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quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Putin irá abandonar Assad pelas promessas sauditas?

Alguns notaram um "abrandamento" no discurso de Putin em relação a Síria que em poucos dias anunciava que estaria disposto a até atacar os Sauditas caso os EUA atacassem Assad e agora fala que poderia apoiar uma intervenção no país caso fosse provado o uso de armas químicas por parte do regime.

Este artigo [em inglês] que o Guga Chacra passou no Twitter ajuda a entender a aparente mudança.

Sutil, mas ainda assim significante em termos de discurso. E de desdobramentos. Por mais que no geral seu discurso pareça o mesmo - belicoso em defesa da Síria - há alguns pontos para o debate.

Em outras palavras (ou traduzindo e resumindo), os sauditas prometeram colaborar e cooperar com os projetos de gás e petróleo russo na região, garantiram a segurança da base russa na Síria e, mais importante ao meu ver - e também um ponto importante para outros tema e discussões - garantiram a segurança das olimpíadas de inverno de Sochi.

Como?

Controlando as milícias chechenas.
“I can give you a guarantee to protect the Winter Olympics next year. The Chechen groups that threaten the security of the games are controlled by us,”
escrevi diversas vezes sobre o tema, e é notável a mudança no foco da resistência chechena que inicialmente era absolutamente étnica, ou seja, tratava-se de uma minoria lutando pela independência da região tendo por base as diferenças culturas, étnicas e históricas dos chechenos em relação aos russos. Após a Primeira Guerra Chechena o foco foi mudado para uma luta com tons fundamentalistas islâmicos até que, após a Segunda Guerra Chechena a coisa degringolou e hoje fala-se mais em um "Califado do Cáucaso" que em uma República chechena.

Em outras palavras, hoje a resistência chechena é majoritariamente guiada por uma ideologia fundamentalista islâmica. E quem está por trás disso é a Arábia Saudita. É bom notar, no entanto, que ainda há representantes da "ala nacionalista" disputando espaço, porém são hoje minoritários frente a "ala islâmica".

Este é um dado conhecido, mas nunca publicamente declarado pelos Sauditas, que sempre preferiram negar e, por debaixo dos panos, financiar a Al Qaeda e outros grupos jihadistas semelhantes.

Para além da oferta generosa e tentadora à Rússia, fica o final reconhecimento de que quem está por trás da guerrilha chechena - e podemos assumir de outras também - é a Arábia Saudita.

A grande questão neste momento, porém, é entender o que move os sauditas. O mero fato de Assad ser laico e impor dificuldades à proliferação de grupos apoiados por sauditas na região não me parece, sozinho, motivo suficiente para tanta sede ao pote em sua derrubada.

Mas o fato é que a cada dia que passa vemos que o grande ator na região do Oriente Médio não é os EUA ou a Rússia, nem mesmo Israel ou o Irã, mas a Arábia Saudita. Seus interesses estão por trás de boa parte dos últimos acontecimentos relevantes na região, inclusive de intervenções americanas.

E a certeza que fica é: Caso estas propostas convençam Putin, Assad pode estar com os dias contados e, vale notar, hoje ele está vencendo a guerra.

É claro que, no fim das contas, Putin possa estar apenas buscando uma porta de saída para a crise Síria sem se comprometer, afinal provas contundentes de uso de armas químicas seriam um argumento válido politicamente para trocar de aliado(s).
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quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Os EUA irão atacar a Síria?

"I have a dream". Martin Luther King
"I have drones". Barack Obama
Obama está em vias de atacar a Síria. Como Bush, baseado em premissas falsas ou, ao menos, sem informações suficientes para chegar à conclusão que chegou: a de que a síria teria armas de destruição em massa e que as teria usado - no caso, armas químicas - contra a população.

Não há confirmação sequer de que o ataque que custou, diz-se, a vida de ao menos mil pessoas na Síria tenha ocorrido. Algumas fontes apontam para a falsificação de fotos e de dados.

Mas, assumindo a veracidade do ataque, novamente temos um problema: Ninguém sabe a origem. É óbvio que o exército Sírio poderia ter sido responsável, mas tal movimentação teria sido burra. Assad está vencendo a guerra, não teria razões para um ataque que faria a "comunidade internacional" ter argumentos para atacá-lo. Claro, um ditador é sempre um ditador e, como tal, imprevisível.

Por outro lado, tal ataque poderia ter sido realizado pela "resistência", coalhada de membros da Al Qaeda e outros malucos do tipo (além de uma parcela que efetivamente luta por democracia, mas ainda pequena). Shoko Asahara e seu ataque de Sarin ao metrô de Toquio são a prova de que um grupo organizado teria capacidade de um ataque com armas químicas.

E, lembremos, a Al Qaeda e outros grupos não são conhecidos pela compaixão mesmo pelo seu próprio povo ou apoiadores e poderia ter usado armas químicas como forma de culpar a Síria e acelerar uma resposta por parte dos EUA.

E para quem está pensando "os EUA vão novamente se juntar contra a Al Qaeda e depois fingir que não sabiam de nada?", a resposta é "sim". Afeganistão 2.0.

Assim como Bush 2.0 na mentira sobre armas de destruição em massa e Iraque 2.0 na destituição de um ditador sob falsos pretextos.

Ainda que, no caso, os EUA jurem de pé junto que a intenção é "dar uma lição" e não derrubar Assad.

Fiquemos de olho.

O complicador na questão é a Rússia, que alertou que poderá atacar a Arábia Saudita em retaliação. A declaração é possivelmente uma bravata na tentativa de frear Obama, mas ainda assim uma bravata perigosa.

No fim das contas, os EUA estão agindo da única forma que conhecem, com violência insensata, com ignorância, abusando de informações falsas, manipulando a opinião pública e, enfim, fazendo o que querem, como querem e da forma que querem sem se preocupar com mais nada.

A opinião interna dos EUA não suportará outra guerra. Obama prometeu que sairia de lamaçais por onde Bush se embrenhou, prometeu que fecharia Guantánamo e, no fim, pode acabar enfiando os EUA em mais um lamaçal.

E em mais um lamaçal de mentiras e hipocrisia. Em declaração à CNN, Obama declarou que "quem contraria a legislação internacional deve ser punido". Oras, então os EUA deveriam ter sido punidos há décadas. Nunca serão.

E completou: "Os EUA querem impedir que a Síria volte a usar armas químicas...não tomei uma decisão, recebi alternativas das Forças Armadas e tive diversas reuniões com a equipe de Segurança."

Os EUA querem impedir uma vitória de Assad com base em informações falsas ou pelo menos inconclusivas. E farão o que for possível para tanto. É a mensagem.E nada mais que o modus operandi dos EUA desde sempre.

É possível que um ataque dos EUA não culmine com uma invasão/ocupação, mas a situação da Líbia acaba por mostrar que qualquer opção é ruim. Um ataque dos EUA poderia desequilibrar a situação síria, fazendo com que a balança que hoje pende para Assad, mude para dar vantagem aos rebeldes.

É impossível ter certeza se haverá ou não um ataque, mas conhecendo a história dos EUA, é provável.

E uma intervenção teria repercussão por todo o Oriente Médio, em especial se a Rússia cumprir sua ameaça, o que poderia incentivar ainda Israel a se juntar às animosidades, e mesmo complicar a situação interna libanesa e atiçar os ânimos iranianos.

Saddam era odiado, Kadaffi não era amado, mas Assad e a Síria tem posição importante no Oriente Médio e desperta muito mais paixões. Fosse outro país e não os EUA, tal atitude seria considerada puro terrorismo.
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quinta-feira, 14 de junho de 2012

Últimos textos: Vadias, Síria, Impostos e Lula no Ratinho

Escrevi recentemente 4 textos para diferentes blogs e veículos de imprensa que gostaria de compartilhar aqui (trechos) e convido meus leitores avisitarem as páginas linkadas para poder ler todo o conteúdo.

Primeiro, o texto mais antigo deles, publicado na Revista Bula sobre a Marcha das Vadias, feminismo e o papel do homem nisso tudo - "Vadias, putas: E a liberdade da mulher?":
Mulheres ainda recebem menos que os homens e nosso governo não teve a coragem de manter uma proposta igualando os salários por força de lei. E isto porque temos uma presidente mulher, uma presidentA, mas que até agora não deu um passo sequer no caminho dos direitos das mulheres. Pelo contrário, aprovou medida provisória que torna ainda mais complicado o aborto, ao tentar dar direitos a um feto, como se fosse um ser humano, dentre outras medidas.

Enfim, em pleno século 21 mulheres, milhares, são forçadas a sair às ruas e se manifestar pelo simples direito de serem livres. De terem direitos sobre seus corpos, de se vestirem como quiser e de poder decidir suas vidas sem a imposição de um homem, de uma sociedade machista.

A marcha das vadias que aconteceu nos dias 26 e 27 de maio é uma demonstração da crescente insatisfação das mulheres com o tratamento que recebem. Devem seguir um padrão único de beleza, se vestir sempre da forma “correta” para cada momento, ou seja, devem se vestir para serem desejadas quando o homem quiser, quando a mídia ditar, e devem se esconder se fogem do padrão ou em momentos específicos.

Não podem decidir sobre suas vidas, sobre como se vestir, sobre como e quem amar.
O texto seguinte foi publicado pelo blog Amálgama, onde critico o torpe protecionismo brasileiro e a política estilo-ditadura que se avizinha na substituição de importações - "Não é apenas o Preço Justo. São os impostos, o lucro e a má vontade governamental":
Não se trata “apenas” de querer barrar importações ilegais, pois é muito fácil verificar que aquela caixa onde está escrito conter um livro de fato contém um livro e não há sentido em demorar 3 meses para liberá-lo. É uma política deliberada e continuada de Dilma que faz ecos à ditadura, quando tínhamos a famigerada política de substituição de importações.

A diferença é que muito do que vem sendo barrado não é e nem tem a intenção de ser produzido no Brasil. Querendo ou não, existe um Direito do Consumidor que, em tese, tem validade nacional, mas como fazemos para processar o governo por sua ineficiência em um área que alguns vão considerar desimportante frente, por exemplo, ao caos na saúde, educação…?

É pirraça pura.

Além do que, a política da ditadura foi um fracasso, atrasando em décadas o avanço da indústria nacional que, até hoje, tem seu bastião na fabricação de carros – setor onde mais Dilma investe, em detrimento de diversificação da indústria e do transporte público.
Mais recentemente publiquei artigo na página online do jornal Brasil de Fato que é uma atualização de artigo meu anterior sobre o conflito na Síria. Desta vez tento desmistificar a guerrilha midiática onde um lado é sempre msotrado como santo e o outro como bandido sanguinário e que a situação é muito mais profunda que isso - "Síria, uma guerra de propagandas":
A mídia comercial insiste em retratar os insurgentes sírios como um grupo homogêneo de lutadores pela liberdade, ao passo que Assad e toda a “situação” síria, pró-governamental é mostrada como sanguinária e apenas interessada no poder. Esta visão é datada e carregada de interesses.

Os opositores de Assad são vários e nem de longe unificados. Pequenas facções divididas não apenas em cores religiosas, mas também divididas em tribos e clãs e com os mais diversos interesses. A franca maioria dos insurgentes é da maioria sunita, que é marginalizada por Assad, um alauíta, mas também é possível encontrar alguns poucos cristãos junto a eles. Há grupos laicos e militantes islâmicos, grupos com cristãos e grupos anticristãos, além de grupos financiados pelos EUA, outros vindo do Líbano e grupos independentes, enfim, uma salada indigesta sob todos os pontos de vista.

Ao lado do governo luta não apenas o exército, mas a milícia Shabbiha, cuja influência governamental é incerta, e outros grupos menores, especialmente cristãos e drusos.
Por fim, meu último artigo, publicano do Observatório da Imprensa, sobre a visita do Lula ao sensacionalista programa do Ratinho, acompanhado de Haddad, onde discuto a problemática da visita de uma figura emblemática que, por seus próprios esforços, caminha para virar ídolo, ao passo que se vale de um programa vagabundo e apelativo para, também, tentar colar sua imagem, sem qualque noção de ética, ao Haddad - "A propaganda e o mito":
Lula, aos poucos, se torna um mito, uma figura central na política brasileira, como foi Vargas, com a diferença que Lula sabe se manter por cima, vivo, como eminência parda, ao mesmo tempo em que escapa das piores críticas feitas à sua sucessora. O termo “Pai dos Pobres” não cabe mais em Vargas, que ganhou um sucessor.

Ao fazer sua primeira grande aparição, sua primeira grande entrevista pós-câncer em um programa popular ou mesmo popularesco, manda diversas mensagens a seus aliados e inimigos. Aos amigos se mostra forte, atuante, pronto para futuras batalhas, enfim, recuperado. O fato de ter ido a um programa de “variedades” e não a um jornal como o Nacional, da Globo, ou qualquer outro das principais redes de TV, pode ser encarado como um golpe nas grandes redes de TV que insistem em criticar seu legado e também como uma forma de agradar sua militância que, apesar da total ausência de ação ou mesmo vontade do governo (o seu e o atual de Dilma) em regular a mídia, democratizar as comunicações, há esperanças.
Espero que apreciem a leitura.
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terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

A revolta síria pode não ser o que parece?

Enquanto a situação política e mesmo social na síria aparenta cada vez mais piorar, o ocidente e a mídia ocidental - com o perdão de Edward Said - tem se esforçado em pintar o ditador Bashar Al Assad de assassino cruel.

Curioso notar, de início, que o termo “ditador”, usado hoje para designar Assad, começou a ser usado amplamente apenas após o ex-presidente George W Bush incluir a Síria no chamado “Eixo do Mal”. Mesmo assim, a mídia brasileira, em alguns momentos, costumava chamá-lo de “presidente”, mesmo tratamento dado até os derradeiros dias de Hosni Mubarak, no Egito, e outros.

É preciso ter em mente, porém, que Assad não é santo, mas tampouco o lunático sedento de sangue mostrado pela mídia e por seus detratores. A guerra de propaganda está em seu auge.
A Síria é uma região de importância estratégica significativa, não por suas riquezas, poucas em comparação com muitos de seus vizinhos, mas pelas suas fronteiras com regiões de interesse direto dos EUA e, especialmente, por serem grandes financiadores de grupos antagonistas de Israel e dos interesses dos EUA na região, como o Hamas e o Hezbollah.

O governo, assim como Assad, está nas mãos na minoria alauíta, um grupo muçulmano de ritos pouco conhecidos e extremamente fechado, enquanto a maior parte da população é composta por sunitas, mas tem ainda dentro de suas fronteiras consideráveis minorias cristãs, Drusas e Curdas, o que torna a Síria uma espécie de Líbano - ainda - sob controle, mas potencialmente explosivo.

E é do Líbano que muitos "agitadores", como os chamam o governo sírio, vem para ajudar os rebeldes em cidades como Homs, um dos epicentros das revoltas.

Está claro que o início do processo possivelmente revolucionário teve início na cidade de Daara, no sul do país, e é reflexo da insatisfação que a maioria sunita expressa contra um governo que os marginaliza - ou mantém sob controle, dependendo do ponto de vista.

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quinta-feira, 2 de junho de 2011

A mudança na Síria contraria interesse dos EUA e Israel?

Bashar al Assad, ditador da Síria (que para a mídia, mesmo a contra-gosto, era "presidente" há algumas semanas), começou a usar o discurso padrão de ditadores de que é vítima de uma conspiração internacional para tentar derrubá-lo. Em pouco tempo começará a, como Khadafi, acusar a Al Qaeda ou grupos islâmicos radicais. Por enquanto, se contenta em acusar Israel que, apesar de efetivamente não simpatizar com Assad, só teria a perder com sua deposição.

Como os demais países Árabes, a Síria é uma colcha de retalhos de tribos e religiões. Mas as semelhanças mais notáveis são com o Líbano, que vive num equilíbrio tenso entre suas mais de 14 comunidades religiosas diferentes.

Assad pertence à minoria Alauíta - que para muitos muçulmanos sequer poderia ser considerada islâmica -, que se aproxima mais dos Xiitas que da maioria sunita de quase 75% do país. Existem ainda minorias cristãs e Druzas e uma relevante população curda na fronteira nordeste, que é constantemente vítima de massacres.
Os Alauítas, que não passam de 10% da população, governam a Síria há 40 anos, o que enfurece a ampla maioria sunita, excluída dos principais postos e cargos, mas considerar esta revolta como religiosa seria um erro - assim como a revolta no Bahrein, por exemplo, em que os xiitas são a maioria e são oprimidos pela minoria sunita.

Os protestos na Síria vem do descontentamento de importante parcela da sociedade com sua virtual exclusão, quadro que se repete por toda a região. Mas qual a relação disto tudo com Israel?
É fato que, em geral, as revoluções que vem ocorrendo pelo Oriente Médio (com sucesso na Tunísia e no Egito) preocupam Israel, pois caem governos que lhes são favoráveis - ou ao menos neutros - e abre-se a possibilidade de governos menos dispostos a tolerar o massacre de Palestinos e os desmandos do país, que se considera dono ou tutor da região.

Mas, ao contrário do que pode parecer óbvio, a deposição de Assad, que é reconhecido inimigo de Israel, parte do Eixo do Mal dos EUA e suposto financiador do Hezbollah, seria péssima para Israel e para os EUA.

Mas porque?

Por uma questão de conhecer os limites de seu inimigo. Por saber até onde este vai e, no fim, saber que a Síria já deixou de lado muito de seu radicalismo de outrora - por exemplo, há muito que não se fala das colinas de Golã - e, hoje, está mais aberta ao diálogo, apesar de todas as suspeitas.

Os sunitas - prováveis sucessores dos alauítas de Assad - poderiam não só se mostrar opositores mais radicais de Israel, como também poderiam promover um banho de sangue contra o grupo que antes controlava o país, os alauítas - não que este último importe à Israel ou aos EUA.

O equilíbrio étnico na Síria é um fator de preocupação, pois o país, assim como o Líbano, possui sgnificativas minorias Druzas e Cristãs, além de  um grande contingente de Curdos e até mesmo populações originárias do Cáucaso Russo.

É preciso ter em mente o ditado Sírio-Libanês, de que "quando a Síria espirra, o Líbano fica resfriado", ou seja, uma crise na síria poderia ter reflexos significativos no vizinho Líbano.Um desequilíbrio na síria poderia se alastrar pela região e propiciar a tomada de poder de grupos mais radicais que os atuais e menos dispostos a aceitar ordens vindas do exterior.

Se as revoltas em curso nos países árabes já não agradam a Israel, o desequilíbrio de vizinhos imediatos envoltos em conflitos sectários desagrada ainda mais. A incerteza do fim de tais conflitos põe me risco a segurança de Israel e pode ser um fator de desestabilização até maior do que Egito ou Tunísia, ou mesmo a Líbia. Um conflito pelas colinas de Golã ou a pressão sobre a considerável fronteira entre Israel e Síria poderia ter reflexos maiores que a abertura da passagem de Raffah, que liga o Egito à Gaza.

Vizinho do Iraque, a Síria já conta com um largo número de refugiados, especialmente cristãos, da longa ocupação dos EUA no país vizinho. Não se sabe que papel esta comunidade em diáspora poderia ter em um conflito interno Sírio, para onde iriam ou que lado apoiariam. Na fronteira sul, a Jordânia já se encontra a beira de uma crise, com milhares de jovens exigindo mais direitos, além de líderes tribais demonstrando insatisfação com a forma pela qual a monarquia lida com a numerosa população palestina.

Os curdos na síria são um problema à parte, não se sabe qual seria a atitude desta população concentrada na fronteira com a Turquia frente à queda do governo Alauíta, que há décadas os massacra e sequer permite que boa parte de sua grande comunidade tenha acesso à direitos básicos enquanto mesmo a cidadania síria é negada à eles. Um governo sunita, mesmo que árabe, poderia impulsionar o nacionalismo curdo do lado turco da fronteira, como forma de desestabilizar o vizinho maior.

Para os EUA, uma mudança de regime significa trocar o certo pelo incerto. Trocar um governo que, ainda que inimigo, respeita certos limites e costuma tomar medidas dentro de um padrão já conhecido.

A desestabilização de um país como a Síria, com possível repercussão regional, seria nefasto para os EUA, que já vem há muito tentando impor alguma ordem na região e se opôs até o último minuto às mudanças de regime na Tunísia e no Egito.

Mas, obviamente, o discurso esconde os reais interesses. Obama vem há tempos discursando em defesa da liberdade e da democracia (dentro de suas condições, obviamente), mascarando os interesses reais na Síria e nos países vizinhos afetados por revoltas.

Em se tratando de estratégia básica, uma mudança no regime sírio poderia complicar ainda mais a vida dos EUA na região, a não ser que o país tenha a promessa de lideranças locais de que irão se comportar e buscar ser menos conflituosos que o antecessor, caso este caia.

Por enquanto são apenas conjecturas e discursos, de um Obama tentando angariar apoio e simpatia e melhorar sua popularidade, tentando fazer com que suas ações sejam pelo menos remotamente coerentes com seus discursos (e vice-versa).

Artigo publicado originalmente na Brasil de Fato, online.
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sexta-feira, 25 de março de 2011

Sobre discurso e ações, os protestos na Síria

Alguns governos são incapazes de sustentar seus discursos não só frente às evidências, mas também frente a suas próprias atitudes.

Ao assistir uma coletiva de imprensa na BBC sobre os conflitos entre manifestantes e forças policiais na cidade de Deraa - em que mais de 25 podem ter morrido -, a porta-voz do governo anunciava de forma veemente que os manifestantes seriam, na verdade, gangues de marginais financiados por agentes estrangeiros para desestabilizar o governo.

De início, temos o discurso padrão de ditadores Árabes frente à protestos: Países ou agentes estrangeiros (ou mesmo grupos terroristas) financiando grupos para desestabilizar o governo. Um discurso que, mesmo que seja verdade em um ou outro lugar, não tem qualquer credibilidade - especialmente em ditaduras.

Fosse caso Sírio isolado - e toda a região não estivesse em convulsão - até poderíamos tentar acreditar que EUA ou Israel estariam tentando desestabilizar um regime inimigo, mas dificilmente este seria o caso atual.

A desculpa-padrão de ditaduras árabes, porém, é o menor dos problemas. A questão central, no entanto, é a disparidade entre o discurso destes governos e suas ações.

Se tomarmos as palavras da porta-voz como verdadeiras, que se tratam de gangues, logo, criminosos que não representam a vontade da população - pior, representam interesses estrangeiros - porque então o governo aceitou realizar reformas políticas no país?
Syria’s official news agency SANA continues to blame “armed gangs” for attacks against security forces, publishing pictures of weapons and ammunitions purportedly found inside the al-Omari Mosque.
For the news agency “Foreign circles” are to blame for the “lies about the situation in Daraa” (Deraa). In fact, “more than one million SMS were sent from outside Syria, most of which are from Israel inciting Syrians to use the mosques as launch pads for riots.” Likewise, “photographers and journalists in Daraa reported that they have been receiving death threats through SMS messages from abroad warning them against reporting the crimes committed by the criminals of the armed gangs against civilians.”
Oras, se as demandas dos manifestantes, ops, marginais, não representa a vontade do povo, porque então reformas para contentar o povo? Este não está feliz?

Como se vê, o discurso externo, para a imprensa, em meio a todas as ofensas e acusações de fabricação de notícias, de exageiro no número de mortos e etc, é um, mas as ações deste governo e mesmo o discurso para dentro, para a população, é outro completamente diferente.

Apenas em um funeral pelas vítimas da violência policial em Deraa, mais de 20 mil pessoas se reuniram e protestaram. Uma gangue realmente gigantesca!

Assim como as gangues no Egito e na tunísia - que derrubaram o governo - ou os terroristas da Al Qaeda que devem ser contados aos milhões em todo o leste e mesmo em parte do oeste da Líbia! Mais marcante, no caso da Líbia, e que os EUA e aliados estão infringindo até mesmo o disposto na resolução 1973 para ajudar os terroristas da Al Qaeda.

É compreensível este duplo discurso, esta tentativa de falsear a realidade, de esconder os fatos, mas sem dúvida o serviço poderia ser feito com um pouco mais de qualidade e comprometimento.

Isto é ainda mais válido quando representantes do mesmo governo discursam acusando os manifestantes de serem membros de gangue declaram que "As demandas do povo de Deraa estão sob estudo e análise. Elas são justas. Num período próximo testemunharemos decisões em todos os níveis".

Falta de capacidade de mentir ou simplesmente acham que todos comprarão a farsa?

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quarta-feira, 29 de abril de 2009

Líbano e sectarismo pré-eleitoral

É curioso, no Líbano, notar as constantes traições partidárias e sectárias.

Michel Aoun permaneceu no exílio por se opor à Síria, agora é amigo de longa data. Os Drusos se dividem entre famílias tradicionais. O líder aponta para um lado e todos vão atrás, sem grande pensamento crítico.

Ainda existe muito feudalismo, vide Walid Jumblatt, e as posições políticas não são independentes e sim devem seguir Àqueilo que as lideranças ectárias apontam.

Os Cristãos se opõem a um novo censo no país, que demonstraria factualmente que os Muçulmanos, em especial, Xiita,s são maioria, oque acabaria com o balanço acertado anos atrás no País, no qual os Cristãos Maronitas ficaram com o cargo de maior prestígio, a Presidência e os Xiitas apenas com a Presidência do Parlamento.

Do lado do Hizbollah, o Amal, grupo muçulmano Xiita, mantém uma política de aliança bem tensa, em muitos momentos, com o grupo xiita dominante no sul do país.

E a relação entre os diversos grupos, dentro ou fora de suas alianças, é e sempre foi problemática, antes e depois da Guerra Civil que arrasou o país.

O grande problema é: O que fazer?

Por um lado os muçulmanos, especialmente Xiitas, exigem mais poder, por outro, os cristãos não aceitam um novo censo e nem perder poder, o que aconteceria com o censo.

É uma situação complicada em uma sociedade que sempre foi dividida entre grupos religiosos e étnicos, em que as famílias e lideranças sempre foram o principal apoio de todos.

É impensável uma solução em que a representação de grupos sectários tenha um fim, depois da Guerra Civil especialmente, os ódios são muito fortes e a ligação de grupos idem mas é complicado pensar em manter o memso sistema, com ou sem revisão.

O Líbano é uma verdadeira sinuca.

Abaixo um artigo muito bom sobre a situação do Líbano enquanto se aproximam as eleições.

O nó sectário da eleição libanesa

Não existe nenhum grupo religioso majoritário no Líbano. Dentre todas as minorias, segundo estimativas, a maior deve ser a muçulmana xiita, seguida por cristãos maronitas, muçulmanos sunitas, drusos, cristãos grego-ortodoxos e armênios. Insisto no "segundo estimativas", porque, há décadas, não se realiza um censo no território libanês. Os cristãos maronitas, especialmente, sabem que uma pesquisa provaria o que todos já sabem – os cristãos deixaram de ser o mais expressivo grupo libanês.

A forte imigração cristã do fim do começo do século 20 aliada a uma mais elevada taxa de natalidade dos muçulmanos alterou a balança sectária, com o pêndulo se movendo para o lado muçulmano, especialmente o xiita. Mas esta mudança não se refletiu na divisão de poderes. Obrigatoriamente, o presidente do Líbano deve ser um cristão maronita, o premiê tem que ser sunita e o presidente do Parlamento sempre é xiita. O Parlamento e os ministérios também são divididos em linhas sectárias. Até a Guerra Civil (1975-90), o presidente era a figura mais poderosa do Líbano. Hoje, o primeiro-ministro se fortaleceu. Ser governista ou opositor depende de a coalizão apoiar ou não o premiê.

Nas eleições de junho, os libaneses terão que escolher entre duas coalizões. A governista se denomina 14 de Março. É comandada pelos sunitas ligados a Saad Hariri e ao premiê Fuad Siniora. Tem como aliados facções cristãs, como as Forças Libanesas, de Samir Gaegea, um líder miliciano dos tempos da Guerra Civil e que hoje carrega a bandeira de “defesa dos maronitas”. Drusos seguidores do líder feudal Walid Jumblat também integram a aliança. Praticamente não há nomes xiitas relevantes na 14 de Março.

A oposição, chamada de 8 de Março, é liderada pelos xiitas. Tanto do Hezbollah, quanto da Amal. Os principais aliados são os cristãos que seguem o ex-general Michel Aoun. Principal liderança militar da Guerra Civil, Aoun permaneceu no exílio por 15 anos até 2005 devido à sua oposição à Síria. Ironicamente, retornou ao Líbano para se aliar aos sírios. Outros integrantes da coalizão são os sunitas tradicionalmente próximos a Damasco e os drusos que seguem outras famílias, como a Arslan.

A 14 de Março é próxima à Arábia Saudita, Egito, Jordânia e Estados Unidos. A 8 de Março é aliado do Irã e da Síria. Isto é, as duas facções se dividem nas duas linhas da Guerra Fria do Oriente Médio, comentada em post anterior neste blog. Uma vitória da 14 de Março indicaria o fortalecimento do grupo pró-EUA e sauditas. Já uma vitória da 8 de Março provaria a força do Irã e, em parte, da Síria. Em parte porque a Síria não vê nas eleições o futuro de sua força no Líbano. Damasco sabe que, em caso de normalização das relações com os Estados Unidos e um acordo de paz com Israel, poderá ter um sinal verde para voltar a dar as cartas no Líbano, independentemente de quem estiver no poder. Este é justamente o temor da 14 de Março, que pedem garantias ao governo de Barack Obama de que os libaneses não pagarão o preço da paz entre a Síria e Israel. Foi justamente para acalmar os libaneses que Hillary Clinton visitou Beirute nesta semana.

Ao mesmo tempo, apesar de a Síria ser aliada da facção do Hezbollah, na prática a relação entre Damasco e o grupo xiita não é tão boa quanto antes. Desde a morte de Imad Mughniyeh, comandante militar da organização em carro-bomba na capital síria, o Hezbollah passou a enxergar a Síria com suspeita. Em Beirute, especula-se que os sírios estariam por trás da ação.

Independentemente de quem vencer a eleição, o problema libanês persistirá. Até quando o país viverá sob linhas sectárias. E, mais importante, até quando o Hezbollah concordará que os xiitas não possuam os cargos de presidente e de premiê. Se quiser, o grupo toma o poder no Líbano em poucas horas. Hoje, isso não deve acontecer. Mas em alguns anos é bem possível.

O que está claro, atualmente, é o constante declínio da força dos cristãos. Divididos, eles se tornaram coadjuvantes nas coalizões políticas. Hoje, o poder é disputado entre xiitas e sunitas.
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