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sábado, 1 de março de 2014

EUA versus Rússia: O ativismo de sofá e a perdição da Ucrânia

Algo que começa a encher o saco é gente que não entende NADA do que acontece na Ucrânia  querer dar aula ou lição. Pior ainda é quando querem impor uma dicotomia que nos lembra os anos 60, de "imperialismo malvado" dos EUA versus "bom comunismo" da Rússia, levando em conta que Putin é nada além de fascista;

Não, o inimigo do meu inimigo não é meu amigo.

A Rússia tão somente age na Ucrânia para manter sua área de influência e acima de tudo sua importantíssima base militar na Criméia. E, claro, tenta evitar que a Ucrânia entre para a área de influência da UE/EUA, ou ao menos parte dela.

Nada além de jogo de interesses. Realpolitik de potências.

Relembrem o papel da Rússia na Chechênia e no resto do Cáucaso. Se temos um imenso crescimento do fundamentalismo por lá dê graças às políticas russas contra o separatismo local que era originalmente laico e foi se radicalizando à medida que era reprimido e após duas guerras. Mas para defender o "nacionalismo" dentro do seio de nações inimigas a Rússia é uma mãe, vide Abkhazia e Ossétia do Sul. A Geórgia se aproximou do "ocidente", logo, teve de ser castigada.

O mesmo está acontecendo na Ucrânia. Se aproximam do ocidente, logo, é castigada.


É lógico que os EUA e a UE tem interesse e mesmo podem financiar/apoiar alguns grupos revoltosos, mas não nos esqueçamos, este é o argumento de muitos petistas para atacar os protestos nas ruas do Brasil. Argumentos que viraram capa de jornais, aliás. Não acreditem em tudo que lhes chega pelo jornal.

Forçar a escolha entre o imperialismo americano e o imperialismo russo é uma estupidez inominável.

Os EUA são o câncer do mundo, assim como a China o é para os países que vivem em sua órbita ou a Rússia o é para os países em mesma situação. Experimentem defender a Rússia na região Báltica. Ou a China no Tibete, em Taiwan... Não há "Estado bonzinho", há realpolitik e estratégia.

Em tempo, não há sequer consenso sobre o papel e importância de grupos fascistas entre aqueles que derrubaram o governo.

Sobre o papel da extrema-direita nos protestos, recomendo a leitura deste post do Global Voices.

Em tempo 2: Você pode sim "escolher" a Rússia e, do seu sofá, achar que é o melhor pra Ucrânia - assim como pode fazer o mesmo escolhendo os EUA -, pois no fim quem vai sofrer é a Ucrânia, não quem está na frente do computador fazendo as vezes de oráculo da revolução. Se você NÃO entender do assunto, não parou um segundo para ler e entender, só pensa com o fígado ou vive nos anos 60 da Guerra Fria, melhor ficar calado.

Mas, se escolher um lado, esteja preparado para depois defender as consequências. A luta das esquerdas não deve ser contra um imperialismo para que outro assuma e sim contra todas as formas de imperialismo.
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segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Rússia e a condenação da "propaganda do amor gay"

Estava aqui pensando sobre esse papo russo de ser contra a "propaganda do amor gay"... 

É tosco em muitos sentidos, mas deixa eu ver se consigo analisar algo que me inquieta. Se a Rússia falasse que é contra a "propaganda gay" poderíamos até tentar interpretar as coisas. 

Não que fosse aceitável, claro, mas poderíamos ao menos tentar entender (e entender é o primeiro passo para encontrar formas de combater) o que se passa na mente de gente que vê perversão no "comportamento gay", que se incomoda com "atos" como beijos, carícias e mesmo o sexo entre gays.

O discurso de pastores homofóbicos e mesmo da Dilma vão nesse sentido, de não fazer "propaganda de opção sexual", o que equivaleria a não fazer propaganda de comportamentos considerados gays - já se abre um debate sobre quais seriam.

Enfim, a "propaganda gay" abre espaço para muitas interpretações. Algumas delas dialogáveis, outras apenas combatíveis. 

"Propaganda gay" pode ser qualquer coisa. 

Pode ser o incentivo (ilusório, claro) à homossexualidade por parte de ativistas que alguns fanáticos enxergam. Pode ser veicular imagens que levem o público a pensar na homossexualidade como algo atrativo (devemos ter em conta que para o homofóbico médio ninguém nasce gay, mas "se torna" gay)... 

No caso dos fanáticos mais radicais um beijo gay seria tão escandaloso quanto o sexo entre pessoas do mesmo sexo, mas aí já é outro assunto. Uma coisa é, dentro da tal "propaganda gay", você reclamar que não quer ver pessoas afeminadas (gays) ou masculinizadas (lésbicas) na TV, ou não quer ver troca de afetos entre pessoas do mesmo sexo e etc.... 

É ridículo? Sim. Mas é dialogável/combatível porque podemos entender exatamente contra o que estão lutando. 

Quando nos centramos em fatores objetivos, é possível não apenas buscar um diálogo, como também pensar em formas de combater. Quando falamos de fatores subjetivos entramos em um campo mais complicado. Este campo talvez se aproxime da ideia de "propaganda do amor gay".

Quando falamos em "propaganda do AMOR gay" a coisa complica. Tomemos como uma derivação subjetiva (e perigosa) da "propaganda gay".

Gente, os caras não tão "combatendo" algo mais ou menos palpável como imagens que incitem (sic), ou veiculação de discursos e etc, mas estão condenando algo abstrato, o AMOR! 

E isso poderia levar a ações como temos em países africanos, onde SER gay é, em si, um crime. Não se fala de troca de afetos em público, mas da mera potencialidade do indivíduo sentir afeto por alguém do mesmo sexo. 


Além do que, tem coisa mais tosca que você colocar em meio a frases e discursos de ódio que o que você odeia é o... amor? 

O caso recente nos Camarões onde um homem morreu na cadeia por enviar um SMS a outro homem por quem estava apaixonado é um exemplo. Dentro da concepção de "propaganda gay" talvez tal ato não pudesse ser criminalizado, oras, estamos falando de uma troca privada de afeto. Mas dentro da concepção de "propaganda de AMOR gay", temos uma questão. A Rússia chegará a esse ponto?

Não é dialogável, sequer é compreensível. Deve-se repudiar, combater com unhas e dentes e não sobra espaço para mais nada. 

No fim demonstra um grau de estupidez e fanatismo insustentáveis por parte da Rússia e é um perigo, pois é um discurso ainda mais perigoso do que o meramente contra a "propaganda gay", pois agrega um elemento abstrato com muito menos chances de se encontrar saídas.

É óbvio que a linha que separa ações e interpretações é tênue, no fim pode ser apenas um exercício teórico fútil tentar enxergar as diferenças, mas penso ser necessário quando estamos a beira da criminalização de abstrações e não de (supostas) atitudes. Quando mais um país, a Rússia, pode vir a seguir o caminho que diversos países africanos já vem tomando, o de criminalizar a mera existência dos gays baseado também em abstrações.
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quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Putin irá abandonar Assad pelas promessas sauditas?

Alguns notaram um "abrandamento" no discurso de Putin em relação a Síria que em poucos dias anunciava que estaria disposto a até atacar os Sauditas caso os EUA atacassem Assad e agora fala que poderia apoiar uma intervenção no país caso fosse provado o uso de armas químicas por parte do regime.

Este artigo [em inglês] que o Guga Chacra passou no Twitter ajuda a entender a aparente mudança.

Sutil, mas ainda assim significante em termos de discurso. E de desdobramentos. Por mais que no geral seu discurso pareça o mesmo - belicoso em defesa da Síria - há alguns pontos para o debate.

Em outras palavras (ou traduzindo e resumindo), os sauditas prometeram colaborar e cooperar com os projetos de gás e petróleo russo na região, garantiram a segurança da base russa na Síria e, mais importante ao meu ver - e também um ponto importante para outros tema e discussões - garantiram a segurança das olimpíadas de inverno de Sochi.

Como?

Controlando as milícias chechenas.
“I can give you a guarantee to protect the Winter Olympics next year. The Chechen groups that threaten the security of the games are controlled by us,”
Já escrevi diversas vezes sobre o tema, e é notável a mudança no foco da resistência chechena que inicialmente era absolutamente étnica, ou seja, tratava-se de uma minoria lutando pela independência da região tendo por base as diferenças culturas, étnicas e históricas dos chechenos em relação aos russos. Após a Primeira Guerra Chechena o foco foi mudado para uma luta com tons fundamentalistas islâmicos até que, após a Segunda Guerra Chechena a coisa degringolou e hoje fala-se mais em um "Califado do Cáucaso" que em uma República chechena.

Em outras palavras, hoje a resistência chechena é majoritariamente guiada por uma ideologia fundamentalista islâmica. E quem está por trás disso é a Arábia Saudita. É bom notar, no entanto, que ainda há representantes da "ala nacionalista" disputando espaço, porém são hoje minoritários frente a "ala islâmica".

Este é um dado conhecido, mas nunca publicamente declarado pelos Sauditas, que sempre preferiram negar e, por debaixo dos panos, financiar a Al Qaeda e outros grupos jihadistas semelhantes.

Para além da oferta generosa e tentadora à Rússia, fica o final reconhecimento de que quem está por trás da guerrilha chechena - e podemos assumir de outras também - é a Arábia Saudita.

A grande questão neste momento, porém, é entender o que move os sauditas. O mero fato de Assad ser laico e impor dificuldades à proliferação de grupos apoiados por sauditas na região não me parece, sozinho, motivo suficiente para tanta sede ao pote em sua derrubada.

Mas o fato é que a cada dia que passa vemos que o grande ator na região do Oriente Médio não é os EUA ou a Rússia, nem mesmo Israel ou o Irã, mas a Arábia Saudita. Seus interesses estão por trás de boa parte dos últimos acontecimentos relevantes na região, inclusive de intervenções americanas.

E a certeza que fica é: Caso estas propostas convençam Putin, Assad pode estar com os dias contados e, vale notar, hoje ele está vencendo a guerra.

É claro que, no fim das contas, Putin possa estar apenas buscando uma porta de saída para a crise Síria sem se comprometer, afinal provas contundentes de uso de armas químicas seriam um argumento válido politicamente para trocar de aliado(s).
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quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

O Cáucaso Norte e a falência das ideologias e da repressão

Cáucaso Norte, também conhecido como Cáucaso Russo. Nesta região de extrema diversidade étnica convivem as repúblicas da Chechênia, Ingushétia, Daguestão, Karatchaievo-Tcherkássia e Kabardino-Balkária, todas de maioria islâmica, além da Ossétia do Norte, de maioria cristã-ortodoxa. A região é historicamente conflituosa: ossetas e ingushes já entraram em guerra por questões de fronteira (1991, na esteira do fim da URSS), os chechenos já protagonizaram duas guerras sangrentas com os russos (1994-97 e 1999-2000), e o Daguestão vive em constante conflito interno, mas um novo fator de tensão vem surgindo na região.

A resistência à ocupação russa se deu estritamente em bases étnico-linguísticas e na história independente desses povos em relação à Rússia, porém, nos últimos anos, particularmente depois do 11 de setembro e da derrota chechena nas duas guerras contra a Rússia, o terrorismo de viés islâmico, salafista e com suposto apoio da Al-Qaeda, vem crescendo de forma assustadora.

Em meio à resistência e guerrilhas chechenas é possível encontrar um enorme contingente de muçulmanos de países do Golfo engajados na luta pela criação não mais da República Chechena de Ichkeria, islâmica mas moderada, e sim do Califado do Cáucaso, comprimindo todas as repúblicas islâmicas – ou não – da região.

Ao mesmo tempo em que cresce a repressão contra os ativistas de direitos humanos, crescem também os ataques a "autoridades" russas ou cooptadas pela Rússia na região. O caso mais notável foi o ataque à bomba que quase tirou a vida do presidente da Ingushétia, Yunus-Bek Yevkurov, em junho de 2009, mas os ataques e assassinatos continuam e são cada vez mais audaciosos.

A Chechênia e o Daguestão

Desde que assumiu a presidência da República Autônoma da Chechênia (em 2007), indicado por Putin – que havia abolido qualquer tipo de eleição para a presidência de repúblicas autônomas –, Ramzan Kadyrov vem promovendo uma escalada de violência sem precedentes na região. Inegavelmente este homem é um dos maiores responsáveis pelo completo descontrole na região.

Kadyrov, um ex-rebelde que traiu a causa nacionalista e assumiu a presidência após o assassinato de seu pai, presidente – nacionalista – da Chechênia nos anos 1990, é conhecido por sua brutalidade e violência extrema no trato com rebeldes e qualquer um que o afronte ou o desagrade. Ele é tido como responsável por perseguições, torturas e assassinatos diversos, como os das ativistas de direitos humanos Natalya Esterminova, Anna Politkovskaya e do advogado Stanislav Markelov. Um dos episódios mais marcantes da sua trajetória na presidência chechena foi a encomenda do assassinato de seu ex-guarda-costas, Umar Israilov, que vivia no exílio na Áustria e se dedicava a denunciar seu ex-chefe.

Junto com o problema das guerrilhas islâmicas, no Daguestão há ainda a questão do conflito inter-étnico entre as dezenas de minorias que habitam a república, que está longe de ser homogênea. Sob o mesmo teto convivem ávaros, lezgins, kumyks, russos, laks, e mais outra dezena de grupos minoritários, nenhum dos quais tem uma maioria significativa. Além disso, é válido notar que, ao longo da história, estes nunca foram grandes amigos.

O Daguestão é uma república artificial que agregou povos díspares sob uma mesma administração repressiva e um número impressionante de forças de segurança. Já em Kabardino-Balkária e Karatchaievo-Tcherkássia é visível o aumento das ações de grupos islâmicos. A perseguição a clérigos independentes e a ideia de que todo islâmico é um fanático em potencial – ou seja, a promoção de perseguições, prisões, tortura e assassinados de "elementos perigosos" – acabou por criar, de fato, este inimigo em lugares jamais imaginados anteriormente.

A raiz do conflito

Obviamente esta onda de violência e o crescimento do radicalismo islâmico na região possui razões várias. Em primeiro lugar, as sucessivas derrotas (ou o não cumprimento de seus objetivos) das guerrilhas e da resistência local ao longo dos anos 1990. Mas não só, também o fracasso generalizado dos grupos de orientação marxista ou similar por todo o Oriente Médio e proximidades (notadamente na luta Palestina, como Fatah, FPLP etc).

O fracasso dos regimes "pan-arabistas" no período 1960-1980, culminou com o surgimento e crescimento de grupos de caráter islâmico militante como Hizbollah, Hamas e o crescimento acelerado da Irmandade Muçulmana até, enfim, Talibã e Al-Qaeda. Ou seja, a ideia de guerrilha com viés de esquerda, majoritariamente laica, não "funcionou", ou ao menos esta é a visão corrente e propagada.

Em segundo lugar, Txente Rekondo, do Gabinete Basco de Análises Internacionais (GAIN), na página do Rebelion.org em 2009, aponta “o desemprego, a corrupção, a brutalidade policial, todos eles temperados com grandes doses de impunidade, os importantes bolsões de refugiados e deslocados” como “alguns dos fatores locais que fornecem altas doses de desestabilização à situação”.

Juntando estes dois momentos, a falência da ideologia dominante nos anos 1960-1980 e o aumento da repressão em conjunto com problemas estruturais e também advindos dos anos de conflito, temos o campo perfeito para a disseminação de uma ideologia extremista que deturpa os ensinamentos islâmicos e os utiliza como arma de ódio para a criação não de uma república baseada não mais no componente étnico local, mas na religião.

Cabe ainda uma terceira razão ou elemento, reflexo da Guerra ao Terror criada pelos EUA, a globalização/internacionalização dos grupos terroristas com o objetivo de angariar maior apoio, melhorar a logística e conseguir maior visibilidade. Com o surgimento da Al-Qaeda e de grupos de caráter islâmico, a solidariedade e alcance entre eles cresceu de forma assustadora. Se até o começo dos anos 1990 mal se ouvia falar em "terrorismo islâmico" – ainda que por vezes o termo seja absolutamente mal empregado – hoje em dia esta é a única expressão que se ouve.

Para além do perigo real do fanatismo religioso – que não é exclusividade islâmica – existe uma enorme máquina de propaganda, controlada notadamente por Israel e pelos EUA. Em muitos casos torna-se difícil definir o que é exatamente o “terrorismo islâmico” e quando um determinado ataque pode ser caracterizado como “terrorista”.

A internacionalização do que se convencionou chamar de terrorismo, porém, não é nova. Já nos anos 1960-1970 a ETA, a Fração Exército Vermelho (Baader-Meinhof) e outros grupos treinavam lado a lado com grupos palestinos e deles recebiam financiamento. Guerrilheiros brasileiros treinavam em Cuba e assim por diante.

O mito do “terrorismo islâmico”

O que parece novo é a suposta centralidade ideológica ou de ação na Al-Qaeda. Até onde isto é verdade não se sabe, mas as agências de inteligência costumam ligar a Al-Qaeda a quase todo tipo de ação coordenada islâmica. A mera presença de elementos árabes lutando junto à guerrilha islâmica chechena foi suficiente para que a máquina de propaganda russa logo anunciasse que a Al-Qaeda estava presente e que a resposta deveria ser à altura, ou seja, sangrenta. Até onde existe esta influência não se sabe.

O cientista político Robert Pape analisou – por meio das biografias e de entrevistas com familiares –, entre 1982 e 1986, 38 dos 41 "terroristas" suicidas do Hizbollah, um dos bastiões do que chamam de “terrorismo islâmico”. O senso comum diria que todos foram ataques cometidos por "militantes islâmicos" quando, na verdade, apenas 8 eram efetivamente “fundamentalistas” religiosos; 27 eram de grupos de esquerda (logo, não poderiam ser considerados militantes islâmicos) e 3 eram cristãos.

Ou seja, muitas vezes o que se trata por "terrorismo islâmico" é uma deturpação completa. Assim como a ideia de que absolutamente tudo é ação da Al-Qaeda e de supostas ramificações.

Sabe-se que representantes no exílio da República Chechena da Ichkeria estão tentando entrar em acordo com o líder linha-dura dos islâmicos para frear a onda de violência na região. O pior dos cenários, vale sempre lembrar, é de uma luta não só da resistência chechena contra a Rússia, mas entre as facções dos próprios chechenos, entre laicos e islâmicos, o que apenas contribuiria para uma piora na já frágil situação dos direitos humanos na região.

A receita do Kremlin de menos democracia e mais repressão vem demonstrando ser catastrófica. A imposição de Kadyrov ao povo checheno e de Yevkurov na Ingushétia (ainda que no lugar de um carniceiro odiado), não ajudaram a conquistar a população local, muito pelo contrário. Conjugando os fatores históricos e conjunturais já analisados com o crescimento da repressão russa sobre suas minorias, e o assassinato indiscriminado de opositores e ativistas, teremos no Cáucaso uma região prestes a explodir ou, na verdade, já explosiva e incontrolável, por maiores que sejam os esforços russos que, como se sabe, são esforços mal direcionados e desesperados.

Por fim, vale ainda lembrar que a recente intervenção russa na Geórgia (já no Cáucaso Sul) para "libertar" a Ossétia do Sul e Abkházia não contribuiu para acalmar os ânimos da região; na verdade, serviu apenas para demonstrar a hipocrisia da Russa e aumentar ainda mais a força dos ataques e o sentimento nacionalista das minorias.

A única conclusão possível é a de que as políticas russas para o Cáucaso Norte são, no mínimo, ineficazes e, mais ainda, são as grandes responsáveis ou pelo menos uma das responsáveis pelo crescimento do terrorismo dito islâmico na região, da resistência feroz e violenta e da mudança de paradigma da resistência na região.

Artigo publicado na Revista Fórum, número 94, de Janeiro de2011, nas bancas!
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quarta-feira, 21 de julho de 2010

Artigo na Brasil de Fato - Uma visão do conflito no Quirguistão

Os enfrentamentos recentes entre quirguizes e uzbeques dificilmente podem ser resumidos como puramente étnicos
À medida que o tempo passa e a situação no Quirguistão torna-se mais desesperadora para os refugiados e relativamente mais calma na cidade de Osh – principal foco dos enfrentamentos que vem ocorrendo recentemente –, o mito de que o confl ito seja meramente étnico cai por terra, ao menos parcialmente.

As mortes nos confrontos na cidade de Osh, no sul do Quirguistão, vêm depois da deposição do presidente Kurmanbek Bakiev, após uma violenta revolução que levou milhares de pessoas às ruas numa onda de violência avassaladora.

Revoluções e conflitos não são novidades no Quirguistão, que já havia enfrentado outro processo revolucionário em 2005, conhecido como Revolução das Tulipas, que acabou com a deposição do ditador Askar Akayev, no poder desde 1990, e a posse do agora destituído Bakiev.

Luta por poder
Osh, em particular, também foi palco de confl itos sangrentos, quando, em 1990, uzbeques e quirguizes entraram em conflito pelo status político da região; a maioria uzbeque exigia um status especial ou a “devolução” da área ao Uzbequistão.

Mas, agora, o conflito dificilmente pode ser resumido como puramente étnico. É o que diz Mirsulzhan Namazaliev, quirguiz e editor do blog Neweurasia.net. Ele salienta que os “casamentos interétnicos são muito comuns na região do Vale do Fergana”, onde fica Osh, e que “a proximidade entre Uzbequistão, Tadjiquistão e Quirguistão, que ali fazem fronteira, torna a migração algo extremamente simples e corriqueiro”.

Ekaterina Golubina, uzbeque e autora e tradutora do portal de mídia cidadã Global Voices Online, acredita que “ainda que haja, de fato, um embate maior entre membros das etnias uzbeque e quirguiz na região, é provável que o conflito se trate de uma luta por poder entre a elite deposta e a nascente”, ideia compartilhada pelos editores do blog Registan.net, uma das mais fiáveis fontes de informação em inglês sobre a região.

Guerra civil
“Emerge um consenso de que nada disso ocorreu porque dois grupos étnicos não gostam um do outro. Há indícios de que o conflito começou como uma tentativa de desestabilizar o novo governo” [sob o comando de Roza Otunbayeva], dizem eles, que afirmam ainda que a queda do antigo governo quebrou de forma drástica a cuidadosa cadeia de poder no país, em especial no sul – de onde vinha a família de Bakiev. Ou seja, o que vemos é uma competição por poder em que dois grupos antagônicos se degladiam e os uzbeques aproveitam para exigir maiores direitos e liberdades civis, acabando por sofrer as consequências.

Todos concordam que, de fato, existe um perigo de guerra civil no Quirguistão, mas descartam categoricamente um enfrentamento com o Uzbequistão, que tem se limitado a observar, reforçar suas fronteiras e coordenar os esforços para a chegada de, até o momento, mais de 100 mil refugiados do país vizinho.

Mesmo com a certeza da morte de civis uzbeques, o governo desse país dificilmente teria vontade de intervir, de uma forma ou de outra. É o que acredita Namazaliev. Segundo ele, qualquer tipo de intervenção uzbeque seria vista como uma afronta à soberania do Quirguistão, sendo logo rechaçada.

Lições
Os editores do Registan.net lembram ainda que os conflitos em Osh em 1990, dada a magnitude e os mais de 300 mortos, serviram como uma poderosa lição para desencorajar qualquer tipo de hostilidade entre os países. Além disso, o presidente do Uzbequistão, Karim Islamov, teria maiores preocupações, como se manter no poder e solidificar seu governo repressivo, do que efetivamente intervir em assuntos estrangeiros.

A relação entre os dois países, porém, sempre foi tensa, e, normalmente, os acontecimentos em um refletem no outro, como foi o caso da Revolução das Tulipas no Quirguistão, que acabou animando a oposição democrática e liberal uzbeque a sair às ruas e exigir democracia.

Como consequência, entre 300 e mil pessoas foram massacradas na cidade de Andijan (os números até hoje são desconhecidos e nenhuma investigação independente jamais foi feita) e, desde então, o governo tem evitado dar qualquer espaço para contestação ainda que, de acordo com Golubina, o povo também tenha aprendido sua dura lição.

Temores
É unânime a certeza de que a continuação do conflito no Quirguistão traria apenas mais sofrimento à população local e que todo esse processo se deu pela incapacidade do exército local em intervir a tempo e com firmeza.

Namazaliev afirma ainda que o único exército minimamente capaz é o do Uzbequistão, enquanto tanto a polícia quanto as Forças Armadas quirguizes são fracas, mal armadas e em pequeno número, o que talvez explique a ordem dada pela presidente interina de atirar para matar.

O temor é o de que, confrontados com opositores bem armados, as forças de segurança locais não consigam controlar a situação e que o envio massivo de efetivos para o sul tenha deixado o norte – e, consequentemente, a capital do país, Bishkek – desprotegida e livre para a ação dos apoiadores do regime deposto.

Potências
O fim do conflito ainda está por vir. Por hora, espera-se alguma atitude das potências e da ONU, e até mesmo uma ação mais firme da Rússia, para que o conflito chegue ao fim e seja dada uma solução para o retorno dos refugiados.

Golubina acredita que a comunidade internacional não deixará a região se tornar um palco de conflitos semelhante aos vizinhos Afeganistão e Paquistão. Mas, até agora, nenhum esforço internacional foi enviado para a região e apenas a Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) considerou analisar os pedidos de ajuda vindos do país.

Entrementes, a ajuda humanitária continua a chegar, vinda do norte, e uma imensa rede de blogueiros e ativistas foi formada para que a verdade possa ser espalhada e para que sejam minimizados os esforços de contrainformação que tanto facilitam o trabalho dos que ativamente tentam tornar o conflito ainda maior.

Raphael Tsavkko Garcia é bacharel em Relações Internacionais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e mestrando em comunicação pela Faculdade Cásper Líbero

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Publicado originalmente na versão impressa do jornal Brasil de Fato nº 348 de 8-14 de julho e, na versão online dia 19/07/2010.
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quinta-feira, 1 de abril de 2010

Os ataques ao metrô de Moscou, ao Daguestão e a Guerrilha Islâmica

Ao contrário do senso comum e das intenções Russas, os culpados pelas explosões tanto no metrô Russo quanto no Daguestão, que, juntas, vitimaram mais de 50 pessoas - dentre civis inocentes e militares -, não são os radicais comandados por Doku Umarov e seu grupo que propõe a criação de um Califado Islâmico no Cáucaso Norte, nem os moderados que pregam a formação da República da Chechena Ichkeria, comandados por Akhmed Zakayev.

A culpa, sem dúvida alguma, é de Putin. De Putin e de sua política para a região. 


Os problemas locais datam desde a conquista pelos Czares, no século XIX, mas o que vemos hoje é resultado direto da política de confrontação e de alianças com figuras nefastas iniciadas ou ao menos desenvolvidas por Putin.

“É preciso admitir que muitos dos problemas no norte do Cáucaso não estão relacionados nem ao governo de Boris Yeltsin nem ao de Putin”, diz Nikolai Petrov, do Centro Carnegie de Moscou. “Eles têm raízes mais profundas, por exemplo, na forma como o Cáucaso foi subjugado no passado pelos tsares”.
Por outro lado, observa Petrov, há anos o Kremlin não trabalha no sentido de encontrar uma solução fundamental para o conflito e carece de uma estratégia convincente para lidar com o problema. “Foi importante, especialmente para Putin, ser capaz de exibir rapidamente um sucesso no norte do Cáucaso no final do primeiro mandato”, disse Petrov. “Foi por isso que ele se envolveu com o clã Kadyrov”.
Ramzan Kadyrov assumiu o poder depois que o seu pai, Akhmad, que era o presidente da Tchetchênia, foi assassinado. Ele é conhecido por perseguir brutalmente os seus oponentes e é ele próprio suspeito de desejar maior autonomia para a região. Ele sugeriu recentemente que Moscou não deveria enviar forças policiais de outras partes da Rússia para a Tchetchênia, supostamente devido aos custos envolvidos.
Kadyrov, que é odiado tanto pela oposição moderada quanto pelos islamitas, e que é temido pelos ativistas dos direitos humanos, é atualmente um obstáculo para a maior estabilização e pacificação na região, acredita Petrov. O norte do Cáucaso está frágil como nunca, diz ele. “Há muita gente descontente lá, bem como muitas armas e muitos indivíduos que sabem como usar explosivos”.
“Nós esperamos que ataques como esse no metrô de Moscou não aconteçam novamente”, diz Petrov. “Mas essa é uma expectativa meio ingênua”.

 "Mas não foi ele quem colocou as bombas!", dirão alguns. De fato. Mas incitou e tornou a situação insustentável. No meu artigo "O mito da estabilidade no Cáucas Norte", tratei um pouco da situação política regional, expondo as razões pelas quais o "terrorismo" encontrou campo fértil na região marcada por conflitos étnicos ancestrais. 

Conflitos exacerbados pela criação artificial de repúblicas autônomas que, na verdade, acabaram por acirrar ainda mais os ânimos, opondo grupos étnicos que não necessariamente se dão, seja por motivos históricos ou pontuais - caso dos Kabardinos e dos Balkars na República de Kabardino-Balkária ou dos Lezgins com Kumyks e Ávaros no Daguestão.


Mas, sem dúvida, o maior dos problemas atuais seja, acima de tudo, a indicação dos presidentes das repúblicas - e das demais regiões - por parte do presidente, do executivo Russo e não a eleição através de um processo minimamente democrático. Basicamente, é Putin (e seu colega Medvedev) quem indicam o governante dos Chechenos, dos Ingushes, dos Kabardino-Balkares, dos Tártaros e assim por diante. Um sistema antidemocrático que acirra ainda mais os ânimos.
Em Kabardino-Balkária e Karatchaievo-Therkássia é visível o aumento das ações de grupos islâmicos em regiões antes relativamente calmas. A perseguição à clérigos independentes e a idéia de que todo islâmico é um fanático em potencial – ou seja, a promoção de perseguições, prisões, tortura e assassinados de “elementos perigosos” – acaba por criar, de fato, este inimigo em lugares jamais pensados antes.
O caso checheno é emblemático. Ramzan Kadyrov sucedeu seu pai, Akhmat Kadyrov, no governo Checheno. Vemos a criação deu ma dinastia comandada pelos Kadyrov que, dentre outras, são acusados de sequestro, assassinatos, torturas... Ler sobre a Chechênia é ler sobre um buraco negro onde desaparecem ativistas de direitos humanos, opositores... Sem qualquer investigação ou justificativa válida.

É apenas um exemplo, mas pode ser aplicado à Ingushétia, com a indicação de Yunus-Bek Yevkurov, que já foi vítima de um atentado que quase tirou sua vida.

Enfim, estamos falando de movimentos nacionalistas - especialmente no caso Checheno - que lutam há décadas por independência e que, graças à constante repressão, passaram a adotar posições cada vez mais radicais e, nos últimos tempos, tem estado ligados ao fundamentalismo islâmico pela falha - em suas visões - das vias tradicionais de luta. O movimento Checheno nem sempre teve características de "terrorismo islâmico":
Obviamente esta onda de violência e este crescimento do radicalismo islâmico na região não vem de graça, as razões são duas principalmente:
Em primeiro lugar, as sucessivas derrotas (senão a não complitude de seus objetivos e de suas reformas) das guerrilhas e da resistência local ao longo dos anos 90, mas não só, também o fracasso generalizado dos grupos de orientação marxista ou similar por todo o oriente médio e proximidades (notadamente na luta Palestina, como Fatah, FPLP, FDLP, etc), além do fracasso dos regimes “pan-arabistas” ao longo dos anos 60, 70 e 80 que culminaram com o surgimento e crescimento de grupos de caráter islâmico militante, como Hizbollah, Hamas e o crescimento acelerado e proeminência da Irmandade Muçulmana até, enfim, Talibã e Al Qaeda.
É impossível analisar a região separadamente do "mundo islâmico" e também separar a reação das guerrilhas e suas guinadas - em caso geral -  à repressão constante por parte do governo Russo. Acuados, adotam posições mais e mais radicais e vão se afastando das ideologias que "perderam" das "emergentes". É um movimento natural e compreensível. Radicalismo se combate com radicalismo.

Enfim, questão principal deste artigo é apenas demonstrar que os ataques perpetrados no metrô de Moscou e no Daguestão, por mais sangrentos e repreensíveis - ao menos no primeiro caso em que as vítimas e alvos eram basicamente civis - que possam ser, fazem sentido dentro de um quadro maior, quando se analisa a gênese e o desenvolvimento do conflito no Cáucaso.

Os ataques vêem em um período de crescente repressão, não só contra a população da região do Cáucaso, mas contra defensores dos direitos humanos que buscam denunciar os abusos - caso de.... - e também uma maior perseguição de elementos considerados perigosos, de guerrilheiros e líderes regionais.
A única conclusão possível é a de que as políticas Russas para o Cáucaso norte são, no mínimo, ineficazes e, mais ainda, são as grandes responsáveis ou pelo menos uma das responsáveis, pelo crescimento do terrorismo dito islâmico na região, da resistência feroz e violenta e da mudança de paradigma da resistência na região.

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segunda-feira, 29 de março de 2010

O absurdo e o grotesco jornalismo (sic) sensacionalista

Vejam a - terrível e não apropriada para pessoas fracas - imagem que abre a página principal do jornal espanhol El Mundo.

McShuibhne diz tudo:
Eu diria mais, é um atentado contra a humanidade.

Enquanto todo o mundo fica chocado com o atentado que, até o momento, vitimou perto de 40 pessoas no metrô de Moscou, o El Mundo busca fazer um sensacionalismo barato, torpe, ofensivo, com imagens de corpos de vítimas inocentes em flagrente desrespeito não só a elas e à suas famílias, mas também à humanidade.

Desrespeito completo à tudo e todos, uma foto desnecessária de corpos destroçados. Caberia melhor em um circo de horrores e não em um jornal que finge ser sério. Ou fingia, a máscara caiu de vez.
O tuíte do McShuibhne não é à toa, o último post deste jornalista Galego em seu blog é quase uma previsão mórbida do que viria a ser a capa do El Mundo nesta manhã de segunda: "Modelo de negocio o modelo de periodismo?"

Falamos de jornalismo (periodismo) ou apenas de um negócio que deve lucrar, não importa como?

O desrespeito às vítimas e à decência não encontra limites. Não é de hoje que, em geral, o jornalismo, o jornalismo decente e de qualidade, morreu para nunca mais voltar.

Até que horas a imagem grotesca abrirá a página principal do jornal é um mistério. Quando os responsáveis irão se tocar?


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sábado, 19 de dezembro de 2009

EUA e os Direitos Humanos "pragmáticos"

Alguns viram como um avanço, outros - como eu - acham um absurdo o recente discurso de hillary Clinton sobre os Direitos Humanos.

Não confio em Obama, assim como não confio em nenhum democrata, republicano ou qualquer governante dos EUA. A guerra está no sangue e na ideologia dos EUA, o Destino Manifesto, a sanha por conquistas e dominação e não será um rosto bonito e um largo sorriso que irão fazer o mundo ou os EUA deixarem de ser o que são.

Por mais que o tom até tenha sido crítico à Rússia ou China, o que vemos é o velho subterfúgio, a velha desculpa de que "não podemos condenar mas vamos discutir seriamente cara a cara".

Vejam dois trechos de singular importância:
"Às vezes temos mais impacto condenando publicamente a ação de um governo, como o golpe em Honduras ou a violência na Guiné", ela disse em um discurso na Universidade de Georgetown, durante a Semana de Direitos Humanos.

"Outra vezes nós provavelmente seremos de mais ajuda aos oprimidos ao realizarmos duras negociações a portas fechadas, como pressionar a China e a Rússia como parte de uma agenda mais ampla", ela disse. "Em todos os casos, nossa meta será fazer a diferença, não provar um argumento."
O que podemos ler de tal declaração? Simples e direto:

"Para países pobres, periféricos, sem qualquer poder internacional ou sequer regional e sem aliados dignos de nota, como Honduras e Guiné, podemos perfeitamente condenar, ninguém se importa ou se importará. Além do que, não faremos absolutamente nada de efetivo, apenas reclamar, espernear de forma fingida e deixar que tudo transcorra como planejamos deve ser.

Mas, no caso de países com os quais temos intensa relação comercial e de cumplicidade nos abusos dos Direitos Humanos, como China ou Rússia, o fingimento a discussão deve ser a portas fechadas. Nós fingimos que realmente os condenamos ou exigimos respeito aos DH e vocês fingem que acreditam em nós e seremos todos felizes - menos os que são diariamente massacrados."

Em nome da saúde comercial dos EUA a condenação aos crimes cometidos por aliados e cúmplices não pode ser televisionada, apenas escondida com a promessa vaga de que estão sendo seriamente discutidas. Ninguém sabe onde ou por quem. A certeza é a de que não fará qualquer diferença.

Não cabe aqui, vale deixar claro, a desculpa de que uma confrontação direta com Rússia, China ou qualquer outro aliado como Israel, acabaria em prejuízos para a população que sofre abusos - Palestinos, Uigures, Chechenos, Tártaros e etc -, primeiro porque a situação destes dificilmente pode piorar e, segundo, é interessante notar que tal desculpa não serve para países menos relevantes ou até irrelevantes.

Será que por ser menor o povo de Honduras não corre perigo com a pseudo-pressão dos EUA? Ou só na Rússia sabe-se matar?
"O pragmatismo com princípios informa nossa abordagem aos direitos humanos com países como a China e a Rússia"

O silêncio dos EUA tem objetivos claros e todos sabem quais são, dispensa comentários. "Pragmatismo" é sempre para os amigos.
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terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Global Voices - Artigos Traduzidos

Compartilho com os leitores do blog dois novos artigos traduzidos por mim para o Global Voices em português.

O primeiro,"Rússia: Blogueiro Tártaro sentenciado a quase dois anos em Colônia Penal" trata da prisão arbitrária de um blogueiro pelo conteúdo de uma de suas postagens, uma clara afronta à livre manifestação e liberdade de expressão típicas da Rússia de hoje. Já comentei várias vezes sobre a situação das minorias - no caso deste artigo traduzido, dos Tártaros - que são forçadas a verem sua cultura sendo eliminada dia após dia pela máfia de Putin.

O segundo artigo trata de região próxima, do Cazaquistão, onde a população enfrenta problemas semelhantes com a máfia que comanda o país. O artigo Cazaquistão: Grandes luzes da cidade, gerontocracia e Photoshop trata da construção da nova e brilhante capital do país, Astana, e as imensas somas de dinheiro utilizadas com este propósito em detrimento da população local. Um fino exemplo da megalomania de governantes que se sentem deuses.

Boa leitura!=)
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domingo, 2 de agosto de 2009

O Mito da Estabilidade do Cáucaso Norte (Trezentos)

Post originalmente publicado no blog colaborativo Trezentos no dia 29 de julho.

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Esta é minha primeira postagem no Trezentos e este artigo busca ser um complemento ao post de ontem sobre a situação específica da Ingushétia e Chechênia que pode ser encontrado em meu blog neste link.

O post conta também com acréscimos de outro artigo sobre a Rússia de minha autoria, mais especificamente sobre a Máfia que tomou conta da Rússia e que vem sistematicamente assassinando ativistas de direitos humanos.

O título deste post é o mesmo da análise de Txente Rekondo, do Gabinete Basco de Análise Internacional (GAIN) que usei como base para escrever este artigo.

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Cáucaso Norte

Nesta região de extrema diversidade étnica convivem as repúblicas da Chechênia, Ingushétia, Daguestão, Karatchaievo-Tcherkássia e Kabardino-Balkária, todas de maioria islâmica, além da Ossétia do Norte, de maioria Cristã. A região é historicamente conflituosa, Ossetas e Ingushes já entraram em guerra por questões de fronteira, os chechenos já protagonizarma duas guerras sangrentas com os russos, o Daguestão vive em constante conflito étnico mas, nos últimos anos, um novo fator de tensão vem surgindo na região.

Ao longo da história a resistência à ocupação russa se deu estritamente em bases étnico-linguísticas e na história diferenciada e independente desses povos em relação à Rússia mas, nos últimos anos, e em especial depois do 11 de setembro e da derrota chechena nas duas guerras, o terrorismo de viés islâmico, Salafita, vem crescendo de forma assustadora.

Em meio à resistência e guerrilhas chechenas é possível encontrar um enorme contingente de muçulmanos de países do golfo engajados na luta pela criação não mais da República Chechena de Ichkeria, islâmica mas moderada, mas no Califado do Cáucaso.

Ao mesmo tempo em que cresce a repressão contra os ativistas de direitos humanos da região, crescem também os ataques à "autoridades" Russas ou cooptadas pela Rússia na região. O caso mais notável foi o ataque à bomba que quase tirou a vida do presidente da Ingushétia, Yunus-Bek Yevkurov, mas os ataques e assassinatos continuam e são cada vez mais audaciosos.

Até mesmo regiões relativamente calmas - se comparadas à Chechênia, Daguestão e Ingushétia - como a Kabardino-Balkária e Karatchaievo-Therkássia começam a assistir episódios de violência sectária.

Ramzan Kadyrov

Desde que assumiu a presidência da República Chechena, Ramzan Kadyrov vem patrocinando uma escalada de violência sem precedentes na região. Inegavelmente este homem é um dos maiores responsáveis pelo completo descontrole na região. Ramzan Kadyrov, filho de Akhmad Kadyrov, é um ex-rebelde que traiu a causa nacionalista e assumiu a presidência após o assassinato de seu pai, na época o presidente da Chachênia, nomeado por Putin.

Akhmat Kadyrov, pai de Ramzan Kadyrov foi o Mufti da República Chechena de Ichkeria, durante os anos noventa e durante e depois da Primeira Guerra Chechena. Já na época da Segunda Guerra Chechena, Kadyrov pai resolveu mudar de lado e apoiar o governo russo contra seus conterrâneos chechenos até que, em 2003, foi empossado como presidente por Putin, em troca de seus favores - delação, tortura, perseguição e mortes.

Kadyrov filho não é muito diferente de seu pai, também é conhecido por sua brutalidade e violência extrema no trato com rebeldes, pseudo-rebeldes e qualquer um que o afronte ou o desagrade, sendo responsável por perseguições, torturas e assassinatos diversos, como os das ativistas Natalya Esterminova, Anna Politkovskaya e do advogado Stanislav Markelov.

Um dos episódios mais marcantes da trajetória de Kadyrov na presidência Chechena - além do personalismo e brutalidade - foi a encomenda d o assassinato de seu ex-guarda-costas, Umar Israilov, que vivia no exílio na Áustria e se dedicava a denunciar seu ex-chefe. Agentes chechenos foram enviados para matá-lo, nada além de uma simples queima de arquivo.

Para mais informações sobre a situação dos direitos humanos e do assassinato de ativistas, vale uma olhada neste link.

Obviamente esta onda de violência e este crescimento do radicalismo islâmico na região não vem de graça, as razões são duas principalmente:

Em primeiro lugar, as sucessivas derrotas (senão a não complitude de seus objetivos e de suas reformas) das guerrilhas e da resistência local ao longo dos anos 90, mas não só, também o fracasso generalizado dos grupos de orientação marxista ou similar por todo o oriente médio e proximidades (notadamente na luta Palestina, como Fatah, FPLP, FDLP, etc), além do fracasso dos regimes "pan-arabistas" ao longo dos anos 60, 70 e 80 que culminaram com o surgimento e crescimento de grupos de caráter islâmico militante, como Hizbollah, Hamas e o crescimento acelerado e proeminência da Irmandade Muçulmana até, enfim, Talibã e Al Qaeda.

Ou seja, a idéia de guerriha com viés de esquerda, majoritariamente laica, não funcionou, ou ao menos esta é a visão corrente e propagada. Junte à isso as derrotas na própria região dos movimentos nacionalistas, e temos um problema. Se a ideologia fracassou, como voltar a agregar, a unir esforços em prol da independência?

Em segundo lugar o artigo do GAIN dá a deixa:

"El desempleo, la corrupción, la brutalidad policial, aderezado todo ello con grandes dosis de impunidad, las importantes bolsas de refugiados y desplazados son algunos de los factores locales que aportan mayores dosis de desestabilizad a la situación. La sensación entre buena parte de la población de que el ejército y la policía tienen vía libre para cometer todo tipo de atropellos contra la disidencia, empuja a muchos jóvenes a sumarse a los movimientos guerrilleros."

Juntando estes dois elementos, a falência da ideologia dominante os anos 60 aos 80 e o aumento da repressão, em parte pela própria ineficiência dos movimentos nacionalistas, or parte da Rússia, no caso estudado, temos o campo perfeito para a disseminação de uma ideologia extremista que deturpa os ensinamentos islâmicos e o utiliza como arma de ódio para a criação não mais de uma república baseada no componente étnico local, mas na religião, nos mandamentos supostos de deus.

Cabe ainda uma terceira razão ou elemento, a possibilidade de internacionalizar a luta e angariar maior apóio, melhorar a logística e conseguir maior visibilidade. Com o surgimento da Al Qaeda e de grupos de caráter islâmico a solidariedade e alcance entre eles cresceu de forma assustadora; Se até o começo dos anos 90 mal se ouvia falar em "terrorismo islâmico" - ainda que por vezes o termo seja absolutamente mal empregado, usado como arma de propaganda - hoje em dia é basicamente tudo que se houve.

Para além do perigo real do fanatismo religioso - que não é exclusividade islâmica - existe uma enorme máquina de propaganda por trás, controlada notadamente por Israel e pelos EUA.

akhmed-zakayev

Akhmed Zakayev, Primeiro-Ministro da República da Chechênia Ichkeria

Da Rferl chega a notícia de que representantes no exílio da República da Chechênia Ichkeria estão tentando entrar em acordo com o líder linha dura dos islâmicos para frear a onda de violência na região. De um lado o Primeiro Ministro no exílio Akhmed Zakayev e do outro Doku Umarov, líder da resistência mais radical.

Isto demonstra, por A mais B, a situação da região, de enfraquecimento das estruturas laicas tradicionais por uma resistência armada islâmica e radical.

"Zakayev reported at length to the Berlin meeting on the content of his talks with Abdurakhmanov, specific details of which have not been disclosed. The Berlin meeting unanimously endorsed that dialogue as an opportunity to bring to an end the continuing killing of Chechens by fellow Chechens, specifically, members of the die-hard Islamic resistance headed by Doku Umarov and pro-Moscow Chechen Republic police.Expressing concern at the escalation of hostilities in recent months in Chechnya and elsewhere across the North Caucasus, the participants agreed unanimously to issue orders to the resistance units loyal to the ChRI to announce a moratorium on attacks on pro-Moscow Chechen police, and to resort to arms only in self-defense.

Since it is impossible to estimate how many of the resistance fighters currently active in Chechnya take their orders from Zakayev, rather than from Umarov, it is not clear what impact, if any, that decision will have on the ongoing fighting. Indeed, the proposed moratorium plays into Kadyrov's hands insofar as he could argue that any resistance forces that continue to target his men must be Umarov's "bandits," and that he is justified in eliminating them without mercy as he vowed to do two months ago. "

Ainda que sobre assunto completamente diverso, este trecho de uma antiga postagem minha ilustra bem como funciona a máquina de propaganda contra um suposto "terrorismo islâmico" que, por vezes, não corresponde nem ao começo da verdade:

"Acabei de encontrar o artigo que trata sobre o assunto dos três últimos parágrafos. O autor em questão é Robert Pape que analisou - através das biografias e de entrevistas com familiares dos suicidas -, entre 1982 e 1986, 38 dos 41 "terroristas" suicidas do Hizbollah.

Qualquer jornalista formado (desculpem a generalização) , diria que foram todos ataques cometidos por "militantes islâmicos" quando, na verdade, apenas 8 eram fundamentalistas islâmicos, 27 eram de grupos de Esquerda (logo, não poderiam ser encarados como militantes islâmicos) e 3 eram, vejam só, cristãos!"

Ou seja, muitas vezes o que se trata por "terrorismo islâmico" é uma deturpação completa da verdade.

Mas, voltando ao Cáucaso, é fato notar o crescimento da tensão na região, quase de forma insustentável. A receita do Kremlin de menos democracia e mais repressão vem demonstrando ser catastrófica. A imposição de Kadyrov ao povo Checheno, um notório traidor do povo, e de Yevkurov na Ingushétia, um general Russo (ainda que ele próprio Ingushe e no lugar de um carniceiro odiado) não ajudaram a conquistar a população local, muito pelo contrário, só reafirmou que o Kremlin, em consequência, Putin e Medvedev, não tem qualquer compromisso com a democracia e não respeita o direito de escolha das minorias.

Não só isto é uma verdade, como ficou irrefutavelmente comprovada com a nova política educacional russa de acabar com a autonomia das repúblicas no ensino de suas línguas, cultura e história. Agora, apenas o Russo será usado e qualquer resquício de cultura tradicional das minorias será vetado.

Se juntarmos o fracasso da guerrilha tradicional, o crescimento da solidariedade e da influência dos movimentos islâmicos pelo mundo afora, a imposição e brutalidade Russas, a supressão de qualquer direito, seja educacional, seja cultura, para as minorias e, por fim, a violência com que são recebidos os ativistas de direitos humanos no país, tornam o Cáucaso uma região prestes a explodir ou, na verdade, já explosiva e incontrolável, por maiores que sejam os esforços russos e, como se sabe, são esforços mal direcionados, desesperados e burros.

No caso específico checheno notamos, porém, uma grande autonomia por parte do governo local, comandando pelo carniceiro Kadyrov, mas esta autonomia é utilizada como passe livre para repressão, perseguições, tortura e violência extrema, tudo sob os olhos atentos e coniventes do Kremlin.

ethnicMap

No Daguestão, junto com o problema das guerrilhas islâmicas temos ainda a questão do conflito interétnico entre as dezenas de minorias que habitam a república que não é, nem de longe, homogênea.

Sob o mesmo teto convivem Ávaros (a frágil maioria), Lezgins, Kumyks, Russos, Laks, Tabasarans, Azeris e mais outras dezenas de grupos minoritários, nenhuma delas tendo uma maioria significativa ou sequer tendo 1 milhão de membros. Além disso é válido notar que estes nunca foram, ao longo da história, melhores amigos. O Daguestão é uma república extremamente artificial que agregou povos díspares sob uma mesma administração repressiva e um número impressionante de forças de segurança.

Em Kabardino-Balkária e Karatchaievo-Therkássia é visível o aumento das ações de grupos islâmicos em regiões antes relativamente calmas. A perseguição à clérigos independentes e a idéia de que todo islâmico é um fanático em potencial - ou seja, a promoção de perseguições, prisões, tortura e assassinados de "elementos perigosos" - acaba por criar, de fato, este inimigo em lugares jamais pensados antes.

Por fim, vale ainda lembrar que a recente intervenção Russa na Geórgia para "libertar" a Ossétia do Sul e Abkházia não contribuiu para acalmar os ânimos nacionalistas no Cáucaso Norte, na verdade, serviu apenas para demonstrar a hipocrisia Russa - pimenta nas repúblicas autônomas dos outros é refresco - e aumentar ainda mais a força dos ataques e o sentimento nacionalista das minorias, chegando até a ultrapassar o âmbito do Cáucaso.

A única conclusão possível é a de que as políticas Russas para o Cáucaso norte são, no mínimo, ineficazes e, mais ainda, são as grandes responsáveis ou pelo menos uma das responsáveis, pelo crescimento do terrorismo dito islâmico na região, da resistência feroz e violenta e da mudança de paradigma da resistência na região.

Post original: Trezentos

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quarta-feira, 29 de julho de 2009

O Mito da estabilidade do Cáucaso Norte

"Uma breve análise sobre a gênese e os desdobramentos atuais do conflito no Cáucaso Norte com ênfase na situação Chechena e Ingushe. Desrespeito aos direitos humanos e abusos são constantes numa das regiões mais conflituosas do mundo. O artigo busca ainda analisar o fenômeno do chamado “terrorismo islâmico” na região que veio a substituir ou pelo menos concorrer com os antigos movimentos nacionalistas."
Para o post completo, visitem o blog Trezentos!
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terça-feira, 28 de julho de 2009

Ingushetia, Chechênia e a Rússia atual

Este post deveria ter sido publicado há muito tempo mas continua atual, logo, ainda cabe sua publicação.

Serve, enfim, como introdução ao meu primeiro post no blog Trezentos, amanhã, sobre a situação do Cáucaso Norte como um todo em tempos de conflitos, insurgência islâmica em detrimento do antigo movimento nacionalista de cunho étnico das décadas passadas e repressão.

Este post, por outro lado, trata da troca de governante na Rep. Aut. da Ingushétia, saiu Zyazikov, entrou Yevkurov, ha coisa de 3-4 meses e da escalada de violência na região. Trata ainda da repressão contra a população Chechena comandada por Kadyrov e aplaudida pelo Kremlin.

A parte que ainda permanece relevante toca na sensível questão da falta de democracia nas Repúblicas Autônomas. Putin aboliu o processo de eleição direta para os governantes passando ele - e agora Medvedev - a indicar algum de seus protegidos para os cargos mais altos das repúblicas autônomas.

O que se vê é um movimento pensado e calculado para neutralizar e esmagar qualquer foco não só de resistência mas também tentar sufocar o sentimento nacional das minorias e destruir suprimir suas culturas, línguas e costumes.

O primeiro passo foi o fim das eleições diretas e a indicação vinda do Kremlin, o segundo passo a abolição do direito das repúblicas legislarem sobre seu sistema educacional, impondo o fim do ensino das línguas minoritárias, da cultura e da história dos povos não-Russos.

Em meio à tudo isso, constante repressão e perseguição, intimidação e assassinato de lideranças dos Movimentos Sociais, Sindicatos e de grupos de Direitos Humanos.
-------------------------Não é surpresa que a Ingushétia tenha chegado até o atual nível. Mafiosos colocados por Putin no poder tomaram conta tanto da Ingushétia quanto da vizinha Chechênia.

Agora Putin (ou Medvedev, na verdade não faz diferença) resolveu trocar o governador da Ingushetia, entra o coronel e herói Russo-Ingushe Yunus-Bek Yevkurov e sai o impopular Murat Zyazikov, depois deste ter sido acusado de ser o mandante do assassinato nas mãos da polícia local do repórter opositor Magomed Yevloyev, culminando com diversos protestos contra o governante.

Vale lembrar que, na Rússia, não existem mais eleições diretas para governador, desde que Putin, em 2004, as aboliu. Uma tentativa absurda de centralização do poder e diminuição da autonomia das mais diversas regiões e Repúblicas Autônomas que compõem o país.

Putin e sua máfia, obviamente, tomaram o poder de assalto. Não encontram qualquer resistência em nível federal e agora tampouco em nível regional.

Resistência meramente política, obviamente, apenas em "termos eleitorais", porque se conseguirem até certo ponto "pacificar" a Chechênia, colocando um verdadeiro genocida no poder que passou a eliminar de todas as formas possíveis a resistência Islâmica e não-Islâmica, o mesmo não aconteceu com a Ingushetia.

Por "pacificar" compreendam o óbvio, Kadyrov, presidente da Chechênia iniciou uma era de terror, de perseguições e repressão brutal e até certo ponto conseguiu diminuir a efetividade da resistência ao aplicar uma política de constantes abusos dos direitos humanos, invasões em casas durante a noite, tortura, intimidação e ataques frontais e orquestrados contra qualquer insurgente ou indivíduo que pareça insurgente - ou seja denunciado como tal, em um Estado-policial dominado pelo denuncismo e medo.

Na verdade, os "terroristas" apenas mudaram sua base de operações e contaram com a adesão de centenas de Ingushes insatisfeitos com sua situação de pobreza, exclusão e situação de opressão frente aos Russos.

Os Ingushes são parentes muito próximos dos Chechenos, é de se esperar um mínimo de solidariedade com a luta dos vizinhos. Soma-se a isso o desemprego e desilusão além da pobreza extrema da população e, por fim (em teoria, pois é difícil saber se este fator alimenta de forma decisiva ódio contra os russos) há o conflito latente entre Ingushes e Ossetas que remonta o séc. XIX, onde os primeiros se acham desprivilegiados pelos russos contra o segundo grupo, culminando com a anexação por parte da Ossétia do Norte de uma boa porção do território Ingushe ao longo dos anos.

O quadro para o surgimento e fortalecimento de grupos que pegam em armas contra o governo Ingushe e Russo é mais que propício.

Dentre os muçulmanos, especialmente após o fracasso dos projetos nacionalistas de cunho Socialista ou Pan-Arabista dos anos 60-80, houve um fortalecimento tremendo da religião como política, como arma e na Ingushétia e região do Cáucaso, de maioria Muçulmana, não seria diferente.

A resistência, dita terrorista, dos grupos minoritários à falta de democracia, condições de trabalho e vida e etc parece a única opção e não há como negar, em primeira vista, essa opção.

A única solução encontrada pelos governos, Ingushe, Russo e Checheno, é a franca repressão, as torturas nos porões das forças de "segurança" e a opressão ainda maior das minorias...

Até quando este cenário durará?

Dificil saber mas Putin e seu cãozinho Medveded, pelo jeito, esperam manter o povo Russo e demais minorias na coleira a todo custo. Jornais independentes são raridades, redes de TV independentes ou rádios livres são duramente censurados e a maioria obrigada a fechar e repórteres com o mínimo de isenção, como Yevloyev, Politkovskaia e etc são mortos sob circunstâncias "suspeitas", para dizer o mínimo, ainda que todos saibam os rais mandantes e as razões.

Por mais que seja visível uma melhora nas condições econômicas e sociais de uma boa parte da Rússia, em especial na região oeste, próxima às grandes cidades de Moscou e São Petersburgo e também nas regiões industriais dos Montes Urais, a atual crise mundial vem minando esse crescimento, o desemprego começa a ameaçar a indústria, várias cidades do interior russo começam a ver suas populações minguarem, o alcoolismo ainda é endêmico e não dá mostras de ceder e no Cáucaso a solução é a mais "simples": Oprimir, perseguir, censurar e, não dando certo, matar.
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sábado, 18 de julho de 2009

A Máfia Russa: Putin, Medvedev e Kadyrov

"Who's Next?"

"No speeches were delivered at the ceremony, which was attended by about 100 people. Estemirova's photo was posted at a monument to killed journalists and a banner reading "Who's Next?" was put up."
A onda de assassinatos patrocinados/comandados pelo presidente checheno Ramzan Kadyrov parece não ter fim. Desta vez, porém, o cinismo do sujeito beirou o absurdo e o inaceitável.

Vamos aos fatos.

A ativista de direitos humanos da ONG Memorial, Natalya Estemirova, foi abatida à tiros por "desconhecidos" depois de ter sido sequestrada na Chechênia e ter seu corpo deixado ("desovado", em linguagem comum) na vizinha Ingushétia.

Esterminova investigava exatamente os sequestros e desaparecimentos de civis e ativistas na República da Chechênia para a ONG Memorial e, sem dúvida, seu trabalho era perigoso para o senhor da guerra - depois empossado presidente por Putin - Kadyrov, o grande responsável pela onda de terror, sequestros, assassinatos e desaparecimentos que assolam a região.

Curiosamente Esterminova já havia trabalhado com outros dois ativistas e jornalistas assassinados pelo teor "perigoso" de seus trabalhos, Anna Politkovskaya e Stanislav Markelov.

Para iniciar a onda de cinismo, a porta-voz de Medvedev anunciou que seu patrão estava ultrajado e que os investigadores deveriam fazer de tudo para descobrir os culpados. Mas, bem, todos sabem o nome do culpado: Ramzan Kadyrov. E, como cúmplices, Putin e Medvedev.

A onda de assassinatos seletivos de ativistas de direitos humanos na Rússia, em especial no Cáucaso, não parece ter fim e nenhum dos culpados jamais foi pego, nem os mandantes - que todos conhecem - nem os executores, em alguns casos, a própria polícia, como no assassinato do jornalista Magomed Yevloyev, morto por um tiro "acidental" dentro de uma viatura da polícia na Ingushétia, como eu já mostrei neste blog.

Yevloyev mantinha um website crítico à quase-ditadura de Putin e seu mico amestrado Medveded, uma verdadeira máfia no poder central russo, e, em especial, contra o então presidente Ingushe, Murat Zyazikov, o provável mandante de seu assassinato - depois substituído por Yunus-Bek Yevkurov, recentemente ferido por insurgentes muçulmanos.

Politkovskaya, repórter investigativa e altamente crítica ao Kremlin e à Kadyrov, foi assassinada à tiros no elevador de seu prédio em Moscou. O mandante? Provavelmente Kadyrov, que já a havia ameaçado mais de uma vez.

Markelov, ativista de direitos humanos, foi assassinado a p oucos metros do Kremlin, ao sair de uma conferência, junto com ele foi assassinada também Anastasia Baburova, repórter do Novaya Gazeta que corria em seu socorro e foi pega na emboscada. Markelov era o advogado da família de Elza Kungaeva, uma jovem chechena morta por pelo coronel Russo Yuri Budanov, condenado pelo assassinato mas solto 15 meses antes de cumprir a sentença.

Como se vê, a máfia russa chefiada por Putin e seu cãozinho Medvedev, ajuda os amigos.

Vale notar, porém, a ligação de todas as vítimas assassinadas com a Chechênia ou a Ingushétia, direta ou indiretamente, enfim, a ligação com Razman Kadyrov, o carniceiro do Cáucaso.

Graças às ameaças e ao assassinato de Esterminova, a ONG Memorial foi forçada a encerrar suas atividades no Cáucaso pela completa falta de segurança.
"We cannot take the risk anymore because our work [in Chechnya] has become life-threatening," Alexander Cherkasov, member of the group's executive committee, said in an interview on Ekho Moskvy radio s tation.
Até agora são ao menos 4 mortes de ativistas diretamente ligados ào Cáucaso e à repressão e abusos constantes na região. Politkovskaya, Esterminova, Yevloyev e Markelov, todos assassinados à mando da máfia Russa comandada por Putin e Medvedev e tendo como um de seus principais executores, o filho do traidor checheno, Kadyrov.

Akhmat Kadyrov, pai de Ramzan Kadyrov foi o Mufti da República Chechena de Ichkeria, durante os anos noventa e durante e depois da Primeira Guerra Chechena. Já na época da Segunda Guerra Chechena, Kadyrov pai resolveu mudar de lado e apoiar o governo russo contra seus conterrâneos chechenos até que, em 2003, foi empossado como presidente por Putin, em troca de seus favores - delação, tortura, perseguição e mortes. Pai traidor, filho traidor.

"I know, I am certain who is to blame for the murder of Natasha Estemirova. We all know this person. His name is Ramzan Kadyrov, the president of the Chechen Republic." Oleg Orlov.
Oleg Orlov, diretor da ONG Memorial, acusou diretamente Ramza Kadyrov de ser o mandante do assassinato de Esterminova e acrescentou que Kadyrov já havia ameaçado Esterminova no passado a alertando para parar de trabalhar na Chechênia.
Oleg Orlov, the director of the human rights organisation Memorial, claimed Kadyrov made the threat during a meeting just months before her death. He said the president's aides had explicitly warned her to stop her work in Chechnya.

"I know who is guilty of Natalia's murder. His name is Ramzan Kadyrov," Orlov said in a statement posted today on Memorial's website. "Ramzan already threatened Natalia, insulted her, considered her a personal enemy. He has made it impossible for rights activists to work in Chechnya," he said.

Pela frontal acusação Orlov foi ameaçado de processo por parte do assassino Kadyrov que, quando acusado, saiu com a frase "I don't kill women". Uma declaração à altura de um assassino frio e bárbaro. Não mata mulheres, ele diz, mas deixa transparecer que nada tem contra matar e torturar homens e jovens chechenos, como é seu costume.
"I have no doubt that behind the murder of Estemirova stand people subordinate to Ramzan Kadyrov, who indulge in murders, violence, and unlawfulness on Russian territory, and also outside Russia," Oleg Orlov.
Kadyrov, em resposta à Orlov afirmou que:

"Você não é nem procurador, nem juiz, e suas afirmações sobre minha culpa não são éticas, mas estranhas", disse Kadryrov, em declarações publicadas em seguida pelo site da presidência chechena.

"Além de presidente da Chechênia, sou pai de sete filhos e filho de uma mulher que perdeu seu marido na luta contra os terroristas", acrescentou, em alusão a seu pai, Akhmad Kadyrov, presidente checheno morto em atentado em 2004.

"Você tem que pensar nos meus direitos antes de falar para o mundo inteiro que sou culpado da morte de Estemirova", prosseguiu.

"Os chechenos não fazem acertos de contas, sobretudo com mulheres. Penso que as pessoas que a mataram queriam sujar o nome de Kadyrov. Não mato mulheres, nunca matei mulheres", garantiu ainda o presidente checheno.

A culpa de Kadyrov dificilmente será comprovada, assim como a de Putin, Medvedev ou de outros elementos da máfia russa que tomou o poder da República e resta aos ativistas e minorias apenas esperar pelo próximo assassinato, pelo próximo desaparecimento e pelos próximos abusus que jamais serão esclarecidos.

Vale lembrar, por fim, de Umar Israilov, ex-guarda-costas de Kadyrov, assassinado no exílio (Áustria) por agentes enviados pelo presidente checheno.
"In late 2006, Mr. Israilov filed a complaint against Russia in the European Court of Human Rights that detailed his claims of the systematic use of abductions and torture by Mr. Kadyrov, and indigenous security forces under Mr. Kadyrov’s command, to punish suspected insurgents and their families.

The complaint covered events from 2003 through 2005, when Mr. Kadyrov led a state-sponsored militia and became the republic’s deputy prime minister. It included Mr. Israilov’s experiences as one of Mr. Kadyrov’s victims and later as a witness to what he said were Mr. Kadyrov’s crimes against others."
O site de inteligência Stratfor traz uma lista ainda maior de ativistas e empresários assassinados à mando de Kadyrov, Putin e Medvedev:
  • Paul Klebnikov, July 2004. The editor of Forbes’ Russian edition, Klebnikov was shot dead in Moscow as he was heading into a subway station. The driver of a stolen car that pulled out of a parking lot and drove toward Klebnikov fired four shots before fleeing the scene.
  • Anna Politkovskaya, October 2006. A prominent journalist and critic of the Kremlin, Politkovskaya was in the process of publishing a series condemning the government’s policy in Chechnya. She was shot in the head in her apartment building.
  • Alexander Litvinenko, November 2006. Litvinenko was a former KGB agent who had defected to the United Kingdom and published books on the internal workings of Putin’s FSB networks, and he was critical of the new Russian state. He was poisoned with radioactive polonium-210.
  • Ivan Safronov, March 2007. Safronov was a journalist who criticized the state of the Russian military and was accused of leaking military affairs to foreign parties. He allegedly committed suicide by jumping from the fifth floor of his apartment building, though some reports say a person behind him forced him out of the building.
  • Oleg Zhukovsky, December 2007. Zhukovsky was an executive of the VTB bank, which at the time of his death was being taken over by the state so the Kremlin could handpick its senior officers to oversee many strategic state accounts. Zhukovsky allegedly performed the feat of committing suicide by being tied to a chair and thrown into his swimming pool, where he drowned.
  • Arkady Patarkatsishvili, February 2008. A wealthy Georgian-Russian businessman, Patarkatsishvili was extensively involved in Georgian politics. Patarkatsishvili died in the United Kingdom of coronary complications that resembled a heart attack. His family and many in Georgia have accused the FSB of involvement, however, saying the FSB has many untraceable poisons at its disposal.
  • Leonid Rozhetskin, March 2008. Rozhetskin was an international financier and lawyer who held stakes in strategic companies, like mobile phone giant MegaFon. He disappeared while in Latvia after losing Kremlin backing by selling his assets to multiple parties, including some government ministers who are former FSB agents.
  • Ruslan Yamadayev, September 2008. Yamadayev was a Chechen military leader and former member of the State Duma. He was shot in his Mercedes as it was stopped at a red light near the Kremlin in Moscow.
  • Stanislav Markelov, January 2009. A prominent Russian lawyer who had prosecuted an army colonel convicted of murdering a Chechen woman, Markelov was shot dead along with a journalist in broad daylight on a Moscow street near the Kremlin. He was also involved in the case of Anna Politkovskaya.
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sábado, 11 de julho de 2009

Pelo mundo das minorias (Euskal Herria, Papua Ocidental e Tatarstão)

Incentivado pelos massacres contra os Uigures, minoria na China, me animei a fazer um giro rápido pelo País Basco, Idonésia e Rússia.

Primeiro, uma excelente notícia, diretamente do País Basco:


Desde o começo do ano o governo Espanhol vem forçando a colocação de bandeiras espanholas nos prédios públicos do País Basco e, numa demonstração suprema de desrespeito pela his´toria e pelo povo Basco, no dia 26 de abril a bandeira Espanhola foi içada ao lado da Ikurriña na Casa de Juntas de Gernika, centro nervoso do nacionalismo Basco, onde se encontra a Árvore de Gernika (Gernikako Arbola).

Não bastasse o desrespeito, a bandeira dos ocupantes foi hasteada apenas dois dias após o aniversário do bombardeio de Gernika, um dos episódios mais negros da história Basca e mundial.


Durante a madrugada de ontem a bandeira espanhola foi jogada no chão e devidamente queimada. Além disso, na entrada do local, foi pichada a inscrição "Gurea Ikurriña" ou "Ikurriña, a nossa".

Um tratamento excepcional ao símbolo dos ocupantes que não respeitam os lugares mais importantes para os Bascos, símbolos de sua nacionalidade e ancestralidade.

Fontes: Abertzale e ASEH.

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Da Rússia, mais especificamente do Tatarstão, vem o pedido desesperado de ajuda por parte do Tatar Public Center em Kazan, capital da República Autônoma, de ajuda ao presidente Barack Obama.

Em uma carta aberta ao presidente dos EUA, os Tártaros pedem que este interceda por eles junto à Dmitry Medvedev para que seja revisada a lei recentemente aprovada pela DUMA na questão da educação nas Repúblicas e regiões autônomas.

Tal lei retira das repúblicas e regiões o direito de ensinar nas escolas a geografia, cultura, história e línguas minoritárias, substituindo por um ensino exclusivo em russo e apenas sobre fatos e história russa.

Activists in Tatarstan say the law could lead to the complete loss of the ethnic and linguistic identity of indigenous peoples in Russia’s republics.

The open letter says: “New educational standards exclude the learning of native language, history, and national culture. We hope the United States can help us to protect our rights.”

Mais informações sobre o assunto podem ser encontradas aqui e aqui.

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Finalmente, retomando um assunto já discutido por mim algumas vezes neste blog, a questão da independência de West Papua (Papua Ocidental).

O novo líder Indonésio, o re-eleito Susilo Bambag Yudhoyon terá que resolver algumas questões bastante espinhosas em seu novo mandato, uma delas, a questão de Papua Ocidental. O governo indonésio aceita, no máximo, dar mais autonomia - aos moldes do que fez com Aceh, depois de anos de massacres -, porém os nacionalistas não aceitam nada além de total independência através de referendo e, por isso, são constantemente massacrados.

A Anistia Internacional e a HRW denunciam de maneira constante os abusos cometidos contra a população Papua e caberá ao novo governante buscar uma solução dialogada e sem as constantes demonstrações de violência e intolerância.

Sob a desculpa da luta contra guerrilhas nacionalistas, os indonésios massacram a população, proíbem e reprimem toda e qualquer manifestação pacífica e baniram todos os símbolos nacionais papuas. qualquer semelhança com o que acontece no País Basco, Xinjiang e pelo resto do mundo, não é mera coincidência.

Amnesty International and Human Rights Watch (HRW), two of the most prominent international NGO's for human rights, have reported the impunity of the abuses perpetrated by Indonesian security forces. HRW published the report 'Indonesia: Abuses by Special Forces Continue in Papua' recently, in which the NGO requests the government to conduct an independent and impartial investigation into abuses by its elite special forces, Kopassus (Komando Pasukan Khusus). Amnesty International has asked for an explanation on the police shooting in a demonstration at Nabire, Papua.

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sexta-feira, 5 de junho de 2009

Dissolvido o Parlamento de Molvoda


Como era de se esperar, a oposição Liberal e Pró-Romena de Moldova bloqueou pela segunda vez a eleição do candidato do Partido Comunista à presidência (o primeiro bloqueio mostrei aqui) e, com isso, forçou a dissolução do Parlamento recém-eleito.

É um momento de incerteza. Depois dos grandes protestos contra o partido vencedor - mas que acabou não levando o cargo almejado - e do bloqueio resta saber se o Partido Comunista irá conseguir uma vitória esmagadora, o impasse permanecerá ou se a oposição conseguirá triunfar finalmente e derrubar a hegemonia do Parlamento Comunista, que vem desde o fim da URSS e a independência e Moldova.

Para além desta questão fica o grande problema da República autoproclamada da Transdniestria. Os Comunistas são a favor de negociações e uma integração dando certa autonomia à república, já os liberais, se recusam a ceder e exigem uma rápida reintegração.

Moldàvia, abocada a nous comicis pel bloqueig de l’oposició liberal

Els comunistes no poden fer presidenta la seva candidata · Incertesa sobre el futur de les converses de Transnístria

Darrera actualització: 4 de juny de 2009

La República de Moldàvia haurà de celebrar eleccions anticipades, després que el Partit Comunista (PCM) no hagi pogut trencar el bloqueig de l’oposició liberal i hagi estat incapaç de trobar suports per fer escollir presidenta la seva candidata, Zinaida Greceanii. Als comunistes els ha faltat el vot d’un diputat per situar Greceanii com a cap d’estat de la república exsoviètica.

Segons les lleis moldaves, cal que el president obtingui el suport del 60% dels diputats. Greceanii sols ha assolit el vot de 60 dels 101 parlamentaris moldaus, tant en primera votació com en segona. Això aboca el país a repetir les eleccions, que s’havien celebrat el passat abril i que van venir seguides de greus disturbis quan milers de manifestants protestaven per la, segons ells, tupinada electoral que havien comès els comunistes.

Els tres partits liberals de la cambra parlamentària van prometre llavors que bloquejarien l’elecció de la candidata comunista, amenaça que han acabat complint.

La nova situació posa molts dubtes sobre l’escenari de futur de Transnístria, república autoproclamada independent a l’est del territori moldau. El Govern de Moldàvia actual, dirigit pels comunistes, és partidari d’un acostament al règim independentista per arribar, amb l’ajuda de Rússia, a un acord que permeti reintegrar Transnístria a canvi d’una autonomia substancial.

Els partits liberals, però, són menys partidaris de fer concessions als independentistes, i advoquen per una «ràpida» reintegració de la república separatista a Moldàvia. Dels resultats dels propers comicis -que, segons el diari Azi, podrien convocar-se a mitjan agost- pot dependre en gran mesura el caire que prenguin les negociacions amb Transnístria.

Vegeu també:

+ Azi: Vladimir Voronin: There are circumstances leading to dissolution of parliament

+ BBC: New poll in prospect for Moldova

+ Seguiment a MónDivers: L’oposició moldava bloca l’elecció de l’aspirant comunista a la presidència | La Comissió Electoral de Moldàvia confirma la victòria dels comunistes | Moldàvia i Transnístria s’emplacen a continuar negociant un acord

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