o MNLA à derrota em tão pouco tempo, especialmente quando consideramos sua maioria numérica e mesmo superioridade em termos de equipamentos bélicos, mas o fato é que foram virtualmente neutralizados e expulsos das principais cidades conquistadas.

É possível apontar, ao menos em algumas cidades, para a fragilidade do controle do MNLA que não apenas tinha de manter controlados os islâmicos radicais como combater outros grupos locais ligados à etnias minoritárias ou mesmo majoritárias localmente.

Conflitos ainda acontecem em cidades do norte, onde se enfrentam grupos islamitas que agora se opõem a um Estado Bérbere (preferindo a conquista de todo o Mali e a fundação de um Estado islâmico onde impere a Sharia) e o MNLA enfraquecido. O MNLA ainda tem de enfrentar a resistência da população em cidades como Gao, onde a maioria da população pertence a minorias africanas, como Fulas e Songais, que contam com sua própria milícia, e Ganda Iso.

De uma Primavera Bérbere, aos moldes da Primavera Árabe que varreu o Oriente Médio e o norte da África em 2012 e aos moldes dos movimentos autonomistas Cabiles, a situação passou a ser um Inverno Islâmico e um pesadelo real para a França, antiga metrópole que conta com a presença de 2.500 soldados no país e parece ser a única esperança do governo central malinês e de sua população na resistência ao fundamentalismo - mas cujo apoio não virá de graça em uma região rica em minérios.
Esta esperança, porém, sepulta os sonhos da população Bérbere do norte.

O fato é que a ONU busca intervir na região e conta com o apoio do exército francês e do apoio logístico do Reino Unido e da Alemanha. O Conselho de Segurança das Nações Unidas já deu sua permissão para uma ação francesa na região, apesar da discordância pontual dos EUA, que preferia uma ação comandada pela CEDEAO/ECOWAS (Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental), possivelmente para poder depois negociar melhores contratos de exploração dos minérios locais sem ter de passar pela França.

É preciso ainda recordar que originalmente o MNLA encontrou forças e armamento para derrotar o exército malinês no norte do país devido à intervenção dos EUA na Líbia, que conta também com significativa minoria Bérbere (Tuaregues e outros) que integrava, dentre outras, as forças de elite do exército de Khaddafi.

A situação, ao menos do ponto de vista diplomático, parece mais simples do que a situação, por exemplo, da Líbia e da Síria, onde existia resistência a uma intervenção, no caso da Líbia, e onde ainda existe muita confusão sobre os diversos grupos que se degladiam, no caso da Síria, e cujo governo ainda conta com apoio da Rússia e da China, tornando uma decisão na ONU difícil.

No caso do Mali, nem os islâmicos radicais ligados à Al Qaeda nem os rebeldes Bérberes contam com apoio internacional, ao menos não declarado - ainda que seja provável o apoio de radicais e milionários sauditas aos guerrilheiros islâmicos. Uma intervenção militar estrangeira torna-se portanto, factível, apesar do pouco interesse que o governo francês ou qualquer outro possa ter em ir para a linha de frente em uma batalha que pode custar vidas e trazer perdas políticas em casa.

Apenas os minérios e a possibilidade de contratos vantajosos - a região do norte do Mali, Azawad, é rica em minérios - justificam uma intervenção, assim como, em menor parte, o temor do fortalecimento de guerrilhas islâmicas na região do Magreb, que poderia causar impactos em todo o norte da África
O líder do Mujao, Abou Dardar, chegou a ameaçar atacar "o coração da França" caso o país mantenha sua cooperação militar com o Mali no combate às milícias islâmicas. Em Paris, o nível de alerta terrorista foi elevado e a segurança de pontos turísticos e de interesse reforçada.

Por outro lado, lideranças no MNLA ofereceram-se para ajudar a França a derrotar os islâmicos, mas não se sabe qual é o preço de sua ajuda e, tampouco, se estão dispostos a abrir mão de sua independência efêmera (que durou apenas de abril a junho de 2012) para receber ajuda externa no combate aos islâmicos. De fato, é complicado saber se o MNLA receberá ou oferecerá ajuda nesta questão, tudo depende de complicados arranjos políticos.

Enquanto a situação do Mali piora, militantes islâmicos impõem a Sharia pelo norte do país e já há casos reportados de penas de amputação aplicadas a criminosos e penas a quem insiste em ouvir música ou mesmo a quem utiliza toques de celular considerados "não islâmicos".

Na vizinha Argélia, centenas de estrangeiros foram feitos reféns por um grupo islâmico solidário aos radicais islâmicos malineses, possivelmente o braço da Al Qaeda no país, e vários foram mortos após a intervenção do exército do país. Outros ataques de milícias islâmicas solidárias não podem ser descartados.

Quando da tomada de poder por parte dos Bérberes do MNLA e a fundação do Estado de Azawad, o temor era do espalhamento do conflito com a adesão de grupos Bérberes de países vizinhos.
Hoje, o temor não é mais o de uma nova Primavera Bérbere, mas de um levante islâmico na região do Magreb que coloque a segurança internacional em risco.

Publicado originalmente no Brasil de Fato.
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sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Marta, PT e o fundamentalismo no senado

Marta deixou o senado para assumir a pasta da Cultura. Comemoremos a queda de Ana de Hollanda - ainda que talvez seja tarde para consertar o que ela destruíu -, mas não há o que comemorar com a chegada de Marta. E dou as razões.

Marta teve, em sua gestão como prefeita, uma política cultural elogiada, mas não pela capacidade dela na área e sim por ter um grupo de ótimos assessores. Sim, é fato que ela pode se cercar de gente certa no ministério, mas a gestão cultural de um país não é a mesma de uma cidade. Mas este primeiro ponto pode-  e espero - nem ser um grande problema.

Marta, porém, foi nomeada como um toma-lá-dá-cá pelo apoio dado ao Haddad, e não importa o quanto negue, não somos imbecis ao ponto de acreditar que ela tenha sido convencida a apoiar Haddad de graça e que nem uma semana depois de entrar na campanha o minsitério tenha ficado vago. Não nos esqueçamos que Marta foi chamada até de tucana (serrista, no caso) por petistas fanáticos quando se recusou a apoiar Haddad - mesmo destino de Erundina, que não aceitou ser vice numa chapa com Maluf.

Não bastasse essa nomeação que foi mais um prêmio que realente a tentativa de consertar o ministério, fica o restro da Marta no Senado: assume eu seu lugar o candidato do PR, Antônio Carlos rodrigues, um homofóbico de direita que pode destruir de vez o PLC122 (que jão não era grande coisa nas mãos da Marta) e que será mais um crápula a ser contentado pelas benesses do dinheiro público para votar com o governo (não que uma figura dessas precise de muito para votar por projetos ruralistas, religiosos e afins).

Oras, porque Marta, eleita senadora, pode dar feliz e alegre seu lugar a um suplente homofóbico de direita e fica por isso mesmo?
Mas claro, o problema em si não é deixar o cargo e sim deixar o cargo para quem possa ser ideologicamente oposto. Na política de alianças atual, ideologia não importa e sim poder.

A política de alianças do PT nos levou a chegar a um ponto em que o suplente de uma senadora que bem ou mal se diz de esquerda, é diametralmente oposto a ela em todos os sentidos.
Ligado a 22 paróquias da Igreja Católica na zona sul, o vereador Antonio Carlos Rodrigues (PR), suplente que vai assumir a vaga de Marta Suplicy (PT) no Senado, é contra o casamento gay e o aborto. "Vou seguir sempre as posições da Igreja Católica nas votações. Para mim homem é homem e mulher é mulher. Também sou contrário ao aborto e à eutanásia", afirmou nesta quarta-feira o vereador paulistano, após uma sessão na Câmara Municipal marcada pelas homenagens dos colegas ao novo senador por São Paulo.

Para mim, político que diz que vai seguir posições de religião ou grupo religioso deveria perder imediatamente o cargo. Mas estamos no Brasil, onde o Estado Laico é apenas uma piada e uma "chateação" quase insignificante no caminho dos fundamentalistas - quase todos aliados do PT.

Para piorar o novo senador Rodrigues e seu PR apoiaram (apoiam) Serra na candidatura a prefeito contra o candidato do PT! Isso denunciar de forma claríssima não apenas o modelo político brasileiro que permite alianças sem absolutamente qualquer ideologia, mas especialmente o PT e sua política totalmente nonsense de alianças. Ou melhor, há um sentido, o do puro e simples poder, custe o que custar.
Não surpreende, por exemplo, os ataques de petistas à candidatura de Russomano que, aliado da Universal e da Record, é também aliado do governo federal (ele, a Record e a Universal). E, novamente, não surpreenderá a ninguém que, ganhando o PT ou o PRB, ambos estarão no governo da cidade de São Paulo - assim como provavelmente o PR que, hoje, apoia Serra e o PSD, do ex-neo-companheiro Kassab.

É possível que a Marta seja uma boa ministra? Sim. Mas é impossível que um homofóbico fundamentalista como o Rodrigues seja um bom senador. E, hoje, é (parece) impossível  ter esperanças na política brasileira.

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Atualização: Aparentemente o Rodrigues não assumirá a vaga no Senado. Felizmente. Por pior que seja sua ideologia, ao menos preferiu responder a seus eleitores que deixá-los por outro cargo.
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quinta-feira, 29 de março de 2012

Onde estão os cristãos para condenar o estupro de crianças referendado pelo STJ?

O STJ absolveu um homem acusado de estuprar uma criança, uma menina de 12 anos (na verdade, mais de uma criança).

A desculpa? Ela seria prostituta, ou seja, vendeu seu corpo aos 12 anos. A justiça (sic) não viu problema nem na idade da criança e nem no fato dela se prostituir. Ela se prostituiu e ponto, fez por livre e espontânea vontade e está certo usar de seu corpo infantil e pagar pro isso.

Sem pagar não pode, é crime (a legislação brasileira considera estupro o sexo com menores de 14 anos), mas se a criança "escolher" se vender... Aí pode!
O Superior Tribunal de Justiça (STJ) divulgou nesta terça-feira a absolvição de um homem acusado de estuprar três meninas de 12 anos. Segundo a relatora do caso, ministra Maria Thereza de Assis Moura, não se pode considerar crime o ato que não viola o bem jurídico tutelado - no caso, a liberdade sexual - porque as meninas se prostituíam na época dos supostos crimes.
Uma decisão surpreendente e grotesca (surpreendente pela canalhice dos juízes ser tão explícita, e não em si por defenderem tal absurdo, dessa "justiça" não espero nada), reparem nas palavras da relatora "[...]as vítimas, à época dos fatos, lamentavelmente, já estavam longe de serem inocentes, ingênuas, inconscientes e desinformadas a respeito do sexo.".

A juíza Maria Thereza de Assis Moura ainda acrescenta que o direito não deve ser estático, logo, que se hoje menores de 14 anos transarem é algo "normal", então também deve ser se prostituir. Ou seja, em momento algum se coloca em questão a vulnerabilidade de uma criança se vendendo, nem o que a levou a tal situação, nem os fatores sociais ou mesmo psicológicos da vítima - que não é vítima, disse a juíza. O estuprador, homem feito e consciente de suas ações, nada sofre. Na verdade tem referendado seu "direito" a estuprar prostitutas-mirins.

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segunda-feira, 26 de março de 2012

Neonazis na Sé: Pró-Vida, a deles.

Vocês não acham engraçado e curioso como todo defensor da vida (sic) - cristãos fanáticos em sua maioria - também defendem pena de morte, "direitos humanos para humanos direitos", porte de armas e afins?

E não conseguem notara menor contradição naquilo que pregam - bem, acreditam em Adão e Eva e que Maria não pulou a cerca, então a gente aceita qualquer coisa.

A Vice publicou uma pequena matéria recheada de fotos de uma manifestação de extrem-adireita "pró-vida", contra o aborto e provavelmente contra a democracia, pela imposição de uma teocracia neonazi no país.  E não digo "neonazi" por brincadeira.

A matéria, inclusive, linka um post meu quando cobri a manifestação dos neonazis, fascistas, integralistas e mais toda a corja da minúscula, mas barulhenta extremíssima direita paulista e qaula não foi minha surpresa ao encontrar dois "velhos amigos" em fotos de ambas as manifestações!

Reparem nestas duas fotos da Vice:
Agora reparem nesta foto que eu tirei no protesto dos neonazis:
O rapaz simpático da segnda foto da Vice é, claramente, o mesmo que segura o cartaz extremamente cristão contra os direitos humanos (coitados dos cristãos de verdade, claro, e não estes fundamentalistas acéfalos). Seu nome é Eduardo Thomaz do grupo neonazi Ultra Defesa.

Já o neonazi pimpão da primeira foto da vice, com boné do UFC e uma tatuagem na cabeça onde se lê "Oi", estilo de música adorada pelos neonazi (mas não só, Garotos Podres é uma banda Oi e são comunistas), e a cruz nas mãos, é o camarada de paletó e barbinha, atrás do colega de mochila.

Sim, como eu sei disso? Por esse vídeo que publiquei no Vimeo e que fez algum sucesso. Não produzi o vídeo que, porém, contém vários vídeos que eu fiz no dia. Dêem uma olhada no minuto 03:35 momentos mágicos do Thomaz e no minuto 4:50 você vê a tatuagem da mão do rapaz de boné, possivelmente irmão do Thomaz e logo depois a tatuagem em sua cabeça. Vejam o vídeo:


Aliás, gravei também um vídeo do simpático neonazi Thomaz falando sobre o que mais gosta: Direitos Humanos:


Gente da melhor estirpe, todos cristãos, defensores da "vida" - desde que eles decidam qual vida. Amigos e adoradores de Bolsonaro e da mais extremíssima direita paulista.  Suas bandeiras são o uso de violência contrat todo grupo que discorde deles - ou mesmo que concorde, afinal, eles odeiam a tudo e todos em seu supremacismo estúpido.

O triste é verificar a proximidade ideológica destes "manifestantes" com as ações e discurso do governo federal, já que o governo é contra o aborto (que é muito mais pró-vida que estes canalhas, visto que defende a vida da mãe e não de um amontoado de células), é contra os direitos LGBTs e vem se mostrando contrário aos Direitos Humanos (se serve para o "desenvolvimento" a Maria do Rosário não acha que é abuso, né?).

Triste, muito triste.
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