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quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Os colunistas "do bem" ou o fascismo que enxergamos

O artigo do Marcelo Coelho na Folha, "fascistas do 'bem'" é ridículo por inteiro, mas esta parte é especial:
"Pelo que diz minha sensibilidade para o assunto, os dois manifestantes não tinham jeito de gays. Talvez, se tivessem, eu não estaria escrevendo este artigo. Não sei.

Tinham, isso sim, as características claras do jovem fascista urbano brasileiro. A voz desarticulada, o espírito do oba-oba cervejeiro, o celular na mão e a ideia pronta na cabeça."
Vejamos se entendi: O fato dos dois rapazes que escracharam o Feliciano serem heteros diminui a força ou a validade de seus atos? O colunista olhou pra cara deles e logo concluiu que são fascistas dando características... ridículas, pra afirmar seu ponto?

Então os escrachos que o Levante Popular fazia contra torturadores da Ditadura era algo fascista? Pois sim, a gênese é a mesma, o método é o mesmo.

Ele ainda se complica ao comparar a atitude legítima e política de escrachar o homofóbico, racista, ladrão, estelionatário (enfim, um bandido) que é o Feliciano com isso:
"Suponha a torcida de um time que acabou de ganhar o campeonato. Encontra, no meio da festa, uns quatro ou cinco adeptos do time derrotado. Não contente com a vitória, a torcida vencedora resolve hostilizar os perdedores. Hostiliza, xinga, cai de pancada em cima dos coitados —para lhes “dar uma lição”."
Em primeiro lugar, não há NADA de errado em um torcedor de time vitorioso provocar o torcedor do derrotado, faz parte e, aliás, é uma das coisas que torna o futebol prazeroso. Outra coisa, óbvio, é a violência. E no caso em tela, em segundo lugar, NÃO HOUVE violência alguma, tão somente provocação justa.

Claro que sequer comparar questão de direitos humanos com futebol dentro destes termos é ridículo, mas vamos em frente.

Em seu raciocínio torto ele continua:
Isso, para mim, é puro fascismo, e não depende de nenhuma orientação ideológica. Trata-se de oprimir, em grupo, o derrotado, o minoritário, o sem defesa.
Ele está errado sob qualquer perspectiva sociológica, mas, mesmo que concordemos com ele e esqueçamos do valor e peso da ideologia, ele continua... errado. E a razão é simples: Feliciano oprime o derrotado, o violentado, o minoritário, o sem defesa.

E digo "derrotado" e "sem defesa" lembrando por exemplo das travestis, violentadas todos os dias sem conseguir defesa, dos gays assassinados e torturados sem poder se defender e derrotados por este governo homofóbico do qual Feliciano não apenas faz parte, como tem trânsito e poder - junto com outros bandidos neopentecostais travestidos de pastores e deputados.

Fascista, pela definição de Marcelo Coelho é sua assumida vítima, Feliciano.

Mas ele deixa o melhor pior pro final:
Há 30 ou 40 anos, é possível que fizessem o mesmo se algum transexual estivesse a bordo. Qual o propósito de hostilizar Feliciano? Puni-lo por ser quem ele é? Em nome de que minorias você se levanta da cadeira do avião e puxa um coro para avacalhar quem quer que seja?
Sim, ele comparou um homofóbico e estelionatário com intenções claras de criminalizar LGBTs e mulheres com... a vítima! É realmente uma façanha.

Feliciano não está sendo "punido" por ser "quem ele é", está sendo "punido" por defender o que ele defende. Por defender o racismo e a homofobia. Minorias, em nome DELAS, se levantam para denunciar - ou "avacalhar, como diz o colunista - o opressor. E continuarão a fazê-lo à despeito da grita de colunistas que nunca souberam o que é ser vítima de preconceito.

Não sei se Marcelo Coelho é gay ou hétero, mas neste artigo ele sem dúvida se coloca ao lado e como um macho, branco, heterossexual de classe média. E isto diz tudo.
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sábado, 28 de abril de 2012

1937-2012 - Nunca esqueceremos de Gernika

Nos 75 anos do bombardeio criminoso da cidade basca de Gernika, só consigo me lembrar da minha visita ao Gernikako Bakearen Museoa (Museu da Paz de Gernika) ano passado.

Em uma pequena sala, reproduzindo uma típica casa basca dos anos 30, ouvimos uma senhora falar sobre seu dia através do sistema de som. Na nossa frente, um espelho, atrás, a reprodução fiel da casa. Acolhedora, simples, típica.

A senhora conta sobre seu dia, sua vida, seu medo pelos dias de guerra, seu temor pela vida de seus filhos, amigos e vizinhos e à medida que conversa conosco, ouvimos sirenes alertando para a aproximação de aviões. Um ataque aéreo é iminente.

Poucos segundos depois ouvimos as bombas, os gritos, o desespero. A sala fica escura, com flashes de luz enquanto os gritos de desespero ecoam. Momentos depois - impossível precisar, aprecia quase uma hora, mas provavelmente forma apenas alguns segundos - enquanto compartilhamos da agonia e desespero sentidos pelos bascos de Gernika naquele dia, ha 75 anos, as luzes começam a voltar, e no espelho na nossa frente, dupla-face, vemos os escombros deixados pelo bombardeio.

O artigo completo pode ser lido na minha coluna "Defenderei a casa de meu pai", no Diário Liberdade.
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sábado, 27 de agosto de 2011

O modelo espanhol de "Democracia"

Pouco ou nada se lê ou ouve na mídia brasileira sobre a tentativa do PSOE, em conjunto com o PP (que são partidos cada vez mais iguais a cada dia que passa), de reformar a constituição espanhola para controlar e limitar o déficit público.

Desta proposta, três absurdos.

Primeiro, o fato das teóricas oposições entre PP e PSOE em um bipartidarismo imposto, estarem pautando todas as discussões em nível estatal. Basicamente o PP e o PSOE podem, sozinhos, controlar todo o Estado Espanhol sem responder a nada nem ninguém. E isto não se trata de "respeitar a vontade popular", pois partidos como a Izquierda Unida são impedidos, por força do modelo eleitoral adotado, de terem uma presença forte no parlamento.

O bipartidarismo espanhol é uma farsa imposta pelos dois maiores partidos para se perpetuar sem percalços e, porque não, para se alternar no poder, mas sem grandes diferenças em termos de políticas públicas. Na verdade, por vezes o PSOE consegue ser muito mais conservador que o PP.

Segundo, e talvez mais gritante, seja o fato desta reforma constitucional não passar pelo crivo popular. Mesmo a fascista constituição atual, que mantém amarradas as nacionalidades minoritárias em um Estado artificial e repressor, foi aprovada pelo voto popular. O caso agora é diferente. Busca-se limitar o espaço de manobra do Estado no uso de recursos públicos através de uma limitação do endividamento - e aqui entramos no terceiro absurdo - que, sabemos, atingirá apenas as camadas populares.

Se hoje a realidade já é de uso de recursos públicos para garantir a sobrevivência dos bancos e do grande capital e apenas o pouco que sobre para ajudar a população a sobreviver (e quando digo pouco, quero dizer migalha mesmo), imaginem com limitação de gastos? Não sobrará nada para a população, apenas para garantir a sobrevida de um modelo canceroso de capitalismo.

Não surpreende que tal reforma passe longe de qualquer consulta popular e, também, que não assuste aos dois grandes partidos qualquer reação negativa. Ambos, PP e PSOE, estão seguros de que não importa quanta insatisfação haja, os eleitores não terão opção para votar, pois o sistema eleitoral apenas os privilegia em detrimento de qualquer outro partido menor (e, em muitos casos, menor apenas pela força da lei eleitoral). Eles sabem que continuarão majoritários e se alternando.
No deja de ser curioso, en todo caso, que Izquierda Unida tenga que depender para conseguir apoyos a su propuesta de referéndum de fuerzas políticas con muchos menos votos pero más escaños por las “peculiaridades” de la Ley Electoral. Tan curioso como que un millón de ciudadanos que votan a un partido tengan dos representantes en el Congreso y los 10 millones que votan a otro tengan 154 representantes, por ejemplo.
Os indignados são um grupo imenso, porém vazio de alternativas eleitorais. Não tem nenhuma proposta para desbancar os dois partidos estatais majoritários ou mesmo para combatê-los. Combatem a tudo e todos, em um movimento interessante, mas ideologicamente falho.

Mas, claro, a reforma não passará por votos porque mesmo tendo a certeza de sua perena alternância, PP e PSOE não podem correr o risco de permitir ao povo votar uma proposta que interessa ao grande capital e é imposta desde instâncias internacionais superiores, e perder. Porque nesta votação a lei eleitoral não entra. Vença quem efetivamente for mais votado e é dificil acreditar que o projeto fosse aprovado pelo povo, indignado ou não.

Enfim, esta é uma reforma que visa limitar o poder do Estado de intervir na economia e na sociedade. É o Estado Mínimo patrocinado por um partido dito de esquerda, dos trabalhadores. Com o apoio feliz e sorridente dos fascistas do PP. À população resta lamentar e, aidna mais, buscar alternativas viáveis a este bipartidarismo forçado e inviável. Os indignados não parecem ser a solução.

Originalmente publicado na coluna "Defenderei a casa de meu pai", no Diário Liberdade.
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domingo, 17 de julho de 2011

Solidão e Nação

Trigésia-sétima coluna para o portal anticapitalista Diário Liberdade, "Defenderei a casa do meu pai".


País Basco: Solidão e Nação

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Alguns de meus leitores devem saber que no começo de junho fui fazer uma visita ao País Basco. Fui coletar material para começar a escrever minha dissertação de mestrado, que trata também de nacionalismo basco e especialmente de questões identitárias. Fui esperando comprovar algumas teorias e aprender, e não imaginei que aprenderia tanto.

Por esta razão a coluna ficou suspensa por tanto tempo. Hoje a retomo, pretendendo torná-la quinzenal.

De início, me deparei com a cidade mais bela que já tinha visto, Bilbao. Primeira impressão talvez contaminada pela minha paixão pela cidade, algo que nunca consegui explicar, um sentimento que me persegue desde o fim da infância.

Caminhar por todo o centro, por Deusto, por toda a Ría que corta a cidade. Tomar uma Estrella Galicia ao lado do Guggenheim com a maravilhosa vista da Universidade de Deusto e caminhar pelas pequenas ruas do Casco Viejo, parando em cada bar para comer um pintxo e saborear um txacoli.
Um povo simpático, sempre tentando ajudar um turista perdido e perdendo alguns minutos para conversar sobre sua terra, sempre com um prazer imenso na voz e a clara satisfação de apresentar uma cidade que adoram.

Fui a Donostia, uma bela cidade, Bermeo, acolhedora e Gernika, uma emoção indescritível: Uma pequena cidade marcada pela guerra que se reergueu e hoje serve de lição para o mundo.
Fui ao País Basco e aprendi muito.

Conheci pessoalmente o professor Pedro Oiarzabal que, espero, venha a ser meu orientador de doutorado futuramente. Trocamos muitas idéias, conversamos sobre projetos...

Devo agradecer - e muito - ao meu amigo Paul Rios, da organização Lokarri, com quem passei um dia inteiro, com quem fiz uma proveitosa viagem a Donostia de carro e com quem pude (e a convite dele) participar de um ato político do Bildu, o partido nacionalista basco por qual eu nutro imensa simpatia.

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Artigo COMPLETO no Diário Liberdade.

"Nire aitaren etxea
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"Defenderei
a casa de meu pai"

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quinta-feira, 2 de junho de 2011

Bildu 313,231 x Espanha 0 e o protesto dos "indignados"

Trigésima-sexta coluna para o portal anticapitalista Diário Liberdade, "Defenderei a casa do meu pai".

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Este é o número de votos que a coalizão nacionalista Bildu conseguiu nas eleições de 22 de maio, perfazendo mais de 22% do eleitorado e se tornando de forma incontestável a segunda força política no país basco e não muito atrás da primeira força, o PNV.

Mesmo assim, Bildu conseguiu o maior numero de eleitos em todo o país basco, chegando ao ponto de ficar em primeiro na eleição da região de Guipuzkoa e em sua capital, Donostia (San Sebastian).

Um feito e tanto para o grupo político que vinha sofrendo constantes processos de ilegalização desde 2003, com o banimento do Batasuna.

[...]


Os Indignados

O sistema político-eleitora espanhol não privilegia os dois principais partidos apenas na contagem dos votos, mas também beneficia o PPSOE com a abstenção e o voto em branco. Os "indignados", ao não votar ou protestar desperdiçando o voto apenas contribuíram para a grande vitória "Popular", ou seja, Franquista.

Não digo que os indignados "fizeram o jogo da direita", isto seria um absurdo, mas a falta de uma plataforma coerente e da busca por opções contra a ascensão do PP contribuíram para a apatia geral em torno do pleito. De fato o PP pouco evoluiu em termos de votos, mas o PSOE teve uma retração gigantesca.

Não diria jamais que os protestos não tenham seu valor, mas unicamente acampar e reclamar da realidade, especialmente durante as eleições, não resolve ou resolverá absolutamente nada. Fingindo que política eleitoral não tem relação alguma com suas vidas apenas contribui para a vitória da pior opção. Como sempre digo, o mais triste para quem diz não gostar de política é que este é governado por quem gosta, ou ao menos por quem entende dela e se vale da apatia para crescer.

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Artigo COMPLETO no Diário Liberdade.

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domingo, 1 de maio de 2011

Alternância de Poder como instrumento de controle burguês

Trigésima quarta coluna  para o portal anticapitalista Diário Liberdade, "Defenderei a casa do meu pai".

Alternância de Poder como instrumento de controle burguês

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Alternância de poder é o nome bonito que a burguesia, a elite, usa para garantir que nenhum governo de Esquerda possa durar mais do que o tempo que esta elite permitir.


Alternância de poder é a forma pela qual a burguesia faz parecer que respeita a democracia, criada por ela, a mesmo tempo em que nada muda. De forma inteligente, transformam a alternância em algo ligado apenas à pessoa, ao indivíduo, mas jamais ao partido ou ao grupo político em si.


A idéia de alternância é corrompida por uma elite interessada em se perpetuar, e ao mesmo tempo, acaba demonstrando uma falha tradicional das esquerdas, que é a insistência em fabricar líderes personalistas e não uma variedade de quadros de renome.


A elite fabrica um número quase infinito de candidatos, investe quanto dinheiro tiver interesse neles e pode trocá-los de tempos em tempos, fazendo parecer que houve alguma alternância, quando, na verdade, mudou a figura teoricamente no poder, mas não a classe por trás, não os que se beneficiaram do governo e muito menos mudou o modelo, a estrutura.


A esquerda, por outro lado, tem a tradição de ter um nome forte, um Chávez, um Morales (até mesmo um Vargas para determinados grupos) que, ao buscarem se re-eleger - pois dificilmente fazem sucessores tão fortes quanto eles - são acusados pelas forças conservadoras de desrespeitar o princípio sagrado da alternância de poder, simplesmente porque seu modelo de governo não corresponde aos anseios da elite.

O fato de "democracia" significar, em termos eleitorais, que quem tem mais votos vence, sempre que o vencedor se opõe, mesmo que minimamente, aos interesses da elite, é tachado de ditador (ou ditatorial).
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Artigo completo no Diário Liberdade.
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sábado, 23 de abril de 2011

Turquia e Espanha, irmãs na repressão

Trigésima-segunda coluna para o portal anticapitalista Diário Liberdade, "Defenderei a casa do meu pai".

Turquia e Espanha, irmãs na repressão

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Poucas pessoas poderiam olhar para países aparentemente tão diferentes - e distantes - como a Espanha e a Turquia e notar o quão semelhante são.

Uma muçulmana, aparentemente laica, outra católica, também aparentemente laica. Mas em ambos os casos fortemente influenciadas por suas tradições e pressões religiosas.

Ambas um caldeirão de nações, algo muito distante da imagem internacional que tentam passar de homogeneidade. Bascos, Catalães, Galegos, Andaluzes, Aragoneses, Asturianos, Leoneses, dentre outros, habitam o Estado Espanhol em clara inferioridade frente aos Castelhanos.

Armênios, Curdos, Circassianos, Assírios, dentre outros, habitam a Turquia e, em mutios casos, são discriminados.

Semelhante à Espanha Franquista, a Turquia dita democrática, governada por um partido muçulmano moderado (em oposição à tradição laica de Ataturk), continua a proibir o ensino e em muito casos, o uso da língua Curda (ou das línguas curdas). A repressão à minoria curda encontra amplo paralelo com a repressão franquista aos bascos e catalães. A diferença crucial, porem, é que a turquia é considerada uma democracia moderna.

A Espanha ainda prende, tortura e mata lutadores bascos, mas ao menos faz esforços para fingir que todos são membros da ETA (o que, segundo eles, deveria legitimar a tortura), criminosos e etc. A Turquia não se preocupa com tais atitudes.

Em 2003 o partido nacionalista basco Batasuna (Unidade) foi ilegalizado pela justiça (sic) espanhola por supostamente ser o braço político da ETA - o que na verdade pouco importa, dado que sempre foi notório ser o Sinn Fein braço do IRA, o que acabou facilitando negociações de paz -, assim como todos os partidos nacionalistas que viriam posteriormente a surgir.

Em 2009 (dezembro), o partido nacionalista curdo DTP (Partido da Sociedade Democrática) foi baindo pela justiça (sic) turca. As acusações eram a de ter conexões com organizações terroristas, ou seja, com o PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão) de Abdullah Öcalan, atualmente na cadeia.

Notem a tremenda e indiscutível semelhança entre os casos. Aliás, já que falamos em Öcalan, tracemos um paralelo com Arnaldo Otegi. Ambos fizeram parte do PKK e ETA respectivamente e embora o primeiro tenha sido preso ainda na liderança do grupo enquanto Otegi já era líder do Batasuna na legalidade e posterior ilegalidade, ambos convergiram para posições críticas ao uso da violência, abrindo o caminho para negociações e para a diminuição de animosidades.

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Artigo COMPLETO no Diário Liberdade.

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domingo, 27 de março de 2011

Sortu: A Espanha não se importa, quer sangue

Vigésima-nona coluna para o portal anticapitalista Diário Liberdade, "Defenderei a casa do meu pai".

Sortu: A Espanha não se importa, quer sangue
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Não importa que os gestores de Sortu sejam pessoas que jamais fizeram parte de qualquer lista ligada ao Batasuna (ou mesmo ao Euskal Herritarrok, Herri Batasuna, AuB, HZ, etc). Não importa que os estatutos do Sortu deixem explícito o rechaço completo à violência. Não importa que milhares de pessoas tenham ido repetidas vezes às ruas exigir que seus direitos democráticos sejam respeitados. Não importam os presos políticos. Não importa a esperança. Não importa a mão estendida.

À Espanha só interessa a humilhação do povo basco. A submissão.

Sortu ilegalizado sem sequer ter a chance de mostrar a que veio. Ilegalização preventiva. Ilegalização com tom de censura, de "cala boca" para mais de 15% do povo basco. Mas uma demonstração simbólica para TODO o povo basco: Quem manda é a Espanha.

Ao PP e ao PSOE, que a cada dia mais se mostram o mesmo partido, interessa a guerra. País falido e a vontade de ir à Líbia, matar o povo alheio. Estado antidemocrático que busca impor sua falta de democracia aos Bascos.
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Artigo COMPLETO no Diário Liberdade.

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domingo, 20 de março de 2011

Sortu é herdeiro do Batasuna?

Vigésima-oitava coluna para o portal anticapitalista Diário Liberdade, "Defenderei a casa do meu pai".

Sortu é herdeiro do Batasuna?
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A resposta para esta pergunta é: Depende. De que tipo de herança falamos?

Se for ideológica, sim, é herdeira, mas uma herdeira que sofreu um profundo processo de evolução. Os mesmos eleitores do Batasuna votarão e depositarão sua confiança no novo partido Sortu. Disso não resta dúvida.

Mas seria herdeira dos meios e métodos? Aí a resposta seria não.

A questão principal para a Espanha - e motivo para dificultar a legalização - é herança política, ou melhor, de ação política enquanto suposto braço da ETA. Aí a resposta para a pergunta inicial seria não.

Mesmo que membros do Batasuna tenham relação com Sortu, mesmo que o eleitorado seja o mesmo e que existam muitas semelhanças programáticas, a evolução que descrevi acima faz toda a diferença.

Quando falo em evolução, falo em um processo de discussão intera em que diversas arestas foram aparadas, em que o partido amadureceu e reviu posições anteriores. É claro que se trata da mais pura ilusão acreditar que houve uma guinada de 180 graus, ou mesmo que membros da ETA não influenciaram no debate, mas a questão transcende estes aspectos.

O partido rechaçou claramente a violência e, se ainda mantém conversas com o núcleo duro da ETA isto não necessariamente se reflete nas práticas políticas adotadas. Do lado estatal é risível a tentativa de fazer com que haja um rechaço completo da história da ETA que, no fim, acaba sendo a história do próprio País Basco!

Explico.
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Artigo COMPLETO no Diário Liberdade.

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sábado, 12 de março de 2011

A Democracia dos poderosos... É a única democracia que existe

Vigésima-sétima coluna para o portal anticapitalista Diário Liberdade, "Defenderei a casa do meu pai".

A Democracia dos poderosos... É a única democracia que existe

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Venho acompanhando o chamado "conflito basco" há anos, não como um observador imparcial, mas como um ativista pró-movimento nacionalista (Abertzale) interessado e que estuda profundamente a situação.

Minha intenção clara é a de, senão influenciar, ao menos de dar uma visão alternativa aos brasileiros e lusófonos em geral do que acontece no País Basco e que a mídia insiste em esconder ou apresentar com viés espanholista.

Para a mídia brasileira a Espanha é uma democracia perfeita que luta contra terroristas assassinos e nacionalistas residuais. A verdade não poderia ser mais diferente. Mas a mídia brasileira, neste caso, não pode ser apenas acusada de má fé, a verdade é que a própria mídia espanhola - a fonte para a mídia brasileira - é constantemente sufocada ( auto-sufocada também) e pouco escapa da verdade.

Tentativas anti-democráticas cotidianamente condenadas pela ONU de censurar e calar a voz nacionalista (que representa a maioria da população Basca e também Catalã) raramente chegam até a mídia internacional e mesmo pouco tem de relevância na mídia espanhola.

Na Espanha, a lei serve apenas para uns poucos. Ela não privilegia a sociedade ou garante a todos o acesso, por exemplo, a um lugar no parlamento. Na Espanha as forças políticas que podem existir são apenas aquelas que os partidos majoritários permitem e não aquelas que representam os legítimos anseios da população.


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Artigo COMPLETO no Diário Liberdade.

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sábado, 5 de março de 2011

Condenar a violência ou condenar a história?

Vigésima-sexta coluna para o portal anticapitalista Diário Liberdade, "Defenderei a casa do meu pai".

Condenar a violência ou condenar a história?

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A cada dia tenho mais certeza de que para a Esquerda Nacionalista (Abertzale) se tornar uma opção legal (e não real, pois isto já é) será preciso descaracterizá-la ao ponto de torná-la inócua.

Nada melhor para neutralizar um grupo do que apagar seu passado, do que obrigar ao repúdio deste passado. Cabem muitas verdades na história, mas mesmo as interpretações me parecem ter limites. Coisas como a decisão recente do Papa de retirar a culpa pela morte de Jesus dos judeus se encaixa como um clássico caso de falseamento da história.

Jesus era judeu e foi entregue/morto pelos judeus junto com os romanos. Pilatos lavou as mãos e a sentença foi decidida pelos judeus. Sim, trata-se de política, de falsear a história para conseguir se relacionar melhor com os judeus no presente, mas, ainda assim, é uma mentira.

Mentira que, se passar aos livros de história, se tornará uma verdade em poucos anos e aqueles fiéis à história serão considerados conspiradores e desviantes.

Pois bem, à Espanha não interessa a verdade. Fossas comuns com corpos de vítimas de Franco continuam fechadas, corpos continuam sem identificação, famílias continuam sem identificar e enterrar seus parentes e não há ou haverá qualquer punição. Preza-se pela mentira ou pelo esquecimento. Lembremo-nos que o PP jamais repudiou efetivamente a violência franquista e costuma se opor ativamente À retirada de símbolos franquistas das cidades espanholas, bascas, catalãs ou galegas.

O PP não abriu mão de seu passado fascista, mas, junto ao PSOE querem forçar a esquerda nacionalista a abrir mão de seu passado. Mas, ao contrário do passado fascista do PP, os Abertzales tem um passado glorioso e heróico, de gudaris valentes que defenderam acima de tudo sua pátria.


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segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Censura Enquanto Politicamente Correto

Vigésima-quinta coluna para o portal anticapitalista Diário Liberdade, "Defenderei a casa do meu pai".

Censura Enquanto Politicamente Correto

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A censura por termos é sempre burra.

E o usuário pode aprender a driblá-la.

Também existe muito spam que circula em nome de causas humanistas - entendo a preocupação dos caras em tentar filtrar isso.

Sob a bandeira da "proteção do usuário", muitas comunidades sociais - Orkut, Facebook, Twitter, etc - proíbem o uso de um ou outro termo a partir de uma suposta inteligência coletiva, ou seja, através das denúncias dos usuários da rede e da coleta de dados baseadas em palavras-chave.

O Google, aliás, através de sua noção de "relevância", por vezes é vítima (ou nós é que somos?) das chamadas "google bombs", uma falha facilmente verificável no sistema da empresa que deixa supostamente nas mãos dos usuários a escolha dos melhores e mais importantes termos pesquisados (ou pesquisáveis). Obviamente nunca saberemos também quais termos são mero reflexo de sua relevância e quais são discretamente patrocinados, mas isto não vem ao caso.

Ha alguns dias, por exemplo, meu blog saiu do ar por cerca de duas horas. Ainda não entendi o que aconteceu, mas suspeito que meu blog possa ter sido denunciado ao Google - ainda que não descarte a possibilidade de ataque hacker - e, então suspenso. Logo reverti o problema, mas casos de censura contra blogs do blogspot não são raros. Basta que um bom número de pessoas denuncie o blog e a tal "inteligência coletiva" acaba por servir como instrumento de censura. Nada mais que política barata.

O que dizer de outros casos de censura, como contra a página do WikiLeaks ou da Greve de 29 de Setembro?
A página "29 de setembro: Promoveremos a greve geral do primeiro mundo" foi removido juntamente com os links em outros sites, grupos e perfis com as suas observações, sem deixar vestígios. O motivo fornecido pelos fabricantes do Facebook foi: "O grupo leva à violência e não respeitar as regras do Facebook." O que está claro é que esta página muitas pessoas desconfortáveis. A boa notícia é que esse ataque à liberdade de expressão é uma afirmação sobre a idéia que defendeu o site é totalmente correta, por isso nem sequer ter tido conhecimento e tentaram silenciá-la.

As acusações são simplesmente lastimáveis. Contra a Greve, a de que esta levaria à violência. Qual? Violência é o que sofrem os trabalhadores, explorados pelo patrão. Violência é a exploração da massa trabalhadora e não o movimento para se impor contra o capitalismo selvagem.


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Artigo COMPLETO no Diário Liberdade.

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domingo, 20 de fevereiro de 2011

Comentários sobre o anúncio do novo partido da Esquerda Abertzale

Vigésima-quarta coluna para o portal anticapitalista Diário Liberdade, "Defenderei a casa do meu pai".

Comentários sobre o anúncio do novo partido da Esquerda Abertzale
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Se podemos tirar algo da apresentação da nova formação política da Esquerda Nacionalista Basca é a de que o partido rechaça a violência. E de forma veemente. Tão veemente que chega a ser exagerado, repetitivo.

Sim, nada mais é que exigência - tosca - do Estado Espanhol, da famigerada Ley de Partidos e do Tribunal Supremo (espécie de STF espanhol, com direito até a seu Gilmar Mendes).
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Foi impressionante, durante a fala do advogado Iñigo Iruin, a quantidade de vezes que a palavra "Violência" e "Rechaço" apareceram. Ainda houve espaço para reconhecer as vítimas e rechaçar toda e qualquer violência, em especial a da ETA. Porém, senti enorme falta de uma condenação explícita ao governo Espanhol, que não me pareceu totalmente coberta pela declaração de que se exige a reparação para TODAS as vítimas.
La izquierda abertzale ha adoptado el "compromiso firme e indudable de apuesta por las vías exclusivamente políticas y democráticas, sin marcha atrás", según ha anunciado Rufi Etxeberria en la presentación de los estatutos de la nueva formación política que se registrará en los próximos días. Ha subrayado que "rechaza y se opone al uso de la violencia o la amenaza de su utilización para la consecución de ojetivos políticos, incluyendo la violencia de ETA si la hubiera en cualquiera de sus manifestaciones".
De certa maneira me impressiona que a ETA tenha talvez aceitado apoiar este estatuto partidário tão frontalmente agressivo ao grupo. Sim, o vejo como positivo, mas ainda assim exagerado e com um tom que está níveis acima daquele comumente adotado pelo Batasuna e seu entorno.

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Artigo COMPLETO no Diário Liberdade.

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domingo, 30 de janeiro de 2011

Estados legítimos e ilegítimos - Coluna semanal no Diário Liberdade

Vigésima-primeira coluna para o portal anticapitalista Diário Liberdade, "Defenderei a casa do meu pai".

Estados legítimos e ilegítimos

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Segundo Guibernau (1997), existem dois tipos de Estado: Os "Legítimos" e os "Ilegítimos". O primeiro caso é o de Estados onde inexiste o conflito étnico ou nacional dentro de suas fronteiras, é o Estado-Nação perfeito, em que os diversos membros que compõem o Estado se reconhecem como parte de uma mesma nação.
O segundo caso é onde há conflito, e é o caso de boa parte dos países europeus, fundados sob a égide de um Estado para uma nação quando, na verdade, houve uma tentativa de assimilação das culturas minoritárias através da assimilação violenta ou não destas minorias.

"A rotulação das minorias como terroristas pode intensificar o conflito comunitário [...]. O rótulo de terrorista dado a movimentos revolucionários arrisca também minimizar sua importância" (Whittaker, 2005)

A Espanha é um bom exemplo de assimilação violenta, em que as nações históricas da Catalunya, Galiza e País Basco foram constantemente vítimas de violência, invasões, censura e humilhações por parte do governo central de Madrid.

Estados como a Espanha e França tentaram impor seus mitos fundacionais a todas as demais minorias não-francesas ou não-espanholas, e em ambos os casos os fracassos e sucessos podem ser contabilizados.

A França foi a mais bem sucedida, conseguindo sufocar boa parte das minorias (ainda que venha enfrentando o ressurgimento ou surgimento de nacionalismos periféricos na Bretanha, Córsega, Catalunha Norte e País Basco Norte ou Iparralde e, em algumas dessas regiões, com a presença de grupos considerados terroristas), mas a Espanha falhou miseravelmente na tentativa de apagar a história de suas minorias e há séculos enfrenta resistências.

Ao contrário da França, onde boa parte dos seus territórios foram conquistados com base na força, a Espanha se constituiu com base em casamentos dinásticos (salvo a Catalunya, conquistada a ferro e fogo no séc. XVII) e, ao contrário de seu vizinho do norte, não conseguiu implantar um sistema educacional e de transportes tão eficaz e à tempo de neutralizar as movimentações de suas minorias.

Benedict Anderson (2005) afirma serem três as bases do Estado Moderno, nascido da Revolução Francesa: A Educação, as Comunicações e o Exército. E, em todos os casos, a Espanha falhou em impor sua centralidade.


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domingo, 23 de janeiro de 2011

ETA e o Processo de Discussão Interno – Parte 2 - Coluna semanal no Diário Liberdade

Vigésima coluna para o portal anticapitalista Diário Liberdade, "Defenderei a casa do meu pai".

ETA e o Processo de Discussão Interno – Parte 2

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Enquanto a ETA(m) buscará atentar cada vez mais contra alvos militares e mesmo civis, a ETA(pm) passará a se concentrar na ação política, ainda que não abandone totalmente a luta armada. Exemplo da atividade armada de ambos os grupos até pelo menos o fim do regime Franquista está no fato de que os dois últimos etarras mortos pelo regime foram Txiki e Otaegi, o primeiro do ramo político-militar e o segundo do ramo militar da ETA.

É importante recordar que a diferença entre o ramo ou ramos "obreiristas" que surgiam ao longo do tempo no seio da organização e o ramo "terceiromundista" não estava necessariamente no posicionamento ideológico Marxista-Leinistas (e mesmo Maoísta), mas na concepção organizativa da luta. Enquanto o primeiro grupo defendia uma única estrutura de comando tanto para a luta armada quanto para a luta puramente política, o segundo defendia uma separação completa das estruturas.

Em certo momento a divisão entre os dois ramos da ETA se confunde, pois tanto os militares quanto os político-militares acabam por formar braços políticos mais ou menos infiltrados pelos membros clandestinos e também era comum a migração de membros de uma para a outra ala da ETA: EHAS e posteriormente HASI como braços dos militares e que posteriormente formariam o Herri Batasuna e o EIA, depois Euskadiko Ezkerra (EE, coalizão do EIA com o EMK, ex-ETA Berri e outros) como braço dos polimilis, depois integrados no braço basco do PSOE (PSE-EE).

ETA(pm) - EIA (76) e EE (77 como coalizão com frações do HASI, EMK e ANV e 81 como partido). EE enfim se funde com o braço basco do PSOE.

ETA(m) - HASI (77, numa união com o partido EHAS) e HB (78, com HASI, ANV, LAIA e ESB, além de demais organizações que fazem parte da KAS)

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domingo, 16 de janeiro de 2011

ETA e o Processo de Discussão Interno – Parte 1 - Coluna semanal no Diário Liberdade


Décima-nona coluna para o portal anticapitalista Diário Liberdade, "Defenderei a casa do meu pai".

ETA e o Processo de Discussão Interno – Parte 1

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Todo este processo de abandono de um conservadorismo e clericalismo originários da juventude do PNV (onde se gestou a ETA), não veio sem percalços.1
Já em 1964, na IV Assembléia do grupo, três correntes internas se formaram:
  • Corrente "Culturalista" ou "Etnolinguista", liderada por Txillardegui e defensores de uma ETA mais ligada aos movimentos culturais bascos;
  • Corrente "Obrerista", defensora de uma aproximação maior com os movimentos operários e até mesmo uma aliança com movimentos comunistas espanhóis na luta contra Franco;
  • Corrente "Terceiromundista", defensora do estabelecimento de vínculos com as lutas de libertação nacional que aconteciam no terceiro mundo;
Esta divisão que surge já em 1964 termina por estourar em 1966-1967, na V Assembléia da ETA o ramo "obreirista" se divide em outros três grupos: ETA Berri (Nova ETA, que posteriormente sai da clandestinidade com a formação do partido político EMK), ETA Zaharra (Velha ETA) e o grupo Branka. Os dois últimos, representando respectivamente os "Terceiromundistas" e os "Culturalistas" permanecem na ETA.

Em 1970 se celebra a VI Assembleia e, novamente, a ETA se divide, desta vez em ETA-V Askatasuna ala hil (Liberdade ou morte) e ETA-VI Iraultza ala hil (Revolução ou morte), novamente opondo os setores mais próximos da ideia de guerrilha e luta armada e os "obreiristas", mais próximos de uma aliança com os setores revolucionários bascos e espanhóis.

Os membros da ETA-V, partidários do ideário da V Assembleia e que recusavam diminuir ou acabar com a luta armada, como proposto pelos membros da ETA-VI, tomaram o poder da organização após a entrada de novos membros vindos, mais uma vez, das juventudes do PNV, enquanto que a ETA-VI se dividiu em dois ramos que se integraram na Liga Comunista Revolucionária (setor majoritário) e na Organização Revolucionária dos Trabalhadores (seção do PCE). Outros acabaram por retornar à ETA.

Em 1973-74 uma nova assembleia é organizada, novamente com o nome de VI Assembleia (os que mantiveram o nome de ETA não reconheciam a assembleia anterior) e nesta se produz o racha mais importante da organização, em que se forma a ETA(pm) e a ETA(m), respectivamente ETA Político-Militar e ETA Militar.
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sábado, 8 de janeiro de 2011

ETA, MLNV e Resolução 1514 - Coluna semanal no Diário Liberdade

Depois de uma breve pausa durante parte do mês de dezembro, retomo com minha coluna semanal no Diário Liberdade.

Décima-oitava coluna para o portal anticapitalista Diário Liberdade, "Defenderei a casa do meu pai".

ETA, MLNV e Resolução 1514

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Não se pode esquecer da resolução 1514 de 14 dezembro de 1960, aprovada pela Assembléia Geral das Nações Unidas que declarava como legítima a luta pela libertação nacional, reconhecendo o direito de povos oprimidos à autodeterminação como um direito inalienável.
1. The subjection of peoples to alien subjugation, domination and exploitation constitutes a denial of fundamental human rights, is contrary to the Charter of the United Nations and is an impediment to the promotion of world peace and co-operation.
2. All peoples have the right to self-determination; by virtue of that right they freely determine their political status and freely pursue their economic, social and cultural development.
3. Inadequacy of political, economic, social or educational preparedness should never serve as a pretext for delaying independence.
4. All armed action or repressive measures of all kinds directed against dependent peoples shall cease in order to enable them to exercise peacefully and freely their right to complete independence, and the integrity of their national territory shall be respected.
5. Immediate steps shall be taken, in Trust and Non-Self-Governing Territories or all other territories which have not yet attained independence, to transfer all powers to the peoples of those territories, without any conditions or reservations, in accordance with their freely expressed will and desire, without any distinction as to race, creed or colour, in order to enable them to enjoy complete independence and freedom.
6. Any attempt aimed at the partial or total disruption of the national unity and the territorial integrity of a country is incompatible with the purposes and principles of the Charter of the United Nations.
7. All States shall observe faithfully and strictly the provisions of the Charter of the United Nations, the Universal Declaration of Human Rights and the present Declaration on the basis of equality, non- interference in the internal affairs of all States, and respect for the sovereign rights of all peoples and their territorial integrity.
Esta resolução, aprovada em meio às guerras de libertação dos países da África e da Ásia serve também como base para a luta de libertação do povo Basco e de outros povos.

Espanha e França claramente se colocam em desacordo com os pontos elencados na dita resolução, ao dividirem uma nação (País Basco Espanhol ou Hegoalde e Navarra ou Nafarroa e País Basco Francês ou Iparralde), ao usarem métodos de repressão contra os anseios nacionais da população basca, como a tortura, prisões arbitrárias e políticas, incomunicação, etc. Além de, obviamente, barrarem o legítimo direito à autodeterminação dos povos.

A ETA, já nos anos 60, tendo como inspiração o maio de 68 e as organizações que nasciam deste caldeirão ideológico (Mata, 2003), adotava o Marxismo-Leninismo e em 1974, junto com outras forças nacionalistas de esquerda, se agrupava no chamado MLNV, ou Movimento de Libertação Nacional Basca (Bullain, online, 2007).

Movimento (MLNV) cuja ETA era o braço armado e tinha no Herri Batasuna (posteriormente Euskal Herritarrok e hoje Batasuna) seu braço político, além de outras organizações e estruturas satélites atuando em diversas áreas da sociedade, como a Koordinadora Abertzale Sozialista (KAS), o Ekin, a Askapena e etc.

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sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

A "Temporalidade" do Terrorismo - Coluna semanal no Diário Liberdade

Décima-sétima coluna para o portal anticapitalista Diário Liberdade, "Defenderei a casa do meu pai".

A "Temporalidade" do Terrorismo

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Vista do lado dos povos agredidos, esta agressão e pi­lhagem do campo imperialista surge em toda a sua bes­tialidade, como uma ameaça à sua própria sobrevi­vência. Para eles, as novas guerras coloniais do século XXI são uma nova fase, ampliada, das velhas invasões co­loniais. Ampliada por um potencial destrutivo e por uma capacidade de estrangulamento económico cem vezes maior que no passado.
A guerrilha, o chamado "terrorismo", reacção ao ter­ror quotidiano sofrido pelas populações agredidas, é a resposta que está ao alcance das vítimas: fustigar o ocu­pante, mesmo à custa de terríveis sacrifícios huma­nos, até acabar por tornar a ocupação insustentável ou demasiado cara e forçá-lo à retirada. É o que se de­senha já no Iraque, é o que virá a seguir no Afega­nistão. (Francisco Martins Rodrigues, online, 2010)


É interessante observar, ao longo do tempo, quais grupos, ou mesmo Estados, foram em determinada época considerados terroristas e deixaram de sê-lo, ou mesmo quando grupos passaram a ser assim chamados apenas quando deixaram de ser politicamente interessantes aos que dão as cartas no cenário internacional. Outro caso também digno de nota é o daqueles grupos que encontram ainda ampla legitimidade e não são unanimemente condenados.


O primeiro caso pode ser ilustrado magistralmente pelos grupos de libertação nacional (queira eles efetivamente se encaixem na definição ou não), como a FLN ou os grupos que lutaram pela criação de Israel (que não se encaixam na definição de libertação nacional, mas são assim considerados por seus aliados). 

São grupos que foram em determinada época considerados terroristas por parte ou pela totalidade dos atores internacionais presentes nas Nações Unidas e que, ao chegarem ao poder, foram posteriormente retirados da lista e aceitos como membros efetivos do cenário internacional, em pé de igualdade com os demais Estados.

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domingo, 28 de novembro de 2010

ETA: Libertação Nacional, Nacionalismo e Marxismo - Coluna semanal no Diário Liberdade

Décima-sexta coluna para o portal anticapitalista Diário Liberdade, "Defenderei a casa do meu pai".

ETA: Libertação Nacional, Nacionalismo e Marxismo 

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Válido notar o paradoxo dos Marxistas, nas palavras de François-Xavier Guerra (in Lessa e Suppo, 2003), considerarem "as questões nacionais como secundárias em relação aos problemas sociais e econômicos", mas serem estes mesmos Marxistas os responsáveis por travarem as mais encarniçadas lutas de Libertação Nacional e também de formarem os grupos chamados de terroristas de maior longevidade e relevância histórica (ETA, IRA, FPLP, etc).

Se por um lado boa parte dos teóricos Marxistas ou que vieram desta escola negligenciaram o estudo do fenômeno do nacionalismo por décadas, por outro lado diversos grupos de orientação marxistas mostravam, na prática, o amálgama ideológico produzido entre o internacionalismo e o nacionalismo militante.

Para estes marxistas, a luta contra o capitalismo passava, antes, pela emancipação nacional e o internacionalismo se baseava não na superação de fronteiras, mas na solidariedade transfronteiriça, com amplo respeito pelas particularidades de cada movimento em seu locus particular.

Coexistem duas teorias principais nas escolas que estudam o nacionalismo, de um lado aqueles, como Hobsbawm (2006), que defendem a teoria da invenção das tradições (e nações) de acordo com interesses e de outro os que supõem as nações como "coletivos definidos etnicamente, com existência objetiva, que precedem o nacionalismo" (Seixas, 2004)
Aquí partimos conscientemente del supuesto teórico de que el nacionalismo como ideología política y como movimiento social precede y construye la nación, y adoptamos en consecuencia un enfoque modernista o constructivista, más o menos matizado, según el cual una nación es una comunidad imaginada, inherentemente soberana y definida territorialmente, integrada por un colectivo de individuos que se sienten vinculados entre sí en función de factores muy variables y dependientes de la coyuntura concreta (desde la voluntad a la territorialidad o la historia común y al conjunto de características étnico-culturales más o menos objetivables que podemos denominar etnicidad, es decir, que definen una consciencia social y prepolítica de la diferencia) y que, sobre todo, consideran que este colectivo es el sujeto de derechos políticos comunes y, en consecuencia, soberano. (Seixas, 2004)
Com os processos de descolonização na África e Ásia, a idéia de Libertação Nacional tornou-se a agenda preferencial dos grupos de orientação marxista que viam as contradições de um modelo colonialista, de um meio de produção baseado na exploração de colônias para a sustentação das benesses dos capitalistas da metrópole, uma oportunidade para forçar mudanças e "praticar" a solidariedade internacionalista.
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quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Terrorismo: Definições - Coluna Semanal no Diário Liberdade

Décima-quinta coluna para o portal anticapitalista Diário Liberdade, "Defenderei a casa do meu pai".

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O termo e a idéia nascem durante a Revolução Francesa, época do "Terror", e apenas depois recebeu a conotação que tem hoje, com definições que vão desde a idéia de Brian Jenkins (1) passando pelo FBI(2) até a definição de Walter Laqueur(3). (n. Whittaker, 2005).

É interessante notar que, apesar de parecidas, as definições são extremamente diferentes e em alguns pontos chegam a ser contraditórias.
Vale acrescentar a definição do Departamento de Estado dos EUA:
 "Violência premeditada e politicamente motivada perpetrada contra alvos não-combatentes por grupos subnacionais ou agentes clandestinos, normalmente com a intenção de influenciar uma audiência".
Jenkins (in Whittaker , 2005) considera QUALQUER uso de força ou ameaça do uso deste instrumento como "terrorismo". Apenas por esta definição podemos considerar até a guerra como terrorismo, assim como a guerrilha ou qualquer tipo de ação armada.

Já o FBI fala em lei, obviamente a lei aplicada pelo Estado, qualquer movimento subnacional, logo, ilegal, se enquadra como Terrorismo. Seria engraçado, senão lamentável, notar que os EUA são o país que mais usam ilegalmente sua força em ataques ilegais (basta recordar a invasão do Iraque, ilegal segundo a ONU), e que mais apóiam governos genocidas, grupos e bandos armados, subnacionais que aterrorizam e matam populações.

A idéia de "legalidade" do FBI concorda com a adotada pelo Departamento de Estado que vai além e explicita a idéia de legitimidade da força menos quando se tratando de grupos subnacionais e "agentes clandestinos".

Em ambos os casos, os EUA deixam as portas abertas para o uso da violência Estatal, o Terrorismo Estatal não é citado de qualquer maneira e, nos parece, é legitimado, em especial pelo Departamento de Estado que cita explicitamente duas categorias, excluindo o Estado de responsabilidade ou imputabilidade.

A outra definição usada, a de Laqueur (in Whittaker, 2005) passa da questão legal para a "legitimidade", conceito muito mais abrangente e de melhor aplicabilidade. Cabe analisar a legitimidade do uso desta força pelos Estados ou por grupos. Qual o objetivo, quais as intenções?
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